condições do nosso territorio nos dão um genero de destino differente,
mas encaminhado a um mesmo fim. As navegações e descobertas são a nossa
gloria e a nossa maior façanha. Mareando a interrogar as mudas ondas,
construimos; conquistando, derrocámos. Navegadores e não conquistadores,
desvendámos todos os segredos dos Oceanos; mas o nosso imperio no
Oriente foi um desastre, para o Oriente e para nós. A bordo fomos tudo;
em terra apenas podémos demonstrar o heroismo do nosso caracter e a
incapacidade do nosso dominio. Façanhas de homens que dirigem instinctos
devotos e pensamentos de cubiça, eis ahi o que nós veremos ser o nosso
imperio oriental. Epopêa do espirito indagador, audaz e paciente, as
nossas navegações, as nossas explorações colonisadoras, tornam-nos os
genios d'esse elemento mysterioso, para o qual, porventura, a nossa alma
celtica nos attrahia. Quando á Europa humilhada o castelhano impõe a lei
com a espada e o mosquete, nós, amarrados ao banco dos remeiros,
segurando o leme, ferrando as velas, alargamos mar em fóra a nau, com o
olhar perscrutador fixado nos astros que nos guiam. Vamos de manso, ao
longo das costas... Ninguem nos vê: só as ondas ouvem as melopêas
monotonas dos marinheiros, cujo rithmo obedece ao rithmo do quebrar da
vaga contra o costado.--Elles vão, emplumados e vestidos de aço,
arrogantes e cheios de imperio, com o seu grito stridente e tragico,
ensurdecer e estontear o mundo! Ninguem diria dois povos irmãos; e
são-no, porque ambos obedecem a um motivo identico, a um pensamento
egual, que está no fundo da sua alma inconsciente, como a chamma que
arde no cerne da Terra, dando origem a rochas tão diversas no aspecto,
na côr, na rigeza, na structura, no merito.
Portugal é um amphitheatro levantado em frente do Atlantico que é uma
arena. A vastidão do circo desafia e provoca tentações nos espectadores,
arrastando-os afinal á laboriosa empreza das navegações, que era para
elles um destino desde que a politica os destacára do corpo da Peninsula.
* * * * *
Quando se percorre de norte a sul a estreita facha da nação occidental
da Hespanha, encontram-se os successivos prolongamentos das cordilheiras
peninsulares, galgando uns até ao mar, terminando outros mais distante
da costa. Entre elles abrem-se as bacias ou estuarios de rios parallelos
que podem dividir-se em dois systemas: o do norte e o do sul,
delimitados pela cordilheira da Estrella-Aire-Montejunto-Cintra.
No systema do norte, o Douro é a arteria central d'uma região montuosa,
coroada nos limites setentrionaes e austraes pelas duas cordilheiras
culminantes da Galliza e da Beira. De uma e de outra, como socalcos ou
degraus successivos d'essa platéa de montanhas que se fecha áquem da
fronteira portugueza, descem outras serras, entre cujas depressões se
precipitam os rios nacionaes do norte: o Minho, que delimita a Galliza,
o Lima, o Cávado e o Ave, ao norte do Douro, e ao sul o Vouga e o
Mondego. As serras de entre Minho e Lima são as do Suajo; as de entre
Lima e Douro, as do Gerez e do Marão, separadas pelo Tamega, confluente
d'este ultimo; as d'entre Douro e Vouga, Montemuro; as d'entre Vouga e
Mondego, Caramullo.
No sul, as bahias do Tejo e Sado, divididas pela peninsula da Arrabida,
constituem o centro de um systema de caudaes irradiantes que cortam a
zona mais plana, limitada de um lado pela serra da Estrella, do opposto
pela do Algarve. Ao norte, na raiz austral da primeira, corre o Tejo,
desinternando-se de Castella; destacando-se d'este, para sueste, o
Sorraia, em plena planicie; e, mais pronunciadamente para o sul, o Sado,
que vae nascer no pendor norte das montanhas algarvias.
Se a metade norte de Portugal é fechada a leste por um systema de
contrafortes avançados dos Pyreneus cantabricos, a metade sul, theatro
das guerras castello-portuguezas, contradiz de um modo incontestavel a
opinião dos que vêem na orographia a base necessaria da delimitação das
fronteiras nacionaes.
A começar do sul, o Guadiana fende a cordilheira andaluza penetrando no
interior da Peninsula. Curvando a sua orientação em Badajoz, o Guadiana,
depois de ter regado os nossos terrenos raianos, toma uma direcção leste
atravez das largas campinas da Estremadura hespanhola que os tratados
apenas dividiram do nosso Alemtejo. N'esta metade austral da nossa
fronteira de leste, as planicies e as aguas do rio que as rega mudam de
nação sem mudarem de natureza; e outro tanto succede aos contrafortes
avançados que reunem n'um mesmo promontorio as serras de Guadalupe e a
Morena, e onde em Portugal assentam Portalegre ao norte, Evora ao sul.
No troço de fronteira ao norte d'esta como que garra lançada pela
ossatura da Hespanha no Portugal alemtejano, corre, primeiro, o amplo
valle em cujo centro deslisa o Tejo, prolongando-se com elle,
Estremadura em fóra, até Toledo; e seguem, depois, as cumiadas da
Guardunha que dividem o Tejo do Zezere, apertando este rio contra a
serra da Estrella.
O pendor austral das serras do Algarve e a facha ou tapete de jardins
sobre que pousa a sua base o throno d'esses montes, formam uma ultima e
como que excepcional provincia geographica, vedeta sobre o continente
fronteiro, cujo clima e producções partilha.
* * * * *
Geognosticamente, o territorio portuguez póde dividir-se em tres regiões
principaes: a das rochas igneas e paleozoicas, a dos terrenos
secundarios, e a dos terrenos terciarios.
Tracemos uma linha que, partindo de Aveiro para norte, ao longo da
costa, se dobre para nascente acompanhando a fronteira marginal do
Minho. D'ahi extende-se por toda a raia de leste até ás serras do
Algarve, baixando-a em direcção poente, para a prolongar com a costa até
Sines. Depois, interne-se a contornar a bacia do Sado, por Grandola,
Cercal, Panoias, Aljustrel, Ferreira, Torrão até Vendas-Novas; em
seguida a do Sorraia, por Lavre, Mora, Ponte-de-Sôr, caíndo sobre o Tejo
em Abrantes, e caminhando para norte por Thomar, Alvaiazere, Anadia--e
ter-se-ha encerrado em Aveiro um perimetro que abrange cerca de tres
quartas partes da superficie total da nação. É a região dos terrenos
primitivos.
A dos terrenos secundarios compõe-se de dois retalhos isolados. O
primeiro extende-se ao longo da margem direita do Tejo, desde Lisboa até
á Barquinha; entestando d'ahi até Aveiro com a linha anteriormente
traçada, e vindo ao longo da costa, a descer para o sul, circumscrever a
serra de Cintra, chegando outra vez a Lisboa. O segundo é constituido
pelo litoral do Algarve, no pendor sul das serras, até ao mar.
A terceira região, finalmente, a dos terrenos terciarios, desce pela
costa, desde a ponta do Bogio, ao sul do Tejo, até Sines, alargando-se
pelas duas zonas divergentes dos valles do Sado e do Sorraia,
contornados pela linha determinada antes ao delimitar a raia da primeira
região.
Esta ultima é, como se viu, a mais extensa e importante. Abrange as duas
provincias ao norte do Douro, a quasi totalidade das duas Beiras e do
Alemtejo, e boa metade do Algarve. A Estremadura quasi por si só compõe
as duas segundas regiões--uma ao norte, outra ao sul do Tejo[24].
Na do norte predominam os terrenos cretaceos e jurassicos, formando
tambem estes ultimos a quasi totalidade do retalho algarvio da segunda
região. Uma pequena mancha de granitos em Cintra, os basaltos dos
arredores de Lisboa, e as dunas da costa, desde a Marinha-grande até
Aveiro, são os phenomenos esporadicos da geognosia d'esta parte de
Portugal.
Na região do sul do Tejo apenas a Arrabida e S. Thiago de Cacem
apresentam breves nodoas de terrenos jurassicos; e estes, os terrenos
modernos formados pelas alluviões do Tejo e Sado e que lhes bordam as
margens, e os areaes da costa entre o Bogio e o cabo de Espichel, são as
unicas excepções do vasto lençol da região dos terrenos terciarios.
Na primeira e mais extensa das zonas geognosticas de Portugal tambem o
Tejo póde dar lugar a uma divisão em duas sub-regiões differentemente
caracterisadas. Tomadas ambas como um todo, os terrenos, schistosos
quanto á structura, e primarios ou paleozoicos quanto á edade,
predominam em massa, envolvendo as rochas eruptivas ou igneas. Porém ao
norte do Tejo o volume d'estas rochas, exclusivamente graniticas, é
proximamente egual á dos schistos; ao passo que ao sul, além d'estes
ultimos predominarem, apparecem não só granitos mas porphyros e
diorites.
Entre Castello-de-Vide, Portalegre, Niza e o Crato, inscreve-se acaso o
maior e mais compacto affloramento de granitos ao sul do Tejo. Depois
d'este vem o de Evora, bracejando de um modo irregular, para norte até
Vimeiro, para nordeste até Lavre, e no lado opposto até Vianna, Aguiar e
S. Manços. Afinal, as pequenas nodoas de Galveas, de Santa Eulalia, de
Freia, de Reguengos, da Vidigueira, e de Valle-Vargo a nascente de
Serpa, completam o systema de affloramentos graniticos da sub-região do
sul do Tejo. Os porphyros e diorites constituem um longo dorso que vem
de sueste a nordeste, desde Serpa, por Beja, Alvito, Torrão, Alcaçovas,
terminar junto de Cabrella, quasi na raia da região terciaria. Além
d'esta formação principal, encontram-se destacadas as manchas sporadicas
de Alter, de Bonnavilla, de Monforte, e as duas mais consideraveis de
Campo-maior e de Elvas, proximo da fronteira.
Ao norte do Tejo as condições variam. A massa de rochas eruptivas
predomina sobre a dos schistos. Depois do macisso schistoso da
Guardunha, entre Castello-Branco e o Fundão, transposto o valle do
Zezere, encontra-se a base alastrada da serra da Estrella, e afinal os
alicerces de Monte-muro. Os granitos vêem desde a fronteira, entre
Alfaiates e a Barca d'Alva, pela Covilhan e Taboa ao sul, por Vizeu a
poente, entestar no Douro, cuja margem esquerda sobe até á raia de Leão.
Pequenas são as nodoas schistosas na área circumscripta: S.
João-da-Pesqueira e Villa-nova-da-Foscoa, na margem do Douro:
Villa-da-Egreja ás origens do Vouga; Pinhel e Valhelhas no pendor sul da
serra da Estrella.
Porém as abas occidentaes das serras da Guardunha, da Estrella e do
Montemuro, ladeadas ao sul pelo Tejo, formam duas vastas zonas de
terrenos paleozoicos, uma cortada pelo Zezere, outra pelo Mondego e pelo
Vouga: são estas zonas que vêem raiar com a região dos terrenos
secundarios até Aveiro, e com o mar desde Aveiro até â foz do Douro,
tendo de permeio a facha de dunas da costa.
Ao norte do Douro os schistos predominam para cima da linha
Regoa-Chaves, os granitos para baixo. Ao longo da costa, desde o Porto
até á Povoa, encontra-se, destacado, um affloramento de rochas
eruptivas; e, para leste, um outro nas serras do Gerez e do Suajo, a
poente do Tamega, lançando junto a Braga um ramo que vae, por Barcellos,
a Vianna e até Caminha.
A leste da linha Chaves-Regoa são irregulares e dispersos os
affloramentos eruptivos: acompanham a margem portugueza do Douro desde
Bemposta até Miranda; apparecem em dois pontos da extrema fronteira do
norte; vêem de Montalegre, por Chaves até Valpassos e Torre-de-D. Chama;
e pela serra do Marão, desde Mondim e Ribeira-de-Pena, por Villa-Pouca e
Villa-Real, morrer junto ao Douro em Villarinho. Todo o resto, o Marão,
da Campean a Santa Martha, as alturas á esquerda do Corgo, a maxima
parte do valle do Tua, e todo o valle do Sabor, são formados pelos
terrenos paleozoicos.
[22] V. _As raças humanas_, introd., pp. XXXI-II.
[23] V. _O Brasil e as colonias portuguezas_ (2.ª ed.) pp. 1-29.
[24] V. para a geologia terciaria do Tejo, os _Elem. de Anthropologia_
(3.ª ed.), pp. 212-17, podendo cotejar-se o estudo da região
portugueza com o da Peninsula no seu todo na _Hist. da
civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. VII-XXI.
* * * * *
IV
A terra e o homem
Conhecida a orographia e a geognosia do territorio, brevemente
indicaremos o systema de caracteres agricolas e climatologicos, ambos
subordinados aos anteriores, e todos solidariamente ligados para formar
a phisionomia natural das diversas regiões do territorio portuguez.
A sua antiga divisão em provincias obedecia mais a estas condições
naturaes do que a moderna divisão em districtos: as causas determinantes
de uma e de outra são o motivo d'esta differença. As provincias
formaram-se historicamente em obediencia ás condições naturaes; os
districtos actuaes foram creados administrativamente de um modo até
certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres proprios das
regiões, e a administração limitára-se a reconhecer factos naturaes:
outros, determinados por motivos abstractos, nasceram de principios
administrativos e estatisticos (área, quantidade de população, etc.),
fazendo-os discordar o menos possivel dos limites naturaes, geographicos
e climatologicos. Por estes motivos nós agora estudaremos por
provincias, e não por districtos, o territorio portuguez; deixando para
o lugar competente o estudo das condições modernas da nação.[25]
A divisão das provincias apoiava-se em factos phisicos de um valor
eminente. Começando pelo norte, o territorio de além-Douro inscreve duas
zonas separadas pelo Tamega: a leste, Traz-os-Montes, a oeste,
Entre-Douro-e-Minho. Além de obedecer, como se vê, á geographia,
buscando nos rios fronteiras naturaes, a divisão das duas provincias
consagrava differenças essenciaes: as geognosticas já por nós observadas
(rochas eruptivas dominando a oeste, schistos a leste do Tamega), e além
d'ellas as climatericas. Portugal, segundo já se disse n'outro lugar, é
em geral um amphitheatro de montanhas, levantado em frente do Oceano.
Esta circumstancia caracterisa para logo as regiões de um modo tambem
geral, dividindo-as em duas categorias: as maritimas e as interiores; as
cis e as transmontanas; as que estão directamente expostas á acção das
brisas maritimas, e os declives orientaes, os valles interiores, e os
degraus ou socalcos das serras encobertas aos bafejos do mar por
cumiadas occidentaes sobranceiras.
Esta circumstancia dá caracteres inteiramente diversos ás duas
provincias do Douro-Minho e de Traz-os-Montes, divididas pelas serranias
do Gerez e do Marão, que roubam a ultima á acção das brisas maritimas.
Quem alguma vez transpoz o Tamega, decerto observou a profunda
differença da paizagem e do caracter e aspecto dos habitantes de áquem e
de além d'esse rio. O transmontano, vivo, ágil, robusto, destaca-se para
logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz, persistente e
ingenuo. Além do Tamega o clima é secco (40 a 60% de humidade relativa)
poucas as chuvas (500 a 1:000 millim. e no estio 70 a 80 apenas), grande
o calor no fundo dos valles apertados, mas temperado nas alturas;
intensos os frios hibernaes, que coroam de neve as montanhas e gelam a
agua pelas baixas (12 a 15° temp. média). Áquem, as brisas do mar,
estacadas na sua passagem pelas serras, condensam-se e produzem as
chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor occidental das serras de
oriente é sarjado pelos numerosos e successivos rios parallelos, cujos
valles, reunindo-se junto á costa, formam ao longo d'ella a primeira das
planicies litoraes de Portugal. Habita essa região pingue uma população
abundante, activa, mas sem distincção de caracter, nem elevação de
espirito: consequencia necessaria da humidade e da fertilidade. Falta
essa especie de tonificação propria do ar secco e dos largos horizontes
recortados n'um céu luminoso e puro. O Minho é uma Flandres, não uma
Attica. As chuvas precipitam-se abundantes (1:200 a 2:000 mill. annuaes,
e no estio 80 a 200) sobre um chão lavrado de caudaes; a humidade (70 a
100%) torna flaccidos os temperamentos e entorpece a vivacidade
intellectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo
faz fermentar, á maneira do que succede nas zonas genesiacas dos
tropicos. Temperado o clima (12 a 15°), sem excessivos afastamentos
hibernaes, a população satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetaes e de
ar humido, offerece a imagem de um exercito de laboriosas formigas sem
cousa alguma de aládo e brilhante de um enxame dourado de abelhas.
O clima determina a paizagem. Além Tamega as louras messes do trigo, os
pampanos rasteiros, o carvalho nobre e o castanheiro gigante vestem os
pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de rochas, no
inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento,
dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que é de elevado
no espirito. A natureza vive na luz, e a alma sente que os elementos
teem dentro em si forças que os animam.
Áquem Tamega o scenario muda: a humidade cria em toda a parte vegetações
abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de
plantas: mas como o solo é breve, como a rocha afflora por toda a parte,
e os campos nascem do terreno vegetal formado nas anfractuosidades do
granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos estuarios dos rios pelos
sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e humilde, o pinho
maritimo de uma constituição debil, o carvalho um pigmeu enleiado pelas
varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra da
natureza n'uma região onde o vinho não amadurece: o acido picante dá-lhe
uma similhança das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com
ella, ao genio do povo, caracteres tambem similhantes aos de bretões e
flamengos. A vegetação, de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão
dos homens: as necessidades implacaveis da população abundante produzem
uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos,
circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pigmeus,
decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto
formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, immundos, atraz d'uns
boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de
um carro. Sob um céu ennuveado quasi sempre, pisando um chão quasi
sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em
torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem
abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos, não
podendo despegar-se da terra, como que se confunde com ella; e, com os
seus bois, os seus arados e enxadas, fórma um todo d'onde se não ergue
uma voz de independencia moral, embora amiude se levante o grito de
resistencia utilitaria.[26] A paizagem é rural, não é agricola; a poesia
dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem uma vez
subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas
espessas de arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados
de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu decerto a ausencia de
um largo folego de ideal, e de uma viva inspiração de luz. Apenas aqui e
acolá, engastado na monotonia da côr dos milhos, um canto do verde
alegre do linho vem lembrar que tambem no coração do minhoto ha um lugar
para o idyllio infantil do amor.
* * * * *
Descendo para o sul do Douro, entre a Beira montanhosa e a Beira
litoral, dão-se differenças analogas ás que distinguem o Minho e
Traz-os-Montes: analogas, dizemos, e não identicas, porque n'esta nova
região começam a sentir-se as influencias de causas geraes, como são as
da latitude. A zona anterior estanceia entre os parallelos de 41° e 42°;
as Beiras descem até 39° 30'. Portugal, inscripto entre 37° e 42°, e
lançado como uma estreita facha norte-sul, tem na latitude das regiões
uma causa geral a concorrer sempre com as causas particulares, quaes são
a altitude, a exposição e a constituição geognostica das montanhas, no
sentido de determinar os caracteres das suas differentes provincias.
N'esta de que agora nos occupamos, levanta-se ao centro a serra da
Estrella, a cujo pendor maritimo se chamou Beira-alta, dando-se aos
declives transmontanos oppostos, reunidos á Guardunha, o nome de
Beira-baixa. Tres zonas compõem a região das duas provincias: o litoral
formado pelos estuarios do Vouga e do Mondego, as serranias occidentaes
ou maritimas, e as orientaes ou transmontanas.
A serra da Estrella é a mais elevada das cordilheiras portuguezas; é o
prolongamento da espinha dorsal da Peninsula; é a divisoria das duas
metades de Portugal, tão diversas de phisionomia e temperamento; é
finalmente como que o coração do paiz--e acaso nas suas quebradas e
declives, pelos seus valles e encostas, demora ainda o genuino
representante do lusitano antigo. Se ha um typo propriamente portuguez:
se atravez dos acasos da historia permaneceu puro algum exemplar de uma
raça ante-historica onde possamos filiar-nos, é ahi que o havemos de
procurar, e não entre os gallegos ao norte do Douro, nem entre os
turdetanos da costa do sul, nem entre as populações do litoral cruzadas
com o sangue de muitas raças e com os sentimentos e costumes das mais
variadas nações.
O pastor quasi-barbaro d'essas cumiadas da serra a topetar com as nuvens
(1:800 a 2:000m. de altit.), abordoado ao seu cajado, vestido de pelles,
seguindo o rebanho de ovelhas louras, é talvez o descendente dos
companheiros de Viriato. Por essas eminencias, tapetadas de relva no
estio e de neves no inverno, nem as villas, nem as arvores se atrevem a
subir: só o pastor nómada as habita. Do alto do seu throno de rochas vê
gradualmente ir nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro,
rasteiro e roído pelo gado, circumda os altos nús; logo apparecem os
piornos, as urzes brancas, os carvalhos; depois, já a meia altura da
encosta, os castanheiros, as lavouras, e os enxames de aldeias; afinal,
na extrema baixa, o lençol de lagunas, tapete de esmeraldas engastadas
em fios de brilhantes, que o sol faceta ao espalhar-se no labyrintho dos
canaes.
A serra da Estrella, reforçada ao norte pelo contraforte de Monte-muro,
fecha, com o Marão e o Gerez, uma muralha natural, onde os ventos do mar
estacam. Apenas cortada pelos valles do Douro e do Tua--duas
fendas--essa barreira, cujos picos sobem até 2:000m., encerra e protege
o Portugal do norte, sendo a principal causa das chuvas abundantes e do
clima creador do litoral de além-Mondego.
O beirão, habitante da encosta occidental onde o ar é mais humido do que
em Traz-os-Montes (65 a 100%), as chuvas mais abundantes (700 a 1:200
millim.) e a temperatura identica: onde o castanheiro colossal, o cedro,
o carvalho e o pinheiro bravo põem na paizagem todos os tons e essa
grandeza propria de arvores que vivem seculos: o beirão é menos vivo,
mas mais robusto. Quem divagou por essas terras admirou decerto a
structura herculea dos seus homens, cuja face, não luzindo com os
brilhantes reflexos de vida interior, accusa todavia um pleno
desenvolvimento da vida animal. Berço dos audazes bandidos, anachronicos
representantes de uma independencia de outras edades,[27] a
Beira é o viveiro de musculosos trabalhadores, que vão todos os annos,
pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente vestidos com as
bragas curtas de linho, descalços, com a camisola de lan agasalhando o
tronco, o barrete phrigio na cabeça, a manta e a enxada ao hombro.
Descendo ao litoral, o beirão é amphibio: pescador e lavrador. A lavoura
nasce do mar: os carros são barcos, adubos o _molisso_ de algas e
mariscos. Ao lado de um talhão de milho está uma marinha de sal. O mar
insinua-se pelos canaes retalhando a planicie, em cujo centro, como uma
arteria, corre placidamente o Vouga. A tres leguas da costa vê-se
fundeado um barco: as mulheres cozem as redes, ao lado, sobre a terra
humida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre á enxada. O calor
(15 a 16), a humidade permanente (65 a 80%), fazem germinar breve as
sementes, multiplicam as colheitas, e as febres. Essa paizagem deliciosa
e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo
prazer, quando a dominamos desde os altos de Angeja á raiz das
montanhas, attrahe-nos como a sombra da manzanilha, cheia de frescura e
veneno. Os elementos, confundidos, vingam-se da temeridade dos homens.
A exposição oriental ou transmontana das abas da serra da Estrella e dos
cerros subalternos da Guardunha dá á provincia da Beira-baixa um outro
aspecto: ha maior seccura no ar, e as chuvas são menos abundantes: os
olivaes medram melhor, e os hahitantes juntam á vida agricola a
industrial, tecendo as lans dos rebanhos da serra com a força das
torrentes que se despenham nas quebradas do valle do Zezere.
Já similhante por muitos lados ao alto Alemtejo, a Beira-baixa é a
transição da metade norte para a metade sul do paiz.