Produced by Pedro Saborano
*Notas de transcrição:*
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
em 1908.
Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido
corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a
leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
HISTORIA DE PORTUGAL
TOMO I
* * * * *
J. P. OLIVEIRA MARTINS
OBRAS COMPLETAS
I. Historia nacional:
HISTORIA DA CIVILISAÇÃO IBERICA, 4.ª ed. (1897), 1 vol., br. 700 rs.
Enc. 900.
HISTORIA DE PORTUGAL, 7.ª ed. (1908), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 4.ª ed. (1888). 1 vol., br. 700 rs.
Enc. 900.
PORTUGAL CONTEMPORANEO, 4.ª ed. (1907). 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.
PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
CAMÕES, OS LUSIADAS E A RENASCENÇA EM PORTUGAL, (1891). 1 vol., br. 600
rs. Enc. 800.
NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES, (_ed. do Ateneo de
Madrid_, 1892). 1 vol. (não entrou no commercio.)
A VIDA DE NUN'ALVARES, 2.ª ed. (1894). 1 vol., br. 2$000 rs. Cart.
2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.
OS FILHOS DE D. JOÃO I, 2.ª ed., 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
O PRINCIPE PERFEITO, (1895), 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas
doiradas, 3$200.
II. Historia geral:
ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4.ª ed. (1885), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
AS RAÇAS HUMANAS E A CIVILISAÇÃO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc.
1$800.
SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 3.ª ed. (1895), 1 vol., br. 800 rs. Enc.
1$000.
QUADRO DAS INSTITUIÇÕES PRIMITIVAS, 2.ª ed. (1893), 1 vol., br. 800 rs.
Enc. 1$000.
O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.ª ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2.ª ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs. Enc.
2$400.
O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRISTÃ, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc.
1$000.
TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br. 1$000
rs. Encadernado 1$200.
III. Varia:
A CIRCULAÇÃO FIDUCIARIA, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.
A REORGANISAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL, opusculo, (1877), br. 150 rs.
O ARTIGO «BANCO», no _Diccionario Universal Portuguez_, (1877), 1 vol.,
br. 500.
POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, _apresentado á camara dos deputados na
sessão de 1887_, 1 vol., br. 300 rs.
ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, _ed. part._ (1886), 1 vol.
(esgotado).
THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, _opusculo_, (1869) (esgotado).
O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado)
AS ELEIÇÕES, _opusculo_, (1878), br. 200 rs.
CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. _Portugal em Africa_, (1891), 1 vol., br.
400 rs.
A INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2.ª ed., 1 vol., br. 600
rs. Enc. 800.
CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
* * * * *
HISTORIA
DE
PORTUGAL
POR
J. P. Oliveira Martins
Setima edição
TOMO PRIMEIRO
1908
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
_Rua Augusta--44 a 54_
LISBOA
* * * * *
Composto e impresso na typographia
DA
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
_Rua Augusta, 44 a 54_
LISBOA
Á
MEMORIA
DE
ALEXANDRE HERCULANO
mestre e amigo
ADVERTENCIA
«Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazião,
assi erradas, como dos valentes & nobres feytos. Dos erros porque se
delles soubessem guardar: & dos valentes & nobres feytos aos bõos
fezessem cobiça auer pera as semelhentes cousas faseram.»
_Coronica do Condestabre._
A historia é sobre tudo uma lição moral: eis a conclusão que, a nosso
vêr, sáe de todos os eminentes progressos ultimamente realisados no fôro
das sciencias sociaes. A realidade é a melhor mestra dos costumes, a
critica a melhor bussola da intelligencia: por isso a historia exige
sobretudo observação directa das fontes primordiaes, pintura verdadeira
dos sentimentos, descripção fiel dos acontecimentos, e, ao lado d'isto,
a frieza impassivel do critico, para coordenar, comparar, de um modo
impessoal ou objectivo, o systema dos sentimentos geradores e dos actos
positivos.
O desenvolvimento do criterio racional e o predominio crescente dos
processos proprios das sciencias, baniram os modelos antigos e fizeram
da historia um genero novo. Nem os discursos moraes ou litterarios
_sobre_ a historia, á maneira do XVII seculo, nem o doutrinarismo secco
do XVIII que sobre factos e instituições mal conhecidos construia
systemas geraes chimericos, nem a opinião, muito seguida em nossos dias,
de considerar a historia unicamente nos seus phenomenos exteriores,
averiguando eruditamente as epochas e as condições dos successos,
merecem, a nosso vêr, imitação.
Todos estes systemas, porém, ensaios successivos para determinar o
genero de um modo definitivo, teem um lado de verdade aproveitavel. Os
modelos classicos fizeram sentir o caracter moral da historia; os
modelos abstractos, a necessidade de comprehender os phenomenos n'um
systema de leis geraes; os modelos eruditos, finalmente, a condição
imprescriptivel de um conhecimento real e positivo da chronologia e dos
elementos que compõem o _meio_ externo ou phisico das sociedades.[1]
Nada d'isto, porém, é ainda realmente a historia, embora todas essas
condições sejam indispensaveis para a sua comprehensão. O intimo e
essencial consiste no systema das instituições e no systema das idéas
collectivas, que são para a sociedade como os órgãos e os sentimentos
são para o individuo, consistindo, por outro lado, no desenho real dos
costumes o dos caracteres, na pintura animada dos logares e accessorios
que formam o scenario do theatro historico.
Estes dois aspectos são egualmente essenciaes; porque a coexistencia
independente dos motivos collectivos e naturaes, e dos actos
individuaes, é um facto incontestavel na vida das sociedades.
Na _Historia da civilização iberica_ tratámos de estudar o systema de
instituições e de idéas da sociedade peninsular, para expôr a sua vida
collectiva, organica e moral. Tomámos ahi a sociedade como um individuo,
e procurámos retratal-o phisica e moralmente. Agora o nosso proposito é
diverso. Tratando da historia particular portugueza, somos levados a
encarar principalmente o segundo dos aspectos essenciaes da historia
geral. A sociedade portugueza, como molecula que é do organismo social
iberico, peninsular, ou hespanhol--estas tres expressões teem aqui um
alcance equivalente--obedeceu, nos seus movimentos collectivos, ao
systema de causas e condições proprias da historia geral da peninsula
hispanica. Por isso procurámos sempre, na obra referida, indicar o modo
pelo qual as leis geraes se realisavam simultaneamente nas duas nações
hespanholas: duas, porque a historia assim constituiu politicamente a
Peninsula.
Metade da historia portugueza está, portanto, escripta na _Historia da
civilisação iberica_: a metade que trata da vida da sociedade, como um
ser organico. Comprehender-se-ha, pois, que nos abstenhamos agora de
repetir o que está dito, e que nos limitemos a enviar o leitor para esse
livro; indicando, quando fôr necessario, o logar onde poderá encontrar a
explicação das causas geraes a que no texto se tem de alludir.
Resta fazer a segunda metade: resta caracterizar o que ha de particular
na historia portugueza; resta fazer viver os seus homens, e representar
de um modo real a scena em que se agitam: tal é o programma d'este
livro, cujas difficuldades de execução excedem em muito as do anterior.
N'esse, bastavam o conhecimento e o pensamento: um para nos dizer como
foram as cousas, outro para nos indicar o principio e o systema da
civilisação. Agora carece-se do faro especial da intuição historica, e
d'um estylo que traduza a animação propria das cousas vivas. Toda a
longanimidade do leitor será pois necessaria para desculpar as
imperfeições da obra.
É mistér indicar ainda outro assumpto e prevenir uma impressão, natural
em quem ler successivamente as duas obras. A _Historia de Portugal_
consiste n'uma serie de quadros, em que, na maxima parte das vezes, os
caracteres dos homens, os seus actos, os motivos immediatos que os
determinam e as condições e modo porque se realisam, merecem antes a
nossa reprovação do que o nosso applauso. Crimes brutaes, paixões vis,
abjecções e miserias, compõem, por via de regra, a existencia humana; e
por isso mais de um moralista tem condemnado o estudo da historia como
pernicioso para a educação.--Por outro lado, a _Historia da civilisação
iberica_ respira um enthusiasmo optimista que, ao primeiro exame,
pareceria contradictorio com o pessimo e mesquinho caracter que as
acções dos homens apresentam. Um exemplo bastará para demonstrar este
antagonismo: além considerámos as conquistas americanas e asiaticas uma
obra heroica, e agora veremos que montanha de ignominias foi o imperio
portuguez no Oriente.
Esta contradicção, real para o criterio abstracto, não existe, porém,
para o criterio historico. Toda a boa philosophia nos diz que o homem
real é a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo
inconscientemente, e que todas as acções dos homens, maculadas de
defeitos e vicios, obedecem a um systema de leis, idealmente sublimes. É
esta verdade que o povo consagrou quando formulou o adagio: Deus escreve
direito por linhas tortas.
Pesada esta consideração, que não podemos agora desenvolver de um modo
cabal, vêr-se-ha como na historia de uma civilisação os caracteres
particulares das acções dos homens, fundindo-se no systema geral de
principios e leis que os determinam, perdem individualidade, e não valem
senão como elementos componentes de um todo superior: que sejam
humanamente bons ou maus, importa nada, porque só nos cumpre attender ao
destino que os determina, e a moral é um criterio incompetente para a
esphera ou categoria collectiva de que se trata.
Na esphera dos movimentos de instituições e idéas, na categoria da vida
social, as acções dos homens são sempre absolutamente excellentes;
porque a supremacia da sociedade sobre o individuo consiste no facto da
existencia de uma consciencia superior da Idéa, no organismo que se diz
sociedade. Os poetas épicos, seres privilegiados cuja voz não é propria,
senão collectiva, são os orgãos vivos da consciencia de uma civilisação:
assim Camões sente e exprime a grandeza historica do imperio das Indias,
que na propria opinião particular do poeta são uma Babylonia, um poço de
ignominias.
Esclarecido este lado do problema, embora de um modo incompleto e
rapido, resta-nos dizer que na segunda metade da historia, na que trata
dos individuos e dos episodios, na que pinta os costumes e os
pensamentos, o criterio é outro: por isso affirmámos que a historia é
uma lição moral. Nos vicios e nas virtudes, nos erros e nos acertos, na
perversidade e na nobreza dos individuos que foram, ha um exemplo
excellente. Na sabedoria ou na loucura dos actos politicos e
administrativos passados ha um meio de prevenir e encaminhar a direcção
dos actos futuros. A historia é, n'esse sentido, a grande mestra da vida.
Se os vicios, os erros, o crime e a loucura predominam sobre as
virtudes, os acertos, a nobreza e a sabedoria dos homens, como sem
duvida predominam, iremos por isso condemnar a historia por perniciosa?
Não, decerto. Apresentar crua e realmente a verdade é o melhor modo de
educar, se reconhecemos no homem uma fibra intima de aspirações ideaes e
justas, sempre viva, embora mais ou menos obliterada. Conhecer-se a si
proprio foi, desde a mais remota Antiguidade, a principal condição da
virtude.
[1] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
pp. VI-XXII.
* * * * *
HISTORIA DE PORTUGAL
* * * * *
LIVRO PRIMEIRO
Descripção de Portugal
«Onde a terra se acaba e o mar começa.»
CAMÕES, _Lusiadas_, III, 20
* * * * *
I
Os lusitanos
«O povo desde o qual os historiadores têem tecido a genealogia
portugueza está achado: é o dos lusitanos. Na opinião d'esses
escriptores, atravez de todas as phases politicas e sociaes da Hespanha,
durante mais de tres mil annos, aquella raça de celtas soube sempre,
como Anteu, erguer-se viva e forte: reproduzir-se, immortal na sua
essencia; e nós os portuguezes do seculo XIX temos a honra de ser os
seus legitimos herdeiros e representantes.»
Com esta ironia encoberta mas grave, fustigava Alexandre Herculano[2] os
seus predecessores, historiographos nacionaes, e, segurando com valor a
férula magistral, castigava o povo culpado de acreditar n'uma tradição
que tem para o erudito, além de outros defeitos, o de ser recente. Só
desde o fim do XV seculo o nome de _lusitani_ começa a substituir o do
_portugalenses_, nos livros; mas essa innovação, perpetuando-se entre os
eruditos, torna-se por fim uma crença nacional e quasi popular.
Que valor merece a innovação? Nenhum; e por varios motivos. «Tudo falta:
a conveniencia de limites territoriaes, a identidade da raça, a filiação
da lingua, para estabelecermos uma transição natural entre os povos
barbaros e nós.» Ora estes argumentos, decisivos para o sabio
historiador, não nos parece a nós--perdoe-se-nos o atrevimento--que o
sejam. Outro tanto succede com todas as nações, ou quasi todas, desde
que procuramos estabelecer a arvore genealogica, indo aos arcanos de um
passado ignoto reconhecer a phisionomia dos mortos de muitos seculos e
determinar d'entre elles os primeiros avós de uma nação. Seria absurdo
exigir conveniencia de limites territoriaes, ou por outra, identidade de
fronteiras, entre a localisação de uma tribu primitiva, e a de uma nação
moderna: nem aos povos que hoje mais indiscutivelmente representam,
pura, uma raça, poderia fazer-se tal exigencia. Se ha ou não identidade
de raça, é exactamente o problema que deveria agitar-se; e, sem isso,
negal-o é proceder dogmatica e não scientificamente.
Allega-se que são indecisas as noções de Strabão com respeito ás
fronteiras dos lusitanos; diz-se mais que não coincidem com as que
Augusto deu á provincia da Lusitania.[3] O geographo antigo, ora parece
incluir os callaicos nos lusitanos, entendendo as fronteiras d'estes
ultimos até á costa do norte da Peninsula; ora os separa, dando-lhes o
Douro como divisoria. A demarcação de Augusto adoptou esta segunda
versão. As fronteiras orientaes extendiam-se, quer para o geographo,
quer, depois, para a administração romana, muito além da raia
portugueza, incluindo Salamanca, e subindo quasi até proximo de Toledo.
D'alli para o sul, e depois para o nascente, seguindo o curso angular do
Guadiana, os lusitanos de Strabão e a Lusitania de Augusto tinham como
limite este rio, quasi desde as suas fontes, e até á sua foz, na costa
do nosso Algarve.
Se ligassemos, pois, um valor positivo ás resenhas dos antigos
geographos, e um alcance social-historico á identidade das fronteiras
primitivas e actuaes, parece-nos que poucas nações poderiam com melhores
motivos achar na etimologia dos antigos o fundamento da sua vida
moderna. Alargue-se a fronteira do norte ao Minho (conquista da
Lusitania sobre a Gallecia) retráia-se a fronteira de leste ao Douro
(conquista da Tarraconense sobre a Lusitania) e teremos feito coincidir
os antigos com as actuaes limites. Qual é, dos primitivos, o povo que no
decurso da sua vida historica deixou de conquistar e de ser conquistado?
qual é o que não ganhou ou não perdeu, de um lado ou d'outro, sobre ou
para os visinhos?
Se a maneira porque, a partir do seculo XV ou XVI, os historiographos
nacionaes filiam o Portugal moderno na antiga Lusitania justifica as
fundadas ironias do nosso grande historiador, não nos parece que o
processo por elle seguido para negar a doutrina, seja conveniente, nem
até verdadeira a opinião de que entre portugueses e lusitanos nada haja
de commum. Quando hoje vimos renascer de um modo erudito, e d'alli
affirmar-se no espirito popular, a tradição nacional germanica, a
italiana e até a romania: que valor tem o facto da tradição lusitana ter
estado obliterada por seculos, para só resurgir n'uma epocha
relativamente proxima e de um modo erudito? Se os portuguezes da
Edade-media não sabiam de seus avós lusitanos, acaso saberiam de seus
avós, italos, romanos ou teutonicos, os piemonteses, os vallacos, ou os
prussianos até ao XVIII seculo? Acaso, tambem, ser-lhes-ha mais possivel
do que a nós estabelecer uma transição natural e uma historia
ininterrupta desde as primeiras edades até ás modernas? Não, decerto. Se
a erudição podesse demonstrar a unidade da raça iberica, então os
lusitanos baixariam á condição de uma variedade sem autonomia; facto é,
porém, que pouco ou nada sabemos, nem de iberos em geral, nem de
lusitanos em particular, e por isso as fabulas dos velhos antiquarios
não merecem a attenção moderna. Não haverá, porém, acaso outro caminho
para atacar este problema? Á falta de monumentos escriptos, nada poderá
valer-nos? Entre a fabula ingenua dos antiquarios e as exigencias seccas
e formaes dos eruditos modernos, não estará outra via? Affigura-se-nos
que sim.[4]
Todos reconhecem hoje a indestructivel tenacidade das populações
primitivas. Raizes profundas que nenhuma charrua destroe apesar de
revolta a leiva pelo ferro das conquistas, depois de esmagadas as folhas
e troncos pelo tropear dos cavallos de guerra, depois de queimados e
reduzidos a cinzas pelos incendios das invasões: embora se lancem novas
sementes á terra e nasçam vegetações novas, essas raizes profundas
tornam a reverdecer, crescem, dominam um chão que é seu, e afinal
convertem ou esmagam, transformam ou exterminam, de um modo obscuro,
lento, mas invencivel as plantas intrusas.
A permanencia dos caracteres primitivos dos povos, facto hoje
indiscutivel, permitte fazer--consinta-se-nos a expressão--a historia ao
inverso: julgar de hoje para hontem, inferir do actual para o passado. A
questão da raça lusitana apresenta-se-nos pois n'estes termos: ha uma
originalidade collectiva no povo portuguez, em frente dos demais povos
da Peninsula? Crêmos que a ha circumscripta porém a traços secundarios.
Crêmos que as diversas populações da Hespanha, individualisadas sim,
formam, comtudo, no seu conjuncto, um corpo ethnologico dotado de
caracteres geraes communs a todas. A unidade da historia peninsular,
apesar do dualismo politico dos tempos modernos, é a prova mais patente
d'esta opinião.[5]
Esse dualismo, porém, leva-nos tambem a crêr que entre as diversas
tribus ibericas, a lusitana era, senão a mais, uma das mais
individualmente caracterisadas. Não esquecemos, decerto, a influencia
posterior dos successos da historia particular portugueza: mas elles,
por si só, não bastam para explicar o feitio diverso com que cousas
identicas se representam ao nosso espirito nacional. Ha no genio
portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a
terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma
nobreza que differe da furia dos nossos visinhos; ha nas nossas letras e
no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental, ironica ou meiga,
que em vão se buscaria na historia da civilisação castelhana, violenta
sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas
alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnanima sem caridade,
mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a
entestar com as féras. Tragica e ardente sempre, a historia hespanhola
differe da portugueza que é mais propriamente epica; e as differenças da
historia traduzem as dessimilhanças do caracter.
Poderemos regressar agora ao passado, e perguntar-lhe a causa primaria
d'este phenomeno? Decerto não. Ou sombras impenetraveis o encobrem, ou a
escassez do nosso saber nos não deixou ainda desvendal-o. Como
hypothese--e do nosso atrevimento será escusa a nossa modestia--somos
levados a crêr que a individualidade do caracter dos lusitanos (quer
n'elles incluamos os callaicos, quer não) provém de uma dose maior de
sangue celtico ou celta (questionou-se outr'ora sobre isto) que gira em
nossas veias, de mistura com o nosso sangue iberico. Os nomes proprios
de logares, os nomes de pessoas e divindades, tirados das inscripções
latinas da Lusitania e da Tarraconense, que constituem o nosso Portugal,
provam a preponderancia de um elemento celtico. As vagas indicações dos
antigos falam-nos dos celtas das margens do Guadiana, e dão-nol-os na
costa Occidental da Peninsula. Vale porém mais do que isso a analogia
evidente entre as manifestações particulares dos lusitanos e dos
gallegos, e aquella phisionomia que os estudos eruditos sobre os celtas
da França e da Irlanda teem determinado a estes ultimos.[6]
Tentámos ha pouco esboçar a nossa phisionomia differencial: escusado é
tornar agora ao assumpto. Se a idéa de uma filiação dos lusitanos foi
expressa de um modo ridiculo pelos antiquarios classicos, a idéa de uma
filiação celtica ou celta teve já a mesma sorte quando, quasi em nossos
dias, houve quem pretendesse filiar directamente o portuguez na lingua
dos bardos. Paz do esquecimento a todas as chimeras!
[2] V. o seu retrato no _Portugal Contemporaneo_ (2.ª ed.) II,
pp. 283 a 327.
[3] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 11-15 e
_Taboas de chronol._, pp. 256-7.
[4] V. ácerca dos lusitanos. _As raças humanas_, I, pp. 198-201,
e 209-11, _nota_.
[5] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. XXXIV-XLIV.
[6] V. _As raças humanas_, liv. II, p. 4.
* * * * *
II
Fundamentos da nacionalidade
Que valor tem o problema da nacionalidade perante a questão da
independencia politica?
Causas complexas, de ordem a mais diversa, e de merecimento mais
distante, circumstancias que não vêm agora ao caso desenvolver, fizeram
com que no nosso tempo se substituisse, ao principio do equilibrio
internacional, o principio das nacionalidades, na organisação dos corpos
politicos independentes da Europa.[7]
Invasora como todas as doutrinas, e além d'isso habilmente explorada
pelos estadistas, a das nacionalidades tentou--se não tenta
ainda--predominar absoluta no triplo conjuncto de causas naturaes que de
facto determinaram sempre, e sempre determinarão, a existencia das
nações: a geographia, a raça, e as necessidades de ponderação: uma vez
que a Europa é de facto uma amphictyonia. Sobre estes tres elementos
naturaes, ou antes coarctado por elles, o egoismo das nações e a ambição
dos imperantes talharam no mappa a delimitação das fronteiras. Por
escasso que seja o conhecimento da historia, ninguem ignora que de todos
tres o que mais impunemente tem sido e é atacado pela vontade dos
homens, é o primeiro. A rebeldia dos dois segundos traduz-se de um modo
mais immediato e efficaz nas guerras de equilibrio e nas guerras
commerciaes ou estrategicas. Guerras, propria e exclusivamente de raça,
são raras, se é que alguma houve; e os povos opprimidos por extranhos,
quando teem o sentimento como que religioso da communidade de origem,
extinguem-se, ou em revoltas estereis, ou emigrando. O equilibrio, o
commercio, a estrategia, porém, muitas vezes aproveitam o sentimento da
raça, fomentando-o, para dar com elle ás guerras a sancção que n'outros
tempos se achava, de um modo analogo, nas crenças propriamente religiosas.
Até hoje todas as successivas tentativas para descobrir a nossa _raça_
teem falhado. Latinos, celtas, lusitanos e afinal mosarabes, teem
passado: ficam os portuguezes, cuja _raça_, se tal nome convém empregar,
foi formada por sete seculos de historia. D'essa historia nasceu a idéa
de uma patria, idéa culminante que exprime a cohesão acabada de um corpo
social[8] e que, mais ou menos consciente, constitue como
que a alma das nações, independentemente da maior ou menor homogeneidade
das suas origens ethnicas. O patriotismo tanto póde, com effeito, provir
das tradições de uma descendencia commum, como das consequencias da vida
historica. Não ha duvida, porém, que, se assenta sobre a affinidade
ethnogenica, resiste mais ao imperio extranho do que quando provém
apenas de uma communidade de historia. No dia em que a independencia
politica se perde, obliteram-se mais rapidamente os caracteres
autonomicos, embora durante a lucta valham menos os elementos de força
provenientes da homogeneidade ethnogenica. Assim tantas nações perderam
na Europa moderna a sua autonomia, sem que restem vestigios vivos da sua
antiga independencia; ao passo que as individualidades ethnicas
apparecem ainda hoje distinctas no seio de nações politicamente
unificadas desde largos seculos: taes são o paiz basco, a Galliza e o
Aragão, na Hespanha: a Irlanda e a Escocia, de raça celtica, na
Inglaterra; a Provença, ou a Bretanha, em França: e, na Russia, a
Finlandia que é scandinava, ou as provincias balticas que são
germanicas.[9]
O patriotismo portuguez não é pois argumento a favor nem contra o
problema da unidade de sangue das populações com que Portugal se formou.
O jornalismo e a politica podem explorar rhetoricamente todas as cousas,
confundindo-as; mas á sciencia impassivel e soberana fica mal deixar-se
arrastar por motivos inferiores. O patriotismo é excellente, no seu
logar. Negar que durante os tres seculos da dynastia de Aviz a nação
portugueza viveu de um modo forte e positivo, animada por um sentimento
arraigado da sua cohesão, seria um absurdo. Essa cohesão que fôra ganha
nas luctas e campanhas da primeira dynastia, perde-se no XVI seculo, por
causa das consequencias do imperio oriental e da educação dos jesuitas.
Portugal acaba; os _Lusiadas_ são um epitaphio.
Deixemos pois celtas e lusitanos em paz, e aproximemo-nos dos tempos que
precederam a formação da monarchia portugueza. N'essa epocha, o Mondego
divide em duas metades o territorio nacional e as differenças typicas da
população deviam ser então ainda mais acentuadas do que o são hoje. Na
metade do sul o typo vae confundir-se com os limitrophes de além da
fronteira do reino: e na metade do norte, diz um nosso illustre
escriptor[10], «a Galliza, que tem comnosco de commum a
lingua, que é uma continuação natural da zona geographica portugueza,
podia muito melhor formar com Portugal uma nação, do que Portugal com
Castella». A Galliza, cuja lingua se tornou litteraria sob o nome de
portuguez[11], vem com effeito até ao Mondego: o mosteiro
de Lorvão dá-se em antigos documentos como situado _in finibus Galleciæ_.
O fallecido Soromenho (_Or. da ling. port._) dizia que «entre a lingua
usada na provincia de Entre-Douro-e-Minho e a que mais tarde apparece
nas terras do Cima-Côa e na Estremadura ha uma differença bastante
sensivel. Póde sem receio dizer-se que, á similhança do que succedia
além dos Pyreneus, em Portugal havia tambem uma _langue d'oc_ e uma
_langue d'oil_, a lingua do Norte e a lingua do Sul... O Mondego é a
lingua divisoria... ainda um seculo depois de D. Diniz ter abandonado o
latim como lingua official». Esta differença coincide singularmente com
as differenças, evidentes para todos, no clima, na vegetação, no
caracter das populações do Norte e do Sul do nosso paiz. E a
uniformidade posterior da lingua explica-se natural e comesinhamente
pelo facto de sete seculos de unidade nacional. «A importancia que o
portuguez adquiriu repentinamente, diz o sr. Ad. Coelho (_A lingua
portugueza_), _resultou da introducção da cultura poetica na côrte
portugueza_». É conhecido o papel da politica no sentido do unificar as
linguas do uma nação; abundam os exemplos de linguas substituidas, e nem
sempre a lingua denuncia a stirpe[12]. Os normandos perderam em França o
seu idioma scandinavo, os burgundios o os lombardos, na França e na
Italia, os seus idiomas germanicos; á maneira dos oseos e umbrios[13]
que tinham trocado pelo latim as suas linguas.
Não se pretenda por fórma alguma dizer, comtudo, que ao sul do Mondego
houvesse uma lingua diversa: diga-se, porém, que o argumento da _unidade
actual_ da lingua, depois de sete seculos de vida nacional, não tem
valor. Todos vêem ainda hoje como é rara a população no sul, menos
densos portanto os laços collectivos: e todos sabem como essas regiões,
sujeitas por seculos a guerras exterminadoras habitadas por mosarabes,
invadidas por berberes, taladas pelo fanatismo almoravide[14] passaram
para sob o imperio da monarchia nascida na Galliza portugueza. Como não
receberiam a lingua do vencedor? Não podia haver lucta entre duas
linguas romanicas, porque a arabisação do sul fôra completa: podel-a-hia
haver entre o arabe e o portuguez, quando a população captiva passava á
condição de escrava? quando as novas terras conquistadas eram povoadas
por colonias frankas, ou pelos cavalleiros hyerosalemitanos?
Por taes motivos parece evidente a ausencia de uma causa ethnogenica no
facto da formação da monarchia portugueza, cujas razões de existir são
comesinhas, praticamente comprehensiveis, sem theorias subtis. A lingua
vale decerto muito, como argumento: mas não valerá nada o homem que a
fala? Não se acham por esse mundo homens de uma mesma raça falando
idiomas diversos, e populações de um mesmo idioma, pertencendo a raças
differentes?[15] Ora quem trilhou Portugal e a Hespanha visinha observou
decerto--ou não tem olhos para vêr--uma affinidade incontestavel do
aspecto e do caracter, um parentesco evidente, entre as populações dos
dois lados do Minho, dos dois lados do Guadiana, dos dois lados da raia
secca de leste. Se esses homens não falassem, ninguem distinguiria duas
nações. E por outro lado, confundiu já alguem um algarvio, ou um
alemtejano puro, com um puro minhoto? A historia commum funde, não
scinde; e quando vêmos, depois de sete seculos, differenças tão
marcadas, a observação dos homens leva-nos a crêr que com effeito em
Portugal faltou uma unidade de raça, sobrando pelo contrario uma vontade
energica e uma capacidade notavel nos seus principes e barões. Com um
retalho da Galliza, outro retalho de Leão, outro da Hespanha meridional
sarracena, esses principes compozeram para si um Estado.[16]
* * * * *
A raça é de facto o mais tenue dos laços proprios para garantir a
cohesão independente de um povo. E além d'isso a doutrina--se
admittissemos a identidade d'ella e do facto--exigiria que á expressão
de raça se ligassem sempre certos caracteres correspondentes á vastidão
necessaria, á eminencia sempre crescente das funcções organicas, e á
originalidade activa, das nações modernas. Mal de nós, pois, se ao facto
de termos ou não termos sido os lusitanos, ou outros quaesquer, formos
pedir argumentos para defender a nossa independencia nacional; porque
esse facto não augmentará, nem a nossa força, nem as nossas razões:
porque esse facto nem sequer chega para motivar a nossa separação da
monarchia leoneza.
Não nos levantámos contra ella como lusitanos opprimidos: nós nem
tinhamos a menor idéa de que fossemos lusitanos, ou qualquer outra
cousa. A população do condado portucalense, ibera, cruzada de celtas,
romanisada, submettida ao governo dos godos, depois aos arabes, e
finalmente ao monarcha leonez, não podia ter decerto um sentimento de
cohesão collectiva ou nacional, incompativel com o estado da sua
cultura, com a tradição, e com a situação social e politica: é isso o
que todos os documentos historicos nos revelam. «Portugal, diz o snr.
Herculano, nascido no XII seculo em um angulo da Galliza, dilatando-se
pelo territorio do Al-Gharb sarraceno, e buscando até augmentar a sua
população com as colonias trazidas de além dos Pyreneus, é uma nação
inteiramente moderna.» É decerto; sem isso, porém, impedir que tenha
raizes antigas. Não confundamos esta questão com a da independencia, e
teremos, cremos nós, pisado o verdadeiro e solido terreno da historia.
A causa da separação de Portugal do corpo da monarchia leoneza não é
obscura, nem carece de largas divagações para definir-se: é a ambição de
independencia do governador do condado, que o tinha do rei suzerano: é o
afastamento d'esta nova região roubada aos sarracenos; é a necessidade
de pulverisação da soberania, que a alliança d'esta idéa com a de
propriedade, e a ignorancia de meios administrativos capazes de manter a
ordem em terrenos dilatados, tornam inevitavel na Edade-media.[17]
Portugal separava-se, da mesma fórma que o reino da Navarra
se dividira em tres, e pelos mesmos motivos. Portugal defende a
separação: o monarcha suzerano impugna-a. Debate-se mais de uma vez a
questão com as armas: não porque se chocassem os sentimentos nacionaes,
mas porque os principes defendiam o que era, ou julgavam ser,
propriedade sua. Estas primeiras guerras portuguezas não depõem decerto
de um modo particular em favor da independencia, porque eram a lei de
toda a Hespanha, a lei de toda a Europa--podemos dizer assim. É um
preconceito fazer do conde D. Henrique o fundador consciente da
independencia de uma nação, quando o conde apenas cuidava da
independencia pessoal e propria. O sentimento de independencia nacional,
a idéa de que os reis são os chefes e representantes de uma nação, e não
os donos de uma propriedade que defendem e tratam de alargar, bem se
póde dizer que só data da dynastia de Aviz, depois do dia memoravel de
Aljubarrota.[18]
No XII e XIII seculos Portugal é um certo territorio, propriedade de um
certo principe: d'onde vem? quem é? pouco importa. O conde D. Henrique
era francez. Assim, a epocha da primeira dynastia desmente por todos os
lados, e de todas as fórmas, a idéa de uma raça, possuindo, de um modo
mais ou menos definido, a consciencia da sua existencia collectiva.
É essa consciencia que dá porém o caracter eminente á segunda dynastia,
ou de Aviz, em cujas mãos Portugal desempenha um papel bem similhante ao
dos phenicios da Antiguidade.[19] Como aos phenicios succedeu aos
portugueses: no momento em que a razão de ser da sua acção na
civilisação da Europa desappareceu, a nação definhou, sumiu-se, perdendo
tudo até perder a independencia.
É verdade que a nossa independencia restaura-se em 1640. Mas como, de
que modo? Atrever-se-ha alguem a dizer que é uma resurreição? Não será a
historia da Restauração a nova historia de um paiz, que, destruida a
obra do imperio ultramarino, surge, no XVI seculo, como no nosso
appareceu a Belgica, filho das necessidades do equilibrio europeu? Não
vivemos desde 1641 sob o protectorado da Inglaterra? Não chegámos a ser
positivamente uma feitoria britannica? E ainda no decurso d'esta
historia o Brazil veiu, enchendo-nos de oiro, prestar-nos um ponto do
apoio extra-europeu, e como que restaurar o antigo caracter do Portugal
manuelino, capital europêa de um imperio ultramarino, á maneira da
Hollanda. E que melhor prova póde haver da nossa desorganização do que a
duração ephemera da obra do marquez de Pombal--o estadista que concebeu
a verdadeira restauração de Portugal, chegando por um momento a fazer
d'elle outra vez uma nação independente? que melhor prova do que a
reacção victoriosa de D. Maria I?
A perda do Brazil, reduzindo o reino á miseria, veiu mostrar a
fragilidade do nosso edificio politico. Os inglezes tiveram de nos
tutelar para manter, como lhes convinha, a dynastia de Bragança; e
passada, vencida a crise, appareceu com o liberalismo a impotencia
manifesta de restaurar a vida historica de uma nação imperial ou
colonial.[20]
Não confundamos, pois, pelo amor de tudo o que ha sensato, o patriotismo
com as questões e problemas scientificos das origens naturaes ethnicas.
Tambem a Suissa, alleman, italiana, franceza, odiou o austriaco, á
maneira por que nós _odiamos Castella_. Basta a historia, basta o
interesse, para dar homogeneidade social e politica a um povo; e basta
essa homogeneidade para crear um patriotismo. Ora o patriotismo das
raças assim formadas exprime-se na acção, e não em miragens enganadoras
de um passado que a historia acaba. Na sua lingua, nas suas tradições,
no seu caracter, o celta da Irlanda encontra sempre um ponto de apoio
vivo e positivo. Quereis uma prova da differença? Os pontos de apoio que
nós buscamos são mortos ou negativos: morto o imperio maritimo e
colonial, a India, e toda a historia que terminou com os _Lusiadas_ em
1580: negativo, o _odio a Castella_, que nem nos opprime, nem nos odeia.
* * * * *
Se a unidade da raça primitiva se não vê, menos ainda Portugal obedece
na sua formação ás ordens da geographia: os barões audazes, ávidos e
turbulentos são ao mesmo tempo ignorantes de theorias e systemas. Vão
até onde vae a ponta da sua espada: tudo lhes convém, tudo lhes serve,
com tanto que alarguem o seu dominio.
Por isso as fronteiras de Portugal oscillam durante os primeiros dois
seculos á mercê dos azares das guerras, com Leão e Castella de um lado,
com os sarracenos do outro; e Portugal vem a ser formado com dois
fragmentos: do reino leonez, um, dos émirados sarracenos, outro.
Quando Fernando-Magno de Castella, descendo do oriente, conquistou a
moderna Beira aos musulmanos,[21] a Galliza encontrou em
Coimbra e na linha de defeza do Mondego uma fronteira que a punha ao
abrigo de futuras correrias, até ou além do valle do Douro. Pelo meiado
do XI seculo a expressão geographica de Galliza ia, pois, até ao
Mondego; porém, as novas conquistas tinham sido constituidas pelo rei
n'um governo, ou condado, cujos limites eram, pelo norte, o Douro; e a
leste, uma linha passada por Lamego, Vizeu e Cêa, e que, descendo de
novo á costa, acompanhava os pendores setentrionaes da serra da
Estrella. Condado de Galliza ao norte, de Coimbra ao sul do Douro,
sarracenos ao sul do Mondego: eis ahi a condição do territorio do
moderno Portugal na segunda metade do XI seculo.
Já, porém, n'esta epocha, uma expressão a que não correspondia valor
politico, militar ou administrativo, apparece a designar o territorio de
entre o Douro e o Minho e a moderna provincia de Traz-os-Montes: a essa
parte do condado da Galliza chama-se já Portucale.
Nos ultimos annos do XI seculo correrias felizes deram ao celebre
Affonso VI a posse de Santarem, Lisboa e Cintra, alargando as fronteiras
christans até á linha do Tejo. Os nossos territorios de entre Mondego e
Tejo foram creados em condado ou governo, e confiados á guarda de
Gonçalo Mendes da Maia, o nomeado _lidador_: e os tres governos que
tinham por limites successivos o Douro, o Mondego e o Tejo, constituiram
em favor do genro de Affonso VI, Raymundo de Borgonha, uma especie de
vice-reino. Breve foi, porém, a duração d'este periodo; porque logo em
1097, depois do desbarato do conde borguinhão e da perda da fronteira do
Tejo, Affonso VI effectua uma nova divisão do territorio, dando
autonomia politica á expressão geographica de Portucale ou Portugal, e
annexando-lhe o antigo condado de Coimbra. O condado portucalense, por
tal fórma engrandecido, foi dado a um primo do conde da Galliza, e os
seus dominios recuavam assim de golpe desde o Tejo até ao Minho. Esse
primo era o conde D. Henrique, tambem genro do poderoso Affonso VI.
Na primeira metade do XII seculo, o conde e a viuva sua herdeira levam
as fronteiras do seu Estado, para leste, até Zamora, e para norte, por
entre Minho e Bivey, até Tuy e Orense. As guerras civis dos Estados da
Peninsula davam e tiravam assim, constantemente, territorios e
povoações. A fronteira norte-leste breve regressa, porém, aos seus
actuaes limites de além-Douro; mas o governo de Affonso Henriques, o
primeiro que ousou quebrar de todo os laços tenues da vassallagem a
Leão, viu alargar-se do lado opposto a raia até á linha do Sado, desde
que, no meiado do XII seculo, Lisboa, Santarem, Cintra, Almada e
Palmella cairam definitivamente em seu poder, accrescentando novas
terras ás do primitivo condado portucalense.
As fronteiras do norte e leste, no além-Douro, eram já, ao tempo da
accessão de Sancho I ao throno, as mesmas de hoje: margem esquerda do
Minho, por Melgaço a Lindoso, d'ahi a Bragança por Miranda, entestar com
o Douro no ponto em que agora se extremam Portugal e a Hespanha. A
fronteira de leste, entre Douro e Tejo, só no tempo de D. Diniz se
demarcou por onde hoje passa: no fim do XII seculo a raia seguia desde a
foz do Coa, rio acima, até á confluencia do Pinhel, e, acompanhando-o,
passava entre Sabugal e Sortelha, em demanda das fontes do Elga. D'ahi
ao Tejo, então e agora, a fronteira é a mesma.
Ao sul do Tejo é difficil, senão impossivel, determinar
chronologicamente as fronteiras portuguesas. A nacionalidade do dominio
nas cidades do Alemtejo permittiria traçar geographicamente a linha da
fronteira com uma aproximação conveniente, tanto mais que os territorios
de entre as cidades, devastados e ermos, eram posse de quem no momento
os pisava armado. Mas as successivas correrias de lado a lado, a tomada,
logo a queda; depois a reconquista de uma mesma cidade, ás vezes n'um
periodo de mezes, tornam impossivel demarcar a fronteira antes da epocha
em que definitivamente uma certa região passa para o dominio portuguez,
para d'elle não mais saír. Assim, a tomada de Evora em 1166 dá á linha
do Sado, pouco antes conquistada, um ponto de apoio a leste contra as
fortalezas sarracenas de Jerumenha, Elvas e Badajoz. Por ahi a raia
portugueza iria até Marvão, acaso até Arronches.
Tal é a linha das primeiras fronteiras do moderno Portugal.
No primeiro quartel do XIII seculo, Alcacer do Sal, base estrategica da
linha sarracena ao sul, e Elvas, padrasto avançado da linha de leste,
cáem em poder dos portuguezes; e á determinação final da nossa raia
alemtejana vem juntar-se, até ao meiado do seculo, a conquista do
Algarve, completando, entre o Guadiana e o mar, o moderno Portugal.
No ferir das guerras da conquista não são os musulmanos que põem um
freio á ambição pessoal dos principes, porque a sorte do imperio do
Islam estava lançada, e para a consummar concorriam todos os Estados
christãos da Peninsula. Será porventura a raça que delimita as
fronteiras da nova nação? Ocioso é já responder. Será a geographia? Não
parece; desde que vêmos a raia cortar de lado a lado as planicies do
Alemtejo, as bacias do Tejo e do Douro, e cair perpendicularmente sobre
as cumiadas das montanhas em vez de lhes seguir a orientação. Qual dos
tres elementos nos resta? O equilibrio. O equilibrio é com effeito o
elemento ponderador: á ambição dos principes de Portugal oppõe-se a
resistencia dos reis de Leão; as armas, invocadas, demonstram que, se um
dos antagonistas não tem força bastante para submetter o adversario, o
outro tem de usar com prudencia de um poder limitado. Quando tenta
passar além do Minho, ou adquirir para si Badajoz, a reacção mostra-lhe
até onde póde ir a acção dos meios de que dispõe. Do equilibrio ou
ponderação das duas forças antagonicas nasce a determinação geographica
do Portugal moderno, para o qual só no extremo norte e no extremo sul,
sobre o Minho e sobre o Guadiana, se assentou em admittir uma fronteira
natural.
Estas já longas explicações bastarão, parece-nos, a expôr claramente o
nosso pensamento. Ha ou não ha uma nacionalidade portugueza? Questão
absurda, assim formulada. Evidentemente ha, se nacionalidade quer dizer
nação. Se por nacionalidade se entende, porém, um corpo de população
ethnogenicamente homogeneo, localisado n'uma região naturalmente
delimitada, insistimos em dizer que tal cousa se não dá comnosco. Se por
nacionalidade se entende, finalmente, essa unidade social que a historia
imprime em povos submettidos ao regime de um governo, de uma lingua, de
uma religião irmans, como nós o temos sido durante sete seculos,
evidentemente a resposta só póde ser uma.
[7] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chron._,
pp., XXII e segg.
[8] V. _As raças humanas_, introd., pp. LXVII e segg.
[9] V. _Instit. primitivas_, pp. 290-306.
[10] O sr. F. Ad. Coelho.
[11] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.), pp. 122-5.
[12] V. As raças humanas, I, pp. 20-5.
[13] V. _Hist. da repub. romana_, I, pp. 117-45.
[14] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 81-111.
[15] V. _As raças humanas_, I, pp 20-5.
[16] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
pp. XXX-I.
[17] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
pp. XXVI-VII e _Instit. primit._, pp. 222 e segg.
[18] V. _Instit. primitivas_, pp. 233-43.
[19] V. _Raças humanas_, I, IV, 2, 3.
[20] V. _Portugal contemporaneo_, II, pp. 119-37.
[21] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 116-7.
* * * * *
III
Geographia portugueza
Quando se observa o retalho da Peninsula, de que a historia fez
Portugal, separado do corpo geographico a que pertence, desde logo se vê
como a vontade dos homens pôde sobrepujar as tendencias da natureza. Os
rios e as serranias descem, perpendiculares sobre a costa occidental,
proseguindo uma derrota e provindo de uma origem que se dilatam para
muito além das fronteiras, até ao coração do corpo peninsular. As
cumiadas das montanhas e os valles extensos mudam de nacionalidade
n'aquelle ponto convencional que aos homens aprouve fixar.
Não falta, porém, quem pretenda encontrar, no nosso proprio territorio,
motivos determinantes da constituição primordial da nação: tanto póde a
obcecação doutrinaria! Diz um que essa separação dos litoraes é uma
regra;[22] nega outro o caracter arbitrario da linha das
fronteiras de leste, affirmando que essa linha coincide com os limites
extremos até onde os nossos rios são navegaveis. Decerto nunca os viu
quem tal affirma. No Guadiana apenas se navega até Serpa, e entretanto o
rio é portuguez nas duas margens até Monsarás, formando a raia d'ahi até
Elvas. O Douro para cima da Regoa é tão navegavel até Zamora como até á
Barca-d'Alva. No Tejo, passando Abrantes, tanto se vae até Alcantara,
como até Aranjuez. Onde está pois a concordancia da fronteira com a
parte navegavel dos rios? A allegada _base geographica_ da nacionalidade
desapparece pois, se é que uma tal expressão não quer apenas denunciar o
destino maritimo, como que phenicio, da nação.
As duas cousas não devem, porém, confundir-se, pois n'um caso
encontramos a causa determinante da aggregação social, emquanto no outro
se observa a consequencia do facto da existencia anterior d'essa
aggregação, fortuitamente constituida n'um litoral. É evidente que o
caracter maritimo e colonial da nação portugueza, na segunda dynastia,
não podia ter influido no facto já secular da independencia. É sabido
que D. Affonso Henriques, o author d'ella, não tinha navios, servindo-se
dos dos Cruzados para tomar Lisboa e Alcacer. A marinha foi uma creação
da monarchia e um producto da nação, depois de constituida: o caracter
maritimo é historico, não é primitivo em um povo rural, como era o
portuguez dos primeiros tempos, e ainda hoje o é o gallego. O movimento
de deslocação da capital do reino para o sul, as medidas de D. Diniz, as
de D. Fernando, depois a empreza do Infante D. Henrique, são momentos
successivos de uma historia que é o nervo intimo da vida portugueza.
Desde a reunião das esquadras cruzadas no Tejo para a conquista de
Lisboa, desde a introducção dos genovezes, que vieram ensinar-nos a
navegar, vê-se começar a formar-se essa nação cosmopolita, destinada á
vida commercial, maritima e colonisadora.[23]
É essa a nação que a historia fórma: e por isso mesmo que a vida
portugueza foi maritima, e o destino da sua historia o mar: por isso
mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as
cidades maritimas de um paiz cuja capital é um dos melhores portos do
mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa não teria resistido á força
absorvente do movimento de unificação do corpo peninsular.
Erguido em frente do mar como um amphitheatro cujos primeiros degraus as
ondas constantemente aspergem, o territorio portuguez, independente,
adquiriu d'esta localisação um caracter seu: ao mesmo tempo que nos
habitantes de Portugal acaso uma diversa combinação de sangue favorecia
uma tendencia particular. Assim como, porém, as cristas das montanhas,
e, pelo coração dos valles, o curso dos nossos rios, são as veias e os
tendões que nos ligam ao corpo peninsular; assim tambem no nosso sangue
os elementos primitivos accusam o facto de uma origem e de uma raça irman.