aqui pômos um paradigma, para governo de educadores e educandos.
Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica exarado.
*Registro*
_Assumpto._--Um cão a ganir.
_Sons, que os cães produzem com a bocca_: Latido, uivo, rosnadura,
ganido. São substantivos. Ladrar, ou latir, uivar, rosnar, ganir.--São
verbos.
_Agouros._--Não os ha.
_Vozes de differentes animaes._--Cão, _ladra_; canario, _canta_;
cavallo, _relincha_; mocho, _pia_; gallinha, _cacareja_; gato, _mia_.
O _uivo dos cães_ não indica, nem póde indicar a morte de ninguem, nem
desgraça nenhuma. Se um cão uiva, pouco antes de morrer alguem, este
facto é apenas uma coíncidencia, um accaso.
* * * * *
O professor exigirá que os meninos, nas respostas que lhe derem,
empreguem sempre phrases completas, conformes ás leis grammaticaes,
simples e curtas quanto fôr possivel.
* * * * *
Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a repetição individual e
simultanea.
É um processo excellente, para conseguir que mais fundas se gravem
certas especies no espirito dos alumnos, e para corrigir defeitos de
expressão e pronuncia. No repetir em côro se deleitam as crianças muito,
mormente se o tom das vozes não é tristonho, mas alegre, musical,
variadissimo.
* * * * *
Ao minimo erro de regencia, de concordancia, ou de pronuncia, acudirá
logo o professor com a indispensavel advertencia, e tanto mais clara e
fervorosa, quanto mais grave fôr o erro. Suppunhâmos que um menino diga
_somentes_ em vez de somente, _faz-le_ por faz-lhe, _traz_ por traze,
_Madanela_ por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas corruptelas,
que deslustram a nossa lingua, e que a cada momento se nos deparam até
na conversação e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes.
Acto continuo advertil-o-ha o professor de que tal palavra não foi bem
pronunciada, e o convidará a que a repita correctamente. Se o estudante
não atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente partida
em syllabas, acompanhando cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa
com o ponteiro ou com a mão. Ouvida que seja a palavra assim
pronunciada, repetil-a-ha o estudante tantas vezes, quantas seja
necessario, para que a não altere, e após este exercicio dil-a-ha tão
rapidamente como é de uso dizer-se. Se ao professor parecer conveniente,
ordenará que outros estudantes façam o mesmo exercicio individualmente,
e por fim mandará que a palavra ou phrase seja cantada pela classe
inteira, attendendo muito a que o erro, que se pretendeu emendar, se não
repita. O que fica dito ácêrca das palavras em especial applica-se em
cheio ás phrases compostas de muitas palavras.
* * * * *
A falta de ordem e clareza no dizer é defeito grave, mas communissimo,
que tem raizes na escola primaria, e que por isso mesmo ou nunca se
perde ou só com muito trabalho se consegue extirpar. A fim de prevenil-o
e de combatel-o comece o educador dando exemplo de imperturbavel ordem
na exposição, de esmerada escolha dos termos, de grande sobriedade nos
incidentes, e de irreprehensivel rigor nas conclusões; tudo isto sem
apparato, nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; e
esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o gosto de bem fallar, cortando
todas as imperfeições mal apontem nos labios infantís. Cabe n'este logar
uma recommendação, nunca assás repetida. Nas ruas, nas aulas, nos
theatros, nas conversações familiares, e, quando Deus é servido, até no
parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo palavras e phrases, que,
com quanto não sejam deshonestas, são tão grosseiras e plebeas, que
nenhuma pessoa delicada as deveria empregar. Quasi sempre se ignora a
origem d'aquelles termos, muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo
expressivos e por vezes engraçados, mas que nem por isso deixam de ser
baixos e vis. Em evital-os seja fervorosissimo todo o educador, sem
comtudo levar o zelo até ao ponto de banir da conversação escolar as
locuções pittorescas e folgazãs, que alegram a linguagem, sem mareal-a.
* * * * *
Assim como as leituras e recitações soturnas, pesadas, substanciosas, e
extensas, aborrecem ás crianças e não lhes prendem a attenção, assim a
poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e apologos, as
anecdotas e proloquios lhes aprazem sobremodo e de tal arte se lhes
apegam á memoria, que não mais as esquecem.
Verdade é que Voltaire arguïu os fabulistas de quererem ensinar as
verdades moraes por um processo essencialmente mentiroso, pondo a fallar
animaes e plantas; e condemnou a leitura e recitação de taes composições
nas primeiras edades. Tem porem mostrado a experiencia que Esopo,
Phedro, La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos moralisam
mais, e muito mais que a _Introducção á vida devota_, que o _Flos
Sanctorum_, e que o _Thesouro de meninos_, e quantos outros escriptos,
ainda que sejam verdadeiros na essencia e correctos na fórma, se hão
publicado para edificação das almas, mormente em quanto n'estas se não
ha robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se pois d'este meio
os educadores, lendo de vez em quando á escola uma fabula, que tenha
relação com os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; contando a
proposito uma anecdota, ou repetindo algum dos muitos e verdadeirissimos
rifões, de que tão rica é a lingua portugueza. Dos bons poetas
nacionaes, tanto modernos como antigos, poderá o educador escolher
infinita copia de versos em todos os generos, com os quaes irá
perfumando as lições e desenvolvendo na puericia o gosto da poesia, que
alarga a imaginação, modifica e reprime as ruins paixões, consola o
espirito, e o dulcifica e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de
versos máos ou mediocres, não esquecendo jamais que _a poesia_ é, no
dizer de um dos mais elegantes e profundos escriptores de Portugal, o
sr. Latino Coelho, _a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; a gloria e a
humiliação; o triumpho e o martyrio; o genio e a loucura_.
No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente se deve
dirigir, desenvolver, e approximar da perfeição é a faculdade de
comparar, cujos defeitos inutilisam os esforços das faculdades, que a
antecedem, e obstam a que as superiores se exerçam como é mister. São
innumeraveis e quasi sempre facillimos os processos de comparação de que
o educador poderá fazer uso, desde a confrontação de dois feijões, ou de
dois alfinetes, etc., até ao estudo comparativo de duas poesias, de duas
obras de arte, do caracter de dois homens notaveis, de duas epocas
historicas. Não ha palavras para encarecer os resultados, que os estudos
d'esta ordem produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento
intellectual e moral das crianças.
* * * * *
A par com o estudo das cousas, podem e devem marchar os exercicios
attinentes ao aperfeiçoamento dos sentidos externos, e os preceitos
consoantes á sua hygiene. Todos terão observado que o exercicio de
certos orgãos concorre por muito para que os mesmos se apurem e tornem
cada vez mais delicados. Os homens do mar, acostumados a olhar muito ao
longe, e a buscarem a grandes distancias um objecto perceptivel, excedem
sempre em perspicacia os que teem vivido encerrados em horisontes menos
extensos.
Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, ainda mesmo nos
cheios, se qualquer dos executantes deu uma nota errada, ou commetteo
outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem nos corpos
qualidades, que pertencem ao dominio da visão, e executam trabalhos
manuaes difficeis e delicados, como aquelle cego de nascença, de que
falla o sr. dr. Centazzi na sua _Medicina_ e _Hygiene Popular_, que
existia na cidade de Faro, no Algarve, e que fazia peões, cubos, e
outras obras tão perfeitas, como as dos mais habeis mestres. Dos
provadores de vinho se sabe quão facilmente reconhecem pelo paladar o
merito, idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor.
Não se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, por mais bem dirigida
que seja na casa paterna e nas escolas infantís e primarias, venha a
produzir tão miraculosos resultados; mas é indubitavel, que lhes
corrigirá muitos defeitos, e que de dia para dia os hade ir tornando
mais apropriados aos importantissimos fins, para que a natureza os
destinou.
Os paes em suas casas, e os professores nas escolas poderão começar a
gymnastica dos sentidos pelo exame e comparação das côres. Mostrarão
primeiro aos educandos o vermelho, amarello, verde, azul, preto, branco;
depois differentes gradações de cada uma d'estas côres; em seguida as
côres de transição; apoz estas, todas as mais, que fôr possivel
apresentar-lhes. A pouco e pouco lh'as irão nomeando, e fazendo notar
tudo quanto convier que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento das
côres poder-se-hão seguir exercicios tendentes a apurar a vista, taes
como a inspecção de objectos collocados a distancia cada vez maior; a
leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, planetas e
constellações, cuja posição no espaço previamente se lhes tenha mostrado
no mappa.
Por meio de processos analogos se podem educar os outros sentidos,
ensinando-se ao mesmo tempo milhares de cousas.
* * * * *
Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, que se acostumem os
meninos a lerem e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em
algumas escolas temos notado quão pouco os professores attendem a esta
parte do ensino, consentindo que os estudantes exponham as lições e
respondam ás perguntas, que se lhes fazem, com extrema negligencia;
negligencia na pronunciação das palavras, cujos sons elementares
falseam; negligencia na declamação, que por muito precipitada, ou por
extremamente preguiçosa, se torna monotona e insuportavel; negligencia
na coordenação das idéas componentes dos raciocinios, e negligencia na
disposição d'estes.
Acudir com remedio a tantos defeitos é empreza ardua e enfadonha, mas de
que não ha de levantar mão o bom educador, sendo o seu primeiro e
persistente cuidado desarreigar os vicios da pronunciação, que
principalmente na côrte, trazem adulteradissimo o mais elegante e
donairoso de quantos idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o
italiano, ao qual, não obstante a sua nativa belleza e abundancia, não é
somenos.
Daria um livro a só enumeração das transgressões das regras orthoepicas,
que a cada momento se ouvem até em boccas de ouro; tão irresistivel é a
força dos maus exemplos! De entre as mais vulgares citaremos, para
amostra, o accrescentamento, ou paragoge de um _e_ mudo ao infinito dos
verbos, dizendo-se: _amare_, _fazere_, _comere_, _partire_, _pore_,
etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pôr. O mesmo
accrescentamento ao final das palavras, que terminam em consoante,
proferindo-se: _sole_, _flore_, _mulhere_, _metale_, em logar de sol,
flor, mulher, metal; o emprego do _a_ grave, onde deveria soar _e_
fechado, pronunciando-se _espâlho_, _panha_, _tanha_, etc., por espelho,
penha, tenha. A substituição grosseirissima de _le_ a lhe, dizendo se
_dei-le_, _mostrei-le_, _quizera-le_, em vez de dei-lhe, mostrei-lhe,
quizera-lhe; bem como o emprego de _lhe_, quando este pronome se refere
a mais de uma pessoa ou cousa, e de _lhes_, quando a referencia é a uma
só cousa ou pessoa. O emprego de _i_ em logar de _e_ em muitas palavras
taes como dedal, dedeira, deante, empenho, emprestar, que a mór parte da
gente pronuncia: _didal_, _dideira_, _diante_, ou _diente_, _impenho_,
ou _impanho_, _imprestar_.
De tanto e tão damninho joio irá o educador arrancando diariamente
muitas mãos cheias, desafogando a linguagem de todos quantos senões
n'ella fôr descobrindo, afim de que mais tarde, quando os meninos
entrarem a estudar os segredos da elocução, nem elles, nem os
professores tenham de perder muito tempo e muita paciencia em os
debellar. E não sómente aos erros da pronunciação se ha de ir applicando
prompto e efficaz remedio, mas tambem aos gallicismos e plebeismos de
que está inçada a nossa lingua, mórmente aos que respeitarem á
composição das phrases, havendo o maximo cuidado em não atordoar as
cabeças dos estudantinhos com preceitos de grammatica e considerações
philologicas.
Se um menino disser: Vi hoje na _montra_ de um livreiro uma linda
estampa; accudirá logo o educador: Não se diz _montra_; diz-se
mostrador; e fará que o mocinho repita a phrase, substituindo o termo
peregrino e escusado pela palavra portugueza. Diz outro: _Houveram_
hontem muitas festas de egreja; emendará sem demora o educador: Houve
hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha a que emende o erro. Se
algum menino lhe perguntar a razão por que tal palavra ou phrase se não
deve dizer, a resposta será regulada pela idade, intelligencia e
adiantamento do interrogante, de modo que, se elle fôr pequenino e muito
noviço em materias grammaticaes, só lhe dirá: Essa palavra não se deve
empregar porque é estranha á nossa lingua e desnecessaria; essa phrase
não é admissivel, porque não é conforme ás leis da grammatica, que é a
sciencia de bem fallar. E ahi fica o educando insensivelmente sabedor de
que a phrase, que empregou, não é boa; de qual ou quaes a devem
substituir; de que o discurso está subjeito a leis; e de que a sciencia
de fallar correctamente se chama grammatica.
Quanto mais não valerá a advertencia despretenciosa, que valeria um
discurso mui chorudo de citações e palavras latinas e gregas! Se o
pequenito, que os ha amigos de discutir e aferrados á propria opinião,
não largar voluntario a palavra, que ouvira ou lêra, bom será
convencel-o, não com argumentos scientificos, salvo se a sua
intelligencia os poder comprehender sem custo, mas por meio de um
simile. Poder-se-lhe-ha ponderar que assim como ninguem rasoavelmente
vae pedir emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia de
portas a dentro, nem vae ao mercado comprar fructa ruim, tendo-a famosa
no quintal, a bater-lhe nas vidraças, assim os portuguezes de bom juizo
e sufficiente instrucção, não devem andar tomando palavras e maneiras de
dizer a estranhos, quando até para repartir com elles lhes sobram
muitas.
Para conseguir que as crianças leiam e fallem com elegancia, e n'isto
vae o segredo da perfeitissima declamação, a primeira cousa, que o
educador tem a fazer, é acostumal-as ao rhythmo, tão bem aproveitado
pelo sr. Visconde de Castilho no seu _Methodo de leitura repentina_.
Por pouco que se pense na organisação de todo o apparelho vocal
(pulmões, larynge, bocca e narinas) nas relações d'aquelles orgãos e no
mechanismo da voz, facilmente se perceberá, que a palavra, no que tem de
physico, é verdadeira musica, com seus sons naturaes e accidentaes, com
sua oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, com os seus
tempos, já breves, já longos, e até com a expressão e timbre
variadissimo, que ás vibrações sonoras e musicaes, imprimem os
instrumentos.
Ora, como não ha musica, que tal se possa chamar, sem rhythmo e
expressão, claro está que a voz humana, para satisfazer ás condições da
arte, e bem servir a intelligencia, de que é a melhor reveladora, e até
parte integrante, no dizer de Condillac, deve ser rhytmica e expressiva.
Para que estas duas essenciaes qualidades lhe não faltem é indispensavel
em primeiro logar, que o educador habitue os meninos a obdecerem
escrupulosamente ao compasso, na pronunciação dos sons elementares
(vozes e consonancias) na dos compostos (diphthongos e syllabas) e na
recitação das palavras, que só poderá ser perfeita, quando tiverem sido
previamente divididas em tantos tempos, quantos forem seus elementos
syllabicos. Depois de bem amestrados por meio d'estes exercicios na
leitura auricular das palavras, que o educador para tal fim lhes ditará
em voz bem intelligivel, palmeando as primeiro mui vagarosamente, depois
um poucochinho mais depressa e por ultimo com o natural andamento,
passarão os meninos a _ler por cima_, como é uso dizer-se nas escolas.
Chegado a este ponto terá o educador de desvelar-se muito em supprir a
extrema penuria da orthographia, não tanto no tocante á representação
dos sons constituitivos das palavras, no que muito falta, como no que se
refere á divisão logica das orações, ás variadissimas pausas, que ha de
fazer o bom ledor e recitador perfeito; ás infinitas intonações de que
carecem as palavras, as proposições, os periodos e até um mesmo vocabulo
conforme a idéa que revela[1].
Ler ou fallar sem intonações, sem pausas, sem as devidas quantidades,
sem dar ao que se lê ou falla o natural colorido, e o relevo
indispensavel, vale tanto como querer executar em um piano
miseravelmente desafinado os primores de Rossini, Donizetti, Bellini,
Meyerbeer ou Marcos Portugal.
E não obstante serem intuitivas todas estas verdades, muitissimas
pessoas ha, que as desconhecem, e muitas que, não as desconhecendo, como
que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que provocam tedio e somno.
Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade de mostrar
praticamente a um educador, sempre avido de se aperfeiçoar, e em extremo
benevolente para comnosco, a introducção nas escolas infantís e
primarias, para o ensino e aperfeiçoamento da leitura e recitação de um
processo analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras e bandas
marciaes no estudo das peças concertantes. Consiste elle em se
collocarem os meninos em pé ou assentados, mas conservando direitos os
troncos e naturalmente levantadas as cabeças[2] em frente de estantes ou
mesas, onde estejam abertos os livros. Em logar elevado, de modo que
todos os escolares o vejam, está o educador em pé, batuta na mão, olhos
no livro e olhos na turba. Primeiro lê elle pausadamente em voz alta,
com todo o esmero, um periodo, marcando o compasso com a batuta,
repetindo duas ou mais vezes as palavras, que lhe parecerem mais
difficeis de pronunciar, e corrigindo sem o minimo acanhamento os
proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o mesmo trecho ao
estudante mais adiantado, depois a outro e outro, reservando para o fim
os menos habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar.
Findo que seja este segundo exercicio, e tomado algum descanço, dará o
signal de attenção e mandará ler em côro, indicando sempre com a batuta,
como se estivesse regendo uma orchestra, todas as modificações da voz,
que a leitura exigir.
A estes estudos, que bem se podem chamar de leitura coral, podem-se
accrescentar outros, excellentes para exercitar os meninos na
declamação, e mui bem acceitos do bando infantil, que consistem
primeiramente na leitura, e depois na recitação de cór, de pequenos
dialogos, fabulas, e entremezes, em que haja um côro e dois, tres, ou
mais interlocutores. Composições d'este genero facilmente se obtem, e
quando se não achem, sem muito custo as póde architectar o professor.
A par dos exercicios de leitura e recitação se póde ir cultivando a
intelligencia dos meninos, e acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se
com certo rigor logico. Nada ha mais facil.
Umas vezes elles mesmos subministrarão ao educador assumpto de molde
para os seus conselhos e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e
educador uma pergunta ou lhes proporá um problema, e nas respostas irá
notando as transgressões das leis da logica, que porventura commetterem,
nunca saindo do campo da pratica para o das theorias, nem usando da
terminologia scientifica, que nas idades tenras assusta, desgosta e não
instrue.
* * * * *
Cerraremos estas considerações lembrando aos educadores a vantagem de
excitar nos estudantes o amor do estudo pelo emprego de premios e
distincções.
Se no dizer de Christo «Todo o que trabalha é digno de recompensa»
_Dignus est enim operarius mercede sua_, qual será a razão por que se
não hade galardoar o bom comportamento, a assiduidade no estudo, o
aceio, e o progresso dos meninos?
Se nas escolas superiores ha premios annuaes para os alumnos distinctos,
se as academias os offerecem aos sabios, que cabalmente satisfazem aos
seus programmas; se aos que triumpham nos certames das artes e da
industria se concede a menção honrosa, o _accessit_, a medalha de prata
ou a de ouro; se ha palmas e corôas, e ramalhetes, e brindes para o
actor eximio, e até para o que na praça lucta com o touro embravecido,
de melhormente se devem premiar as criancinhas, para as quaes o estudo,
por mais que lh'o procuremos amenisar, hade ser sempre tarefa improba e
tediosa.
Hade porém haver na concessão das distincções e premios escolares a
maxima parcimonia e inteira justiça, para que nem a prodigalidade lhes
diminua o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de incentivo do
bem, facho de discordias, e origem de malquerenças.
E assim como a advertencia e a reprehensão se não devem fazer esperar,
commettida a falta, assim tambem se não deve demorar, nem regatear o
galardão aos que o merecerem.
Finda a semana, a cada um se dará com certa solemnidade ou o diploma, ou
a medalha, ou a estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca gulodices
ou cousas, que os possam prejudicar.
Além d'estes estimulos, bom será que annualmente haja, como em muitos
collegios se usa, uma sessão publica consagrada á glorificação dos que
mais se houverem distinguido.
Ponhamos aqui ponto, não porque hajamos dito quanto se poderia
recommendar aos educadores relativamente á difficilima empresa de
iniciar as criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque exposto
fica o que mais lhes convem saber para o bom emprego do ensino
intuitivo, que nos proposemos vulgarisar, convencidos da sua muita
utilidade. Os exemplos que seguem, não entram no plano de ensino
intuitivo _gradual_, que, se Deus fôr servido, daremos á estampa; são
tão sómente uma amostra, pela qual se possa fazer idéa do systema.
Preferimos para estes exemplos os assumptos e objectos, que nas suas
primeiras lições trataram Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em
materia de educação tem prestado relevantes serviços á humanidade,
adquirindo incontestavel direito a esta humilde, porém sincera
homenagem[3].
E já que fallámos de pedagogistas de tamanha nomeada, honremos aqui
tambem outro escriptor e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja
ultima obra, publicada em fins do anno de 1872: «_A educação maternal
conforme as leis da natureza_,» não inferior á tão justamente
applaudida: «_Educação das mães de familia_,» de Aimé Martin, hade
forçosamente contribuir muito para a reforma do actual viciosissimo
systema de educar a infancia, do qual o sr. Rambosson diz estas tão
tristes, quão verdadeiras palavras: _Il n'existe rien sous ce rapport,
ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler éducation ce que se
pratique pour cet âge_.
PRIMEIRA LIÇÃO
Ao entrarem a primeira vez na escola a maior parte dos meninos receiam;
muítos d'elles temem.
Que receiam e que temem?
Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario de suas mães e paes; o
affastamento de seus irmãos e criados; o professor, que desconhecem; os
condiscipulos, que nunca viram; a casa da aula, que lhes é estranha; a
sciencia que ignoram.
Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se apartam do ninho seu
paterno, mais desbotadas levam as faces, mais tremem e se angustiam ao
aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, que se lhes afigura
medonho ergastulo.
Na repugnancia, que os meninos tem á escola, são quasi sempre culpados
os paes e as mães, porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem d'ella,
de lhes mostrarem que está alli o alvorecer de todas as artes e
sciencias, de lhes dizerem que é aquella a unica porta por onde se entra
á vida publica, na qual terão, quando homens, de tomar parte, de lhes
explicarem a missão do professor e de lhes expenderem que n'elle
accrescem aos deveres de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto
fazem, e só invocam o santo nome da escola, quando irritados pelas
travessuras das crianças, que não querem ou não sabem remediar com
brandura, bons conselhos, bons exemplos e moderadas correcções,
pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes para aquella... penitenciaria.