E como a extrema concisão seja a melhor qualidade de taes escriptos,

aqui pômos um paradigma, para governo de educadores e educandos.

Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica exarado.

*Registro*

_Assumpto._--Um cão a ganir.

_Sons, que os cães produzem com a bocca_: Latido, uivo, rosnadura,

ganido. São substantivos. Ladrar, ou latir, uivar, rosnar, ganir.--São

verbos.

_Agouros._--Não os ha.

_Vozes de differentes animaes._--Cão, _ladra_; canario, _canta_;

cavallo, _relincha_; mocho, _pia_; gallinha, _cacareja_; gato, _mia_.

O _uivo dos cães_ não indica, nem póde indicar a morte de ninguem, nem

desgraça nenhuma. Se um cão uiva, pouco antes de morrer alguem, este

facto é apenas uma coíncidencia, um accaso.

* * * * *

O professor exigirá que os meninos, nas respostas que lhe derem,

empreguem sempre phrases completas, conformes ás leis grammaticaes,

simples e curtas quanto fôr possivel.

* * * * *

Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a repetição individual e

simultanea.

É um processo excellente, para conseguir que mais fundas se gravem

certas especies no espirito dos alumnos, e para corrigir defeitos de

expressão e pronuncia. No repetir em côro se deleitam as crianças muito,

mormente se o tom das vozes não é tristonho, mas alegre, musical,

variadissimo.

* * * * *

Ao minimo erro de regencia, de concordancia, ou de pronuncia, acudirá

logo o professor com a indispensavel advertencia, e tanto mais clara e

fervorosa, quanto mais grave fôr o erro. Suppunhâmos que um menino diga

_somentes_ em vez de somente, _faz-le_ por faz-lhe, _traz_ por traze,

_Madanela_ por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas corruptelas,

que deslustram a nossa lingua, e que a cada momento se nos deparam até

na conversação e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes.

Acto continuo advertil-o-ha o professor de que tal palavra não foi bem

pronunciada, e o convidará a que a repita correctamente. Se o estudante

não atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente partida

em syllabas, acompanhando cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa

com o ponteiro ou com a mão. Ouvida que seja a palavra assim

pronunciada, repetil-a-ha o estudante tantas vezes, quantas seja

necessario, para que a não altere, e após este exercicio dil-a-ha tão

rapidamente como é de uso dizer-se. Se ao professor parecer conveniente,

ordenará que outros estudantes façam o mesmo exercicio individualmente,

e por fim mandará que a palavra ou phrase seja cantada pela classe

inteira, attendendo muito a que o erro, que se pretendeu emendar, se não

repita. O que fica dito ácêrca das palavras em especial applica-se em

cheio ás phrases compostas de muitas palavras.

* * * * *

A falta de ordem e clareza no dizer é defeito grave, mas communissimo,

que tem raizes na escola primaria, e que por isso mesmo ou nunca se

perde ou só com muito trabalho se consegue extirpar. A fim de prevenil-o

e de combatel-o comece o educador dando exemplo de imperturbavel ordem

na exposição, de esmerada escolha dos termos, de grande sobriedade nos

incidentes, e de irreprehensivel rigor nas conclusões; tudo isto sem

apparato, nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; e

esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o gosto de bem fallar, cortando

todas as imperfeições mal apontem nos labios infantís. Cabe n'este logar

uma recommendação, nunca assás repetida. Nas ruas, nas aulas, nos

theatros, nas conversações familiares, e, quando Deus é servido, até no

parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo palavras e phrases, que,

com quanto não sejam deshonestas, são tão grosseiras e plebeas, que

nenhuma pessoa delicada as deveria empregar. Quasi sempre se ignora a

origem d'aquelles termos, muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo

expressivos e por vezes engraçados, mas que nem por isso deixam de ser

baixos e vis. Em evital-os seja fervorosissimo todo o educador, sem

comtudo levar o zelo até ao ponto de banir da conversação escolar as

locuções pittorescas e folgazãs, que alegram a linguagem, sem mareal-a.

* * * * *

Assim como as leituras e recitações soturnas, pesadas, substanciosas, e

extensas, aborrecem ás crianças e não lhes prendem a attenção, assim a

poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e apologos, as

anecdotas e proloquios lhes aprazem sobremodo e de tal arte se lhes

apegam á memoria, que não mais as esquecem.

Verdade é que Voltaire arguïu os fabulistas de quererem ensinar as

verdades moraes por um processo essencialmente mentiroso, pondo a fallar

animaes e plantas; e condemnou a leitura e recitação de taes composições

nas primeiras edades. Tem porem mostrado a experiencia que Esopo,

Phedro, La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos moralisam

mais, e muito mais que a _Introducção á vida devota_, que o _Flos

Sanctorum_, e que o _Thesouro de meninos_, e quantos outros escriptos,

ainda que sejam verdadeiros na essencia e correctos na fórma, se hão

publicado para edificação das almas, mormente em quanto n'estas se não

ha robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se pois d'este meio

os educadores, lendo de vez em quando á escola uma fabula, que tenha

relação com os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; contando a

proposito uma anecdota, ou repetindo algum dos muitos e verdadeirissimos

rifões, de que tão rica é a lingua portugueza. Dos bons poetas

nacionaes, tanto modernos como antigos, poderá o educador escolher

infinita copia de versos em todos os generos, com os quaes irá

perfumando as lições e desenvolvendo na puericia o gosto da poesia, que

alarga a imaginação, modifica e reprime as ruins paixões, consola o

espirito, e o dulcifica e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de

versos máos ou mediocres, não esquecendo jamais que _a poesia_ é, no

dizer de um dos mais elegantes e profundos escriptores de Portugal, o

sr. Latino Coelho, _a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; a gloria e a

humiliação; o triumpho e o martyrio; o genio e a loucura_.

No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente se deve

dirigir, desenvolver, e approximar da perfeição é a faculdade de

comparar, cujos defeitos inutilisam os esforços das faculdades, que a

antecedem, e obstam a que as superiores se exerçam como é mister. São

innumeraveis e quasi sempre facillimos os processos de comparação de que

o educador poderá fazer uso, desde a confrontação de dois feijões, ou de

dois alfinetes, etc., até ao estudo comparativo de duas poesias, de duas

obras de arte, do caracter de dois homens notaveis, de duas epocas

historicas. Não ha palavras para encarecer os resultados, que os estudos

d'esta ordem produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento

intellectual e moral das crianças.

* * * * *

A par com o estudo das cousas, podem e devem marchar os exercicios

attinentes ao aperfeiçoamento dos sentidos externos, e os preceitos

consoantes á sua hygiene. Todos terão observado que o exercicio de

certos orgãos concorre por muito para que os mesmos se apurem e tornem

cada vez mais delicados. Os homens do mar, acostumados a olhar muito ao

longe, e a buscarem a grandes distancias um objecto perceptivel, excedem

sempre em perspicacia os que teem vivido encerrados em horisontes menos

extensos.

Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, ainda mesmo nos

cheios, se qualquer dos executantes deu uma nota errada, ou commetteo

outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem nos corpos

qualidades, que pertencem ao dominio da visão, e executam trabalhos

manuaes difficeis e delicados, como aquelle cego de nascença, de que

falla o sr. dr. Centazzi na sua _Medicina_ e _Hygiene Popular_, que

existia na cidade de Faro, no Algarve, e que fazia peões, cubos, e

outras obras tão perfeitas, como as dos mais habeis mestres. Dos

provadores de vinho se sabe quão facilmente reconhecem pelo paladar o

merito, idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor.

Não se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, por mais bem dirigida

que seja na casa paterna e nas escolas infantís e primarias, venha a

produzir tão miraculosos resultados; mas é indubitavel, que lhes

corrigirá muitos defeitos, e que de dia para dia os hade ir tornando

mais apropriados aos importantissimos fins, para que a natureza os

destinou.

Os paes em suas casas, e os professores nas escolas poderão começar a

gymnastica dos sentidos pelo exame e comparação das côres. Mostrarão

primeiro aos educandos o vermelho, amarello, verde, azul, preto, branco;

depois differentes gradações de cada uma d'estas côres; em seguida as

côres de transição; apoz estas, todas as mais, que fôr possivel

apresentar-lhes. A pouco e pouco lh'as irão nomeando, e fazendo notar

tudo quanto convier que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento das

côres poder-se-hão seguir exercicios tendentes a apurar a vista, taes

como a inspecção de objectos collocados a distancia cada vez maior; a

leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, planetas e

constellações, cuja posição no espaço previamente se lhes tenha mostrado

no mappa.

Por meio de processos analogos se podem educar os outros sentidos,

ensinando-se ao mesmo tempo milhares de cousas.

* * * * *

Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, que se acostumem os

meninos a lerem e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em

algumas escolas temos notado quão pouco os professores attendem a esta

parte do ensino, consentindo que os estudantes exponham as lições e

respondam ás perguntas, que se lhes fazem, com extrema negligencia;

negligencia na pronunciação das palavras, cujos sons elementares

falseam; negligencia na declamação, que por muito precipitada, ou por

extremamente preguiçosa, se torna monotona e insuportavel; negligencia

na coordenação das idéas componentes dos raciocinios, e negligencia na

disposição d'estes.

Acudir com remedio a tantos defeitos é empreza ardua e enfadonha, mas de

que não ha de levantar mão o bom educador, sendo o seu primeiro e

persistente cuidado desarreigar os vicios da pronunciação, que

principalmente na côrte, trazem adulteradissimo o mais elegante e

donairoso de quantos idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o

italiano, ao qual, não obstante a sua nativa belleza e abundancia, não é

somenos.

Daria um livro a só enumeração das transgressões das regras orthoepicas,

que a cada momento se ouvem até em boccas de ouro; tão irresistivel é a

força dos maus exemplos! De entre as mais vulgares citaremos, para

amostra, o accrescentamento, ou paragoge de um _e_ mudo ao infinito dos

verbos, dizendo-se: _amare_, _fazere_, _comere_, _partire_, _pore_,

etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pôr. O mesmo

accrescentamento ao final das palavras, que terminam em consoante,

proferindo-se: _sole_, _flore_, _mulhere_, _metale_, em logar de sol,

flor, mulher, metal; o emprego do _a_ grave, onde deveria soar _e_

fechado, pronunciando-se _espâlho_, _panha_, _tanha_, etc., por espelho,

penha, tenha. A substituição grosseirissima de _le_ a lhe, dizendo se

_dei-le_, _mostrei-le_, _quizera-le_, em vez de dei-lhe, mostrei-lhe,

quizera-lhe; bem como o emprego de _lhe_, quando este pronome se refere

a mais de uma pessoa ou cousa, e de _lhes_, quando a referencia é a uma

só cousa ou pessoa. O emprego de _i_ em logar de _e_ em muitas palavras

taes como dedal, dedeira, deante, empenho, emprestar, que a mór parte da

gente pronuncia: _didal_, _dideira_, _diante_, ou _diente_, _impenho_,

ou _impanho_, _imprestar_.

De tanto e tão damninho joio irá o educador arrancando diariamente

muitas mãos cheias, desafogando a linguagem de todos quantos senões

n'ella fôr descobrindo, afim de que mais tarde, quando os meninos

entrarem a estudar os segredos da elocução, nem elles, nem os

professores tenham de perder muito tempo e muita paciencia em os

debellar. E não sómente aos erros da pronunciação se ha de ir applicando

prompto e efficaz remedio, mas tambem aos gallicismos e plebeismos de

que está inçada a nossa lingua, mórmente aos que respeitarem á

composição das phrases, havendo o maximo cuidado em não atordoar as

cabeças dos estudantinhos com preceitos de grammatica e considerações

philologicas.

Se um menino disser: Vi hoje na _montra_ de um livreiro uma linda

estampa; accudirá logo o educador: Não se diz _montra_; diz-se

mostrador; e fará que o mocinho repita a phrase, substituindo o termo

peregrino e escusado pela palavra portugueza. Diz outro: _Houveram_

hontem muitas festas de egreja; emendará sem demora o educador: Houve

hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha a que emende o erro. Se

algum menino lhe perguntar a razão por que tal palavra ou phrase se não

deve dizer, a resposta será regulada pela idade, intelligencia e

adiantamento do interrogante, de modo que, se elle fôr pequenino e muito

noviço em materias grammaticaes, só lhe dirá: Essa palavra não se deve

empregar porque é estranha á nossa lingua e desnecessaria; essa phrase

não é admissivel, porque não é conforme ás leis da grammatica, que é a

sciencia de bem fallar. E ahi fica o educando insensivelmente sabedor de

que a phrase, que empregou, não é boa; de qual ou quaes a devem

substituir; de que o discurso está subjeito a leis; e de que a sciencia

de fallar correctamente se chama grammatica.

Quanto mais não valerá a advertencia despretenciosa, que valeria um

discurso mui chorudo de citações e palavras latinas e gregas! Se o

pequenito, que os ha amigos de discutir e aferrados á propria opinião,

não largar voluntario a palavra, que ouvira ou lêra, bom será

convencel-o, não com argumentos scientificos, salvo se a sua

intelligencia os poder comprehender sem custo, mas por meio de um

simile. Poder-se-lhe-ha ponderar que assim como ninguem rasoavelmente

vae pedir emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia de

portas a dentro, nem vae ao mercado comprar fructa ruim, tendo-a famosa

no quintal, a bater-lhe nas vidraças, assim os portuguezes de bom juizo

e sufficiente instrucção, não devem andar tomando palavras e maneiras de

dizer a estranhos, quando até para repartir com elles lhes sobram

muitas.

Para conseguir que as crianças leiam e fallem com elegancia, e n'isto

vae o segredo da perfeitissima declamação, a primeira cousa, que o

educador tem a fazer, é acostumal-as ao rhythmo, tão bem aproveitado

pelo sr. Visconde de Castilho no seu _Methodo de leitura repentina_.

Por pouco que se pense na organisação de todo o apparelho vocal

(pulmões, larynge, bocca e narinas) nas relações d'aquelles orgãos e no

mechanismo da voz, facilmente se perceberá, que a palavra, no que tem de

physico, é verdadeira musica, com seus sons naturaes e accidentaes, com

sua oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, com os seus

tempos, já breves, já longos, e até com a expressão e timbre

variadissimo, que ás vibrações sonoras e musicaes, imprimem os

instrumentos.

Ora, como não ha musica, que tal se possa chamar, sem rhythmo e

expressão, claro está que a voz humana, para satisfazer ás condições da

arte, e bem servir a intelligencia, de que é a melhor reveladora, e até

parte integrante, no dizer de Condillac, deve ser rhytmica e expressiva.

Para que estas duas essenciaes qualidades lhe não faltem é indispensavel

em primeiro logar, que o educador habitue os meninos a obdecerem

escrupulosamente ao compasso, na pronunciação dos sons elementares

(vozes e consonancias) na dos compostos (diphthongos e syllabas) e na

recitação das palavras, que só poderá ser perfeita, quando tiverem sido

previamente divididas em tantos tempos, quantos forem seus elementos

syllabicos. Depois de bem amestrados por meio d'estes exercicios na

leitura auricular das palavras, que o educador para tal fim lhes ditará

em voz bem intelligivel, palmeando as primeiro mui vagarosamente, depois

um poucochinho mais depressa e por ultimo com o natural andamento,

passarão os meninos a _ler por cima_, como é uso dizer-se nas escolas.

Chegado a este ponto terá o educador de desvelar-se muito em supprir a

extrema penuria da orthographia, não tanto no tocante á representação

dos sons constituitivos das palavras, no que muito falta, como no que se

refere á divisão logica das orações, ás variadissimas pausas, que ha de

fazer o bom ledor e recitador perfeito; ás infinitas intonações de que

carecem as palavras, as proposições, os periodos e até um mesmo vocabulo

conforme a idéa que revela[1].

Ler ou fallar sem intonações, sem pausas, sem as devidas quantidades,

sem dar ao que se lê ou falla o natural colorido, e o relevo

indispensavel, vale tanto como querer executar em um piano

miseravelmente desafinado os primores de Rossini, Donizetti, Bellini,

Meyerbeer ou Marcos Portugal.

E não obstante serem intuitivas todas estas verdades, muitissimas

pessoas ha, que as desconhecem, e muitas que, não as desconhecendo, como

que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que provocam tedio e somno.

Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade de mostrar

praticamente a um educador, sempre avido de se aperfeiçoar, e em extremo

benevolente para comnosco, a introducção nas escolas infantís e

primarias, para o ensino e aperfeiçoamento da leitura e recitação de um

processo analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras e bandas

marciaes no estudo das peças concertantes. Consiste elle em se

collocarem os meninos em pé ou assentados, mas conservando direitos os

troncos e naturalmente levantadas as cabeças[2] em frente de estantes ou

mesas, onde estejam abertos os livros. Em logar elevado, de modo que

todos os escolares o vejam, está o educador em pé, batuta na mão, olhos

no livro e olhos na turba. Primeiro lê elle pausadamente em voz alta,

com todo o esmero, um periodo, marcando o compasso com a batuta,

repetindo duas ou mais vezes as palavras, que lhe parecerem mais

difficeis de pronunciar, e corrigindo sem o minimo acanhamento os

proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o mesmo trecho ao

estudante mais adiantado, depois a outro e outro, reservando para o fim

os menos habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar.

Findo que seja este segundo exercicio, e tomado algum descanço, dará o

signal de attenção e mandará ler em côro, indicando sempre com a batuta,

como se estivesse regendo uma orchestra, todas as modificações da voz,

que a leitura exigir.

A estes estudos, que bem se podem chamar de leitura coral, podem-se

accrescentar outros, excellentes para exercitar os meninos na

declamação, e mui bem acceitos do bando infantil, que consistem

primeiramente na leitura, e depois na recitação de cór, de pequenos

dialogos, fabulas, e entremezes, em que haja um côro e dois, tres, ou

mais interlocutores. Composições d'este genero facilmente se obtem, e

quando se não achem, sem muito custo as póde architectar o professor.

A par dos exercicios de leitura e recitação se póde ir cultivando a

intelligencia dos meninos, e acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se

com certo rigor logico. Nada ha mais facil.

Umas vezes elles mesmos subministrarão ao educador assumpto de molde

para os seus conselhos e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e

educador uma pergunta ou lhes proporá um problema, e nas respostas irá

notando as transgressões das leis da logica, que porventura commetterem,

nunca saindo do campo da pratica para o das theorias, nem usando da

terminologia scientifica, que nas idades tenras assusta, desgosta e não

instrue.

* * * * *

Cerraremos estas considerações lembrando aos educadores a vantagem de

excitar nos estudantes o amor do estudo pelo emprego de premios e

distincções.

Se no dizer de Christo «Todo o que trabalha é digno de recompensa»

_Dignus est enim operarius mercede sua_, qual será a razão por que se

não hade galardoar o bom comportamento, a assiduidade no estudo, o

aceio, e o progresso dos meninos?

Se nas escolas superiores ha premios annuaes para os alumnos distinctos,

se as academias os offerecem aos sabios, que cabalmente satisfazem aos

seus programmas; se aos que triumpham nos certames das artes e da

industria se concede a menção honrosa, o _accessit_, a medalha de prata

ou a de ouro; se ha palmas e corôas, e ramalhetes, e brindes para o

actor eximio, e até para o que na praça lucta com o touro embravecido,

de melhormente se devem premiar as criancinhas, para as quaes o estudo,

por mais que lh'o procuremos amenisar, hade ser sempre tarefa improba e

tediosa.

Hade porém haver na concessão das distincções e premios escolares a

maxima parcimonia e inteira justiça, para que nem a prodigalidade lhes

diminua o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de incentivo do

bem, facho de discordias, e origem de malquerenças.

E assim como a advertencia e a reprehensão se não devem fazer esperar,

commettida a falta, assim tambem se não deve demorar, nem regatear o

galardão aos que o merecerem.

Finda a semana, a cada um se dará com certa solemnidade ou o diploma, ou

a medalha, ou a estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca gulodices

ou cousas, que os possam prejudicar.

Além d'estes estimulos, bom será que annualmente haja, como em muitos

collegios se usa, uma sessão publica consagrada á glorificação dos que

mais se houverem distinguido.

Ponhamos aqui ponto, não porque hajamos dito quanto se poderia

recommendar aos educadores relativamente á difficilima empresa de

iniciar as criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque exposto

fica o que mais lhes convem saber para o bom emprego do ensino

intuitivo, que nos proposemos vulgarisar, convencidos da sua muita

utilidade. Os exemplos que seguem, não entram no plano de ensino

intuitivo _gradual_, que, se Deus fôr servido, daremos á estampa; são

tão sómente uma amostra, pela qual se possa fazer idéa do systema.

Preferimos para estes exemplos os assumptos e objectos, que nas suas

primeiras lições trataram Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em

materia de educação tem prestado relevantes serviços á humanidade,

adquirindo incontestavel direito a esta humilde, porém sincera

homenagem[3].

E já que fallámos de pedagogistas de tamanha nomeada, honremos aqui

tambem outro escriptor e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja

ultima obra, publicada em fins do anno de 1872: «_A educação maternal

conforme as leis da natureza_,» não inferior á tão justamente

applaudida: «_Educação das mães de familia_,» de Aimé Martin, hade

forçosamente contribuir muito para a reforma do actual viciosissimo

systema de educar a infancia, do qual o sr. Rambosson diz estas tão

tristes, quão verdadeiras palavras: _Il n'existe rien sous ce rapport,

ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler éducation ce que se

pratique pour cet âge_.

PRIMEIRA LIÇÃO

Ao entrarem a primeira vez na escola a maior parte dos meninos receiam;

muítos d'elles temem.

Que receiam e que temem?

Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario de suas mães e paes; o

affastamento de seus irmãos e criados; o professor, que desconhecem; os

condiscipulos, que nunca viram; a casa da aula, que lhes é estranha; a

sciencia que ignoram.

Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se apartam do ninho seu

paterno, mais desbotadas levam as faces, mais tremem e se angustiam ao

aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, que se lhes afigura

medonho ergastulo.

Na repugnancia, que os meninos tem á escola, são quasi sempre culpados

os paes e as mães, porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem d'ella,

de lhes mostrarem que está alli o alvorecer de todas as artes e

sciencias, de lhes dizerem que é aquella a unica porta por onde se entra

á vida publica, na qual terão, quando homens, de tomar parte, de lhes

explicarem a missão do professor e de lhes expenderem que n'elle

accrescem aos deveres de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto

fazem, e só invocam o santo nome da escola, quando irritados pelas

travessuras das crianças, que não querem ou não sabem remediar com

brandura, bons conselhos, bons exemplos e moderadas correcções,

pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes para aquella... penitenciaria.

Ensino intuitivo livro destinado às mães e paes de familia e às professoras e professores de instrucção primária · 第 2 / 6 段