Para os mais pequeninos, para aquelles que mais se lembram a

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Rita Farinha (Setembro 2010)

ENSINO INTUITIVO

LIVRO DESTINADO ÁS MÃES

E

PAES DE FAMILIA

E ÁS

PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA

POR

JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES

Socio honorario

da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da

Sociedade Pharmaceutica Lusitana

PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA

NATURAL

LISBOA

FERREIRA, LISBOA & C.^a

132--Rua Aurea--134

1873

ENSINO INTUITIVO

ENSINO INTUITIVO

LIVRO DESTINADO ÁS MÃES

E

PAES DE FAMILIA

E ÁS

PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCÇÃO PRIMARIA

POR

JOÃO JOSÉ DE SOUSA TELLES

Socio honorario

da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da

Sociedade Pharmaceutica Lusitana

PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCÇÃO Á HISTORIA

NATURAL

LISBOA

FERREIRA, LISBOA & C.^a

132--Rua Aurea--134

1873

LISBOA

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES

IMPRESSOR DA CASA REAL

110--Rua dos Calafates

Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Sr. Conselheiro José Silvestre Ribeiro

Ha annos, ouvindo os louvores, que á intelligencia e probidade de V.

Ex.^a tecia um dos mais peregrinos talentos de Portugal, o grande poeta,

hoje Visconde de Castilho, senti irresistivel desejo de ler os escriptos

de V. Ex.^a e de o conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e

com muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de V. Ex.^a

haviam saido, umas reunidas em volumes, outras espalhadas pelos

periodicos, todas porém rescendendo suave e, digamos assim, castissimo

perfume de natural bondade e heroicas virtudes, qualidades que para mim

valem muito mais que toda a erudição, e que realçam sobremodo a que v.

ex.^a possue vastissima, colhida no incessante estudo de quantos

engenhos famosos tem opulentado as sciencias, as artes e a litteratura.

Já eu, havia muito, conversava com V. Ex.^a em espirito e me reputava

seu discipulo amicissimo, quando tive a boa fortuna de fallar a V. Ex.^a

e de ser por V. Ex.^a acolhido com a benevolencia, que lhe conquista a

sympathia de quantos o tratam.

Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso offerecer a V.

Ex.^a este livro modestissimo, que se alguma cousa vale é pela boa fé

com que foi escripto.

É sympathico o assumpto; creio que é mais um brado pedindo a tão

necessaria reforma do ensino infantil e primario na casa paterna e na

escola, que tão pouco tem ainda de paternal. Será perdido, como os que o

viajante extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens?

Talvez.

Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr. Visconde de

Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia, nem aquella phrase,

que nos faz acreditar a fabula de Orphêo, nem a auctoridade d'aquella

quasi intuição do bom e do bello ha conseguido, que amanheça para as

criancinhas o dia da sua regeneração intellectual.

Não serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago do trabalho, que

puz em escrever estas paginas, se uma só mãe, que seja, ou um só mestre,

aproveitar os conselhos, que lhes dou, e se, quando mais não obtenha,

uma criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum bom

ensinamento a mais.

Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.^a a esta obrinha, imito

o bom do Aimé Martin e posso dizer a V.^a Ex.^a o que elle disse ao

mavioso Lamartine.

En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher mes

paroles aux vôtres, c'est d'étayer leur faiblesse de votre force, ma

raison de votre raison. Je veux qu'on dise un jour: Ceux-ci ont connu

les veritables biens, ils se rencontrèrent dans la même foi, ils

s'aimèrent devant le même Dieu.

De V. Ex.^a

Admirador muito amigo

João José de Sousa Telles.

Lisboa 7 de julho de 1873.

ENSINO INTUITIVO

O livro, que hoje publicâmos, é uma tentativa modesta de acclimação de

uma idéa excellente, que lá por fóra tem produzido optimos resultados.

Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas inglezes, allemães,

americanos, francezes, e belgas; e ainda que tantos homens

competentissimos em assumptos de ensino e educação nol-a não apregoassem

famosa, bastaria a simples enunciação d'ella, para que enthusiasticamente

a adoptassemos.

Antes, porém, de expôrmos minudenciosamente a idéa nova, e nova lhe

chamâmos attendendo ao pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de

razão nos parece conversarmos amigavelmente com o leitor ácerca de

alguns pontos da educação e instrucção elementar.

É a educação da puericia e da juventude a mais gloriosa e ao mesmo tempo

a mais difficil obrigação, que Deus impoz ao homem e á mulher.

Á luz da philosophia e da moral, a paternidade e a maternidade consistem

menos em gerar o infante, do que em desenvolver-lhe e aperfeiçoar-lhe

incessantemente as faculdades da alma e do corpo, até que possa cumprir

os seus deveres e arrostar as contrariedades da vida na curta, mas

trabalhosa peregrinação, que principia no berço e acaba no tumulo.

Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios ao seu alcance, para que

os filhos, creaturinhas imbelles, que a Providencia confiou a seus

cuidados, cheguem no mais curto espaço de tempo, e pelo emprego de

processos razoaveis, amenos, e repassados de amor e ternura ao estado de

perfeição physica, intellectual e moral, que constitue o homem, tal qual

deve ser, tal qual Deus quer que elle seja, tal qual a sociedade bem

organisada o requer, para obreiro prestadio da civilisação.

Infelizmente, nem todos os paes conhecem os seus deveres; e dos que os

conhecem, muitissimos ha, que os não cumprem, ou por modo mui imperfeito

se desempenham d'elles.

D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem os maiores males,

que affligem a humanidade, males para os quaes a maior parte das vezes

não ha remedio.

Tratando de assumpto differente, disse um douto, que muitas descobertas

se poderiam fazer, se opportunamente perguntassemos: _Por que?_

Appliquemos o engenhoso e facil processo de Arago ao exame das causas

determinantes de alguns vicios sociaes, e convencer-nos-hemos de quão

exacta é a nossa asserção.

Estamos na via publica. De toda a parte se nos apresentam creanças

esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas, famintas, petulantes; revolvem-se

umas na lama e no pó; dormem outras, tiritando, á chuva e ao vento;

estas divagam estendendo a mão asquerosa e pedindo uma esmola aos que

passam; aquellas soltam dos labios rosados palavras, que fazem enrubecer

os que as ouvem.

Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou, flôres no

esterquilinio, passarinhos implumes entre abutres esfaimados, anjos

manchando as azas na sujidade das calçadas.

Responder-vos-hão: Nossas mães e nossos paes.

Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando em redor, vendo

prepassar trens sumptuosos, soberbos cavallos, mulheres elegantes,

homens felizes e descuidósos. Chega-vos aos ouvidos um echo, um gemido,

um choro infantil; olhaes...

Que vêdes?

Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos, quasi morta de fome e

de frio uma criancinha, cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas

lagrimas da materna alegria, e aquecidas pelos beijos fervidos da que

lhe deu a existencia, se humedecem com as lagrimas da amargura infantil.

Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito, osculae aquella carinha

de jasmim e rosas, e perguntae-lhe:

Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado?

E a innocencia vos responderá, não com palavras, que as não sabe ainda

articular, mas com ternissimos soluços:

Abandonou-me meu pae e minha mãe.

Além vae caminho do cemiterio, a tumba, que andou de porta em porta

recolhendo os miseros, cujas familias não poderam coalhar o bastante

para o modesto funeral dos seus parentes.

Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para dentro.

Horror! exclamareis vós ao ver por entre os adultos exanimes, em

sacrilego desarranjo, um bando de creanças quasi esqueletos, rachiticas,

chagadas, meio apodrecidas, com signaes evidentes de terem vindo ao

mundo com o estigma da morte profundamente gravado nas frontes

innocentes.

Martyres obscuros, podereis vós dizer-lhes, para quem o mundo não teve

nem uma corôa, nem uma palma; estrellas cadentes, que brilhastes um

momento e desapparecestes n'um eterno occaso; quem assim vos macerou os

corpinhos, e vos deu a beber o fel da morte ao alvorecer da vida?

E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas na hastea, e

emurchecidas antes de desabrocharem, responderá:

Nossos paes e nossas mães.

Vêdes aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo pomadas, todo

essencias, gesto insolente, olhar altivo e desdenhoso, que vae rindo e

galhofando com outros da sua ralé.

Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros taes. Que bocadinhos de oiro

estará elle a dizer?

Escutae-o.

Mófa da religião, que desconhece; insulta os sacerdotes, que acertam de

passar junto d'elle; escandalisa as donzellas; zomba dos anciãos; aos

pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente.

Indagae como tão cedo se depravou aquelle moço, que deveria estar ainda

sentado no banco da escola.

Dir-vos-hão que á incuria paterna deve elle toda a sua ruina.

Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias, que rememoram a

angustiosa paixão e morte do grande amigo da humanidade.

Que observaes?

A turba irreverente, descomposta, sacrilega, rindo, conversando,

ostentando galas, trocando gracejos, costas para os altares, olhares

distrahidos, attitudes grosseiras e vilans.

Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos povoam aquellas

mentes? Que piedosos affectos existem em tantos corações?

Escandalisa-vos o desacato? Quereis saber porque na egreja estão, como

não poderiam estar na casa da opera?

Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe o que lhe hão dito seus

paes da grandiosa tragedia do Calvario; do incruento sacrificio, que a

representa, da respeitabilidade do altar, do valor das preces humildes e

sinceras?

Responder-vos-ha, sorrindo:

Não vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram d'essas coisas.

Que vozearia é aquella? Porque tantos gritos, tamanho borborinho?

Ergue-se um homem mal trajado, e arenga á turba.

Poucas palavras tem dito, e já uns o applaudem phreneticos, já outros o

vituperam enfurecidos.

É o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos. A onda encapellada

das ruins paixões sobe, sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o

Demosthenes improvisado.

Todos fallam, todos proclamam a idéa nova.

Ouçamol-os.

Abaixo os padres, não precisâmos d'elles; abaixo a religião, que para

nada presta; acabemos com a propriedade, os ricos só querem beber-nos o

sangue; viva o communismo, grita um; viva o socialismo, que é melhor,

responde outro; nada, nada d'isso, venha a republica.

Acabemos com os tributos e seremos felizes; e o exercito para que serve?

Elimine-se o exercito.

Pedi instrucção, pedi ensino facil, bom, universal, escolas primarias a

cada canto, bibliothecas populares, livros optimos ao alcance de todos

no preço e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e sonora um

operario, fronte ampla, respeitaveis cans, rosto sereno, mão calejada

pelo trabalho.

Fóra com o visionario brada a turba.

Que quer dizer instrucção? Para que servem os livros? Para que prestam

as escolas? regouga um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia

e occiosidade; e bradando á turba, após si a leva cançada, mas não

saciada de disparatar.

Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos de quem sejam

aquelles doidos.

Uns infelizes, dirá elle, bons corações, más cabeças. Pobresinhos todos;

porém mais pobres de instrucção que de dinheiro, porque todos tem

aptidão para o trabalho, mas a todos faltou a educação. Não tiveram

paes, como eu felizmente tive, que os mandassem ensinar. A mór parte nem

ler sabem, nem fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que seja

republica, socialismo, communismo, salario, religião, exercito, á boa fé

vos affirmo que não poderão responder coisa que geito tenha.

Mas deixemos estes homens, nem todos maus; muitos bonissimos,

desvairados pela febre ardente de antigos e profundos padecimentos, que

buscam a verdade e o bem, como os alchimistas da idade media, por meios

absurdos e inconvenientes, mas que tem a coragem de affrontar os

perigos, de sacrificar a propria vida, e de soffrer com a resignação dos

martyres dos primeiros seculos do christianismo esses hediondos

supplicios, a que ainda hoje o mundo civilisado assiste com profunda

magoa e indignação.

Volvamos os olhos para aquell'outros.

D'onde vem?

Das enxovias.

Para onde vão?

Para o degredo.

Homens, mulheres, crianças! Deixam a patria, os amigos, as familias, os

formosos campos, onde nasceram, este céo tão puro, este sol tão

esplendido, este clima tão amoravel, este abençoado e feracissimo

torrão, para irem em paizes inhospitos luctar com a morte opprobriosa,

ralados de saudades, roidos de remorsos, despreziveis aos olhos de

todos, e condemnados pela voz implacavel da propria consciencia.

Vãm alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas, patrecidas,

ladrões, incendiarios; todos os crimes, todas as torpezas, todas as

infamias, o lodo asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas da

ignorancia preversa, a lepra do grande corpo social.

Ponde os olhos n'aquelle quadro, mães e paes.

Não interrogueis os que o crime despenhou; não insulteis a desgraça; não

amargureis mais aquelles corações devastados e corroidos pelo crime,

onde poderá haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel; mas

perguntae a vós mesmos que educação receberam aquelles miseros de seus

progenitores? que sorrisos e carinhos lhes cercaram os berços? que

palavras ouviram aquelles entes ao entrar na vida? que exemplos tiveram

para seguir? quaes as escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram

n'aquelles corações? quantas vezes lhes apontaram para o céo e lhes

fallaram de Deus? que noções lhes deram da verdade, da justiça, da

honra, do dever? que meios empregaram para lapidarem aquelles diamantes?

que processo adoptaram para desinvolver-lhes a intelligencia?

E se não acertardes com as respostas a estas e a muitas outras

perguntas, que o caso suscita, ide-vos por essas cidades, e villas, e

aldeias, e povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles

infelizes. Raro achareis que se prevertesse o que dos paes houvesse

recebido desvelada educação.

Mas o que é educação desvelada?

Eis o ponto importantissimo, para o qual chamâmos a attenção de todos.

Não o desenvolveremos aqui. Assumpto é para um livro, e já larga e

proficientemente tratado por grandes mestres da sciencia de educar.

Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha, por desgraça nossa e

d'elles, que não comprehendem nem a extensão, nem a intensidade da

palavra educar.

Para uns educar é crear, é nutrir o animal, é desenvolver-lhe o physico;

e nem sempre conforme os dictames da medicina e da hygiene.

Para outros educar é iniciar a criança nas regras mais elementares da

leitura, da escripta, da contabilidade e de uma arte ou officio.

Não falta quem se vanglorie de ter educado bem, excellentemente, seus

filhos, por que lhes deu mestres de linguas antigas e modernas, de

geographia, de historia, de philosophia e de muitas outras cousas mais.

Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome sair laureado de uma escola

ou academia e entrar na sociedade precedido da fama de optimo estudante.

Tal outro se julga em paz com a sua consciencia e se tem por excellente

educador, porque o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das

columnas de um jornal assombra o mundo com seus artigos, ou deleita as

turbas com versos, que reputa mais correctos e melodiosos que os de

Camões, Garrett ou Castilho.

E consistirá em tão pouco a sciencia difficilima de educar?

Não, mil vezes não.

Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma certa porção de

intelligencia, susceptivel de indefinido desenvolvimento, crescer e

medrar no physico, permanecendo-lhe embryonaria a melhor das faculdades?

Que vale ao homem, que poderia elevar-se pelo estudo, pela leitura, pela

applicação das potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar do

progresso da humanidade, qualquer que fosse a sua posição social, saber

apenas os primeiros rudimentos das artes de aprender, e tanto pela

superficie, que nem d'elles se possa servir, a não ser nos mais simples

usos da vida?

Quantos e quantos dos que cursaram as escolas e as academias, e n'ellas

se distinguiram, tiveram mais trabalho em debellar os erros da educação

elementar do que em arcar com as difficuldades, e segredos das sciencias

superiores?

E quantos não vem dos institutos scientificos imperfeitamente

instruidos, não por culpa dos mestres, nem d'elles mesmos, mas pela

incuria e ignorancia dos paes e dos primeiros educadores?

Todos os homens intelligentes, que tem consagrado a vida ao magisterio

superior, reconhecem e confessariam, se quizessem, que a falta de

cultivo intellectual nas edades tenras difficulta extremamente aos

estudantes a comprehensão das sciencias, e os inhabilita para tirarem

dos cursos mais bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam obter.

D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confusão dos principios, a

impossibilidade das grandes concepções, a timidez na applicação pratica,

o desamor do estudo, que fecunda o que nas aulas se ouviu, e a propensão

para a preguiça, que se contenta com o pouco cabedal adquirido e não

busca grangear mais.

Se das escolas superiores passarmos ás secundarias, encontraremos as

mesmas causas produzindo os mesmos effeitos; e dir-nos-hão os

professores intelligentes e zelosos, que das mãos dos paes e dos

primarios educadores, receberam a mór parte dos alumnos com os olhos do

espirito tão cerrados ainda, que de todo desconheciam as verdades mais

elementares e intuitivas, os phenomenos mais simples e intelligiveis, as

relações mais claras.

Na escola primaria, o professor instruido, que comprehenda quanto tem de

nobre e grandioso o seu ministerio, em apparencia tão humilde, na

realidade tão augusto; que considere na criança o homem e no homem o

futuro todo inteiro da humanidade; que abranja com a vista o largo

horisonte das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje dissipar as

trevas d'aquelles entendimentos com luz tenue e suave, como convem a

edades infantis, tem ainda a luctar com os defeitos da educação

domestica, que devendo ser a primeira, a mais engenhosa, a mais

insistente, e mais efficaz, é muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e

quasi sempre deficiente.

E se o que vamos dizendo se applica em cheio á educação das faculdades

intellectuaes da puericia, que são ainda assim, as que os paes de

ordinario mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos, outro tanto se

póde asseverar da educação physica e moral.

Conhecida a doença, urge accudir-lhe com o remedio. Já o bom do

Jenuense, mestre de nossos paes, mestre de muitos de nós outros, que

hoje ensinamos e que suppômos ter alguma valia, e tão injustamente

esquecido e mettido para o canto, dizia:

_Principiis obsta, sero medecina paratur, cum mala per longas invaluére

moras._

«Acode ao doente apenas a molestia dê o primeiro rebate; que de nada lhe

prestará o remedio, tardio.»

E haverá remedios, que prestem para os males de que enferma a educação

elementar?

Ha, e muitos; o caso está em applicar-lh'os a tempo e judiciosamente.

Não todos apontaremos aqui, porque não é este livrinho um tratado de

pedagogia, mas tão sómente um, que valerá por muitos.

É remedio barato, condicção esta que não é para desprezar; de facil

manipulação; composto de simples, que por toda a parte e a toda a hora

se acham; e por cima de tudo isto, tão agradavel, que em vez de lhe

fazerem caretas, os que o devem tomar, o appetecem e pedem sequiosos e

nunca fartos de saboreal-o.

É este remedio o _Ensino intuitivo_.

Para applical-o, diga-se já e bem alta e claramente, nem todos servem.

Em mãos de ignorantes converte-se em veneno, e em vez de beneficios, só

produz males.

É indispensavel, pois, que paes e mestres, que hajam de o empregar,

possuam profundo e variado cabedal de conhecimentos.

Antes, porém, de entrarmos a dizer o que este ensino seja, convem que

nos lembremos das condicções organicas, physiologicas e intellectuaes

das crianças.

É o infante um organismo em via de formação, incompleto, fransino, em

que a vida animal consiste quasi exclusivamente no movimento tumultuoso,

na expansão incessante, na assimilação continua.

Abriu os olhos ha pouco, e ainda não teve tempo de ver bem o grandioso

espectaculo da natureza, cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe

hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam lá dentro, ainda confusas, as

harmonias, os ruidos, as palavras, que mal percebe; aspira sofrego os

aromas, que rescendem as flores, mas não os distingue; saborêa o nectar,

mas quererá tambem provar o fél e degustar o absintho; apalpa enlevado a

pelle assetinada e suavissima das faces maternas, mas queimar-se-ha

incauto na chama da véla, que admira, sem a comprehender.

No intimo, na cabeça, cujos óssos ainda se não consolidaram

completamente, no coração, que palpita violento, jorrando sangue para

todo o corpo, começam de germinar as idéas e os affectos, cuja

elaboração de hora para hora, de dia para dia, de mez para mez se

complica, e transmitte com incrivel velocidade.

São dois mundos luctando atravez do fragil envolucro, que chamâmos

corpo; o mundo externo, cujos variadissimos factos contempla attonito

sem suspeitar que os determinam infinitas leis, que os encadeam

reciprocamente innumeras relações, e que sobre elle actuam

incessantemente: o mundo interior, o mundo dos sentimentos, das ideas,

dos affectos, cuja admiravel genese começa, e que ha de irromper atravez

dos sentidos, e reagir violento sobre os modificadores de fóra.

A creança porque é um ente material, que tende a completar-se, carece de

muita alimentação, de muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento,

de liberdade, e de sensações variadas, mas suaves, que a deleitem, e que

attraiam a sua attenção.

Se todas ou algumas d'estas condicções lhe faltarem vel-a-heis

extinguir-se subito, como a luz de uma véla á mingua de oxigenio; ou

estiolar-se e pender para o tumulo, onde não tardará a sumir-se, como a

planta, que germinou em solo arido e assombrado.

Como creatura intelligente e moral, necessita que lhe dirijam e

robusteçam as faculdades, á proporção que se forem desenvolvendo,

ministrando-lhes objectos apropriados ás forças das mesmas faculdades, e

em quantidade tal, que nem as cancem, nem as desgostem.

No desprezo d'estes principios está, a nosso ver, o primeiro e mais

funesto erro do actual systema da educação infantil.

Na maxima parte das escolas da puericia entram quotidianamente as

criancinhas faltas do indispensavel alimento, e alli se conservam largas

horas em casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando ar

infecto, inhibidas de fazer os movimentos, que a sua edade

imperiosamente reclama, sem horisontes extensos e ridentes, que as

alegrem, sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos.

O mestre, senão carrancudo e severo, é quasi sempre sufficientemente

serio e concentrado, para não lhes incutir a confiança e amôr, que são

os mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes laços, que prendem o

discipulo ao perceptor.

Começa a lição. Não ha canticos, nem musicas, nem exercicios

gymnasticos, nem historiasinhas, que alegrem aquelles corações e

instruam aquellas mentes nas coisas, que com maior facilidade poderiam

comprehender.

Para os mais pequeninos, para aquelles que mais se lembram ainda dos

beijos maternaes e das doçuras da casa paterna, o triste e monotono a,

b, c, as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada. Para os

mais crescidinhos, a grammatica, a historia patria, a chorographia, a

doutrina christã.

Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo, que involuntariamente

decoram, e machinalmente repetem?

Nada, ou quasi nada.

Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais adiantado, o mais

estudioso, o que mais talento revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis

repetir o compendio, máo ou bom, com certa facilidade e elegancia; mas

se lhe perguntardes o sentido de uma palavra, a razão de um facto,

vel-o-heis córar e emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram

sempre em pousío as mais nobres faculdades da alma, excitando-lhe

apenas, e ainda assim por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar,

a memoria.

Olhar com seriedade para a educação e instrucção da infancia, e

reformal-a completamente, adequando-a ás edades dos estudantinhos, e

tornando-lh'a facilima, deleitavel, e todo o ponto util, é não só

necessidade urgente, senão dever impreterivel.

O primeiro passo para esta grande reformação, que o bom senso, a

sciencia, a caridade, e o interesse de todos nós estão ha muito a pedir

a grandes brados, dar-se-ha quando os governos, os municipios, as

associações e os particulares se resolverem a edificar casas para

escolas infantís, e primarias, espaçosas, alegres, agasalhadas, com o

seu jardim, meio descoberto, meio assombrado com arvoredo, tendo no

centro um pequeno lago ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos

gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil, preparo para a

primaria, fôr obrigatoria; quando o ensino da infancia fôr

esclusivamente confiado a mulheres intelligentes, instruidas, honestas e

amoraveis, que do coração se consagrem ao ministerio sacratissimo de

educadoras, e que a todos os discipulos, amem e acarinhem, como se

fossem todos elles seus filhos queridos; e quando finalmente o _Ensino

intuitivo_ se tornar obrigatorio e exclusivo nas escolas infantís; e

obrigatorio, como auxiliar de qualquer outro, nas escolas primarias e

secundarias.

Muitos annos hão de decorrer, infelizmente, primeiro que se realizem

estes nossos alvitres. Levantar-se-hão contra elles os ramerraneiros, os

enthusiastas do passado, os indifferentes, os que não crêem no

aperfeiçoamento humano começado a operar na escola infantil, os que só

vêem a prosperidade publica, no exercito, nas estradas, nos caminhos de

ferro, nos telegraphos electricos, nas escolas superiores, nas

academias, e nos museos, como se tudo isto não estivesse a pedir, para

ser verdadeiramente util, muita e sólida instrucção no povo, muita

moralidade, e muito amor ao trabalho, e como se estas indispensaveis

qualidades as podesse ter uma nação, onde não ha escolas infantís, onde

as escolas primarias são pouquissimas e defeituosas, onde os methodos de

ensino são ruins, e onde os professores, muitos d'elles dignissimos e

habeis, são tão vergonhosamente retribuidos, que para pobrissimamente

viverem, têm de se occupar em misteres totalmente alheios do ensino e

educação.

Muitos annos, repetimos, hão de decorrer primeiro que os exemplos da

America, generosissima com a instrucção primaria, sejam imitados na

extrema Europa.

Não o quer o _deficit_, exclamarão os financeiros, e applaudil-os-hão

todos os que mais ou menos manuseam o orçamento do estado.

Se a indole d'este escripto o permittisse, facil nos seria impugnar esta

nefasta e incessante invocação da pobreza publica, e mostrar que em

Portugal o que falta, e muito, é verdadeiro patriotismo, é sincera

vontade de progredir, é a iniciativa individual nos arrojados

commettimentos, caracteristicos dos povos, que comprehendem os seus

deveres de membros da grande familia social e que os não pospõe aos seus

interesses particulares.

Colhâmos, porém, as vélas ás considerações, que todos estes assumptos

nos suggeriram, e entremos já a dizer o que seja o _Ensino intuitivo_, e

as vantagens que d'elle resultam.

Todos os que lidam com crianças terão percebido que nas primeiras idades

é o homem dominado incessante e invencivelmente pela curiosidade, ou

desejo de saber; que para saciar esta inclinação empregam os infantes

não só os olhos, mas os outros sentidos; que ao verem um objecto,

mórmente se lhes agrada, ficam diante d'elle como que absortos, com os

olhos mui abertos, ás vezes quasi sem pestanejar; que se lh'o consentem,

tomam nas mãosinhas o que primeiro estiveram vendo, e o apalpam, a

principio com timidez, depois com afoiteza; que o levam ao nariz, e á

bocca, e que por fim começam de separar as partes de que se compõe, se

não é inteiriço.

Apoz tal exame, e ás vezes simultaneamente, chovem as perguntas:

O que é isto?

Quem fez?

De que é?

Para que serve?

Quem trouxe?

Terão tambem observado os educadores, que n'estes exercicios

instinctivos, as criancinhas, em geral, não comparam, nem por

consequencia raciocinam. Fazem como as abelhas, que andam de planta em

planta, de flôr em flôr, colligindo os materiaes com que mais tarde hão

de fabricar o seu mel. Com a differença que as abelhas nasceram aptas

para aquella industria e nunca em vez de mel nos dão outro produto; e as

criancinhas, artistas novéis, mas livres e dotadas de intelligencia

perfectivel, podem pela maneira imperfeita porque as suas faculdades

intellectuaes e moraes se começarem a desenvolver, e continuarem a

exercer-se, viciar de tal arte o espirito, que de futuro ou nada possam

conhecer bem, ou só com extrema difficuldade e grande dispendio de

tempo.

Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia e juventude, em

amenisar-lhe o começo da extensa e espinhosa senda, que tem de percorrer

na vida, em desenvolver-lhes e aperfeiçoar-lhes gradual e

insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes de copiosos e

variadissimos conhecimentos o espirito; em formar-lhes o coração,

desenvolvendo n'elle astuciosamente o gosto do bom, do bello e do

verdadeiro; em habilital-as o mais cedo possivel, sem a minima

violencia, para a vida pratica, deixando para tempo opportuno theorias e

systemas, para comprehender os quaes é mister intelligencia robusta, é

em que consiste o _Ensino intuitivo_.

É este ensino primeiro que tudo dos sentidos externos, os quaes á

maneira que se vão exercendo sobre os objectos, para lançarem no

espirito os germes de quantas sciencias e artes ha, se aperfeiçoam

insensivelmente, adquirindo cada dia mais vigor e aptidão.

É pois indispensavel que os educadores procurem especialmente que as

criancinhas empreguem os sentidos, ora simultanea, ora successivamente,

nas cousas que tenham de estudar, que as vejam de perto, que as tomem

nas mãos, que as cheirem, que as provem, quando não houver

inconveniente, que as dividam e recomponham, sem que se lembrem de que

estão a estudar.

Tudo servirá para estes exercicios intuitivos, se o educador tiver

instrucção variada e profunda. Tudo servirá, por que, como disse

Jacotot: _Tudo está em tudo_.

Um grão de areia, um alfinete, uma agulha, um botão, um palito, uma

moeda de prata ou cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva, serão

compendios tão importantes como um cavallo, uma ave, um peixe, um

relogio, uma caixa de musica, ou uma machina de cozer.

Milhares de cousas baratissimas se poderão apresentar aos estudantinhos

para larguissimamente os instruir; muitissimas haverá em todas as casas,

taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes qualidades,

flôres, fructos, relogios, thesouras, campainhas, etc. De um sem numero

de objectos se poderão obter modelos em ponto pequeno ou de madeira ou

de papelão, ou de qualquer outra substancia apropriada. Na falta

absoluta de exemplares naturaes, que são os melhores, ou de copias em

vulto, que servem perfeitamente, sendo bem feitas, empregar-se-hão com

muita vantagem estampas coloridas ou em negro. O que deve ser banido das

escolas infantís é o syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica,

o compendio de chorographia e o de civilidade. Da exposição, exame e

comparação das coisas ou das estampas, segundo o processo que já vamos

indicar, é que as crianças hão de ir colhendo as idéas exactas e claras,

que depois saberão associar ás mil maravilhas, formando espontaneamente

optimos juizos e raciocinios.

Tratando das viagens de Homero e do estudo pratico das pessoas e cousas,

que habilitou o immortal filho de Climene a compôr os protentos

litterarios denominados _Iliada_ e _Odysséa_, diz Bitaubé o seguinte,

que é a expressão da verdade: «Os livros são uteis, mas favorecem certa

indolencia, que obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo, vemos

a maior parte das cousas pelos olhos dos outros, e representâmos ao

nosso espirito imagens de outras imagens; se observassemos directamente

os objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente no espirito.

Qual é o resultado da falta de observação directa? É perdermos a

perspicacia e sagacidade indispensaveis para observar com perfeição á

força de não as exercitarmos e de não contemplarmos a natureza,

excellente mestra, que jámais se deve despresar. Adquirem-se é verdade,

mais idéas, mas imperfeitas e superficiaes, de que resultam quadros

frios e incompletos.»

Todos os pedagogistas, que se teem occupado d'este systema de ensino,

encarecem o proveito que se tira da substituição dos livros de texto,

que os meninos decoram sem os entender, pelas estampas, que muito os

deleitam e que examinam attentos, colhendo das palavras do educador, a

proposito de cada uma, infinitos conhecimentos, que jámais esquecerão.

É mister, porém, que as estampas sejam mui perfeitas, para que não

viciem nas crianças o gosto do bello e da verdade, e que sejam graduaes,

como tudo deve ser na educação. A regra fundamental do ensino intuitivo,

a qual nunca deve esquecer é: _Caminhar do conhecido para o

desconhecido, do facil para o difficil, do commum e trivial para o menos

commum ou mais raro_.

Para realisar este preceito maximo, cujo despreso annularia o systema,

convirá que os educadores não entretenham seus discipulos com objectos

tomados ao acaso, mas que sigam um processo gradual, lento e invariavel,

nunca lhes chamando a attenção para cousas, cujos componentes elles

ainda não conheçam, nem lhes fazendo perguntas para responder ás quaes

não estejam habilitados. Dêmos alguns exemplos. Se praticarmos com

mocinhos a respeito de uma caixa de pinho, que estejam vendo, poderemos

convenientemente perguntar-lhes o feitio que tem, as partes de que se

compõe, para que serve a tampa, para que estão ali as argolas e a

fechadura; poderemos interrogal-os ácerca dos usos da caixa, fallar-lhes

do perigo de entalar os dedos quando a fecharmos, ou de nos ferimos se a

tampa cair sobre as nossas mãos ou cabeça; poderemos ainda indagar se

sabem o nome que se dá aos artistas, que trabalham em madeira; mas não

lhe fallaremos do pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural

ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham adquirido os convenientes

conhecimentos.

Se conversarmos ácerca de uma moeda de prata, bom será perguntar-lhes

como se chama aquelle dinheiro, de que é feito, que feitio tem, por que

não é quadrado, nem triangular (aqui fará o professor com o giz no

quadro preto a figura do triangulo e do quadrado), o que tem n'uma e

outra face, que representa a effigie e as armas, para que serve o

dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos de lhes dizer que a prata da

moeda é uma liga de prata e cobre, se por acaso ainda não souberem o que

é uma liga metallica, nem conhecerem o cobre.

Convém estar prevenido para um caso, que muitas vezes se deve realisar

na pratica d'este ensino. A natural prespicacia de alguns meninos e os

conhecimentos adquiridos na convivencia de seus paes e amigos ou na

leitura, se forem já ledores, habilital-os-hão a fazerem perguntas, a

que o educador não poderá ou não saberá responder. Quando isto aconteça,

nem se enfade ou envergonhe o educador, nem illuda a curiosidade

infantil, que de tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar sobre

assumpto, que o mestre ignore completamente ou conheça pouco, isso mesmo

declare ao estudante com toda a franqueza; se fôr attinente a cousas,

para conhecer as quaes o mocinho não esteja preparado, ou que toquem em

pontos, que a decencia não permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento,

que não é tempo ainda de saber o que pergunta.

E para que nem o credito scientifico do educador soffra detrimento, nem

os meninos se desgostem e abstenham de perguntar, bom será que o

educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada ás suas

intelligencias, e por meio de exemplos, quão numerosos são os

conhecimentos humanos, que é impossivel que todos saibam tudo, e que,

para adquirir sciencia de bons quilates, é indispensavel ir a pouco e

pouco, e não investigar certas cousas, antes de ter adquirido noções

exactas de outras.

Para que o ensino intuitivo produsa todos os bons resultados que d'elle

se podem esperar, não basta progredir do conhecido para o desconhecido,

do simples para o composto; é indispensavel que os alumnos não conheçam

o plano adoptado pelo professor, e que não percebam que o que elle lhes

vae ensinando tende a um determinado fim e se ajusta para os iniciar nas

sciencias, cujas leis e applicações mais importantes só mais tarde terão

de estudar. Para a realisação d'este importante segredo do ensino

intuitivo, iremos nós offerecendo aos educadores em publicações

successivas, se esta nossa tentativa merecer o favor publico, as lições

graduaes, que deverão constituir um curso completo.

Recommendam os mestres d'esta especialidade, no intuito de não enfadar

os estudantes e de os conservar attentos, que cada lição não exceda

quinze ou vinte minutos. Diremos, porém, que a pratica nos tem mostrado

poder ás vezes a lição prolongar-se até duas horas e mais, sem que os

estudantes se enfastiem nem deixem de attender ao que se lhes mostra e

explica. Consegue-se este resultado amenisando a pratica com

historietas, de que os meninos muito gostam, com exemplos, que elles bem

comprehendam, com a citação de proverbios, anexins, e anecdotas

consoantes ao assumpto de que se trata, e mais que tudo com o dialogo

mui cortado entre elles e o professor.

Haja sempre n'estas lições a maxima variedade apparente, tanto no

objecto do estudo como na fórma, no dizer, nas conclusões e até na

collocação dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem, além de

certos limites, entristece a escola e cança os escolares. A par do

ensino das cousas andará sempre o ensino da moral, da hygiene, da

economia domestica, da religião, da organisação social, da historia, da

geographia, das bellas artes, de tudo; com preferencia do mais util; mas

sem estudos de cór, sem declamações, nem theorias transcendentes, nem

listas de nomes de pessoas, nem datas escusadas; tudo ao de leve,

saboroso, convidativo, e nem assim em grandes dozes, nem todos os dias.

Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos de como se deverá

proceder n'estes pontos, e não os tenham na conta de ridiculos, que nada

é ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada, que ha de precorrer

a puericia.

Estamos na escola, estudando um objecto qualquer. Ouve-se ganir um cão

na rua. Logo o professor interrompe o estudo, e pergunta a um dos

escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigirá:

P.--Que é aquillo, alli, na rua?

E.--É um cão a ganir, responderá o estudante; e o dialogo proseguirá,

pouco mais ou menos, do seguinte modo:

P.--O cão está ganindo ou ladrando?

E.--Está a ganir.

P.--Quantas qualidades de sons ou vozes produzem os cães com a bocca?

E.--Não percebo a pergunta.

P.--Eu me explico. Os cães não estão sempre calados...

E.--Já percebo o que o senhor professor pergunta. Os cães _ladram_.

P.--E quando estão tristes, ou quando ouvem certos sons, que lhes não

agradam, ladram?

E.--Não, senhor, _uivam_.

P.--E quando estão a roer um ôsso, e outro cão ou qualquer pessoa lh'o

quer tirar, o que fazem?

E.--_Rosnam_.

P.--E se lhes batem, ou os apedrejam?

E.--Põem-se a _ganir_.

P.--Mui bem; os cães, pois, podem _ladrar_, ou _latir_, _rosnar_,

_uivar_, e _ganir_.

Aqui, se os meninos tiverem já conhecimentos de grammatica, dirá o

professor como de si para comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco

verbos, e repetirá, contando pelos dedos ou batendo com o lapis na mesa:

o verbo _ladrar_, o verbo _latir_, o verbo _rosnar_, o verbo _uivar_ e o

verbo _ganir_.

E continuará, como quem se está recordando do que aprendeu: palavras que

representam acções praticadas ou feitas pelo cão.

E logo, como quem se desviou do caminho direito e a elle volve, dirá ao

alumno:

P.--Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que o _uivo_ dos cães é de mau

agouro, isto é, que um cão a uivar annuncia desgraça. Será verdade?

E.--A minha avó diz que sim, que é signal de estar alguem para morrer.

P.--Essa resposta esperava eu.

Pois fiquem os meninos sabendo, que não ha agouros, e que _uivar_ um

cão, ou _cantar_ um canario, ou _relinchar_ um cavallo, ou _piar_ um

mocho, ou _cacarejar_ uma gallinha, ou _miar_ um gato não tem influencia

nenhuma nos acontecimentos humanos.

E.--Á minha casa vae uma velhinha, que, em ouvindo uivar um cão,

descalça o sapato e põe-n'o com a sola para cima, até o animal se calar.

P.--Se os cães uivarem muito em roda d'ella no inverno, andará sempre

com os pés frios.

E.--Então a minha avó mente?

P.--Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta na cabeça, e ella acredita

uma cousa, que não é verdadeira.

E.--Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa estiver para morrer e

um cão se puzer a _uivar_ na rua ou na escada?

P.--O doente morrerá, se Deus quizer que morra; e viverá, se fôr da

vontade divina, que continue a viver.

E.--Mas como se explica o que aconteceu o anno passado a um visinho de

meu papá?

P.--Conte-me lá essa historia tentim por tentim.

E.--Adoeceu um homem, que morava no primeiro andar do predio, em que eu

habito; veiu o medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a doença

não era de perigo, e saïu. Minutos depois metteu-se na escada um cão e

principiou a uivar.

A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com o cabo da vassoura e

pol-o na rua. Quando entrou em casa, estava o marido morto em cima da

cama.

P.--Sabe o menino o que isso foi?

E.--Eu não senhor.

P.--Pois tem pouco que saber. Foi o que se chama _uma coincidencia_. Se

á saïda do medico, entrasse pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia,

que a avesinha viera annunciar aquella desgraça; se eu por acaso batesse

á porta do doente n'aquelle instante, era eu o agoureiro.

E.--Mas o medico tinha dito, que a doença não era de perigo.

P.--E a morte repentina pressente-se horas, ou minutos antes? E não

podem os proprios medicos morrer de repente, sem que suspeitassem o que

lhes ia acontecer?

E.--Mas o cão uivou!

P.--Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa d'esse homem, que falleceu,

não tem estado mais ninguem doente?

E.--Estiveram doentes dois filhos.

P.--E a mãe mandou chamar medico para os tratar?

E.--Mandou, sim, senhor.

P.--E não mandou chamar um cão?

E.--Ora essa! Os cães não sabem curar doenças.

P.--Mas o cão, que uivou, quando o homem morreu, era mais entendido que

o medico, porque annunciou a morte, até sem vêr o doente.

E.--O senhor professor está brincando! Os cães são brutos, não sabem

d'aquellas cousas.

P.--Então como é isso? Não sabem d'aquellas cousas, são brutos, e

prophetisam?

E.--Tem razão, senhor professor. Agora vejo que a minha avósinha anda

enganada.

P.--E muito, e faz mal em dizer taes patranhas. O uivo dos cães é

desagradavel aos ouvidos, aborrecivel por isso, mas não tem a minima

significação.

Aqui poderá o educador dar fim ao incidente, ou continuar o dialogo,

fallando do mau costume de molestar os animaes, das qualidades do cão,

da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc, etc.

Ao terminar a lição poderá o educador convidar ou os meninos a imitarem

o relincho do cavallo, o carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o

latido dos cães, etc.

Este exercicio que a algum fatuo parecerá ridiculo, ou desnecessario, ou

ambas as cousas, tem as seguintes vantagens: alegra e distrae as

creanças, que jámais fugirão do estudo, quando elle fôr recreativo,

desenvolve-lhes, e aperfeiçôa-lhes a natural tendencia para imitarem,

exercita-lhes e robustece-lhes os orgãos vocaes, e por cima de tudo não

faz mal nem á alma nem ao corpo.

Quem reparar bem no dialogo que deixâmos architectado, descobrirá quanto

ensinamento ha n'elle, e perceberá que se pretendeu principalmente

combater uma crença erronea, mas vulgarissima.

Dêmos o segundo exemplo.

Está sobre a mesa ou em cima de outro movel um ramalhete de flores, que

alli se puzéra mui calculadamente.

Chegada a occasião opportuna, o professor interrompe a lição e diz:

Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se faz uma pausa, e todos os

rapazinhos exultam e saltam dos seus logares.

P.--Já viram bem aquelle ramalhete?

E.--Ainda não, senhor.

P.--Pois vão buscal-o, para o examinarmos por miúdo.

E.--Eil-o aqui.

P.--De que flores se compõe?

E.--De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas e cedro.

Se os meninos errarem o nome das flores, ou os não souberem, irá o

professor emendando e dizendo lhes como se chamam.

P.--Menino F... (ao que mais atrazado estiver em contar) conte pelos

dedos quantas qualidades de flôres ha n'este ramalhete.

E.--Rosas, _uma_; cravos, _duas_; camelias, _tres_; junquilhos,

_quatro_; violetas, _cinco_; cedro, _seis_... Ha seis qualidades de

flôres.

P.--Parece-me que se enganou. Veja bem.

E.--São seis, não me enganei.

P.--E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se, porque não attendeu

bem. Diga-me, o cedro é flôr?

E.--Tem razão; são cinco. O cedro não é flôr.

P.--Está-me parecendo, que nenhum dos meninos me sabe dizer para que

serve este cedro á roda das flôres.

E.--Eu não sei; eu tambem não; é, é....

P.--Eu lhes digo para que elle aqui está. É para realçar a belleza das

flôres, para fazer um contraste agradavel á vista. Se duvidam desatem o

junco, tirem o cedro, e verão que o ramalhete perde muito da sua

formosura. (Acto continuo, o educador faz o que aconselhou e mostra o

ramo desguarnecido de verdura).

P.--É ou não é verdade, o que lhes affirmei?

E.--É verdade.

P.--Ha entre estas flôres, umas que cheiram, e outras que não cheiram.

E.--As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram; as violetas, tambem; as

camelias é que não tem cheiro.

P.--Não me lembro se já lhes disse como se denominam as substancias, que

tem cheiro?

E.--Denominam-se _odoriferas_.

P.--E as que não teem cheiro?

E.--_Inodoras_.

P.--E todas as substancias, que tem cheiro, cheiram bem?

E.--Não, senhor.

P.--E todas as flôres cheirosas, possuem cheiro agradavel?

E.--Nem todas.

P.--Digam-me agora outra cousa. O cheiro das flôres é bom ou mau, para a

saude?

E.--Não sabemos.

P.--Pois vão saber uma verdade, que jámais devem esquecer. Attendam. Ha

pessoas a quem o arôma das flôres incommoda e faz adoecer; causa-lhes

dôres de cabeça, enjôos de estomago, tonturas, e outros padecimentos.

Muitas flôres, e ás vezes poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal

ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir com flôres na

alcôva é muito perigoso, e sabe Deus quantas molestias este mau costume

terá originado. Por agora basta que saibam isto, para se acautelarem; em

outra occasião lhes explicarei como é que as plantas e flôres alteram a

pureza do ar e o tornam doentio.

É por este theor que nos animos infantis se podem inocular conhecimentos

praticos de quantas sciencias ha, de modo que as crianças, ao sairem das

escolas, levem copia immensa de noções utilissimas para todas as

circumstancias da vida.

* * * * *

De grande proveito nos parece que os meninos mais desembaraçados na

escripta tenham um caderno onde todos os dias vão escrevendo mui

laconicamente o assumpto da lição, e o que da mesma lhes pareça mais

digno de se conservar na memoria.

Evite-se, porém, que n'estes summarios, ou indices menemonicos, se

empreguem palavras escusadas e se commettam erros de grammatica.

De principio convirá que o educador, ao findar a lição, ensine aos

meninos como o registro deve ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o

redijam em suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte, para ser

emendado.

Ensino intuitivo livro destinado às mães e paes de familia e às professoras e professores de instrucção primária · 第 1 / 6 段