Duas vozes

Num lugar onde havia escuridão total durante horas, havia também

silêncio total por horas. Então uma voz falou da escuridão, ninguém

poderia dizer de onde, e disse em voz alta:

— Então assim termina o Império de Notting Hill. Como começou em sangue,

então acabou em sangue, e tudo continua como sempre.

E fez-se silêncio novamente, e novamente havia uma voz, mas não tinha o

mesmo tom, parecia que não era a mesma voz.

— Se todas as coisas são sempre as mesmas, é porque são sempre heroicas.

Se todas as coisas são sempre as mesmas, é porque são sempre novas. Para

cada homem apenas uma alma é dada; e para cada alma é dado apenas um

pouco de poder – o poder de, em alguns momentos, superar e engolir as

estrelas. Se era após era este poder vem para os homens, seja o que for

que tal poder fornece, é grande. O que faz os homens se sentirem velhos

é ruim, um império ou uma loja miserável. O que faz os homens se

sentirem jovens é bom, uma grande guerra ou uma história de amor. E no

mais escuro dos livros de Deus está escrita uma verdade que é também um

enigma. É das coisas novas que os homens se cansam – modas, propostas,

melhorias e mudanças. São as coisas velhas que assustam e intoxicam. São

as coisas velhas que são jovens. Não há cético que não sente que muitos

duvidaram antes. Não há homem rico e volúvel que não sente que todas as

suas novidades são antigas. Não há adorador da mudança que não sente

sobre o pescoço o grande peso do cansaço do universo. Mas nós que

fazemos as coisas antigas somos alimentados pela natureza com uma

infância perpétua. Nenhum homem que está apaixonado pensa que qualquer

um tenha se apaixonado antes. Nenhuma mulher que tenha uma criança pensa

que houve coisas como crianças. Não há pessoas que lutam por sua própria

cidade que sejam assombradas com o fardo dos impérios quebrados. Sim, ó

voz escura, o mundo é sempre o mesmo, pois é sempre inesperado.

Uma pequena rajada de vento soprou a noite, e então a primeira voz

respondeu:

— Mas neste mundo há alguns, sejam sábios ou tolos, a que nada intoxica.

Há alguns que veem todos os seus distúrbios como uma nuvem de moscas.

Eles sabem que enquanto os homens riem de sua Notting Hill, e estudam,

escrevem ensaios e cantam sobre Atenas e Jerusalém, Atenas e Jerusalém

foram apenas subúrbios tolos como Notting Hill. Eles sabem que a própria

Terra é um subúrbio, e sentem-se apenas monótona e respeitavelmente

entretidos enquanto movem-se sobre ela.

— São filósofos ou são tolos — disse a outra voz. — Não são homens.

Homens vivem, como disse, regozijando-se de geração em geração com algo

mais fresco do que o progresso: no fato de que de a cada bebê ser feito

um novo sol e uma nova lua. Se nossa antiga humanidade fosse um único

homem, talvez não aguentaria a memória de tantas lealdades, o peso de

tantos diversos heroísmos, a carga e o terror de toda a bondade dos

homens. Mas aprouve a Deus isolar a alma individual que só pode aprender

de todas as outras almas por ouvir dizer, e a cada um a bondade e a

felicidade vem com a juventude e a violência de um raio, tão momentânea

e tão pura. E a desgraça da falha que se encontra em todos os sistemas

humanos não os afeta realmente, não mais do que os vermes da sepultura

inevitável afetam um jogo infantil em um prado. Notting Hill caiu;

Notting Hill morreu. Mas isso não é um problema tremendo. Notting Hill

viveu.

— Mas — respondeu a outra voz — se o que é conseguido através de todos

estes esforços é apenas o contentamento comum da humanidade, por que os

homens tão extravagantemente trabalham e morrem? Nada foi feito por

Notting Hill que qualquer aglomeração de agricultores ou clã de

selvagens não teria feito? O que poderia ter acontecido com Notting Hill

se o mundo tivesse sido diferente pode ser uma questão profunda, mas há

uma mais profunda. O que poderia ter acontecido ao mundo se Notting Hill

não tivesse existido?

A outra voz respondeu:

— O mesmo que teria acontecido com o mundo e todos os sistemas

estrelados se uma macieira tivesse seis maçãs em vez de sete; algo teria

sido eternamente perdido. Nunca houve nada no mundo absolutamente como

Notting Hill. Nunca haverá algo parecido com ela até o final do destino.

Não posso acreditar em nada, mas que Deus a amou como Ele deve amar tudo

o que é próprio e insubstituível. Mas mesmo isso não me importa. Se

Deus, com todo os seus trovões, a odiava, eu a adorei.

E com a voz uma figura alta e estranha levantou-se para fora dos

detritos na penumbra.

A outra voz veio depois de uma longa pausa, como se fosse rouca:

— Mas suponha que toda a questão fosse realmente um hocus-pocus. Suponha

que qualquer significado que você pode atribuir a sua fantasia, o real

significado de tudo era uma zombaria. Suponha que tudo era loucura.

Suponha...

— Eu estava lá — respondeu a voz da figura alta e estranha — e sei que

não era.

A figura menor parecia meio que levantar no escuro.

— Suponha que sou Deus — disse a voz —, e suponha que fiz o mundo em

ociosidade. Suponha que as estrelas, que você considera eternas, são

somente os fogos de artifício idiotas de uma criança perpétua. Suponha

que o sol e a lua, que você louva alternadamente, são apenas os dois

olhos de um vasto e sarcástico gigante, abertos alternadamente num

piscar de olhos que nunca termina. Suponha que as árvores, aos meus

olhos, são tão tolas quanto enormes cogumelos. Suponha que Sócrates e

Carlos Magno são para mim apenas animais engraçados caminhando sobre as

patas traseiras. Suponha que sou Deus, e tendo feito coisas, rio delas.

— E suponha que eu sou um homem — respondeu o outro. — E suponha que lhe

dou a resposta que destrói até mesmo uma risada. Suponha que eu não ria

em resposta, não blasfeme, não te amaldiçoe. Mas suponha que,

levantando-me reto sob o céu, com todo o poder do meu ser, agradeça por

este paraíso de tolos que fizeste. Suponha que eu te louve, com uma

literal dor de êxtase, pela brincadeira que me trouxe tão terrível

alegria. Se tivemos jogos de criança, e dado-lhes a seriedade de uma

Cruzada, se encharcamos seu grotesco jardim holandês com o sangue dos

mártires, transformamos um berçário em um templo. Pergunto-lhe, em nome

dos Céus, quem vence?

O céu perto das cristas das colinas e árvores estava começando a mudar

do preto ao cinza, com uma sugestão aleatória da manhã. A pequena figura

parecia rastejar em direção a maior, e a voz estava mais humana:

— Mas suponha, amigo, suponha que, em um sentido mais amargo e mais

real, tudo era uma farsa. Suponha que tinha havido, desde o início

dessas grandes guerras, um que observava com um sentimento que está além

da expressão, um sentimento de desapego, de responsabilidade, de ironia,

de agonia. Suponha que havia alguém que sabia que era tudo uma brincadeira.

A figura alta respondeu:

— Ele não podia saber. Pois tudo não era uma brincadeira.

E uma rajada de vento soprou para longe algumas nuvens que selavam a

linha do horizonte, e mostrou uma faixa prateada por trás de suas

grandes pernas escuras. Em seguida, a outra voz veio, tendo rastejado

ainda mais perto.

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“Wayne, era tudo uma brincadeira.”

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— Adam Wayne, há homens que confessam apenas no /articulo mortis/

(momento da morte), há pessoas que se culpam somente quando já não podem

ajudar os outros. Eu sou um destes. Aqui, sobre o campo do final

sangrento de tudo, venho dizer-lhe claramente o que você nunca iria

entender antes. Sabe quem eu sou?

— Eu conheço você, Auberon Quin — respondeu a alta figura —, e estarei

feliz em aliviar seu espírito de qualquer fardo que tenha.

— Adam Wayne — disse a outra voz —, o que tenho que dizer, você não

pode, em comum razão, ter prazer de me aliviar. Wayne, era tudo uma

brincadeira. Quando fiz estas cidades, não me importava mais com elas do

que me importo com um centauro ou um tritão, ou um peixe com pernas, ou

um porco com penas, ou qualquer outro absurdo. Quando falei solenemente

e encorajadoramente sobre a bandeira de sua liberdade e a paz de sua

cidade, estava fazendo uma brincadeira vulgar com um cavalheiro honesto,

uma brincadeira vulgar que durou 20 anos. Embora ninguém possa acreditar

em mim, talvez, a verdade é que sou um homem um tanto tímido e de bom

coração. Nunca ousei nos primeiros dias de sua esperança, ou nos dias

centrais da sua supremacia, te contar isso; nunca me atrevi a quebrar a

calma colossal do seu rosto. Só deus sabe porque deveria fazê-lo agora,

quando minha farsa acabou em tragédia e à ruína de todas as pessoas! Mas

digo agora. Wayne, tudo foi feito como uma brincadeira.

Houve um silêncio, e a brisa soprando refrescante deixou o céu mais

claro, deixando grandes espaços na branca madrugada.

Finalmente Wayne disse, muito lentamente:

— Fez tudo isto apenas como uma piada?

— Sim — disse Quin, brevemente.

— Quando concebeu a ideia — continuou Wayne, sonhador — de um exército

para Bayswater e uma bandeira para Notting Hill, não havia brilho,

nenhuma sugestão em sua mente que essas coisas podiam ser reais e

apaixonantes?

— Não — respondeu Auberon, virando o rosto branco e redondo para a manhã

com uma maçante e esplêndida sinceridade. — Não tinha ideia nenhuma disso.

Wayne desceu e estendeu a mão.

— Não vou parar de agradecê-lo — disse com uma curiosa alegria em sua

voz — pelo grande bem ao mundo que você trouxe. Tudo o que penso que lhe

disse há pouco, mesmo quando pensei que a sua voz era a voz de uma

irônica onipotência, é riso mais velho do que os ventos do céu. Mas

deixe-me dizer o que é imediato e verdadeiro. Você e eu, Auberon Quin,

durante toda a nossa vida fomos de novo e de novo chamados de loucos. E

nós somos loucos. Somos loucos, porque não somos dois homens, mas um

homem. Somos loucos, porque somos dois lóbulos do mesmo cérebro, e cujo

o cérebro foi partido em dois. E se você pedir a prova disso, não é

difícil de encontrar. Não é apenas que você, o humorista, tenha, nestes

dias sombrios, sido despojado da alegria da gravidade. Não é apenas que

eu, o fanático, tive que tatear sem humor. É que, embora parecemos ser

opostos em tudo, temos sido opostos como homem e mulher, visando ao

mesmo tempo a mesma coisa prática. Nós somos o pai e a mãe da Carta das

Cidades.

Quin olhou para os restos de folhas e madeira, as relíquias da batalha e

do tumulto, agora brilhando à luz do dia em crescimento, e finalmente disse:

— No entanto, nada pode alterar o antagonismo, o fato de que eu ri

dessas coisas e você as adorava.

O rosto selvagem de Wayne ficou inflamado como de deus, enquanto

virava-se para ser atingido pelo nascer do sol.

— Sei de algo que vai alterar esse antagonismo, algo que está fora de

nós, algo que você e eu em todas as nossas vidas, talvez levamos muito

pouco em conta. O igual e eterno ser humano irá alterar esse

antagonismo, pois o ser humano não vê antagonismo real entre riso e

respeito, o ser humano, o homem comum, que meros gênios como eu e você

só podemos adorar como um deus. Quando os dias escuros e tristes vêm,

você e eu somos necessários, o fanático puro, o humorista puro. Entre

nós sanamos um grande erro. Levantamos as cidades modernas para a poesia

que todo aquele que conhece a humanidade sabe que é infinitamente mais

comum do que o comum. Mas, em pessoas saudáveis, não há guerra entre

nós. Nós somos apenas os dois lóbulos do cérebro de um lavrador. O riso

e o amor estão em toda parte. As catedrais, construídas nas eras que

amavam a Deus, estão cheias de blasfemas grotescas. A mãe ri

continuamente para a criança, o amante ri continuamente à amante, a

esposa ao marido, o amigo ao amigo. Auberon Quin, estamos a muito

separados, vamos embora juntos. Você tem uma alabarda e eu uma espada,

vamos começar nossas andanças pelo mundo inteiro. Pois somos seus dois

fundamentos. Venha, já é dia.

Na luz branca, Auberon hesitou por um momento. Então fez a saudação

formal com sua alabarda, e foram embora juntos para o mundo desconhecido.

O Napoleão de Notting Hill · 第 29 / 30 题