Um pedido sincero e eloquente foi enviado para o rei assinado com os
nomes de Wilson, Barker, Buck, Swindon e outros. O pedido era que na
próxima conferência a ser realizada na presença de Sua Majestade sobre a
disposição final das propriedades em Pump Street, com todo o decoro
político e com o respeito indizível que mantinham por sua Majestade, que
eles pudessem vir vestidos normalmente, sem o traje designado para eles
como superintendentes. Assim aconteceu que a companhia apareceu no
conselho em casacos e que o próprio rei limitou seu amor a cerimônia ao
aparecer (depois de sua forma usual), de vestido de noite com uma
insígnia de uma ordem — neste caso não da Ordem da Jarreteira^1 <#note6>
, mas o botão do Clube de melhores amigos do velho Clipper, uma
decoração obtida (com dificuldade) a partir de uma publicação infantil
de meio penny. Assim também aconteceu que o único toque de cor na sala
era Adam Wayne, que entrou com grande dignidade usando grandes vestes
vermelhas e uma grande espada.
— Nós nos encontramos — disse Auberon — para decidir o mais árduo dos
problemas modernos. Que possamos ser bem sucedidos — e sentou-se gravemente.
Buck virou a cadeira levemente, e cruzou as pernas.
— Sua Majestade — disse ele, muito bem-humorado — só há uma coisa que eu
não consigo entender: por que este assunto não pode ser resolvido
rapidamente? Aqui está uma pequena propriedade que vale mil para nós e
não vale cem para qualquer outra pessoa. Nós oferecemos mil. Não é um
bom negócio, pois deveríamos conseguir por menos, não é razoável e não é
justo para nós, mas não vejo qual é a dificuldade.
— A dificuldade pode ser explicada facilmente — disse Wayne. — Podem
oferecer um milhão e ainda não terão Pump Street.
— Mas escute, Sr. Wayne — gritou Barker, golpeando com fria emoção. —
Escute bem. Não tem o direito de assumir uma posição como essa. Pode
barganhar por um preço maior, mas não está fazendo isso. Está recusando
o que você, e qualquer homem são, sabe ser uma oferta esplêndida
simplesmente por malícia ou rancor - deve ser malícia ou rancor. E isso
é realmente criminoso, é contra o interesse público. O Governo do Rei
poderia justificadamente forçá-lo.
Com os dedos magros espalhados sobre a mesa, olhava ansiosamente para o
rosto de Wayne, que não se mexeu.
— Poderia forçá-lo… — repetiu.
— E o fará — disse Buck, breve, voltando-se para a mesa. — Fizemos o
melhor para ser decentes.
Wayne levantou os grandes olhos lentamente:
— Foi o Lorde Buck, quem disse que o rei da Inglaterra ‘fará’ algo?
Buck corou e disse, irritado:
— Quero dizer que deveria. Como disse, fizemos o nosso melhor para ser
generosos. Desafio qualquer um a negar. Sr. Wayne, não quero ser
grosseiro, mas permita-me dizer que você deveria estar na prisão. É
criminoso parar obras públicas por um capricho. Senão, com o mesmo
direito que você almeja, um homem poderia também queimar dez mil cebolas
em seu jardim da frente ou fazer suas crianças correr nuas na rua.
Pessoas foram obrigadas a vender antes. O rei pode obrigá-lo, e espero
que o faça.
— Até que o faça — disse Wayne, calmamente —, o poder e o governo desta
grande nação está do meu lado e não do seu, e desafio você a desafiá-los.
—Em que sentido — gritou Barker, com os olhos e as mãos febris —, o
Governo está do seu lado?
Com um movimento, Wayne desenrolou um grande pergaminho sobre a mesa.
Ele foi decorado nas laterais com esboços de aquarela de sacristões em
coroas e grinaldas.
— A Carta das Cidades... — começou.
Buck lançou uma imprecação brutal e riu:
— Essa tola piada. Já não tínhamos o suficiente...
— E aí você fica — gritou Wayne, erguendo-se com uma voz como de
trombeta — sem argumentos, insultando o rei diante do seu rosto.
Buck ergueu-se também com os olhos ardentes:
— Sou difícil de intimidar... — começou. Mas as palavras lentas do rei
soaram com incomparável gravidade:
— Lorde Buck, devo lembrar-lhe que seu rei está presente. Não é sempre
que ele precisa se proteger de seus súditos.
Barker se virou para ele com gestos frenéticos:
— Pelo amor de Deus não apoie o louco agora — implorou. — Deixe sua
piada para outra hora. Oh, pelo amor do céus...
— Lorde Superintendente de South Kensington — disse o rei Auberon,
firmemente —, não entendo suas observações, que são proferidas com uma
velocidade incomum na corte. Nem seus bem-intencionados esforços para
transmitir o resto com os dedos me ajuda materialmente. Digo que o Lorde
Superintendente de North Kensington, a quem falava, não deve, na
presença de seu soberano, falar desrespeitosamente de ordenanças de seu
soberano. Discorda?
Barker se moveu inquieto na cadeira, e Buck amaldiçoou sem falar. O rei
prosseguiu em um tom de voz satisfeito:
— Lorde Superintendente de Notting Hill, prossiga.
Wayne voltou seus olhos azuis para o Rei, e para a surpresa de todos,
não aparecia neles triunfo, mas uma certa angústia infantil:
— Sinto muito, vossa majestade, temo que eu seja mais que igualmente
culpado que o Lorde Superintendente de North Kensington. Estávamos
debatendo um pouco ansiosos, e ambos nos excedemos. Fiz isso primeiro,
tenho vergonha de dizer. O Superintendente de North Kensington é,
portanto, relativamente inocente. Rogo a Vossa Majestade para direcionar
a sua repreensão principalmente a mim. O Sr. Buck não é inocente, pois
ele falou, sem dúvida, no calor do momento, de maneira desrespeitosa.
Mas no resto da discussão, ele pareceu-me ter conduzido com ótimo
temperamento.
Buck parecia genuinamente satisfeito, pois homens de negócio são todos
sérios e focados, e, portanto, têm certo grau de comunhão com fanáticos.
O Rei, por alguma razão, parecia, pela primeira vez em sua vida,
envergonhado.
— Este gentil discurso do Superintendente de Notting Hill — começou
Buck, agradavelmente —, parece-me mostrar que temos pelo menos uma
relação amistosa. Agora veja, Sr. Wayne. Quinhentas libras lhe foram
oferecidas por um imóvel que admite não valer cem. Bem, sou um homem
rico e ainda sou generoso. Digamos mil e quinhentas libras, fechamos
negócio e apertamos as mãos — e levantou-se, brilhando e rindo.
— Mil e quinhentas libras — sussurrou o Sr. Wilson de Bayswater —,
podemos oferecer mil e quinhentas libras?
— Mantenho a oferta — disse Buck, com vontade. — O Sr. Wayne é um
cavalheiro e me defendeu. Então suponho que as negociações estão encerradas.
Wayne fez uma reverência:
— Estão realmente encerradas. Sinto muito. Não posso vender a propriedade.
— O que? — gritou o Sr. Barker, levantando-se
— O senhor Buck falou corretamente — disse o rei.
— Sim, falei — gritou Buck, levantando-se também. — Eu disse...
— O senhor Buck falou corretamente — disse o Rei —, as negociações estão
encerradas.
Todos os homens da mesa levantaram-se; Wayne sozinho levantou-se sem emoção.
— Então, tenho a permissão de Vossa Majestade para partir? Dei minha
última resposta. — Você a tem — disse Auberon, sorrindo, mas sem
levantar os olhos da mesa. E em meio a um silêncio mortal, o
Superintendente de Notting Hill saiu da sala.
— Bem... — Wilson disse, voltando-se para Barker. — E agora?
Barker balançou a cabeça desesperadamente:
— O homem devia estar em um asilo. Mas uma coisa é clara: não precisamos
nos preocupar mais com ele. O homem pode ser tratado como louco.
— É claro — disse Buck, virando-se para ele com uma decisão sombria. —
Está completamente certo, Barker. Ele é um bom companheiro, mas deve ser
tratado como louco. Vamos colocar de forma simples. Fale com qualquer
homem em qualquer cidade, a qualquer médico em qualquer cidade, que há
um homem a que ofereceram mil e quinhentas libras por uma coisa que ele
poderia vender normalmente por quatrocentos, e que, quando perguntado
por um motivo para não aceitar, clama pela santidade inviolável de
Notting Hill e a chama de Montanha Sagrada. O que diriam eles? O que
mais podemos ter do nosso lado além do senso comum de todos? Sobre o que
mais se baseiam as leis? Vou te dizer, Barker, o que é melhor do que
qualquer discussão. Vamos enviar operários no local para derrubar Pump
Street. E se o velho Wayne disser uma palavra, o prenderemos como um
lunático. Isso é tudo.
Os olhos Barker se acenderam:
— Sempre considerei você, Buck, se você não se importa que eu diga, como
um homem muito forte. Conte comigo.
— E comigo, é claro — disse Wilson.
Buck se levantou de novo impulsivamente.
— Vossa Majestade — disse ele, brilhando com popularidade —, peço a
Vossa Majestade que considere favoravelmente a proposta a que nos
comprometemos. A clemência de Vossa Majestade e as nossas próprias
ofertas foram em vão para aquele homem extraordinário. Ele pode estar
certo. Ele pode ser Deus. Ele pode ser o diabo. Mas achamos que, para
fins práticos, o mais provável é que ele está fora de si. A menos que
essa suposição seja considerada na prática, todos os assuntos humanos
vão ser despedaçados. Nós agimos sobre ela, e propomos o inicio das
operações em Notting Hill de uma vez.
O Rei recostou-se na cadeira:
— A Carta das Cidades … — disse ele de forma eloquente.
Mas Buck, recuperando a seriedade, também foi cauteloso, e não mais
cometeu o erro do desrespeito.
— Vossa Majestade — disse ele, curvando-se, não estou aqui para dizer
uma palavra contra qualquer coisa que vossa Majestade tenha dito ou
feito. É um homem muito melhor educado do que eu, e sem dúvida havia
razões, com fundamentos intelectuais, para tais processos. Mas posso
perguntar-lhe e apelar à sua boa natureza por uma resposta sincera?
Quando elaborou a Carta das Cidades, contemplou a ascensão de um homem
como Adam Wayne? Esperava que a Carta — seja uma experiência, um esquema
de decoração, ou uma piada – - poderia realmente levar a isto? Parar um
vasto plano de negócios, fechar uma estrada, estragar as chances de
táxis, ônibus, estações de trem, desorganizar metade da cidade, arriscar
uma espécie de guerra civil? Quais eram seus objetivos, eram estes?
Barker e Wilson olharam para ele com admiração, o Rei mais admirado ainda.
— Superintendente Buck — disse Auberon —, fala em público incomumente
bem. Reconheço isso com a magnanimidade de um artista. Meu esquema não
incluía o aparecimento do Sr. Wayne. Ai! Gostaria que minha força
poética fosse grande o suficiente.
— Agradeço a Vossa Majestade — disse Buck, com cortesia, mas
rapidamente. — As declarações de Vossa Majestade sempre são claras e
estudadas, por isso pude deduzir. Como o esquema pretendido, qualquer
que fosse, não incluía o aparecimento do Sr. Wayne, irá sobreviver a sua
remoção. Por que não nos deixa limpar Pump Street em particular, que
interfere com os nossos planos, e que, por declaração própria de Vossa
Majestade, não interfere com os vossos.
— Pego! — disse o Rei, com entusiasmo e de forma bastante impessoal,
como se estivesse assistindo a uma partida de críquete.
— Este homem, Wayne — continuou Buck —, seria internado por qualquer
médico da Inglaterra. Mas só pedimos para que ele seja colocado diante
deles. Enquanto isso os interesses de ninguém, nem mesmo com toda a
probabilidade os dele, serão realmente prejudicados continuando com as
melhorias em Notting Hill. Não nossos interesses, é claro, pois foi um
trabalho árduo e calmo de dez anos. Não os interesses de Notting Hill,
pois quase todos os seus habitantes educados desejam a mudança. Nem os
interesses de vossa Majestade, pois disse, com seu senso característico,
que nunca contemplou a ascensão do lunático. Nem mesmo os próprios
interesses dele, pois o homem tem um bom coração e muitos talentos, e um
par de bons médicos provavelmente seriam melhor para ele do que todas as
cidades livres e montanhas sagradas na criação. Por isso, assumo, se
posso usar uma palavra tão ousada, que vossa Majestade não vai oferecer
nenhum obstáculo para o nosso processo de melhorias.
E o Sr. Buck sentou-se em meio a aplausos suaves mas animados de seus
aliados.
— Sr. Buck — disse o Rei —, perdoe-me por diversos pensamentos belos e
sagrados, onde você era geralmente classificado como um tolo. Mas há
outra coisa a ser considerada. Suponha que envie seus trabalhadores e o
Sr. Wayne faça uma ação lamentável, mas que, lamento dizer, acho que ele
seja bem capaz — de quebrar-lhes os dentes?
— Pensei nisso, vossa Majestade — disse Buck, tranquilo —, e acho que é
simples de se precaver. Vamos enviar uma forte guarda de, digamos, uma
centena de homens, uma centena de alabardeiros de North Kensington —
sorriu sobriamente — que vossa Majestade aprecia tanto. Ou cento e
cinquenta. Imagino que toda a população de Pump Street é de apenas uma
centena.
— Ainda assim eles podem juntar-se e dar-lhes uma surra — disse o Rei,
em dúvida.
— Então digamos duzentos — disse Buck, alegremente.
— Pode acontecer — disse o Rei, inquieto — que um de Notting Hill lute
melhor do que dois de North Kensington.
— Pode — disse Buck, friamente —, então digamos duzentos e cinquenta.
O Rei mordeu o lábio.
— E se ainda forem espancados? — disse violentamente.
— Vossa Majestade — disse Buck recostando-se em sua cadeira —, suponha
que consigam. É claro que todas as questões de combate são meras
questões de aritmética. Por exemplo, aqui temos cento e cinquenta
soldados de Notting Hill. Ou, digamos duzentos. Se um deles pode lutar
contra dois, podemos enviar, não quatrocentos, mas seiscentos, e
acabamos com eles. Isso é tudo. Está fora de toda probabilidade que
qualquer um deles possa lutar contra quatro de nós. Então, o que digo é
que não corramos riscos. Acabemos com isso de uma só vez. Enviemos
oitocentos homens e esmagamos ele - esmagamos ele quase sem sequer
vê-lo. E continuamos com as melhorias.
E o Sr. Buck tirou um lenço e assoou o nariz.
— Sabe sr. Buck — disse o rei, olhando melancolicamente para a mesa —, a
clareza admirável de sua razão produz em minha mente um sentimento,
espero não ofendê-lo ao descrever como uma aspiração de socar sua
cabeça. Irrita-me sublimemente. Que pode ser isto? A relíquia de um
senso moral?
— Mas, Majestade — disse Barker, ansiosamente e com suavidade —, não
recusa as nossas propostas?
— Meu querido Barker, suas propostas são tão condenáveis como suas
maneiras. Não quero ter nada a ver com elas. Suponha que as pare
completamente. O que iria acontecer?
Barker respondeu numa voz muito baixa:
— Revolução.
O Rei olhou rapidamente para os homens à volta da mesa. Eles estavam
todos olhando para baixo em silêncio: suas sobrancelhas estavam vermelhas.
Levantou-se com uma rapidez surpreendente, e uma palidez incomum:
— Senhores, vocês me venceram. Portanto, posso falar abertamente. Acho
que Adam Wayne, que é tão louco como um chapeleiro, vale mais que um
milhão de vocês. Mas vocês têm a força, e, admito, o senso comum, e ele
está perdido. Levem seus oitocentos alabardeiros e o esmaguem. Embora
fosse mais esportivo levar duzentos.
— Mais esportivo — disse Buck, severamente —, mas muito menos humano.
Nós não somos artistas, e ruas manchadas de sangue não são uma boa visão.
— É lamentável — disse Auberon. — Com cinco a seis vezes o seu número,
não haverá nenhuma luta.
— Espero que não — disse Buck, levantando-se e ajustando suas luvas. —
Não desejamos nenhuma luta, Majestade. Somos pacíficos homens de negócios.
— Bem — disse o rei, cansado —, a conferência finalmente terminou.
E saiu da sala antes que qualquer outra pessoa se mexesse.
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Quarenta operários, uma centena de alabardeiros de Bayswater, duzentos
de South Kensington e trezentos de North Kensington se reuniram ao pé de
Holland Walk e marcharam sob a direção geral de Barker, que parecia
corado e feliz em traje completo. No final da procissão uma figura
pequena e mal-humorado permaneceu como um moleque. Era o rei.
— Barker — disse por fim, apelativo —, você é um velho amigo meu,
entende meus passatempos como entendo os seus. Por que não pode deixá-lo
sozinho? Tinha esperanças da diversão que pudesse vir deste negócio do
Wayne. Por que não pode deixá-lo sozinho? Realmente não importa muito –
o que é uma estrada para você? Para mim, é a piada que pode me salvar de
pessimismo. Leve menos homens e me divirta por uma hora. Realmente e
verdadeiramente, James, se você colecionasse moedas ou colibris, e eu
pudesse comprar um com o preço de sua estrada, iria comprá-lo. Coleciono
incidentes, aqueles raros, essas coisas preciosas. Deixe-me ter um. Pago
algumas libras por ele. Dê a estes habitantes de Notting Hill uma
chance. Deixe-os em paz.
— Auberon – disse Barker, gentilmente, esquecendo todos os títulos reais
em um raro momento de sinceridade —, compreendo o que você quer dizer.
Tive momentos em que esses passatempos me atingiram. Tive momentos em
que simpatizava com seus humores. Tive momentos, pode não acreditar
facilmente, em que simpatizava com a loucura de Adam Wayne. Mas o mundo,
Auberon, o mundo real, não funciona como esses passatempos. Funciona
sobre grandes rodas brutais de fatos – rodas em que você é a borboleta,
e Wayne é a mosca na roda.
Os olhos de Auberon se fixaram francamente nos de Baker:
— Obrigado, James. O que diz é verdade. É só um consolo entre parênteses
para eu comparar a inteligência de moscas favoravelmente com a
inteligência das rodas, mas é da natureza das moscas morrer logo, e da
natureza de rodas andar para sempre. Vá em frente com a roda. Adeus, meu
velho.
E James Barker continuou, rindo, com a tez corada, batendo o bambu em
sua perna.
O rei viu a cauda do regimento recuando com um olhar genuíno de
depressão, o que o fazia parecer mais um bebê do que nunca. Então, girou
e juntou as mãos.
— Em um mundo sem humor, o único a fazer é comer. E quão perfeita
exceção! Como podem ter estas atitudes as pessoas dignas, e fingir que
algo importa, quando o ridículo total da vida é provado pelo próprio
método pelo qual é suportada? Um homem atinge a lira, e diz: "A vida é
real, a vida é séria", e depois entra em um quarto e se estufa com
substâncias estranhas por um buraco em sua cabeça. Acho que a Natureza
era de fato um pouco maior em seu humor nesses assuntos. Mas todos nós
voltamos a pantomina, como voltei neste caso municipal. A natureza tem
suas farsas, como o ato de comer ou a forma do canguru, para o apetite
mais brutal. E mantém estrelas e montanhas para aqueles que apreciam
coisas ridículas mais sutis. — Ele voltou-se para o seu escudeiro. —
Mas, como eu disse ’comer’, vamos fazer um piquenique como duas boas
crianças. Basta correr e trazer-me uma mesa e uma dúzia de pratos, e
muita champanhe, e sob estes galhos balançando, Bowler, vamos voltar
para a natureza.
Levou cerca de uma hora para erguer em Holland Lane a refeição simples
do monarca, durante o qual ele andava para cima e para baixo assobiando,
mas ainda com um ar afetado de tristeza. Realmente tinha abandonado um
prazer que tinha prometido a si mesmo, e tinha aquele sentimento de
vazio e desgosto de uma criança quando se decepciona com uma pantomima.
Quando ele e o escudeiro se sentaram, no entanto, e consumiram uma
quantidade considerável de champanhe seco, seu animo começou a reviver
lentamente:
— As coisas levam muito tempo neste mundo. Detesto todo este negócio
Barkeriano sobre evolução e modificação gradual das coisas. Queria que o
mundo tivesse sido feito em seis dias, e feito em pedaços de novo em
mais seis. E gostaria de ter feito isso. A piada é boa no geral, o sol,
a lua, à imagem de Deus, e tudo mais, mas é terrivelmente longa. Já
desejou um milagre, Bowler?
— Não, senhor — disse Bowler, que era um evolucionista, e que tinha sido
criado cuidadosamente.
— Então, eu desejo — respondeu o rei. — Tenho andado ao longo de uma rua
com o melhor charuto no cosmos na minha boca, e mais Borgonha dentro de
mim do que você já viu em sua vida, e desejo que o poste se transforme
num elefante para me salvar do inferno da existência vazia. Acredite na
minha palavra, meu evolucionista Bowler, não acredite quando lhe dizem
que as pessoas procuraram um sinal, e que acreditavam em milagres porque
eram ignorantes. As pessoas faziam isso porque eram sábias, imundamente,
vilmente sábias - sábias demais para comer, dormir ou se colocar em seu
lugar com paciência. Isto parece deliciosamente como uma nova teoria
sobre a origem do cristianismo, o que por si só, é uma coisa de não mero
absurdo. Beba mais vinho.
O vento soprava em volta deles enquanto se sentaram à pequena mesa, com
seu pano branco e brilhantes copos de vinho, e jogava as copas das
árvores de Holland Park umas contra as outras, mas o sol estava naquele
temperamento forte, que torna o verde em ouro. O rei afastou seu prato,
acendeu um charuto lentamente, e continuou:
— Ontem pensei que estava próximo de presenciar um milagre realmente
divertido antes de virar comida para os vermes. Ver aquele maníaco ruivo
acenando com uma grande espada, e fazendo discursos para seus seguidores
incomparáveis, seria um vislumbre da Terra da Juventude de onde formos
expulsos pelas Parcas. Tinha planejado algumas coisas deliciosas. Um
Congresso em Knightsbridge com um tratado, eu na cadeira, talvez um
triunfo romano, com o velho alegre Barker levado em correntes. E agora
esses miseráveis pedantes vão acabar completamente com o requintado
sr. Wayne. Suponho que vão colocá-lo em algum asilo privado de acordo
com seus malditos preceitos humanistas. Pense nos tesouros que serão
diariamente derramados ao seu guarda insatisfeito! Gostaria de saber se
eles iriam me deixar ser seu guarda. Mas a vida é um vale. Nunca se
esqueça, em qualquer momento de sua existência a considerá-la à luz de
um vale. Este hábito gracioso, se não for adquirido na juventude...
O Rei parou, com seu charuto levantado, pois tinha deslizado seus olhos
para o olhar assustado de um homem que escutava. Não se moveu por alguns
momentos, então virou a cabeça bruscamente para a paliçada alta, magra,
e como ripa que isolava amplos jardins e espaços similares da faixa de
rodagem. De trás vinha um barulho curioso de escalada e raspagem, como
algo desesperado preso em uma caixa de madeira fina. O Rei jogou fora
seu charuto, e saltou para cima da mesa. A partir dessa posição, ele viu
um par de mãos penduradas agarradas em cima do muro. Em seguida, as mãos
tremeram com um esforço convulsivo, e entre elas surgiu uma cabeça – o
chefe de uma as cidades do Conselho de Bayswater, seus olhos e bigodes
com medo selvagem. Ele se impulsionou, e caiu do outro lado de bruços,
gemendo sem parar. No momento seguinte, a madeira fina e esticada da
cerca foi atingida por uma bala, reverberando como um tambor, e sobre
ela vieram empurrando e xingando, com roupas rasgadas, unhas quebradas e
rostos vermelhos, vinte homens correndo de uma vez. O Rei saltou os
cinco pés da mesa para o chão. No momento seguinte a mesa foi
arremessada, garrafas e copos voaram, e os detritos foram literalmente
arrastados no chão pelo fluxo de homens que passaram, e Bowler foi
levado junto com eles, como o Rei disse em seu famoso artigo de jornal,
“como uma noiva raptada”. A cerca balançou e rachou sob a carga de
alpinistas que ainda escalavam. Brechas enormes se abriam pela
artilharia viva, e através delas o rei pode ver mais rostos frenéticos,
como em um sonho, e mais homens correndo. Eram tão diversos como se
alguém tivesse tirado a tampa de uma lata de lixo humano. Alguns estavam
intocados, alguns estavam cortados, golpeados e sangrando, alguns
estavam esplendidamente vestidos, alguns esfarrapados seminus, alguns
estavam com o traje fantástico das cidades burlescas, alguns em
monótonos trajes modernos. O Rei olhou para todos eles, mas nenhum deles
olhou para o rei. De repente, se adiantou:
— Barker, o que é tudo isso?
— Vencido... — disse o político. — Vencido completamente... Inferno! — E
lançou-se com as narinas trêmulas como a de um cavalo, e mais homens
foram atrás dele.
Quase enquanto falava, a última tira da cerca em pé inclinou-se e
quebrou, atirando, como uma catapulta, uma nova figura na estrada. Ele
usava o vermelho flamejante dos alabardeiros de Notting Hill, e em sua
arma havia sangue, e em sua face vitória. Em seguida, massas em vermelho
brilhavam através dos vãos da cerca, e os perseguidores, com suas
alabardas, vieram enchendo a pista. Perseguidos e perseguidores,
igualmente, passavam pela pequena figura com olhos de coruja, que não
tirava as mãos dos bolsos.
O rei sentiu pouco além da confusão de um homem preso numa torrente – o
sentimento de homens procurando por bordas. Então aconteceu algo que
nunca foi capaz depois de descrever, e que não podemos descrever por
ele. De repente, na entrada escura, entre os portões quebrados de um
jardim, apareceu enquadrado uma figura flamejante.
Adam Wayne, o conquistador, com o rosto atirado para trás, sua juba como
um leão, estava com sua grande espada apontando para o alto, a
vestimenta vermelha de seu trabalho batendo ao seu redor como as asas
vermelhas de um arcanjo. E o Rei viu, não sabia como, algo novo e
irresistível. As grandes árvores verdes e as túnicas vermelhas
balançavam juntas com o vento. A espada parecia feita para a luz do sol.
As máscaras absurdas, nascidas de seu próprio escárnio, se elevavam e
abraçavam o mundo. Este era o normal, isto era sanidade, esta era a
natureza, e ele mesmo, com sua racionalidade e seu desprendimento e sua
sobrecasaca preta, ele era a exceção e o acidente, uma mancha preta
sobre um mundo vermelho e dourado.
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1 <#text6>
tradicional ordem de cavalaria britânica