Entra um Lunático

O Rei das Fadas, que foi, presumidamente, o padrinho do rei Auberon,

deve ter favorecido muito o seu fantástico afilhado neste dia em

particular, pois com a entrada da guarda do superintendente de Notting

Hill havia uma certa adição mais ou menos inexplicável para o seu

deleite. Os trabalhadores braçais miseráveis ​​e homens-sanduíche que

levavam as cores de Bayswater ou South Kensington, contratados apenas

para o dia para satisfazer o passatempo real, ficavam na sala com um ar

comparativamente compungido, e uma grande parte do prazer intelectual do

rei consistia no contraste entre a arrogância de suas espadas e penas e

a mansa miséria de seus rostos. Mas esses alabardeiros de Notting Hill,

em suas túnicas vermelhas com cinto de ouro, tinham o ar de uma

gravidade absurda. Eles pareciam, por assim dizer, tomar parte da

brincadeira. Eles marcharam e desfilavam em suas posições com uma quase

surpreendente dignidade e disciplina.

Eles carregavam uma bandeira amarela com um grande leão vermelho,

nomeado pelo Rei como o emblema de Notting Hill, por causa de uma

taverna no bairro que costumava frequentar.

Entre as duas linhas de seguidores avançou em direção ao rei um homem

alto, de cabelos vermelhos jovem, de alta categoria e ousados olhos

azuis. Ele teria sido chamado de bonito, mas que um certo ar indefinível

causado pelo seu nariz ser grande demais para seu rosto, e seus pés para

as pernas, dava-lhe uma aparência de estranheza e extrema juventude.

Suas vestes eram vermelhas, de acordo com a heráldica do rei, e, sozinho

entre os superintendentes, ele estava cingido com uma grande espada.

Este era Adam Wayne, o superintendente intratável de Notting Hill.

O rei atirou-se para trás na cadeira, e esfregou as mãos.

— Que dia, que dia! — disse para si mesmo. Agora vai haver barulho. Não

sabia que seria tão divertido. Estes superintendentes são tão

indignados, tão razoáveis, tão certinhos. Este homem, pelo olhar em seus

olhos, é ainda mais indignado do que o resto. Nenhum sinal em seus

grandes olhos azuis, de ter ouvido falar de uma brincadeira. Ele vai

reclamar dos outros, e eles vão reclamar dele, e todos vão ficar

suntuosamente felizes em reclamar comigo.

— Bem-vindo, meu Lorde — disse ele em voz alta. — Quais são as novidades

do Morro das Cem Lendas? O que tem para o ouvido de vosso Rei? Sei que

problemas surgiram entre você e estes outros, nossos primos, mas estes

problemas devem ser o nosso orgulho de se resolver. E não duvido, e não

se pode duvidar, que o seu amor por mim não é menos sensível, nem menos

ardente, que o deles.

O sr. Buck fez uma amarga careta e as narinas de James Barker se

curvaram; Wilson começou a rir baixinho, e o superintendente de West

Kensington fez o mesmo de uma forma discreta. Mas os grandes olhos azuis

de Adam Wayne nunca mudaram, e ele gritou pelo corredor com sua voz

singular e infantil:

— Trago a minha homenagem ao rei. Trago-lhe a única coisa que tenho: a

minha espada.

E, com um grande gesto, a colocou no chão, e ajoelhou-se em um dos joelhos.

Houve um silêncio de morte.

— Como disse? — disse o Rei, sem expressão.

— Fala bem, senhor — disse Adam Wayne —, como sempre fala, quando diz

que meu amor não é menor do que o amor deles. Pequeno seria se não fosse

maior. Porque sou o herdeiro de seu projeto, a criança da grande Carta.

Estou aqui pelos direitos que a Carta me deu, e juro, por sua coroa

sagrada, que onde permaneço, permaneço firme.

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“Trago a minha homenagem ao rei.”

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Os olhos dos cinco homens se arregalaram.

Em seguida, Buck disse, com sua voz extremamente forte:

— Todo o mundo ficou louco?

O rei levantou-se, e seus olhos brilharam:

— Sim — gritou, numa voz de júbilo —, todo o mundo é louco, exceto Adam

Wayne e eu. É certo como a morte o que lhe disse há muito tempo, James

Barker. A seriedade envia os homens a loucura. Você é louco, porque se

importa com política, tão louco como um homem que coleciona passagens de

bonde. Buck é louco, porque ele se importa com o dinheiro, tão louco

como um homem viciado em ópio. Wilson é louco, porque ele acha-se

correto, tão louco como um homem que pensa que é o Deus Todo Poderoso. O

superintendente de West Kensington é louco, porque acha que é

respeitável, tão louco como um homem que pensa que é uma galinha. Todos

os homens são loucos, exceto o humorista, que não se preocupa com nada e

possui tudo. Pensava que só havia um humorista na Inglaterra. Tolos!

Abram seus olhos bovinos; há dois! Em Notting Hill, naquela pouca

promissora elevação, nasceu um artista! Tentaram estragar a minha piada,

e me intimidar, tornando-se mais modernos, mais práticos, mais agitados

e racionais. Oh, que festivo foi para eu responder, tornando-me mais

augusto, mais gracioso, mais antiquado e maduro! Mas este rapaz viu como

me mover. Ele me respondeu de volta, vanglória por vanglória, retórica

por retórica. Ele levantou o escudo que eu não posso quebrar, o escudo

da impenetrável pomposidade. Ouçam. Veio, meu Lorde, por Pump Street?

— Pela cidade de Notting Hill — respondeu Wayne, com orgulho —, do qual

Pump Street é uma parte viva e alegre.

— Não é uma parte muito grande — disse Barker, com desprezo.

— Aquilo que é grande o suficiente para os ricos cobiçar — disse Wayne,

elevando sua cabeça — é grande o suficiente para os pobres defender.

O Rei deu um tapa nas suas pernas, e agitou seus pés no ar por um segundo.

— Toda pessoa respeitável em Notting Hill — cortou Buck, com sua voz

grossa e fria — apoia-nos e é contra ti. Tenho muitos amigos em Notting

Hill.

— Seus amigos são aqueles que aceitaram o seu ouro para comprar outros

lares, meu Lorde Buck — disse o superintendente Wayne. — Posso muito bem

acreditar que são seus amigos.

— Eles nunca venderam brinquedos sujos, de qualquer maneira — disse

Buck, rindo brevemente.

— Eles venderam coisas mais sujas — disse Wayne, calmamente. — Eles se

venderam.

— Isso não é bom, meu Buckito — disse o Rei, rolando sobre a cadeira. —

Não consegue lidar com essa eloquência cavalheiresca. Não pode lidar com

um artista. Não pode lidar com o humorista de Notting Hill. Oh, nunc

dimittis, pois vivi para ver este dia! Superintendente Wayne, permanece

firme?

— Deixe-os esperar e ver — disse Wayne. — Se permanecia firme antes,

acha que enfraquecerei agora que vi o rosto do Rei? Pois luto por algo

maior, se pode haver algo maior que os lares do meu povo e o Senhorio do

Leão. Luto por sua visão real, por seu grande sonho da Liga das Cidades

Livres. Você mesmo me deu essa liberdade. Se eu fosse um mendigo e

tivesse me atirado uma moeda, ou se eu fosse um camponês numa dança e

tivesse me arremessado um presente, acha que teria deixado sua oferta

ser levada por qualquer bandido na estrada?

— É demais, é demais — disse o rei. — A natureza é fraca. Preciso falar

com você, irmão artista, sem mais disfarce. Deixe-me lhe fazer uma

pergunta solene. Adam Wayne, alto lorde superintendente de Notting Hill,

não acha isso esplêndido?

— Esplêndido — gritou Adam Wayne! Tem o esplendor de Deus.

— Desviou novamente — disse o rei. — Vai manter a pose. Engraçado, é

claro, é sério. Mas, seriamente, não é engraçado?

— O quê? — perguntou Wayne, com os olhos de um bebê.

— Pare tudo, não jogo mais. O negócio todo da Carta das Cidades. Não é

imenso?

— Imenso não é uma palavra indigna para o glorioso projeto.

— Oh, pare! Mas, é claro, entendo. Você quer que eu limpe o quarto

destes bobos razoáveis. Quer os dois humoristas juntos sozinhos.

Deixe-nos, senhores.

Buck lançou um olhar azedo em Barker, e com um sinal mal-humorado,

saíram da sala como um desfile todo de azul e verde, de vermelho, ouro,

púrpura, deixando apenas os dois no grande salão, o rei sentado em seu

assento tablado, e a figura avermelhada ainda ajoelhado no chão ante a

sua espada caída.

O Rei limitou-se a descer os degraus e bateu nas costas do

superintendente Wayne.

— Antes das estrelas serem feitas — gritou ele — fomos feitos um para o

outro. É muito bonito. Pensar na valente independência de Pump Street.

Isso é real. É a deificação do ridículo.

A figura ajoelhada levantou-se ferozmente:

— Ridículo?! — gritou ele, com um rosto em fogo.

— Oh, pare, pare — disse o rei, impaciente —, não precisa manter isso

comigo. Os áugures devem piscar algumas vezes por pura fadiga das

pálpebras. Vamos aproveitar por meia hora, e não como atores, mas como

os críticos dramáticos. Não é uma piada?

Adam Wayne olhou para baixo como um menino, e respondeu em uma voz

constrangido:

— Não entendo a sua Majestade. Não posso acreditar que, enquanto luto

por sua carta régia, sua majestade me abandona para estes cães caçadores

de ouro.

— Oh, droga... Mas o que é isso? Que diabo é isso

O rei olhou para o rosto do jovem superintendente, e na penumbra da sala

começou a ver que seu rosto estava muito branco e os lábios tremendo.

— Em nome de Deus, qual é o problema? — gritou Auberon, segurando seu pulso.

Wayne virou seu rosto, e as lágrimas brilhavam sobre ele.

— Sou apenas um menino, mas é verdade. Pintaria o Leão Vermelho em meu

escudo mesmo que tivesse só o meu sangue.

Rei Auberon soltou a mão e ficou sem mexer, atordoado.

— Meu Deus do Céu! Será possível que alguém dentro dos quatro mares da

Grã-Bretanha realmente leva Notting Hill a sério?

— Meu Deus do Céu! — Wayne disse apaixonadamente. — É possível que haja,

dentro dos quatro mares da Grã-Bretanha um homem que não a leve a sério?

O rei não disse nada, mas apenas voltou a subir os degraus da tribuna,

como um homem atordoado. Caiu novamente para trás em sua cadeira e

chutou seus calcanhares.

— Se esse tipo de coisa continuar... — disse fracamente — Vou começar a

duvidar da superioridade da arte à vida. Em nome dos Céus, não brinque

comigo. Você realmente quer dizer que você (Deus me ajude!) um patriota

de Notting Hill? Você é…

Wayne fez um gesto violento, e o Rei o acalmava freneticamente.

— Tudo bem, tudo bem, vejo que você é; mas deixe-me continuar. Você

realmente propõe lutar contra estes renovadores modernos, com seus

conselhos, inspetores e agrimensores e todo o resto?

— Eles são tão terríveis? — perguntou Wayne, com desdém.

O rei continuou a olhar como se ele fosse uma curiosidade humana.

— E suponho que você acha que os dentistas, pequenos comerciantes e

senhoras solteiras que habitam Notting Hill, vão se reunir com hinos de

guerra seguindo seu estandarte.

— Se eles têm sangue, irão — disse o superintendente.

— E acho — disse o Rei, com a cabeça para trás entre as almofadas — que

nunca passou pela sua mente que... — sua voz parecia perder-se

exuberantemente — nunca passou pela sua cabeça que qualquer um pensou

que a ideia de um idealismo por Notting Hill é.. er.. um pouco.. pouco

ridícula?

— Claro que pensam assim — disse Wayne.

— Qual era o significado de zombar dos profetas?

— De onde — perguntou o rei, inclinando-se para frente —, de onde em

nome do Céu tirou essa ideia milagrosamente fútil?

— Você foi meu tutor, Senhor — disse o superintendente —, em tudo que é

alto e honroso.

— Eh? — disse o rei.

— Foi Sua Majestade quem primeiro colocou meu patriotismo em chamas. Dez

anos atrás, quando eu era um menino (tenho apenas 19), estava brincando

na encosta de Pump Street, com uma espada de madeira e um capacete de

papel, sonhando em grandes guerras. Num transe de raiva batia com a

minha espada, e fiquei petrificado, pois vi que tinha te batido, Senhor,

meu Rei, enquanto vagava em nobre segredo, cuidando do bem-estar das

pessoas. Mas não precisava ter medo. Pois me ensinou a entender a

realeza. Você nem se encolheu ou franziu a testa. Nem convocou nenhum

guarda. Nem impôs punições. Mas, em palavras ardentes e augustas, que

estão escritas na minha alma, para nunca mais serem apagadas, disse-me

para sempre virar a minha espada contra os inimigos da minha cidade

inviolada. Como um sacerdote apontando para o altar, me apontou para o

monte de Notting. "Enquanto estiver pronto para morrer pela montanha

sagrada, mesmo que seja cercado por todos os exércitos de Bayswater.”

Não me esqueci das palavras, e tenho razão agora para me lembrar delas,

pois é chegada a hora para coroar sua profecia. A colina sagrada está

cercada pelos exércitos de Bayswater, e estou pronto para morrer.

O rei estava deitado para trás na cadeira, uma espécie de ruína.

— Oh, Senhor, Senhor, Senhor — ele murmurou. — Que vida! Oh vida! Tudo

meu trabalho! Parece que fiz tudo isso. Então você é o menino de cabelos

vermelhos que me bateu no colete. O que fiz? Deus, o que fiz? Pensei que

tinha feito uma piada, e criei uma paixão. Tentei compor uma paródia, e

parece estar no meio da transformação num épico. O que é feito com um

mundo assim? Em nome do Senhor, a piada não era grande e ousada o

suficiente? Abandonei meu humor sutil para diverti-lo, e parece-me que

trouxe lágrimas aos seus olhos. O que deve ser feito para as pessoas

entenderem que você escreve uma pantomima? Chamar as salsichas de

festões clássicos, e fazer o policial cortar uma tragédia em duas por

dever público? Mas por que estou falando? Por que estou fazendo

perguntas a um cavalheiro jovem e bonito que é totalmente louco? Qual é

o propósito? Qual é o propósito de qualquer coisa? Oh, Senhor! Oh, Senhor!

De repente, ele levantou-se.

— Acha mesmo que a sagrada Notting Hill não é absurda?

— Absurda? — perguntou Wayne, sem expressão. — Por que deveria?

O rei olhou para trás igualmente sem expressão:

— Como?

— Notting Hill — disse o superintendente, simplesmente — é um terreno

elevado de terra comum, em que homens construíram casas para viver, onde

eles nascem, se apaixonam, rezam, casam e morrerem. Por que devo achar

absurdo?

O rei sorriu.

— Porque, meu Leônidas — começou, então, de repente, não sabia, sua

mente era um branco total. Afinal, por que era um absurdo? Por que era

um absurdo? Ele sentiu-se como se o chão de sua mente tivesse sumido.

Ele sentiu o que todos os homens sentem quando seus principais

fundamentos são duramente atingidos por uma pergunta. Barker sempre se

sentia assim quando o rei dizia: "Por que se preocupar com política?"

Os pensamentos do rei estavam em uma espécie de debandada, não podia

recolhê-los.

— A percepção geral é de ser um pouco engraçado — disse vagamente.

— Suponho — disse Adam virando-se com rapidez — que considera a

crucificação como algo sério?

— Bem — começou Auberon —, admito que, em geral, achei que tinha um lado

mais grave.

— Então está errado — disse Wayne, com incrível violência. — A

crucificação é cômica. É primorosamente divertida. Era um tipo absurdo e

obsceno de empalação reservado para as pessoas que foram feitas para

serem ridicularizadas, para escravos e provinciais, para dentistas e

pequenos comerciantes, como você diria. Vi a grotesca forca, que os

garotos de rua romanos rabiscaram como uma piada vulgar, em chamas sobre

os pináculos dos templos do mundo. E devo continuar?

O rei não respondeu.

Adam continuou, a sua voz ressoando no telhado.

— Esse riso com que os homens tiranizam não é o grande poder que

acredita. Pedro foi crucificado, e crucificado de cabeça para baixo. O

que poderia ser mais engraçado do que a ideia de um Apóstolo de idade

respeitável de cabeça para baixo? O que poderia ser mais ao estilo de

seu humor moderno? Mas qual foi o fim dele? De cabeça para baixo ou do

lado certo, Pedro era Pedro para a humanidade. De cabeça para baixo ele

paira sobre a Europa, e milhões se movem e respiram na vida da sua Igreja.

Rei Auberon levantou-se distraído:

— Há algo no que você diz. Parece que esteve pensando, jovem.

— Apenas sentindo, senhor — respondeu o superintendente. — Nasci, como

os outros homens, num ponto da terra que amei, porque brinquei jogos de

meninos lá, e me apaixonei, e conversei com os meus amigos em noites que

eram noites dos deuses. E sinto o mistério. Estes pequenos jardins onde

dissemos nossos amores. Essas ruas onde nós colocamos nossos mortos. Por

que deveriam ser comuns? Por que deveriam ser absurdos? Por que deveria

ser grotesco dizer que uma caixa de correio é poética quando, por um ano

não podia ver uma caixa de correio vermelha contra o amarelo do

anoitecer numa determinada rua sem ser sacudido por algo que Deus guarda

em segredo, mas que é mais forte do que a alegria ou a tristeza? Por que

alguém deveria levantar uma risada, ao dizer a “causa de Notting Hill”?

Notting Hill, onde milhares de espíritos imortais brilham ora com

esperança, ora com medo.

Auberon estava sacudindo a poeira de sua luva com uma nova seriedade em

seu rosto, distinta da solenidade de coruja que era a pose de seu humor.

— É muito difícil — disse finalmente. — É uma dificuldade maldita. Vejo

o que você quer dizer. Até concordo com você em certo ponto ou gostaria

de concordar, se eu fosse jovem o suficiente para ser um profeta ou

poeta. Sinto uma verdade em tudo que diz, até chegar às palavras

’Notting Hill’. E então lamento dizer que o velho Adão acorda morrendo

de rir e acaba com o novo Adão, cujo nome é Wayne.

Pela primeira vez o superintendente Wayne ficou em silêncio, e ficou

olhando sonhadoramente para o chão. A noite se aproximava, e o quarto

tinha ficado mais escuro.

— Eu sei — disse ele, numa voz estranha, quase sonolenta. — Também há

verdade no que diz. É difícil não rir com nomes comuns, digo apenas que

não se devia. Tenho pensado num remédio, mas tais pensamentos são

bastante terríveis.

— Que pensamentos? — perguntou Auberon.

O superintendente de Notting Hill parece ter caído em uma espécie de

transe, nos seus olhos havia uma luz élfica.

— Sei de uma varinha mágica, mas é uma varinha que apenas um ou dois

podem usar corretamente, e só raramente. É uma varinha de grande medo,

mais forte do que aqueles que a usam, muitas vezes assustadora, muitas

vezes perversa. Mas o que é tocado com ela nunca mais é totalmente

comum, o que é tocado recebe uma magia fora do mundo. Se eu tocar, com

esta varinha, as ferrovias e as estradas de Notting Hill, os homens irão

amá-las, e terão medo delas para sempre.

— Do que diabo você está falando? — perguntou o rei.

— Ela fez paisagens medianas serem magníficas, e casebres durarem mais

do que catedrais — continuou o louco. — Por que não poderia fazer de

postes de luz mais mágicos do que as lâmpadas gregas? E um passeio de

ônibus, como de um navio pintado. O toque dela é o dedo de uma estranha

perfeição.

— O que é a sua varinha? — gritou o rei, impaciente.

— Aí está — disse Wayne, e apontou para o chão, onde a sua espada estava

lisa e brilhante.

— A espada! — gritou o rei, e levantou-se em frente do estrado.

— Sim, sim — gritou Wayne, com voz rouca. — As coisas tocadas por ela

não são vulgares, as coisas tocadas por ela...

O rei Auberon fez um gesto de horror.

— Vai derramar sangue por isso! — gritou. — Por um maldiçoado ponto de

vista...

— Oh, vocês reis! — gritou Adam, em uma explosão de desprezo. — Quão

humano são vocês, quão carinhosos, quão atenciosos! Fazem a guerra por

uma fronteira, ou pelas importações de um porto estrangeiro! Derramam

sangue pelos direitos de impostos, ou como a saudação de um almirante.

Mas para as coisas que tornam a vida digna ou miserável, quão humanos

são! Digo aqui, e sei bem o que eu falo, nunca houve guerras

necessárias, mas as guerras religiosas. Nunca houve guerras justas, mas

as guerras religiosas. Havia nunca nenhuma guerra humana, mas as guerras

religiosas. Pois estes homens estavam lutando por algo que afirmava,

pelo menos, ser para a felicidade do homem, a virtude do homem. Um

cruzado pensou, pelo menos, que o Islã feria a alma de cada homem, rei

ou funileiro, tudo o que poderia cair em seu domínio. Acho que Buck,

Barker e estes abutres ricos ferem a alma de cada homem, ferem cada

centímetro do chão, ferem cada tijolo das casas, tudo o que cai em seus

domínios. Acha que não tenho o direito de lutar por Notting Hill, quando

seu governo inglês tantas vezes lutou por tolices? Se, ​​como dizem seus

amigos ricos, não há deuses, e acima de nós há somente os céus escuros,

para o que deve lutar o homem, mas pelo lugar onde teve o Éden da

infância e o curto céu do primeiro amor? Se não houver templos e não são

sagradas as escrituras, o que é sagrado, senão a própria juventude do homem?

O rei andou um pouco inquieto para cima e para baixo no estrado.

— É difícil — disse ele, mordendo os lábios — ser favorável a uma visão

tão desesperada, tão responsável

Enquanto falava, a porta da sala de audiência abriu entreaberta, e pela

abertura veio, como um súbito trino de um pássaro, a voz alta, nasal,

mas bem-educada de Barker:

— Eu disse a ele de forma muito clara, o interesse público...

Auberon se voltou para Wayne com violência:

— Que diabos é isso? O que estou dizendo? O que você está dizendo? Você

me hipnotizou? Malditos sejam seus misteriosos olhos azuis! Deixe-me ir.

Devolva-me o meu senso de humor. Devolva-me, eu digo!

— Eu lhe asseguro solenemente — disse Wayne, inquieto, com um gesto,

como sentindo sobre si — que não o tenho.

O rei caiu para trás em sua cadeira, e com uma gargalhada rabelaisiana:

— Não acho que tenha — exclamou.

O Napoleão de Notting Hill · 第 16 / 30 题