CARTA.

Ora do cume dos Montes,

Ora em suas verdes fraldas,

Hia estender os meus olhos

Na longa estrada das Caldas;

Sobre escumozos cavallos

Trotando empoada sege,

Disse quem fez os meus versos

=Ahi vem quem os protege;=

Alçando-me, hia a dizer-vos

=Senhor, chegou o meu prazo;

Honrastes hoje outros Montes,

Honrai agora o Parnazo;

Promettestes fazer ferteis

Seus estereis Mirto, e Loiro;

Promettestes que a Hypocrene

Levaria arêas de oiro;

Sua clara, inutil vêa

Réga chão, que não se lavra;

Vinde fazello fecundo,

Vinde cumprir-me a palavra.=

Mas, Senhor, não éreis Vós;

Era hum Casquilho, e do Povo;

Tornei a pegar nas Contas,

Tomei a esperar de novo;

Mil votos ao Céo mandava

Este humilde orador fraco,

Que vos não vissem Carreiros,[27]

Nem os ladrões do Tabaco;[28]

[Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

[Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

Então carrancuda Noite

Me enxotou co'as negras azas;

E em honra dos taes Amigos

Vim como Gato por brazas;

Sei, em fim, que já chegastes

Chamou por Vós minha dôr,

Venha o Illustre Conselheiro

Honrar-se em Procurador;

Fazer bem, he mór grandeza;

Deo-vos, tambem esta, o Pai;

Vós ambos d'entre os meus loiros

Cruas silvas arrancai;

Com piedoza Geografia

As Paternas mãos benignas,

Emendando ingratos Mappas,

Ponhão o Pindo nas Minas;

O Impressor gosta de Versos;

Quer que os meus públicos andem;

Mas he hum tanto acanhado,

Não imprime sem que o mandem;

Elle perdoa o contagio;

Pegai-lhe a minha doença;

Só deixarei de gemer

Em gemendo a sua Imprensa;

Assigne, pois, meu Avizo,

Pia, obedecida mão;

Mas não cuideis que com isso

Dais férias á protecção;

O mais ávido Leitor,

Das Quintilhas pregoeiro,

Ha de achallas insoffriveis

Em lhe custando dinheiro;

E só em nojoza Tenda

De Braguez Chatim mesquinho

Terão sahida os meus Versos,

Embrulhando o seu toicinho;

Só rapazes acharão

Minha Muza doce, e meiga;

Não porque tenha Poezia,

Mas porque teve manteiga;

Mettei, pois, Senhor, em brios

Ricos peitos avarentos;

Dizei, que comprem partidas,

Que he honra honrar os talentos;

Que serão, comigo, eternos

Se me evitarem o mal

De ir ao Templo da Memoria

Pela porta do Hospital;

E então da escondida burra

Ouvirá a surda aldraba

Não as vozes da Poezia,

Mas a voz de quem lha gaba;

Indo abrindo, juraráõ

A duas Artes odio, e medo;

A' da Guerra, em alta voz;

A' da Poezia, em segredo.

Entretanto ao digno Pai

Pedi que me faça Author;

Sejão públicos no Mundo

Meus versos, e o seu favor;

De Limas na honroza historia

Não serão titulos falsos

Fazer que as augustas Artes

Não marchem cos'pés descalços;

E Vós, firme Protector,

Fazei que por taes favores

Vamos beijar-vos a Mão,

Eu, e os meus dois mil Credores.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o

mesmo assumpto_.

Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II · 第 28 / 41 题