fallarem ao rei; têem cartas para lhe entregar. Mal tinhamos dois dias
de viagem, um corsario armado até aos dentes deu-nos caça; vendo nós que
elle era mais veleiro, fizemos das fraquezas forças, e encetámos
combate. Na abordagem, saltei-lhe na tolda, mas n'aquelle momento
afastaram-se os dois navios, e eu achei-me só e prisioneiro.
Comportaram-se commigo como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam,
porque contam pedir avultado resgate. Faze chegar ás mãos do rei a carta
que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade que porias em
evitar a morte. Tenho que confiar aos_ _teus ouvidos palavras que te
emudecerão de espanto, e comtudo ainda são fracas para a gravidade do
assumpto que devem exprimir. Estes marinheiros te conduzirão ao sitio
onde me acho. Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra.
Tenho muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes ser
teu do coração==Hamlet._» Venham, vou facilitar-lhes a entrega das
cartas, depois conduzam-me o mais prompto que podérem junto d'aquelle
que lh'as entregou. (Sáem todos.)
SCENA VII
Outro quarto no castello
Entram o REI e LAERTE
O REI
Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um amigo sincero,
agora que já deves ter percebido que o assassino de teu pae tambem
queria a minha morte.
LAERTE
Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos tão graves e
criminosos por sua natureza, não perseguiu o auctor, como era obrigado a
fazel-o, por sua dignidade, pela sua salvação, pela sua prudencia, por
tudo emfim?
O REI
Ah! por duas rasões, que provavelmente acharás sem valia, mas que a meus
olhos têem toda a gravidade. A rainha sua mãe idolatra-o, é a existencia
d'ella esse filho; eu por minha parte não sei se deva considerar isto
como virtude ou como desgraça; mas ella está tão intimamente ligada á
minha alma, qual satellite ao seu planeta, que só por ella e para ella
vivo. O outro motivo que me impede de formular contra elle uma accusação
publica, é a immensa affeição que o povo lhe consagra; affeição que
desculpa todas as suas faltas, e similhante a essas fontes que
transformam em pedra a madeira, converteria as suas cadeias em aureola
de gloria. N'estas circumstancias, pois, as minhas frechas demasiado
tenues para romperem tão forte vento, em vez de tocarem no alvo,
voltando-se, feririam só o que as despediu.
LAERTE
Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irmã na mais
desordenada demencia! Mas se é permittido elogiar o que já passou, ella
excedia em perfeições as creaturas da sua idade, e não me hei de eu
vingar?
O REI
Essa mágua não te perturbe o somno; não me julgues de um caracter tão
pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto me impressionou, seja
por mim tratado de bagatella. Brevemente saberás ainda mais. Eu
estremecia o teu pae; nós somos devéras amigos, agora deves acreditar
que...
Entra um MENSAGEIRO
O REI
Que queres? que ha de novo?
O MENSAGEIRO
Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra para a
rainha.
O REI
De Hamlet!! quem as trouxe?
O MENSAGEIRO
Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas foram-me
entregues por Claudio, que as recebeu do portador.
O REI (pegando na carta)
Ouvirás, Laerte, o seu conteúdo. (Ao mensageiro) Retira-te (o mensageiro
sáe) (abre a carta e lê): «_Alto e poderoso monarcha, depozeram-me em
territorio vosso, nú; ámanhã solicitarei o comparecer na vossa presença,
e então se me for permittido referir-vos-hei o que deu causa ao meu
estranho e inesperado regresso.==Hamlet_». Que significa isto? voltariam
todos, será engano, será tudo falso?
LAERTE
Conhece a sua letra?
O REI
É a letra de Hamlet. _Nú_, e n'um post-scriptum acrescenta _só_. Poderás
tu dizer-me o que tudo isto significa?
LAERTE
Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma no meu
coração abatido, pensando que lhe poderei dizer cara a cara: Foste tu o
assassino de meu pae.
O REI
Se assim é, Laerte, não póde nem poderia ser de outra maneira; queres tu
seguir um meu conselho?
LAERTE
Sim, comtanto que não me aconselhe a paz.
O REI
Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero: se é verdade que
regressou, o que indica que Hamlet recúa diante da viagem e renuncia a
ella, suggerir-lhe-hei uma aventura, cujo plano está maduro no meu
espirito, e em que não poderá deixar de succumbir, e sem que a sua morte
possa ser attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua
propria mãe limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo só uma
fatalidade.
LAERTE
Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor vontade, se
podér combinar de modo que eu seja o agente principal.
O REI
Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. Frequentemente,
desde as tuas viagens, têem-me gabado por excederes a todos no exercicio
de uma arte. Todas as tuas qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos
ciumes do que esta só; é comtudo talvez a menos importante.
LAERTE
E qual é essa qualidade?
O REI
Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite necessario;
porque não lhe fica menos bem um ornamento um pouco frivolo mesmo, do
que convem á idade madura as vestes encorpadas e serias que lhe impõem a
saude e a gravidade. Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando;
tenho visto francezes e combatido com elles, e são devéras habeis, mas a
habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia. Parecia arroscado
á sella, e guiava o cavallo tão prodigiosamente, que pareciam um só e o
mesmo animal intelligente. Excedeu tudo quanto se póde imaginar na arte
de cavallaria e volteio, tão perfeita era a execução.
LAERTE
Um cavalleiro normando, disse?
O REI
Um normando.
LAERTE
Então era Lamond; não póde ser outro.
O REI
Elle mesmo.
LAERTE
Bem o conheço, é a phenix, a perola da sua patria.
O REI
Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua pericia no
manejo das armas, sobretudo da espada, declarando ser impossivel achar
outro igual, e jurando que os jogadores de espada francezes perderam
agilidade, posição e golpe de vista depois que comtigo se mediram. Estes
elogios que elle te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de
Hamlet, que anhelava só pelo teu regresso para comtigo combater, e
transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas
circumstancias...
LAERTE
Que partido poderemos nós tirar?
O REI
Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou não era a tua dor senão um
simulacro, toda exterior e nada interior?
LAERTE
Porque esta pergunta?
O REI
Longe de mim o pensar que não amavas teu pae; mas a affeição é um
sentimento que se gera em nós, e a experiencia de todos os dias nos faz
ver que o tempo destempera a sua vivacidade e o seu ardor. Mesmo na
chamma do amor ha ás vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se
conserva permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento degenera
em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrição. O que pretendemos
fazer, devemos fazel-o na occasião propria, porque a vontade tambem
muda; tantas são as suas mudanças, quantas as linguas, mãos e outros
accessorios que se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais
que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado frequentes
suspiros, nos magôa, alliviando-nos. Mas entremos francamente na
questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto a fazer, para te
mostrares digno filho de teu pae, não com palavras, mas com obras?
LAERTE
Assassinal-o-ía mesmo no templo do Senhor.
O REI
Effectivamente o assassino não recúa perante o santuario, quando
pretende saciar a vingança. Mas, querido Laerte, queres seguir o meu
conselho? Encerra-te nos teus aposentos. Hamlet, regressando, saberá da
tua estada n'estes logares; farei com que exaltem na sua presença os
teus talentos, e que encareçam os elogios mais que os francezes o
fizeram; por este meio seguir-se-hão um desafio e apostas sobre a
pericia dos contendores. Elle que está desprevenido e é generoso e de
nada desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma
habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem botão, e por
meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar a morte de teu pae.
LAERTE
Como o rei disse, Laerte o fará; mesmo envenenarei a ponta do meu
florete. Comprei a um empirico uma droga mortal. Por pouco que a ponta
de um punhal esteja n'ella banhada, por leve que seja o ferimento, não
ha balsamo precioso, embora composto dos mais energicos contravenenos,
que possa salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim,
prepararei a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura lhe
seja fatal.
O REI
Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira mais facil e
favoravel para a sua execução. Se tivesse que falhar este nosso plano,
mais valeria nada tentar. Mas é necessario que esta primeira combinação
se firme n'uma segunda, que a substitua, no caso da arma se quebrar no
primeiro encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes
sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no calor do combate,
estiverem afogueados e sedentos, para conseguir o intento não poupes o
teu adversario, ataca-o com vigor. Hamlet, sem duvida, pedirá uma
bebida; ser-lhe-ha então apresentada uma, de antemão preparada, e uma só
gota bastará, se a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim
desejado. Mas silencio! Que rumor é este? (Entra a rainha.) Que ha de
novo, querida Gertrudes?
A RAINHA
Accumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte,
tua irmã suicidou-se, afogando-se.
LAERTE
Onde?
A RAINHA
Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem
se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irmã approximou-se d'aquelle
sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos, ortigas, malmequeres, e
d'essas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas
que as nossas castas donzellas denominam poeticamente _dedo da morte_.
Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as argenteas
frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na
corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de corôa virginal.
Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se á
sereia, cantando incoherentes trechos, inconsciente do proprio risco,
como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em
breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e
tornou-se cadaver levado pela corrente.
LAERTE
Oh! desgraçada! afogada!!
A RAINHA
Sim, Laerte!
LAERTE
Sequem-se as minhas lagrimas; já tiveste agua em demasia, infeliz
Ophelia! Mas porque? Mais força tem a natureza do que a vontade; todos
lhe devemos obediencia. Para que uma falsa vergonha? Rolem, pois pelas
faces lagrimas santas, e arrebatem na sua corrente a minha ultima
fraqueza. Adeus, senhor! As minhas palavras de fogo tornar-se-íam
embravecido vulcão, se as lagrimas do coração o não apagassem. (Sáe.)
O REI
Sigâmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua colera! Receio
bem que estas novas desgraças lhe despertem em toda a sua plenitude a
sanha da vingança. Sigâmol-o, pois.
Fim do acto quarto
ACTO QUINTO
SCENA I
Um cemiterio
Entram DOIS COVEIROS com enxadas
PRIMEIRO COVEIRO
Dever-se-ha enterrar em chão sagrado aquelle que voluntariamente
procurou a sua salvação no suicidio?
SEGUNDO COVEIRO
Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado viu e decidiu
que aqui fosse sepultada.
PRIMEIRO COVEIRO
Isso não póde ser, a menos que não se afogasse involuntariamente.
SEGUNDO COVEIRO
Já está reconhecido e decidido.
PRIMEIRO COVEIRO
As probabilidades todas são que pereceu _se offendendo_. Ninguem é capaz
persuadir do contrario. Vê tu como eu o provo. Se me afogar
voluntariamente existe um acto; ora, um acto subvide-se em tres ramos: a
acção, o cumprimento e a execução; ergo, afogou-se voluntariamente.
SEGUNDO COVEIRO
Assim será, mas escuta-me ao menos.
PRIMEIRO COVEIRO
Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem
vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente morre por seu motu
proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a agua que vem
encontrar o homem, e elle se afoga, então já não é elle que procura a
morte; ergo, aquelle que não é culpado na sua morte, não poz termo
voluntariamente á vida.
SEGUNDO COVEIRO
Mas será lei?
PRIMEIRO COVEIRO
É a lei que preside ao inquerito do magistrado.
SEGUNDO COVEIRO
Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse senhora de
qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado.
PRIMEIRO COVEIRO
É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade tenham,
a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito de se afogarem e de
se enforcarem. Vamos sempre cavando! Não ha nobreza mais antiga que a
dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profissão de Adão!
SEGUNDO COVEIRO
Pois Adão era nobre?
PRIMEIRO COVEIRO
O primeiro que usou armas!
SEGUNDO COVEIRO
Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse!
PRIMEIRO COVEIRO
Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura sagrada? A
escriptura diz que Adão trabalhava o solo; como poderia elle trabalhar
sem pá ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta,
se não me responderes com acerto, não és mais que um....
SEGUNDO COVEIRO
Asno! continúa.
PRIMEIRO COVEIRO
Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e
constructor de navios?
SEGUNDO COVEIRO
O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros hospedes.
PRIMEIRO COVEIRO
Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; mas para quem se
fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer
que o cadafalso é mais solido que a igreja, logo merecias o cadafalso.
Vamos, procura e responde.
SEGUNDO COVEIRO
Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que o pedreiro,
carpinteiro e constructor de navios?
PRIMEIRO COVEIRO
Dize tu primeiro, eu cá já sei.
SEGUNDO COVEIRO
Tambem eu.
PRIMEIRO COVEIRO
Vejamos.
SEGUNDO COVEIRO
Nada, não atino.
HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo
PRIMEIRO COVEIRO
Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na
mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde: «É o
coveiro; as moradas que construe duram até ao dia de juizo». Agora vae a
casa de Vaughan e traze-me um copo de licor.(O segundo coveiro sáe,
cantando.)
Quando eu era mancebo e quando amava
Tudo era para mim rapido goso,
Sómente noite e dia andava ancioso
Por o tempo matar que me matava.
HAMLET
Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo, cantando
assim, quando cava uma sepultura?
HORACIO
O habito tudo póde.
HAMLET
E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado!
PRIMEIRO COVEIRO (cantando)
Mas a idade chegou, passo furtivo
Nas gastadoras garras me ha tomado,
E assim, mau grado meu, me ha condemnado
A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.)
HAMLET (apontando para uma caveira)
Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava; agora este
rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a mandibula de Caim, o
primeiro homicida. O craneo que este imbecil trata com tão pouco
respeito, era talvez de algum profundo politico, que se julgava até
capaz de impor a sua opinião ao proprio Deus, não é verdade?
HORACIO
Tudo póde ser, senhor.
HAMLET
Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir: «Deus
seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez o craneo do sr. fulano,
que gabava o cavallo do sr. cicrano, com a idéa que este lh'o désse, não
é verdade, Horacio?
HORACIO
Sim, meu senhor!
HAMLET
Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem pelle, nem
sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma
estranha revolução, assim a comprehendessemos bem. Joga-se a bola com
esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os
meus só pensando-o.
PRIMEIRO COVEIRO (cantando)
Uma enxada e uma pá logo em seguida,
Um lençol que amortalha o corpo todo,
Um buraco depois feito no lodo,
Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.)
HAMLET
Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. Agora
acabaram as trapaças, as distincções subtis, as causas, as auctoridades
legaes e as finuras. Em vida, de certo não consentia sem um processo que
este imbecil lhe percutisse o craneo com a enxada. Porque não lhe
intenta agora uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez
fosse um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, rendas,
privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora elle mesmo hypothecado,
tem o privilegio commum a todos os mortaes, de ver a sua cabeça coberta
de pó e terra. Pois que! todas as acquisições tão bem garantidas, não
terão outro complemento senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á
superficie de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal
caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade. Ah!
HORACIO
Unica, senhor!
HAMLET
Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é verdade?
HORACIO
Tambem de bezerro.
HAMLET
São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos. Vou
interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?
PRIMEIRO COVEIRO
A mim!
(Cantando)
Um buraco depois feito no lodo,
Eis ao que se reduz a humana vida.
HAMLET
Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella.
PRIMEIRO COVEIRO
O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não me ser
destinada, é comtudo minha.
HAMLET
Mentes, é para um morto, e não para um vivo.
PRIMEIRO COVEIRO
Eis um desmentido prompto e que não admitte replica.
HAMLET
Para que homem cavas essa cova?
PRIMEIRO COVEIRO
Senhor, não é para um homem!
HAMLET
Para que mulher então?
PRIMEIRO COVEIRO
Nem tão pouco para uma mulher!
HAMLET
Quem será pois depositado n'esta cova?
PRIMEIRO COVEIRO
Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça da sua
alma.
HAMLET
Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com toda a clareza,
para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, que noto ha tres
annos que o mundo se torna retrogrado, e o rustico se approxima tanto do
cortezão, que quasi se confundem. Ha quanto tempo és coveiro?
O COVEIRO
Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a
Fortimbraz.
HAMLET
Quanto tempo haverá?
O COVEIRO
Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no mesmo dia em
que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, e foi mandado para
Inglaterra.
HAMLET
É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?
O COVEIRO
Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão, e se não a
recuperar, tambem não se perde muito.
HAMLET
E porque?
O COVEIRO
Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle.
HAMLET
Como enlouqueceu elle?
O COVEIRO
De um modo bem estranho, segundo dizem.
HAMLET
Mas de que modo?
O COVEIRO
É claro, perdendo a rasão.
HAMLET
E qual foi o motivo?
O COVEIRO
Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou coveiro desde a
infancia, ha trinta annos.
HAMLET
Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado, antes de apodrecer?
O COVEIRO
Se não está já podre antes de morrer (porque temos n'esta epocha muito
corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação), póde conservar-se de
oito a nove annos; um surrador conserva-se nove annos.
HAMLET
Porque mais tempo que os outros?
O COVEIRO
O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle, que fica
impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a agua é o mais activo
destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira? Ficou vinte e tres annos
debaixo da terra.
HAMLET
De quem era?
O COVEIRO
De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?
HAMLET
Como posso eu sabel-o?
O COVEIRO
Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou sobre a cabeça um
frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do
rei.
HAMLET
Este craneo?
O COVEIRO
Sim, este mesmo.
HAMLET (pegando na caveira)
Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, era uma mina
inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda!
quantas vezes me levou aos hombros! agora ao pensal-o annuvia-se-me o
coração. Aqui estavam os seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde
estão agora os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses
rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Que!
pois ninguem já póde rir com as tuas facecias? Descarnadas estão as
faces. Vae, entra como agora estás, na alcova de alguma beldade da moda;
dize-lhe então que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia
será igual a ti. Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...
HORACIO
O que, meu senhor?
HAMLET
Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick?
HORACIO
De certo!
HAMLET
E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! (Deita fóra o craneo.)
HORACIO
Sem duvida alguma, senhor.
HAMLET
A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio? Quem sabe se,
proseguindo nas suas successivas transformações, as cinzas de Alexandre
não estão hoje empregadas em tapar um barril?
HORACIO
Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.
HAMLET
Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades
de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre está morto, Alexandre está
sepultado, Alexandre tornou-se pó; o pó é terra, da terra tira-se
argilla, e quem impede que esta argilla, ultima metamorphose de
Alexandre, seja empregada como batoque n'um barril de cerveja? O
imperial Cesar, morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda
e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava o terror
sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir que o vento passe.
Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: (Entram processionalmente
padres, levando á mão o caixão de Ophelia; segue-se Laerte e o cortejo
funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte) e tambem a rainha! toda a
côrte! A quem prestarão os ultimos deveres? De quem será este funeral
incompleto? Tudo denuncia um suicidio. Deve porém ser pessoa de
categoria! Occultemo-nos e observemos, Horacio. (Afastam-se um pouco
Hamlet e Horacio.)
LAERTE
Que ceremonias falta cumprir?
HAMLET
Olha, é Laerte, um nobre mancebo.
LAERTE
Ha mais alguma cousa que fazer?
PRIMEIRO PADRE
Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; a sua
morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores não tivessem
imposto silencio aos canones da Igreja, teria sido sepultada em chão
profano, onde teria ficado até que a acordasse o clarim do juizo final.
Em vez de orar por ella, teriamos lançado sobre o seu corpo tições,
entulho e pedras; e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram
a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á sua ultima
morada.
LAERTE
Então nada mais se póde fazer?
PRIMEIRO PADRE
Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos um _requiem_, ou
se implorassemos para ella o repouso destinado ás almas que voaram ao
céu santamente.
LAERTE
Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle e da sua
carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que t'o digo,
padre sem alma, minha irmã gosará no céu a bemaventurança eterna,
emquanto que tu extorcer-te-has no inferno nas convulsões do supplicio
dos condemnados.
HAMLET
Que? É pois a bella Ophelia?
A RAINHA (lançando flores sobre a campa)
Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu
Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu leito nupcial;
nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.
LAERTE
Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre a cabeça
do scelerado que commetteu tão negra acção, e provocou a perda da sua
rasão. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez
nos meus braços (salta para dentro da cova). Agora enterrem
conjunctamente vivos e mortos, elevem sobre nós uma montanha que exceda
em altura o antigo Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as
nuvens.
HAMLET (adiantando-se)
Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase; cuja voz detem os
astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquez!
(Arremessa-se á cova.)
LAERTE (lançando-se a elle)
O inferno se apodere da tua alma!
HAMLET
É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as mãos, abaixo,
aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado, mas é perigoso
excitar-me, e obrarás assisadamente pensando assim. Abaixo as mãos!
O REI
Separem-os.
A RAINHA
Hamlet! Hamlet!
TODOS
Senhores!
HORACIO
Contenham-se.
HAMLET
Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até ao ultimo
alento.
A RAINHA
Meu filho, qual é o motivo?
HAMLET
Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos não poderiam
igualar a minha; (a Laerte) e que serias tu capaz de fazer por ella?
O REI
Deixa-o, Laerte, está louco.
A RAINHA
Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.
HAMLET