Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quaes me

fio tanto como na innocencia dos envenenados dardos das viboras, são os

portadores da ordem! São elles que me hão de aplanar o caminho, e se

encarregarão de me conduzir ao laço armado pela mais negra traição.

Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar

nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem preparava. Nada ha,

senhora, que nos dê mais gosto do que combater a traição,

contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polonio apressará a minha

partida. Levemos o seu cadaver para a camara vizinha. Boas noites, minha

mãe. Este conselheiro está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto

e grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, acabemos

por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. (A rainha sáe por um lado,

Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)

Fim do acto terceiro

ACTO QUARTO

SCENA I

Um quarto no castello de Elsenor

Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter uma causa.

Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está nosso filho?

A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern)

Deixem-nos sós um momento. (Os dois sáem.) (Ao rei) Ah! senhor, que

noite esta!

O REI

Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?

A RAINHA

Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando entre si

luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos do delirio,

ouvindo mexer atrás de uma cortina, exclamou: _Um rato, um rato_, e

desembainhando a espada, cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião.

O REI

Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse;

livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. Que rasões

daremos para explicar este acto sanguinario? Taxar-nos-hão de

imprevidentes, a responsabilidade toda caírá sobre nós; dirão que

deviamos ter isolado esse insensato, mas era tão grande a nossa

affeição, que não comprehendemos o que a prudencia nos aconselhava.

Obrámos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar

segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde

está Hamlet?

A RAINHA

Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a morte. No meio

mesmo da sua demencia, conserva-se pura e intacta a sua intelligencia,

como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao

lembrar-se da acção que commetteu.

O REI

Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, já Hamlet

deverá ter embarcado; logo em seguida partirá para Inglaterra. Quanto a

esta odiosa acção precisâmos achar na nossa auctoridade e no nosso

engenho alguma desculpa que a releve aos olhos do mundo. Olá,

Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)

O REI (continuando)

Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua

demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou para fóra da camara de sua

mãe. Tratem de descobrir onde o occultou, encarrego-os d'esta missão.

Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio

para a capella; peço-lhes só que se aviem. (Sáem Rosencrantz e

Guildenstern.)

O REI (continuando)

Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, demos-lhe a

conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida. Precavendo-nos d'este

modo, talvez a calumnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma

extremidade do mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os

do mais perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade

do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto senão perturbação e

terror! (Sáem.)

SCENA II

Outro quarto no castello

Entra HAMLET

HAMLET

Duvido que o encontrem.

VOZES DE FÓRA

Hamlet? senhor Hamlet?

HAMLET

De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! eil-os que

chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)

ROSENCRANTZ

Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?

HAMLET

Entreguei-o ao pó de que saíu.

ROSENCRANTZ

Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na capella?

HAMLET

Não pensem em tal.

ROSENCRANTZ

Que devemos, pois, pensar?

HAMLET

Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com a minha.

Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe póde dar o

filho de um rei?

ROSENCRANTZ

É a mim que chama esponja?

HAMLET

A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o

poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes prestam ao monarcha

relevantes serviços, são para elle como o fructo que o bugio conserva na

bôca para depois o engulir; quando necessitar do que tem arrecadado,

espreme-os como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.

ROSENCRANTZ

Não comprehendo, senhor!

HAMLET

Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio os ouvidos

do tonto.

ROSENCRANTZ

Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei.

HAMLET

Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse corpo. O rei

é uma creatura.

ROSENCRANTZ

Uma creatura, senhor?

HAMLET

Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença. Vamos jogar as

escondidas. (Sáem todos.)

SCENA III

Uma sala no castello

Entra o REI com a sua comitiva

O REI

Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo deixar livre um

tal homem; mas não podemos fazer pesar sobre elle todo o rigor das leis.

A multidão insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela

rasão; n'estas circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos

culpados, nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer

descontentamento é forçoso que este precipitado exilio pareça

consequencia de madura reflexão. Para males desesperados remedios

energicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Então que aconteceu?

ROSENCRANTZ

Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver.

O REI

Onde está Hamlet?

ROSENCRANTZ

No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de vossa

magestade.

O REI

Que venha á nossa presença.

ROSENCRANTZ

Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e

Guildenstern.)

O REI

Hamlet, onde está Polonio?

HAMLET

N'um banquete.

O REI

N'um banquete?! onde?

HAMLET

Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes politicos disputa

o seu cadaver. O verme é o monarcha dos comedores. Engordâmos todas as

creaturas para nos engordarmos, e engordâmo-nos para pasto dos vermes.

Um rei gordo e um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo

hão de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade.

O REI

Infelizmente assim é!

HAMLET

É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver real, um peixe,

e que se coma depois o peixe que enguliu o verme.

O REI

Que significam as tuas palavras?

HAMLET

Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar um rei para

penetrar nos intestinos do pobre.

O REI

Onde está Polonio?

HAMLET

No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o achar,

procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso se não o acharem

até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará junto á escada da galeria.

O REI (á sua comitiva)

Procurem-o já.

HAMLET

Esperal-os-ha com certeza. (Sáe a comitiva do rei.)

O REI

Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto dolorosa a

acção que commetteste, é forçoso que partas com a maior brevidade; vae,

pois, preparar-te. O navio está prompto e o vento sopra propicio; os

teus companheiros esperam-te, e tudo está disposto para a tua viagem a

Inglaterra.

HAMLET

A Inglaterra?

O REI

Sim, Hamlet.

HAMLET

Está bem.

O REI

O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.

HAMLET

Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra. Adeus, minha

querida mãe.

A RAINHA

E teu pae que te estremece?

HAMLET

Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido e mulher são uma e

mesma carne. Assim, pois, adeus, minha mãe. Vamos para Inglaterra.

(Sáe.)

O REI (a Rosencrantz e Guildenstern)

Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente, não ha tempo que

perder. Quero que já esta tarde esteja afastado d'estes sitios. Vão!

Tudo quanto respeita a este negocio foi já expedido e sellado com as

nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o. (Sáem.) (Continuando) Rei de

Inglaterra, sabes até onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo

ferro dinamarquez ainda sangram, e teu respeito nos presta livre

homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolencia, não receberás

friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a

morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet é febre

que requeima o meu sangue, e tu é que me deves curar d'ella. Não terei

um dia de prazer e descanso emquanto não souber a completa execução das

minhas ordens, aconteça o que acontecer. (Sáe.)

SCENA IV

Uma planicie na Dinamarca

Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas

FORTIMBRAZ (a um dos seus officiaes)

Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em

conformidade com a sua promessa, Fortimbraz lhe pede livre passagem pelo

seu territorio; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se sua

magestade desejar fallar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens.

Diga-lh'o da minha parte.

O OFFICIAL

As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!

FORTIMBRAZ (ás suas tropas)

Avancemos em attitude pacifica. (Fortimbraz e as suas tropas afastam-se.

O official fica.)

Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas

HAMLET (ao official)

Que tropas são essas, meu amigo?

O OFFICIAL

É o exercito norueguez, senhor!

HAMLET

Qual é o seu destino?

O OFFICIAL

Um ponto do território da Polonia.

HAMLET

Quem o commanda?

O OFFICIAL

Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.

HAMLET

É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado da fronteira

que marcham?

O OFFICIAL

Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma parte da Polonia,

cuja conquista será para nós gloria, sem proveito algum. Estou certo que

a sua renda não vale cinco ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.

HAMLET

Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia?

O OFFICIAL

Pelo contrario, até já o guarneceram.

HAMLET

Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para tão futil

empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma demasiada e

prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique

exteriormente a sua acção mortal. Obrigado, amigo.

O OFFICIAL

Deus seja comvosco, senhor. (Afasta-se.)

ROSENCRANTZ

O principe quer que continuemos o nosso caminho?

HAMLET

Póde ir indo, em breve o alcançarei. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)

(Continuando.) Como sempre tudo me accusa e me excita á tardia vingança.

O que é o homem, se o seu primeiro bem, o maior negocio da sua vida,

consiste em comer e dormir! É um animo brutal, nada mais. Seguramente,

que aquelle que nos dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar

o passado e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel

raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto

esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito demasiado na acção que

tenho que commetter, pensamento composto de uma quarta parte de siso e

tres quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando

repito: _Eis o que devo fazer_, já que me sobram os motivos, tenha eu ao

menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os mais

irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, capitaneado

pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, soprado por uma ambição

divina, affronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisivel,

expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna,

a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira

grandeza consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas rasões,

mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto, cuja verdadeira

causa é o pundonor. Que posição pois a minha, eu que tenho um pae

assassinado, uma mãe deshonrada; eu que tenho tantos motivos de colera e

que tudo deixo adormecer, emquanto que para minha vergonha vejo vinte

mil homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte,

caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; irem combater

para conquistar um quinhão de terra insufficiente para caberem n'elle, e

cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se

revelam sanguinarios os meus pensamentos, ou então nada. (Afasta-se.)

SCENA V

Uma sala no castello de Elsenor

Entram HORACIO e a RAINHA

A RAINHA

Não lhe quero fallar.

HORACIO

Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão; o seu estado

é digno de compaixão.

A RAINHA

O que pretende ella?

HORACIO

Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este mundo se

commettem bem más acções, suspira, bate no peito, exaspera-se sem

motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. Nada diz, comtudo quem

ao ouvil-a não teria vontade de a comprehender. Aquelles que a ouvem

procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar

o sentido das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as

palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um sentido, e provavelmente

tem-no, mas de certo bem sinistro.

A RAINHA

É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola e

perigosamente os espiritos. Que venha. (Horacio sáe.) (Continuando) Ah!

minha alma enferma! Será uma condição do crime, que a menor bagatella

pareça sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal é a

desconfiança em uma consciencia culpada, que se trahe a si mesma com o

receio de se trahir.

HORACIO entra com OPHELIA

OPHELIA

Onde está a bella rainha de Dinamarca?

A RAINHA

Ophelia?

OPHELIA

Como hei de eu conhecer o bem amado

Por entre a multidão?

Pelo chapéu de conchas enfeitado

E pelo seu bordão.

A RAINHA

Infeliz Ophelia! Que significam esses versos?

OPHELIA

Pergunta-mo? Escute então...

Levaram-no bem morto ao cemiterio!

O que tu foste e és!...

Sob a fronte senil myrto funereo,

E fria pedra aos pés!

Ai de mim! (Chora.)

A RAINHA

Ophelia, querida Ophelia?

OPHELIA

Ouça mais, peço-lh'o...

Branca de neve a frigida mortalha...

Entra o REI

A RAINHA

Veja, senhor!

OPHELIA

É como um prado em flor

Baixou á campa a fronte e não a orvalha

Com lagrimas o amor!!

O REI

Como está bella, Ophelia?

OPHELIA

Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fôra outr'ora filha de um padeiro.

Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser.

Que Deus abençôe a sua mesa.

O REI

Recorda-se do pae?

OPHELIA

Não fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa,

dir-lhes-hei o que é. Respondam.

São Valentim! dizes-me a minha sina?

A pé já todos são.

Queres que eu seja a tua Valentina?

Sou virgem, sim ou não?

Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente

Do quarto a porta abriu;

E virgem ella entrou... mas tão sómente

Mulher quando saíu.

O REI

Encantadora Ophelia!

OPHELIA

Em verdade vou terminar sem juramento.

Por Jesus! pela santa caridade!

Quem vale á infeliz?!

Ai! são todos assim na mocidade,

A sorte é quem n'o quiz!

Antes da minha quéda prometteste

Conduzir-me ao altar:

Por Deus o houvera feito... não quizeste.

Quem te mandou entrar?

O REI

Ha quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou d'ella?

OPHELIA

Tudo vae bem! É preciso ter paciencia; não posso reter o pranto,

pensando que está debaixo da terra fria e humida. Meu irmão ha de

sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a minha carruagem. Boa noite,

minhas senhoras, boa noite, bellas senhoras, Adeus, boas noites! (Sáe

correndo.)

O REI (a Horacio)

Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lh'o eu!

(Horacio sáe.) (Continuando) Oh! é aquelle o veneno de uma dor profunda,

causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes, quando as dores nos

assaltam, nunca é isoladamente, é como se viessem em tropel. Primeiro a

morte do pae, depois a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou

o proprio exilio; o povo alvoroçado e descontente, commenta malevola e

insidiosamente a morte de Polonio, e nós obrámos pouco assisadamente

ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente do seu

estado, está privada da rasão, sem a qual somos simples estatuas,

creaturas brutas. Para cumulo de desgraça esta vale todas as outras, seu

irmão voltou secretamente de França, embrenha-se no labyrintho de

noticias, e mantem-se occulto. Não deixará por certo de haver bôcas

malevolas, que por occasião da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos

com insinuações perfidas, e a calumnia, na carencia de outro assumpto,

não nos poupará com os seus dardos envenenados e mortiferos. Ah! querida

Gertrudes; tudo isto, similhante a um instrumento de morte, vibra-me

mais golpes que os necessarios para pôr termo á minha vida. (Ouve-se um

grande rumor fóra da sala.)

A RAINHA

Que rumor é esse?

O REI

Olá, venha alguem. (Entra um official do palacio.)

O REI (continuando)

Onde estão os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me já o que ha.

O OFFICIAL

Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade com mais

violencia a campina, do que o joven Laerte, á frente da rebellião,

derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo chama-lhe soberano, e

como se fosse no começo do mundo, sem tradições, nem passado, nem usos,

sobre que tudo se firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejâmos um

rei! Laerte será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros,

todas as mãos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte será rei. Viva o

rei Laerte!

A RAINHA

Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se!

Dinamarquezes ingratos!

O REI

Entraram á força. (Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito povo

dinamarquez.)

LAERTE

Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fóra.

O POVO

Nada! Queremos todos entrar.

LAERTE

Façam o que lhes peço.

O POVO

É justo! é justo! (Sáem.)

LAERTE

Obrigado, senhores; guardem as portas. (Ao rei.) Infame! entrega-me meu

pae.

O REI

Socegue, meu caro Laerte.

LAERTE

Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ía

bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria na casta fronte

de minha adorada mãe um estigma indelevel de infamia.

O REI

O que deu azo, Laerte, a uma rebellião, que assumiu proporções tão

colossaes? Está tranquilla, Gertrudes, por nós nada receies; graças ao

caracter sagrado que protege os reis, a traição não lança senão um olhar

timido e incerto para o resultado que anhelam os seus desejos, e os

effeitos estão longe de corresponder á sua esperança. Dize-me, Laerte, o

motivo d'esta irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla,

Laerte.

LAERTE

Onde está meu pae?

O REI

Morreu.

A RAINHA

Mas o rei está innocente.

O REI

Deixa-me interrogal-o á minha vontade.

LAERTE

Como morreu elle? Não admitto duvidas, dispenso juramentos; leve o

demonio a fé jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia e a fidelidade.

Affrontarei a condemnação, declaro-o formalmente; renuncio a tudo n'este

e no outro mundo, aconteça o que acontecer, comtanto que vingue de um

modo bem patente a morte de meu pae.

O REI

E quem t'o impede?

LAERTE

A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto aos meios de que

disponho, empregal-os-hei de modo que com recursos limitados tire

d'elles o maior proveito.

O REI

Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade toda a respeito

da morte de teu estremecido pae. Mas estás tu resolvido a confundir

amigos e inimigos, aquelles que perderam e aquelles que ganharam com a

sua morte?

LAERTE

Unicamente os inimigos quero punir.

O REI

E queres conhecel-os?

LAERTE

Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço; e similhante

ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue alimentar os filhos,

estou prompto a por elles dar o meu sangue todo.

O REI

Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado. Sou innocente na

morte de teu pae, e deploro-a amargamente; demonstral-o-hei á tua rasão

com provas tão claras como a luz do dia.

O POVO (de fóra)

Deixem-a entrar.

LAERTE

O que é? Que rumor é esse? (Entra Ophelia estranhamente enfeitada com

flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabellos.) (Continuando.) Meu

pobre cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes corrosivas,

queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido da vista! Por Deus! A tua

demencia será paga com usura, até que o nosso peso faça baixar uma das

conchas da balança. Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irmã,

boa Ophelia! Oh! ceus! pois será possivel que a rasão de uma jovem

mulher seja tão fragil como a vida do ancião! A natureza tem no seu amor

um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram no objecto amado.

OPHELIA

Levaram-no em mesquinha padiola

E foram-no enterrar!

Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola

De lagrimas um mar.

LAERTE

Possuisses tu toda a tua rasão, animasses-me tu á vingança, não

conseguias crear em mim uma emoção.

OPHELIA

Forçoso é que eu cante e tu tambem:

Abaixo! Abaixo!

Lançae-o abaixo!

Devias ouvir cantar ás fiadeiras; é a canção do intendente desleal, que

raptou a filha de seu amo.

LAERTE

Estes nadas tudo me dizem.

OPHELIA (a Laerte, dando-lhe uma flor)

Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de mim, peço-t'o, meu

querido; estes são amores perfeitos, é para que sempre viva no teu

coração de irmão.

LAERTE

Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente a lembrança

e o pensamento.

OPHELIA (ao rei)

Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. (Á rainha) Para vós,

senhora, é arruda e tambem para mim; para vós será a herva da ventura,

para mim a da dor. Eis um malmequer. Queria dar-vos violetas, mas

feneceram todas quando meu pae morreu; dizem que teve o fim do justo.

Porque era o bom Robim minha alegria

LAERTE

A melancolia, a afflicção, a colera, o proprio inferno, tudo é divino

proferido por ella.

OPHELIA

E nunca mais virá?!

Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia!

Não mais! não voltará!

Era a barba tão branca como a neve:

Partiu! foi para os céus.

Perdida, inutil dor! Breve, até breve,

Tem dó d'elle, meu Deus!...

Assim como de todas as almas christãs, assim o peço a Deus, e elle seja

comvosco. (Sáe.)

LAERTE

Vêem? Meu Deus!...

O REI

Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio; é um direito que me

pertence e que me não pódes negar sem injustiça. Reune em particular os

teus amigos mais assisados; elles nos ouçam, e depois julguem entre nós

dois. Se culpado me acharem, directa ou indirectamente, entrego-te, em

expiação da minha culpa, reino, corôa e vida, e tudo quanto possa dizer

meu; no caso contrario, peço-te só paciencia, e de accordo obraremos

para te alcançar uma completa satisfação.

LAERTE

Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral obscuro, em que

nem trophéus, nem espada, nem brazão figuraram, a ausencia de toda a

ceremonia funebre no saímento do seu corpo, são como um aviso do céu,

que me clama pela voz celeste: Indaga como foi.

O REI

Faça-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado. Agora

peço-te, Laerte, que me sigas. (Sáem ambos.)

SCENA VI

Um quarto no castello de Elsenor

Entram HORACIO e um CREADO

HORACIO

Quem é que me pretende fallar?

O CREADO

Marinheiros... e dizem que têem cartas que lhe são dirigidas.

HORACIO

Que entrem pois; (o creado sáe) (só) não percebo de que canto do mundo

se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet.

Entram os MARINHEIROS

PRIMEIRO MARINHEIRO

Guarde-o Deus, senhor!

HORACIO

Igualmente a ti!

PRIMEIRO MARINHEIRO

Fal-o-ha, se for da sua vontade. (Entrega uma carta) Aqui tem esta

carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra; o senhor, segundo

me asseguraram, chama-se Horacio, não é verdade? (Dá-lhe outra carta.)

HORACIO (abrindo a carta, lendo)

Hamlet: Drama em cinco Actos · 第 5 / 7 段