A molestia, dada por explicação á recusa do casamento, passou á
realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para não
alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois,
mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez não
foi boa, antes má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas
molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de
avisar os paes da moça. Os paes viéram logo. Natividade tambem desceu
de Petropolis, não de vez; em cima, tinham medo de algum movimento
cá embaixo. Veiu a visitar a moça, e, a pedido desta, ficou alguns
dias.--Só a senhora me póde curar, disse Flora; não creio nos remedios
que me dão. As suas palavras é que são boas, e os seus carinhos...
Mamãe tambem, e D. Rita, mas não sei, ha uma differença, uma cousa...
Veja: parece-me que até já rio.
--Já, já; ria mais.
Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na
bôca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fórça a seriedade
propria da dôr. Natividade dizia-lhe palavras de animação; fel-a
prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade começou a
ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e lá ficou aposentada.
Natividade ia á noite para Botafogo e voltava de manhã. Ayres descia de
Petropolis um dia sim, um dia não.
Tambem os gemeos lá iam saber da enferma. Agora mais que d'antes,
sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia á moça. Pedro, já medico,
ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia
melhor dos symptomas, mas as esperanças e os receios eram de ambos.
Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A
razão, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppõe que os cartões de
visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes,
para que soubessem logo da presença, da cortezia e da anciedade. Tal
cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e
recebia as lembranças que lhe deixavam.
Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé de si,
pela razão que já deu, e por outra que não disse, nem porventura soube,
mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abençoado que
gerára os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular.
Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa,
não a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal
crise, Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas
juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então uma com as mãos
da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a
contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mãos quentes,
mas sem perder a graça dos dias da saúde. As outras entravam no quarto,
pé ante pé, esticavam os pescoços para vel-a dormir, falavam por gestos
ou tão baixo que só o coração as adivinharia.
Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu. Uma
das duas janellas foi então escancarada, e a enferma encheu-se de vida
e riso. Não é que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao
canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de cançada, ou
por obrigação imposta, cochilava a miudo, e longamente. Então a enferma
sentia só o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou
trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao
ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si.