Paz!
Que, em meio de tão graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e
claridade para imaginar tal descoberta no visinho, só se póde explicar
pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflicção de
Custodio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma
de suas maximas é que o homem vive para espalhar a primeira invenção
de rua, e que tudo se fará crêr a cem pessoas juntas ou separadas. Só
ás duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na
queda do imperio.
--É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi
as acclamações á republica. As lojas estão fechadas, os bancos tambem,
e o peor é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem publica; é
uma calamidade.
Ayres quiz aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regimen, sim, era
possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio
é preciso. Os bancos são indispensaveis. No sabbado, ou quando muito
na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a
constituição.
--Não sei, tenho medo, conselheiro.
--Não tenha medo. A baroneza já sabe o que ha?
--Quando eu sai de casa, não sabia, mas agora é provavel.
--Pois vá tranquillisal-a; naturalmente está afflicta.
Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o
imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror...
Ayres tirou-lhe o Terror da cabeça. As occasiões fazem as revoluções,
disse elle, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para
dar fórma fixa á ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O
povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de
generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara
um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia.
O imperador fôra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do
espectaculo, o amigo, então moço, ouviu grande rumor do lado da egreja
de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que
bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador não tirara
o chapeo no momento em que este chegára á porta para entrar no coche;
o homem accrescentou: «Eu sou _ré..._» Naquelle tempo os republicanos
por brevidade eram assim chamados. «Eu sou _ré_, mas não consinto que
faltem ao respeito a este menino!»
Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo
anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao
momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operações, ao receio de
uma suspensão total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e
descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.
--Então, parece-lhe...?
--Que descance.
Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a
apparencia era mui diversa do coração. O coração batia-lhe. A cabeça
via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas
antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava
pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia
ser... Em todo caso, a paz é que era necessaria, e haveria paz? Ayres
inclinava-se a crêr que sim, e novamente o convidou a descançar.
--Até logo, concluiu.
--Porque não vae lá jantar comnosco?
--Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois,
talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os
rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pol-os em ordem.
--O senhor podia ajudar-me nisso. Vá lá de noite.
--Póde ser; se puder, vou. Amanhã com certeza.
Santos saiu; tinha o carro á espera, entrou e seguiu para Botafogo. Não
levava a paz comsigo, não a poderia dar á mulher, nem á cunhada, nem
aos filhos. Quizera chegar a casa, por medo da rua, mas quizera tambem
ficar na rua, por não saber que palavras nem que conselhos daria aos
seus.
O espaço do carro era pequeno e bastante para um homem; mas, emfim,
não viviria alli a tarde inteira. Ao demais, a rua estava quieta. Via
gente á porta das lojas. No largo do Machado viu outra que ria, alguma
calada, havia espanto, mas não havia propriamente susto.