Referido o que lá fica atraz, Custodio confessou tudo o que perdia no
titulo e na despeza, o mal que lhe trazia a conservação do nome da
casa, a impossibilidade de achar outro, um abysmo, em summa. Não sabia
que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espirito. Se pudesse,
liquidava a confeitaria. E afinal que tinha elle com politica? Era
um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguezado,
respeitado, e principalmente respeitador da ordem publica...
--Mas o que é que ha? perguntou Ayres.
--A republica está proclamada.
--Já ha governo?
--Penso que já; mas diga-me V. Ex. ouviu alguem accusar-me jamais de
attacar o governo? Ninguem. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu
soccorro, Excellentissimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A taboleta
está prompta, o nome todo pintado.--«Confeitaria do Imperio», a tinta é
viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então
fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de titulo, por
mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex.
crê que, se ficar «Imperio,» venham quebrar-me as as vidraças?
--Isso não sei.
--Realmente, não ha motivo: é o nome da casa, nome de trinta annos.
ninguem a conhece de outro modo...
--Mas póde pôr «Confeitaria da Republica...»
--Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a
um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou
hoje, e perco outra vez o dinheiro.
--Tem razão... Sente-se.
--Estou bem.
--Sente-se e fume um charuto.
Custudio recusou o charuto, não fumava. Acceitou a cadeira. Estava
no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a
attenção, se não fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar
o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe
dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que
iria com ambas as hypotheses,--«Confeitaria do governo».
--Tanto serve para um regimen como para outro.
--Não digo que não, e, a não ser a despeza perdida... Ha, porém, uma
razão contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposição. As
opposições, quando descerem á rua, podem implicar commigo, imaginar que
as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro é o
respeito de todos.
Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho
não queria barulhos á porta, nem malquerenças gratuitas, nem odios de
quem quer que fosse; mas, não o affligia menos a despeza que teria de
fazer de quando em quando, se não achasse titulo definitivo, popular
e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de
perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma
taboleta condemnada. Já era muito ter o nome e o titulo no _Almanack_
de Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o
do que estava impresso desde o principio do anno...
--Isso não, interrompeu Ayres; o senhor não ha de recolher a edição de
um almanaque.
E depois de alguns instantes:
--Olhe, dou-lhe uma ideia, que póde ser aproveitada, e, se não a achar
boa, tenho outra á mão, e será a ultima. Mas eu creio que qualquer
dellas serve. Deixe a taboleta pintada como está, e á direita, na
ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam
o titulo: «Fundada em 1860.» Não foi em 1860 que abriu a casa?
--Foi, respondeu Custodio.
--Pois...
Custodio reflectia. Não se lhe podia ler _sim_ nem _não_; attonito,
a bôca entre-aberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão,
nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse,
elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o
titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura.
Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar
as duas.
--A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data á fundação da
casa, tem só a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma
maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavra _imperio_ e
accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que não precisam
ser graúdas: _das leis._ Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se á
secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.
Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, não lhe parecia
má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam
não ser lidas tão depressa e claramente, com as de cima, e estas é que
se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou
sequer inimigo pessoal não entendesse logo e... A primeira ideia, bem
considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o
confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo.
Quem sabe se não era peor que nada?
--Tudo é peor que nada.
--Procuremos.
Ayres achou outro titulo, o nome da rua, «Confeitaria do Cattete», sem
advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir
exclusivamente á do Custodio a designação local. Quando o visinho lhe
fez tal ponderação, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza
de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez
falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum ás duas
casas. Muita gente não atinaria com o titulo escripto, e compraria
na primeira que lhe ficassse á mão, de maneira que só elle faria as
despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber
isto, Ayres não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de
tantas tribulações, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe
então que o melhor seria pagar a despeza feita e não pôr nada, a não
ser que preferisse o seu proprio nome: «Confeitaria do Custodio.»
Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação.
Um nome, o proprio nome do dono, não tinha significação politica ou
figuração historica, odio nem amor, nada que chamasse a attenção dos
dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis
de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados.
Porque é que não adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a
troca de uma palavra por outra, _Custodio_ em vez de _Imperio_, mas as
revoluções trazem sempre despezas.
--Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous
dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi á janella para vel-o atravessar a
rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre
particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem
tudo são despezas na vida, e a gloria das relações podia amaciar as
agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custodio atravessou a rua,
sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com
todo o seu desespero.