CAPITULO XV

_Teste David cum Sibylla_

--E então? disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender,

ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razões boas.

--Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido.

--Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o

meu caso é com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes são as

verdadeiras do mundo.

Placido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio, ao contrario; mas

elle estava tão acostumado a ouvil-o que o sorriso era já agora um

sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos.

--Trata-se...

--Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei é um facto real;

succedeu com os meus filhos...

--Como?

--É o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe

falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que

tal briga se deu, e que é um caso extraordinario.

Santos expoz então a consulta, gravemente, com um gesto particular que

tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. Não esqueceu nem

escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem,

é verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando,

voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou

que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se não unico, mas

possivel. Já o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma

rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem.

--Perdão, mas o baptismo...

--Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados,

tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por

inspiração á tia dos meninos.

--Justamente.

--D. Perpetua é muito devota.

--Muito.

--Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem

escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que estão no Credo;

advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasião

que se lembrou delles.

--Exacto, exacto!

O doutor foi á estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com

grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Paulo _aos Galatas_, e

leu a passagem do capitulo II, versículo 11, em que o apostolo conta

que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, «resistiu-lhe na cara».

Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando

são bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e

bella. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando:

--Sem contar que este numero _onze_ do versiculo, composto de dous

algarismos eguaes, 1 e 1, é um numero gemeo, não lhe parece?

--Justamente. E mais: o capitulo é o segundo, isto é, dous, que é o

proprio numero dos irmãos gemeos.

Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial,

escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gemeos,

numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam,

nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam

os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que

renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A fé transfigura;

Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos

ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chamma da vida. Pae

de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crêr

tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes

do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S.

Pedro e S. Paulo tinham chegado á perfeição; não tornariam cá. Não

importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser

brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.

--Deixe ás senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se ellas tem

fé na tal mulher do Castello, e acham que é um vehiculo de verdade,

não as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu

oraculo. _Teste David cum Sibylla._

--Digo, digo! escreva a phrase.

Placido foi á secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já

então Santos advertira que mostral-o á mulher era confessar a consulta

spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de

Natividade e pediu que calassem tudo.

--Estando com ella, não lhe diga o que se passou entre nós.

Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da

revelação. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esaú

e Jacob. O ar da rua não espanou a poeira do mysterio; ao contrario,

o céu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e

cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos,

facto raro ou unico, era uma distincção divina. Contrariamente á

esposa, que cuidava sómente da grandeza futura dos filhos, Santos

pensava no conflicto passado.

Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão estranha

expressão, que a mãe desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era.

--Não é nada, respondeu elle rindo.

--É alguma cousa, anda, acaba.

--Que ha de ser?

--Seja o que fôr, Agostinho, acaba.

Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa,

a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo tão espalhadamente, que

ella mal pôde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes

cerrados:

--Ah! você! você!

--Perdoa, amiguinha; estava tão ancioso de saber a verdade... E nota

que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle até me escreveu isto

em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho: _Teste David cum

Sibylla._

Esau e Jacob · 第 40 / 242 题