Um caso unico!
Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas emfim
cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento não lhe saiu mais da briga
uterina dos filhos. Quiz esquecel-a. Jogou essa noite, como de
costume; na seguinte, foi ao theatro; na outra a uma visita; e tornou
ao voltarete do costume, e a briga sempre com elle. Era um mysterio.
Talvez fosse um caso unico... Unico! Um caso unico! A singularidade
do caso fel-o aggarrar-se mais á ideia, ou a ideia a elle; não posso
explicar melhor este phenomeno intimo, passado lá onde não entra olho
de homem, nem bastam reflexões ou conjecturas. Nem por isso durou muito
tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi á casa do doutor
Placido, rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de trez janellas,
com muito terreno para o lado do mar. Creio que já não existe: datava
do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para differençar do Caminho
Novo.
Perdoa estas minucias. A acção podia ir sem ellas, mas eu quero que
saibas que casa era, e que rua, e mais digo que alli havia uma especie
de club, templo ou o que quer que era spirita. Placido fazia de
sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho
azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma vara
na mão, e fica um magico, mas, em verdade, as barbas e a camisola não
as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrario de Santos, que teria
trocado dez vezes a cara, se não fôra a opposição da mulher, Placido
usava as barbas inteiras desde moço e a camisola ha dez annos.
--Venha, venha, disse elle, ande ajudar-me a converter o nosso amigo
Ayres; ha meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas
elle resiste.
--Não, não, não resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta annos,
estendendo a mão ao recem-chegado.