O juramento

Tambem ficou dito que o marido saiu da victoria e caminhou para o

_coupé_, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que elle vinha ter com

ellas, sorriam de ante-mão.

--Não lhe digas nada, aconselhou Perpetua.

A cabeça de Santos appareceu logo, com as suissas curtas, o cabello

rente, o bigode rapado. Era homem sympathico. Quieto, não ficava mal. A

agitação com que chegou, parou e falou tirou-lhe a gravidade com que ia

no carro, as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala, e a bengala

entre os joelhos.

--Então? então? perguntou.

--Logo digo.

--Mas que foi?

--Logo.

--Bem ou mal? Dize só se bem.

--Bem. Cousas futuras.

--É pessoa séria?

--Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.

Mas o marido não podia despegar-se do _coupé_; queria saber alli mesmo

tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá estava á espera, e se

era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso

foi escripto como aqui vae, devagar, para que a ruim letra do autor

não faça mal á sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos sairam de

atropello, umas sobre outras, embrulhadas, sem principio ou sem fim.

A bella esposa tinha já as orelhas tão affeitas ao falar do marido,

mórmente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia

dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não

teve remedio e despediu-se.

Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso instar pela

predicção. Era mais; era dar razão á mulher. Prometteu não indagar nada

quando voltasse. Não prometteu esquecer, e dahi a teima com que pensou

muitas vezes no oraculo. De resto, ellas lhe diriam tudo sem que elle

perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.

Não concluas daqui que os freguezes do banco padecessem alguma

desattenção aos seus negocios. Tudo correu bem, como se elle não

tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castello nem cabocla. Não

era só a mão que fazia o seu officio, assignando; a bôca ia falando,

mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ancia

existia e as figuras passavam e repassavam deante delle; no intervallo

de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se não eram ambas

a um tempo. Entrando no carro, á tarde, agarrou-se inteiramente ao

oraculo. Trazia as mãos sobre o castão, a bengala entre os joelhos,

como de manhã, mas vinha pensando os destino dos filhos.

Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos

nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistencia com que

ella os procurava desde manhã. Não era só fital-os, ou perder os olhos

no espaço e no tempo; era beijal-os tambem e apertal-os ao coração.

Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpetua mudou primeiro de roupa que a

irmã e foi achal-a deante dos berços, vestida como viera do Castello.

--Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ella.

--Estou, mas não sei em que é que elles serão grandes.

--Seja em que fôr, vamos almoçar.

Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predicção.

Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulação nos

olhos. Quiz calar e esperar, mas estava tão anciosa de lhe dizer tudo,

e era tão boa, que resolveu o contrario. Unicamente não teve o tempo

de cumpril-o; antes mesmo de começar, já elle acabava de perguntar o

que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto;

descreveu a cabocla e o pae.

--Mas então grandes destinos?

--Cousas futuras, repetiu ella.

--Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que não entendo. Brigar

porquê? E brigar como? E teriam deveras brigado?

Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação,

confessando que não falou mais delles para o não affligir; naturalmente

é o que a outra adivinhou que fosse briga.

--Mas briga porquê?

--Isso não sei, nem creio que fosse nada mau.

--Vou consultar...

--Consultar a quem?

--Uma pessoa.

--Já sei, o seu amigo Placido.

--Se fosse só amigo não consultava, mas elle é o meu chefe e mestre,

tem uma vista clara e comprida, dada pelo céu... Consulto só por

hypothese, não digo os nossos nomes...

--Não! não! não!

--Só por hypothese.

--Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue ninguem a meu

respeito, ouviu? Ande, prometta que não falará disto a ninguem,

spiritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que terão sorte

feliz. Grandes homens, cousas futuras... Jure, Agostinho.

--Mas você não foi em pessoa á cabocla?

--Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não me tornará a ver.

Ande, jure!

--Você é exquisita. Vá lá, prometto. Que tem que falasse, assim, por

acaso?

--Não quero. Jure!

--Pois isto é cousa de juramento?

--Sem isso, não confio, disse ella sorrindo.

--Juro.

--Jure por Deus Nosso Senhor!

--Juro por Deus Nosso Senhor.

Esau e Jacob · 第 32 / 242 题