CAPITULO XLVII.

_Attentados contra o Corregedor de Guimarães. Reflexões sobre a

situação perigosa da Monarquia nesta época, comportamento dos póvos, e

Governo das juntas._

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

EM Guimarães tambem houverão movimentos sediciosos contra o Corregedor

da comarca Antonio Manoel Borges; mas estes forão nascidos de

intrigas, e motivos particulares, que não affectárão em grande a massa

popular. Aquelle ministro, que vimos ter promovido com tanto zelo

a restauração em Guimarães, este a ponto de ser victima do odio de

alguns seus inimigos, que pertendêrão fazer suspeito, e dirigir contra

elle o ferro dos assassinos. Foi elle o que de seu motu proprio, e por

effeitos de puro patriotismo, e fidelidade mandára convocar o povo

da villa em 18 de junho pelo seu escrivão José Antonio de Miranda, e

meirinho Placido Machado Pereira, para que pelas 4 horas da tarde. Se

achasse no largo de N. Senhora da Oliveira, e o que ahi em companhia de

Monsenhor Miranda levantou a voz: _Viva o nosso Principe, e vivão os

Portuguezes_;[19] e era o mesmo que estava dando as mais energicas

providencias para o armamento, quando lhe maquinárão a sorte, que só he

devida aos traidores.

[Sidenote: 1808 Julho.]

O povo chegou a dar demonstrações de se envolver neste abominavel

projecto, mas conteve-se, e defendeo o Corregedor, conhecendo o zelo,

com que promovia, e accelerava a expedição; que se formava por aquellas

terras, para acudir ás margens do Douro, quando forão invadidas por

Loison. A camara da Amarante lhe dirigio hum officio em 20 de junho,

pedindo-lhe polvora, e bala, e vi huma attestação, que ella lhe passou

a 22, muito honrosa pelos seus distinctos serviços nesta occasião, de

que faz prova.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Como pois os intrigantes não achassem accesso a seus ardis entre o

povo de Guimarães, voltárão-se para o de Braga, que quizerão seduzir,

ou a huma parte delle, no seu transito para Amarante. Hum frade, que

vinha naquella massa informe, chegou a apontar a espingarda contra o

Corregedor, que estava em huma janella de Jeronymo Vaz no sitio do

Toural, proferindo as palavras: _morra o Corregedor, que he hum

traidor_: hum outro frade o embaraçou, e pôde arrancar aquelle

ministro das mãos de hum seu implacavel inimigo, que se achava

presente, e ancioso por lhe ver o termo desastroso, que lhe havia

preparado. A innoccencia triunfou da calumnia, e o revoltoso frade

chegou depois a proferir: _enganárão-me_.

Ainda os intrigantes não perdêrão as esperanças: procurárão o apoio do

regimento de milicias, e conseguírão armar 84 dos seus mais façanhosos

soldados, influidos por alguns dos seus officiaes mais graduados,

para matarem o Corregedor. O Sacristão-mór de N. Senhora da Oliveira

á custa de muito trabalho os pôde desviar do crime de assassinio; mas

não evitar que elles prendessem alguns officiaes daquelle ministro,

espancassem outros, e estorvassem por muito tempo o exercicio da Real

jurisdicção.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Não creio que houvesse hum tempo, em que o homem pastou erva pelos

campos, ou bolota pelos bosques; mas se o houve, o homem devia ser a

mais cruel de todas as féras. Não he porque eu supponha, como alguns

Filosofos sombrios, que o homem he máo por natureza: não farei

tão grande injúria á creatura mais perfeita, que sahio das mãos da

natureza; mas porque por isso mesmo que o Creador lhe quiz dar hum gráo

de perfeição mais sublime, o prendou com as paixões, sem as quaes seria

mais insipido, mais inerte que os brutos, e com a liberdade, sem a qual

nenhum merecimento podião ter as acções humanas; paixões, e liberdade

tão funestas ao homem, quando as não sogeita a hum freio, que tambem

existe na sua propria natureza.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Este freio he a razão; mas a experiencia nos mostra desgraçadamente

quanto elle he fraco para domar as paixões violentas, pelo abuso,

que o homem faz das suas faculdades. Todos querem suplantar a seu

igual, todos desejão o bem alheio, todos propendem para a satisfação

dos seus prazeres, o que a cada passo os implica com os homens, e

para a vingança, que os céga; e conduzidos por hum turbilhão violento

precipitão-se nos maiores excessos, preferindo sempre os bens

imaginarios, que os cercão de perto, aos verdadeiros, que só divisão

ao longe. E criminaremos nós o A. da natureza de ter deixado a especie

humana ao desamparo em hum mar tormentoso, contentando-se com dar aos

homens hum remedio tão fraco contra males tão violentos! Não. Elle

lhes inspirou o congregarem-se em sociedades, e sogeitarem-se a huma

religião, e a hum governo, que são as molas poderosas, que auxilião

razão, e segurão até hum certo ponto a tranquillidade do mundo.

[Sidenote: 1808 Julho.]

A mola da religião he na verdade mais debil, porque se sustenta na

opinião, sempre varia, e sogeita a oscillações: a do governo he

mais vigorosa, porque tem por base a força; mas se huma vez chega a

quebrar-se, o choque he espantoso. Filosofos, que se julgavão perfeitos

no conhecimento da indole das sociedades, e dos Governos, forão os que

preparárão com as suas theorías esta horrorosa revolução, que ainda

hoje envolve o mundo nas suas ruinas, e de que Luiz XVI, e o seu

Conselho terião provavelmente evitado os effeitos, ao menos por algum

tempo, se previssem as consequencias da convocação da assembléa dos

Notaveis, e dos Estados do reino, em huma época tão turbulenta. Importa

muito conservar a memoria destes factos: são elles os que interessão a

posteridade, e não aquelles que servem sómente de satisfazer huma vã

curiosidade.

Quando o Governo se dissolve, para entrar na anarquia, a nação se

anniquila afogada em sangue; quando se dissolve, para passar a hum

outro, o intervallo sempre he terrivel.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Portugal achava-se neste ultimo caso: felizmente o intervallo foi

breve, e mesmo não chegou a existir em muitas das suas terras. O

Governo legitimo tinha desapparecido diante do ferro dos invasores, o

intruso foi despedaçado nas provincias, subjugada ainda a capital do

reino, e impossibilitados os Governadores legitimos de reentrarem no

exercicio das suas funções: eis-aqui huma situação a mais crítica, em

que jámais se pode achar huma nação. He então que se levantão, e se

combatem os partidos, precursores da anarquia; seguem-se os tumultos, e

as desordens de todo o genero, contra as quaes nada póde o partido da

razão, porque não he senão o da parte pensadora, e justa; isto he, o da

centesima millesima parte do genero humano.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Na verdade temos visto, que esta funesta disposição dos espiritos para

a desordem produzio mais, ou menos os seus effeitos por toda a extensão

da monarquia; mas recordemo-nos dos horrores, que produzio em França

a extinção do Governo legitimo, e abençoemos a Providencia, que nos

preservou de tanto estrago: congratulemo-nos de que sómente tenhamos

visto correr algumas gotas, em lugar de ondas de sangue, que ás mãos

dos nossos concidadãos podião ter innundado Portugal. Sobre tudo o

que honra muito a nação he, que no meio das suas mesmas convulsões

anarquicas não appareceo huma unica voz sediciosa, que ousasse

proclamar contra a fórma do Governo estabelecido, ou contra o Soberano

legitimo; de fórma que quando depois os Governadores do reino forão

restabelecidos, achárão hum povo tão docil, e tão subordinado, como

senão tivesse existido em semelhante crise.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Homens pouco experientes tem criminado as juntas, como focos de

desordens: quanto se enganão! O principio das desordens estava na

natureza das cousas, e forão as juntas as que lhe oppozerão os

primeiros diques. O Governo das juntas era imperfeito, eu convenho, e

muitas dellas tinhão defeitos inherentes á sua constituição; mas assim

mesmo forão ellas as que sustiverão o Estado nos primeiros momentos

da revolução: depois nos derão a mão os nossos alliados, e com o seu

soccorro a monarquia foi salva. Aproxima-se o tempo de tratarmos da

parte activa, que estes tomárão nas operações militares de Portugal,

mas primeiro devemos lançar outra vez os olhos para a Hespanha, onde

se praticavão os grandes movimentos, de que dependia a sorte de toda a

peninsula.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 35 / 42 题