CAPITULO XLVI.

_Acclamação em Viana: tumultos nos Arcos de Valdevez, suas

consequencias, e como se fizerão cessar._

[Sidenote: 1808 Junho.]

NO mesmo dia 11 de julho, em que vimos tão perturbada a tranquillidade

pública na cidade de Viseu, o furor anarquico produzia estragos na

villa dos Arcos de Valdevez, que fazem hum artigo muito interessante

na historia dos nossos desatinos: para dar a descripção delles com as

noções precisas, he necessario remontar a successos anteriores, de que

supprirei neste lugar o que no seu competente ficou omisso.

[Sidenote: 1808 Junho.]

Espalhados os elementos da revolução por toda a provincia d’Entre Douro

e Minho, elles se fixárão, e produzírão o resultado da restauração

em Viana, huma das villas mais consideraveis do reino, logo no dia

19 de Junho, immediato ao da restauração do Porto. Ao meio dia a

nobreza, e povo se ajuntárão no campo do forno, e acclamárão o Principe

Regente: passárão ao castello, onde disparárão algumas peças em sinal

de alegria, e espalhando-se depois pelas ruas, forão procurar o Juiz

de fóra, que servia de Corregedor da comarca, Domingos José Vieira da

Motta Gomes, o qual de boa vontade se lhes unio, e congregárão-se em

camara. Alli se reduzio a methodo o que sem esta medida não seria senão

confusão: fez-se hum auto, estabeleceo-se a junta do Governo, de que

já tenho fallado, e da qual foi nomeado Presidente o General Caldas,

Vice-Presidente o mesmo Juiz de fóra, e Deputados os Camaristas, e dois

homens de negocio. Esta foi a sua primeira organização, que depois se

alterou, ajuntando-se-lhe outros membros, e entre estes o Provedor da

comarca.

[Sidenote: 1808 Junho.]

Desta junta se expedírão logo ordens para as differentes terras da

comarca, convidando-as a fazerem causa commum com a sua capital,

e forão muito bem recebidas por toda a parte. Á villa dos Arcos

chegarão ellas no dia 21, e a 22 congregando-se a camara, nobreza,

e povo foi acclamado o nosso legitimo Soberano, a quem se prestou

juramento de fidelidade por entre as maiores demonstrações de prazer,

com assistencia espontanea, e cooperação do Juiz de fora Antonio José

Soeiro de Gouvea, que mesmo debaixo do Governo intruso tinha dado

demonstrações do seu patriotismo na demora, e falta de cumprimento ás

suas ordens. O resto do dia empregou-se em dar graças a Deos, e em

testemunhos de prazer por este feliz successo, reinando em todos estes

actos a mais perfeita harmonia: o socego público não foi perturbado

o mais levemente, nem ainda no dia seguinte, em que se convocárão as

ordenanças, e se distribuírão por ellas as armas, que havia.

[Sidenote: 1808 Junho.]

Não succedeo assim a 10 de julho, em que se passou huma revista

geral ás mesmas ordenanças, e seu armamento: este dia nos offereceo

desgraçadamente novas provas de que sendo muito facil insinuarem-se

os principios de sedição, e desorganização com os de fidelidade,

e patriotismo, he nos grandes ajuntamentos que elles entrão em

fermentação, e, combatendo-se, produzem os choques violentos,

principalmente quando se dá tempo aos individuos do baixo povo, para se

entreterem, conversarem, e communicarem huns aos outros as suas idéas.

Hum susurro confuso, e desprezado se sentio nesta occasião, e foi o

percursor dos tumultos proximos.

[Sidenote: Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

A 11 pelas 10 horas da manhã, sobre dois, ou tres avisos, que

noticiavão o desembarque de 20$ Francezes em Espozende, e os davão

entrando já pelas portas de Ponte de Lima, os sinos da villa tocárão

geralmente a rebate, e forão seguidos pelos de todas as aldêas

visinhas. Congregando o povo da terra, o Sargento-mór commandante das

ordenanças toma com elle o caminho de Ponte de Lima: era na verdade hum

ajuntamento numeroso, porém marchava com armas tão desiguaes, e em

tanta confusão, que a sua ruina seria infallivel, ao primeiro encontro

de qualquer corpo inimigo bem armado. Por fortuna era fabuloso o

desembarque, tendo origem no engano, com que humas barcas Hespanholas,

que apparecêrão defronte de Espozende, forão tomadas por parte de huma

expedição composta de pequenas embarcações, que se dizia ter sahido dos

portos de França, navegando terra a terra para as costas da Peninsula.

Retrocedeo pois o povo para a villa; mas informado de que esta se

achava entregue á furia dos póvos das freguezias do norte, faltou-lhe

aquelle valor, que tinha mostrado contra os inimigos externos;

debandou-se, fugindo huma parte para as montanhas, e a outra procurando

veredas escusas, quando podião evitar o progresso das desordens, se

todos marchassem para a villa em ordem, e unidos aos seus chéfes.

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Aquelles póvos se tinhão com effeito abalado dos seus lares para

irem combater os Francezes, mas ainda em maior confusão que os da

villa; e o que vierão fazer foi pôr tudo em tumulto, e horror. Vinhão

entrando na villa aos magotes, presididos por hum Capitão, ou hum

Abbade; não tendo porém nem pão nem munições, forão-se accumulando, e

pedindo providencias, mas não apparecia quem lhas desse, porque além da

insufficiencia dos meios, a terra estava quasi deserta. Appareceo Luiz

Antonio de Araujo e Amorim, e hum Vereador, homens capazes de impôrem

respeito, o primeiro por ser alli bem conhecido, e se ter empregado nos

Lugares de Letras, e o segundo pelo seu cargo; forão depois apparecendo

os outros Vereadores, e juntos em camara providenciavão o que podião.

Á proporção que o ajuntamento se augmentava, manifestou-se, e cresceo

extraordinariamente a fermentação, dirigindo-se principalmente a

animosidade do povo contra o Juiz de fóra, o qual se tinha refugiado

para aquellas mesmas freguezias do norte, provavelmente por falta de

valor, o que era bem desculpavel a hum homem da sua profissão em huma

conjunctura, de que não podião prever-se senão resultados funestos,

consideradas as noticias, que se davão como certas, e o desordenado

armamento dos póvos.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Mandava nessa occasião o Corregedor de Barcellos varios despachos

do serviço a algumas terras da sua comarca, e por huma casualidade

singular era portador delles hum homem, a quem faltava hum braço:

dirigindo-se pelos Arcos, cahio em poder destes furiosos, que o

prendêrão, e baptizárão por Loison. Tomárão-lhe os despachos, e

os abrírão; mas nem assim se desenganárão da sua loucura, e forão

conduzindo o homem para a casa da camara. Ainda estavão com este a

contas, quando appareceo outro rodeado de immenso povo, e prezo como

elle, porque tinha sido achado com varias cartas: estas se abrírão, e

achárão-se innocentes, o que não obstante, tanto o primeiro, como o

segundo, forão mettidos na cadêa.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Já a este tempo os amotinados se abalançavão a emprezas maiores.

Entrárão a perguntar pelo Juiz de fóra, e a pedir a Luiz Antonio de

Araujo, que lhe mandasse passar as ordens: ainda se não declaravão,

mas entendia-se, que erão as ordens para a prizão do Juiz de fóra.

Depois de longos debates a este respeito, apparece atravessando a

praça hum grande tropel de gente, e no meio delle hum homem toureado

de todas as partes, roto, ferido, insultado, reduzido em fim ao estado

mais lastimoso que he possivel imaginar-se: era o Juiz de fóra, que

já conduzião prezo dos montes, onde tinha sido apanhado, e ao qual

ainda investião huns a dar-lhe pancadas com páos, e outros a quererem

atravessalo com os chuços. Para salvar a vida foi-lhe necessario pedir

misericordia a hum dos chéfes dos amotinados, que por huma especie

de vaidade lhe concedeo a sua protecção, conduzindo-o á cadêa, e

livrando-o por este modo momentaneamente das mão da populaça.

A poucos momentos quizerão ir assassinallo mesmo á prizão, e o terião

feito, a não os embaraçar o feliz aggregado de varias circunstancias

favoraveis. Ordenárão a hum clerigo, que se achava presente, que o

fosse confessar; e como este lhes representasse, que ainda não tinha

jurisdicção para administrar este Sacramento, respondêrão-lhe: _nós

lha damos_. Entrou o clerigo, e aconselhando ao Juiz de fóra, que

se fingisse morto, sahio outra vez, e perguntou á populaça em tom

de enfado: _para que o tinhão mandado confessar hum homem, que já

estava morto?_ Por tal passou o Juiz de fóra, tocárão-se os sinos a

defunto, e escapou com vida.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Quando se deliberava em camara sobre os meios de atalhar as desordens,

forão insultados os membros della, despedaçadas, e lançadas pelas

janellas as cadeiras, em que se assentavão, a séde do Juiz, e as portas

do paço do conselho, e incendiado o seu arquivo. Dalli passárão os

revoltosos a continuar o incendio em varias casas da villa, e registrar

as outras, com o pretexto de averiguarem, se havia nellas algum

Francez, mas com o fim real de as roubarem, e saquearem, como fizerão.

Com o mesmo intento se propuzerão a arrombar as portas da igreja matriz

do Salvador. Arderão inteiros seis cartorios do público, escapando com

muito trabalho o das sizas, e o dos orfãos. Alguns religiosos, e outras

pessoas de probidade, que tentavão reduzir os sediciosos por suas

práticas, tinhão bem depressa de desistir do seu louvavel projecto,

porque elles lhe appresentavão a morte diante dos olhos.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Attentárão contra a vida do Sargento-mór das ordenanças, e o depozerão

do seu posso, bem como a varios Capitães, aos tres Coroneis, (hum

effectivo, e dois aggregados) do regimento de milicias, ao Sargento-mór

do mesmo, e aos escrivães do Juiz de fóra, passando a prover em

differentes sogeitos todos estes cargos da jerarquia civil, e militar.

Para General nomeárão hum frade capucho: tambem depozerão dois, ou tres

Abbades, chegando no seu frenezi a darem jurisdicção para confessar,

a hum clerigo que a não tinha: desvarío unico, e singular na nossa

Historia!

A 12 continuárão a sua obra, creando huma junta de Governo, que

tacitamente supplantava a camara, mas com poderes mais exhuberantes.

Foi composta de dois religiosos, e tres seculares: estes procedêrão

de boa fé, acceitando prudentemente os cargos, e conservando a farça

por alguns dias, com a esperança bem fundada de poderem por este modo

restabelecer a boa ordem. Não admire o figurarem tantos os frades,

porque os revoltosos erão animados por hum frade intrigante, de que

tenho muita satisfação em ignorar o nome.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Da nomeação da junta fez-se hum papel informe, summamente curioso;

porque comprehendia varios artigos de legislação, dignos em todo

o sentido das cabeças, que os produzírão. Abolírão as leis do

reclutamento, taxárão os preços do leite, carne, e vinho, prohibírão

a exportação do pão para fóra do reino, negárão acção ao contracto

do mutuo, suspendêrão o curso das causas forenses durante a guerra,

proscrevêrão as citações por officiaes de justiça, e a solução

das oblatas aos Parocos, escapando com difficuldade os dizimos, e

absolvêrão em fim os foreiros de pagarem aos seus senhorios os direitos

dominicaes. A imaginação facilmente comprehende, que estas leis

emanavão daquelles mesmos, que tinhão pertendido assassinar o Juiz de

fóra, e deposto os seus officiaes, que queimárão o arquivo da camara,

e os cartorios, onde se conservavão os titulos, os processos, e as

execuções, de que se doião: o mais extranho he, que elles legislavão

para o reino em geral, e não para o seu destricto em particular;

publicando, que querião levar a Viana o seu reverendo General, para ahi

o instalarem no commando.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Para acalmar esta desatinada plebe, lembrou huma função d’igreja, e

procissão com o Santissimo Sacramento pelas ruas: assistírão a huma,

e outra cousa os da terra, e os de fóra; mas estes com as suas armas.

Houve hum sermão apropriado ás circunstancias, que fez derramar muitas

lagrimas, e os revoltosos se resolverâo com effeito a recolherem-se ás

suas casas, mas conservárão os roubos, e não indemnizárão os que tinhão

soffrido.

[Sidenote: 1808 Julho.]

A 13 se espalhárão rumores de que elles se dispunhão para virem

commetter novos insultos, e em consequencia se armou a gente da villa,

debaixo da direcção do Tenente-Coronel de milicias Bento Alexandre de

Brito Sousa Castro e Amorim, sogeitando-se a huma rigorosa disciplina,

exercicios, patrulhas, e rondas nocturnas. Soltou-se o Juiz de fóra,

que partio immediatamente para Viana. Na tarde desse mesmo dia os

membros da junta abdicárão voluntariamente o Governo, que tinhão da mão

dos faciosos, entregando-o á camara, restabelecendo, e reconhecendo as

authoridades legitimas.

A 14 houve justos receios de que se renovassem os tumultos, por ser

dia de feira. O povo da villa occupou as suas entradas, e sahidas,

e prendeo 23 homens das aldêas, de que alguns erão conhecidos por

complices, e motores das desordens, e todos os mais suspeitos, porque

vinhão armados. Não se julgou segura a cadêa da villa, e por isso forão

remettidos para a da Barca.

[Sidenote: 1808 Julho.]

A 15 chegárão de Viana duas companhias de infanteria, e alguns

artilheiros com huma peça, para segurarem a villa. Estiverão nella até

o 1.^o de agosto, e servírão de guarda ao Provedor de Guimarães Manoel

Marinho Falcão de Castro, que por ordem da junta do Porto foi syndicar

dos referidos, acontecimentos. Subírão de 40 os culpados na devassa,

ficando de fóra muitos outros, por não serem conhecidos. Grande parte

daquelles povoou as cadêas do Porto, d’onde sahírão nos tumultos de

março de 1809: forão processados, e sentenciados alguns, que realmente

se achavão prezos, e copío a sentença, porque aclara a Historia.[18]

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 33 / 42 题