_Negocios da provincia de Tras-os-montes. Tumultos em Bragança,
e em Villa-nova de Foz-Coa, e procedimentos, a que derão causa.
Considerações sobre os Judeos._
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
OS negocios da provincia de Tras-os-montes proseguião na mesma marcha,
em que os deixámos: a reorganização do exercito, o bloqueio de Almeida,
e a defeza das fronteiras, que por aquelle lado começárão a ser
ameaçadas desde o meado de julho pelo corpo d’exercito do Marechal
Bessieres, erão os principaes objectos, a que tinha de attender-se.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
A pezar das desconfianças, por não dizer contestações, que sempre
continuárão entre a junta provincial de Bragança até a sua extinção,
e a suprema do Porto, o General Sepulveda se tinha conservado em
perfeita harmonia com o Bispo Governador, e cedendo aos convites deste;
determinou em fim partir para o Porto: era o seu intento tomar o
commando do exercito nascente, como General mais antigo. Na declinação
de huma importante molestia, e ainda muito atenuado de forças, partio
de Bragança a 5 de julho, encaminhando-se por Chaves a Villa-Real,
onde lhe era preciso demorar-se alguns dias, para ordenar as cousas
desta parte da provincia. Por toda a parte o recebião os póvos, como o
seu libertador, e em Villa-Real lhe estava preparado hum cortejo mais
pomposo: derão-lhe huma entrada magnifica, e na sua presença fez a
camara recitar em seu louvor a oração, que corre impressa, e de que já
em outro lugar fiz menção.
Estando a partir desta villa, sobrevierão os tumultos de Bragança,
acontecidos nos dias 19, 20, e 21, que lhe embaraçárão a jornada,
de fórma que não sahio da provincia senão em agosto, quando o nosso
exercito já seguia o Inglez com direcção á capital do reino. Huma falsa
noticia de que os Francezes se aproximavão pela parte da Hespanha,
deo motivo a hum rebate, e do rebate resultárão os tumultos; porque o
povo, tendo-se ajuntado, e não apparecendo inimigos, voltou-se contra
aquelles Portuguezes, que julgava traidores, ou que os cabeças de motim
por taes fazião passar; o que recahia principalmente contra os que erão
apontados, como descendentes de origem Hebraica.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Logo na manhã do dia 19 huma multidão desenfreada entrou a clamar
contra as Authoridades estabelecidas, e correndo ao castello, forçou
as portas, e se fez senhora das armas, que nelle se achavão. Tentou
tambem apoderar-se do armazem da polvora, ao que obstou o Sargento-mór
da praça Antonio Corrêa de Castro Sepulveda, filho do General, e muito
respeitado do povo, vendo-se com tudo precisado a mandar distribuir
algumas pequenas porções della pelos amotinados, para os satisfazer.
[Sidenote: 1808 Julho.]
A junta, pensando apagar o fogo, não fez senão ateallo convocando o
povo, para que se ajuntasse na tarde desse mesmo dia no largo de Santo
Antonio, a fim de o trazer á razão: apenas congregado, entrou a clamar
contra a propria junta, pedindo a exclusão da maior parte dos seus
membros, e nomeando outros em seu lugar. Passou depois a registrar as
casas dos particulares, que lhe erão mais odiosos, sendo a sua maior
furia contra hum chamado por alcunha o _Olhos de vidro_, do
qual se dizia, que tinha feito huma figura do General Sepulveda, e a
fregíra em huma certã: quebrárão-lhe, e estragárão-lhe quanto tinha em
casa, e até os vidros das janellas. Enfurecêrão-se igualmente contra
hum tal Lobo, e hum tal Sá, imputando-se principalmente a este o ter
correspondencias com os Francezes. Prendêrão a todos tres, e quizerão
logo fuzilar o Sá, chegando a apontar-lhe as armas, e parece que a
desfechar alguma espingarda velha, que por felicidade não tomou fogo:
foi sempre escapando no meio de huma escolta, e conduzido com os outros
á prizão.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Da populaça o espirito de insubordinação, e de revolta se communicou
á tropa. Os soldados do regimento de cavalleria n.^o 12.^o, que
se achavão reunidos, levantárão-se contra o seu proprio Coronel
Amaro Vicente Pavão, que nesse tempo era hum dos membros da junta,
caracterizando-o, de falsario, e dizendo, que o não querião por chéfe.
Tentárão matallo, e hum individuo da plebe lhe encarou a espingarda,
e ia a desfechar com elle, o que evitou o Sargento-mór da praça,
mettendo-lhe por baixo o braço, e levantando-a: a bom concerto o
deixárão vivo; mas hum chamado Nicolao lhe intimou, que se não
intrometesse a mandar cousa alguma, sem primeiro o participar ao Senhor
Viseu.
Por esse facto ficámos sabendo, que estes dois homens erão grandes
personagens nesta scena. O Viseu, assim chamado por ser natural
da cidade deste nome, era hum çapateiro, que neste tumulto tinha
adquirido huma ascendencia desmarcada sobre a populaça: o Nicoláo,
hum taberneiro, que enfatuado pela força do povo se declarou General,
intitulando-se o Loison Portuguez, o que foi muito bem recebido, por
ter elle hum braço aleijado, como o Loison Francez. Chegou a adquirir,
hum tal imperio, que mandava a hum corpo de tropa que se movesse, e o
corpo se movia; a hum homem, que se confessasse para morrer, e o homem
se confessava.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Informado Sepulveda em Villa-Real destas desordens, mandou seu genro
Francisco de Figueiredo Sarmento, para as socegar, com alguma tropa;
mas quando este chegou a Bragança, já a tormenta tinha declinado.
No dia 21 tinha ella crescido, em razão de ser dia de feira, e as
authoridades públicas, vendo que tudo ia a submergir-se em um abysmo
horroroso, tomárão vigor nas suas medidas: cahírão nesse mesmo dia á
noite sobre os chéfes dos amotinados, e conseguírão prendellos; logo
na manhã seguinte os remettêrão para Chaves, e de Chaves para o Porto.
Dado este passo, tudo ficou socegado, impondo respeito hum esquadrão
de cavalleria de Miranda, e o regimento de milicias, de Bragança:
o Governador do Bispado, o Major de milicias Manoel Ferreira de Sá
Sarmento, o Conego Bento de Figueiredo Sarmento, e outras pessoas
caracterizadas tambem concorrêrão muito para o restabelecimento da
tranquillidade; mas sempre foi necessario, para accommodar o povo,
fazer-lhe a vontade em alguns pontos, sendo hum delles o trabalhar-se
no concerto de algumas peças velhas, e collocarem-se em certos lugares.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
O Corregedor da comarca procedeo a huma devassa, em que ficárão muitos
culpados, que se forão livrando ordinariamente. He muito notavel,
que a voz pública nunca os criminou pelos excessos, em que se havião
precipitado, á excepção dos roubos, que commettêrão: ainda a respeito
destes, muitos os defendião, sustentando tenazmente, que as casas,
que tinhão sido saqueadas, o devião ser, e que os ministros estavão
peitados pelos Judeos. Tal era a opinião geral do povo.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Os tumultos de Villa-nova de Foz-Coa forão ainda mais pezados, e
tiverão huma perfeita analogia com os de Bragança na sua origem, e
progressos. Villa-nova he a terra de maior povoação da comarca de
Trancozo, e huma das mais ricas da Beira alta, pelo muito commercio,
que alli se faz, tanto em sedas, como em bacalháo, arroz, e outros
generos, e comestiveis, que por aquelle ponto se distribuem pelas
terras comarcans de Portugal, e Hespanha: offerece-lhe estas vantagens
a sua posição junto ao Douro, que he navegavel até as suas visinhanças
em huma grande parte do anno, ajudada pela industria dos seus
habitantes. Nella se achavão estabelecidos desde tempo immemorial
muitos dos que se apontão como descendentes das tribus de Israel, e em
cujas mãos principalmente se achava concentrado este trafico, e por
consequencia muita riqueza; o que era bastante, prescindindo de outras
razões, para excitar a inveja, e emulação de muitos daquelles mesmos, a
quem nutrião, e abastavão com a sua industria.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Tinha rompido a revolução em Villa-nova de Foz-Coa nos fins de
junho, quando Loison fazia a sua travessa de Viseu para Almeida, e
nos primeiros momentos não houve senão zelo, e patriotismo; havendo
porém alguns mal intencionados, que se aproveitárão dessa occasião,
para darem exercicio ás suas paixões criminosas, o zelo, degenerou
bem depressa em frenezi, e a par dos _vivas_ ao Principe Regente
começou a ouvir-se: _morrão os Francezes, e os Judeos, que os
protegem_. Estas vozes, na apparencia patrioticas, forão o sinal da
revolta, abrindo o campo a scenas horrorosas. Houve hum rebate falso de
que os Francezes marchavão contra a villa, e ao toque dos sinos o povo
se levantou em massa, e chegou a caminhar algum espaço. Verificando-se
porém, que os inimigos não vinhão, voltou ainda em tumulto, e se lançou
sobre hum grande número de casas dos seus compatriotas, que entregou
ao saque, sempre com as mesmas vozes: _morrão os Francezes, e os
Judeos_. A voz pública dos que não tiverão parte nos tumultos,
crimina sem rebuço, como authores da desordem, a certos homens
prepotentes, que querião extorquir dos Judeos, ou dos que por taes se
designavão, grandes sommas de dinheiro, e se servírão da populaça,
instrumento sempre prompto para taes emprezas, e muito principalmente
nas circunstancias, que o tempo apresentava; respeitarei porém os seus
nomes, pois que os orgãos da lei os não tem dado por culpados.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Era hum grande ajuntamento de povo miudo com espingardas, fouces,
piques, picaretas, machados: huns arrombão as portas, outros fazem
buracos nas paredes, ou abatem os telhados, entrão todos, quebrão
bancas, cadeiras, e tudo o que guarnecia as casas, e estas em pouco
tempo ficão destruidas, e até arrancados os seus pavimentos. Os moveis
preciosos, e todos os objectos de valor, que podião conduzir-se, forão
roubados, não cessando o saque, senão com a total ruina de vinte e
tantas familias das mais ricas da terra.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Dos infelizes, que a populaça procurava, alguns pudérão fugir, outros
forão insultados por mil maneiras, e arrastados á cadêa pública: alli
mesmo os sediciosos lhes encaravão as armas, e elles tremendo, e com as
mãos levantadas pedião, que lhes poupassem as vidas. Felizmente a todos
as conservárão, o que attribuo á segurança, em que os mesmos sediciosos
julgavão a sua preza; porque na verdade elles se tinhão de tal modo
apoderado da força, que tendo principiado este horroroso espectaculo
nos fins de junho, continuou com todo o calor por espaço de quatorze,
ou quinze dias, sem que houvesse authoridade, ou poder, que contivesse
as desordens; e ainda nos principios de agosto a junta de Moncorvo,
ou o seu Presidente, officiava ao Bispo, á junta, ao Chanceller da
Relação do Porto, e ao Marechal Botelho, para darem providencias, que
as fizessem cessar.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Bem quizerão a mesma junta de Moncorvo, e o seu Presidente atalhallas
no seu principio, mas não tiverão forças. Com este intento fizerão
destacar da guarda, que estava na barca do Pocinho, huma patrulha; mas
sobindo á villa, soffreo huma descarga, com que teve de retroceder.
Alguns dos miseraveis fugitivos de Villa-nova forão refugiar-se em
Moncorvo, e daqui resultou huma especie de guerra civil entre as duas
villas. O Douro divide os dois territorios, e não passava hum individuo
da parte de Moncorvo para a de Villa-nova que não fosse insultado,
e até lhe rasgavão os passaportes, como emanados de authoridades
illegaes: encarregando este ramo de singular policia a huma companhia,
que armárão, denominada de voluntarios, a qual não era senão hum bando
de faciosos, que infestavão a margem meridional do rio.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
O contagio lavrou por Freixo de Numão, e terras visinhas, passou o
Douro, e penetrou mesmo até Moncorvo; mas a junta evitou os seus
progressos, fazendo prender em huma noite, e á mesma hora os seus
principaes agentes. Tiverão a mesma sorte, e forão remettidos para o
Porto o capitão da célebre companhia de voluntarios de Villa-nova, e
hum seu companheiro, que tinhão ousado passar o rio: a não serem estas
medidas vigorosas, a provincia de Tras-os-montes ia arder em fogo, e
os seus habitantes se dispunhão para se degollarem huns aos outros.
Dois filhos do Desembargador Thomaz Ignacio de Moraes Sarmento,[13] (o
Presidente da junta de Moncorvo) estiverão a pontos de pagarem com as
vidas as torturas, que seu pai causava aos revoltosos. Nos principios
de agosto passavão elles por Freixo de Espada á cinta com mais tres
companheiros, (todos o erão nos estudos de Coimbra) e sendo conhecidos,
forão prezos como Jacobinos: os tres ultimos conseguírão facilmente o
serem soltos, mas quanto aos filhos do Conselheiro, gritava o povo que
morressem.
O Juiz de fóra lhes quiz valer, mas os revoltosos entrárão tambem a
clamar contra elle, de fórma que para todos se livrarem da morte,
foi necessario dizer-lhes o Juiz de fóra, que tivessem paciencia, e
mandallos conduzir á prizão. Deo-se parte deste successo a Moncorvo,
d’onde immediatamente sahio huma escolta, para ir resgatar os prezos,
com o pretexto de os conduzir para as cadêas desta villa: o Coronel
commandante dos postos do Douro destacou tambem 60 milicianos com o
mesmo objecto, que quando chegárão, já a escolta tinha concluido o
negocio.[14]
[Sidenote: Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
O Governador do Porto expedio ordens ao Desembargador Thomaz Ignacio,
para tomar conhecimento destes factos; ao que este ministro se
escusou, pelos fundamentos de falta de saude, e de se achar implicado
no negocio, por causa dos insultos commettidos contra seus filhos. Em
consequencia foi commettida esta diligencia ao Desembargador Jeronymo
Caetano de Barros Araujo e Beça, com a clausula de que se lhe não
admittiria escusa alguma: elle tambem a desejava, por tocar a hum povo
visinho da sua patria; teve porém de obedecer.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Tres mezes e meio gastou na devassa, e exames, de que resultou serem
prezos alguns dos réos, tendo fugido a maior parte delles para
Hespanha, d’onde ainda em outubro de 1809 voltárão quarenta e tantos,
para fazerem novos disturbios, dando a voz: _morrão estes cães,
e viva o nosso Principe, que já voltou_: isto por occasião de
terem passado a Villa-nova de Foz-Coa alguns officiaes de justiça, a
sequestrar-lhes os bens, com os quaes, assim como com outros das terras
visinhas, tiverão os revoltosos varias pendencias.
Não ha muitos tempos fui eu informado de que alguns dos perseguidos
pelo furor popular se não tinhão recolhido a suas casas, as quaes
offerecem ainda monumentos horrorosos da destruição. Soffreo immenso
a industria, e a riqueza daquelle povo, que por este modo se acha
assás punido dos seus crimes, e largo tempo terão ainda de sentir-se
em Villa-nova de Foz-Coa as fataes consequencias de tão sediciosos
tumultos.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Não devo deixar em esquecimento, que o Juiz ordinario desta villa
procedeo a huma devassa, a que servio de corpo de delicto a fama, que
tinha chegado aos seus ouvidos, de que havião malevolos, que antes, e
depois da restauração dizião mal do nosso amado Principe, e do seu
Governo, approvando o dos Francezes intrusos neste reino, e mostrando
descontentamento de que os Portuguezes sacudissem o seu pezado jugo;
e de que muitas pessoas, esquecidas do temor de Deos, proferião
blasfemias, e fazião destincção de dois differentes Deoses. Vê-se pelo
contexto da devassa, que isto queria dizer o Deos dos Christãos velhos,
e o dos Christãos novos, como se não fosse o mesmo, suscitando-se esta
odiosa differença, que em todos os tempos, desde que se introduzio,
tem produzido tantos males, e que nem as luzes do seculo, em que
vivemos, nem a voz da humanidade, e da politica, nem as severas penas
comminadas pelas nossas leis tem podido desterrar.[15] Ha ainda muitos
Portuguezes, que a este respeito são hoje o mesmo, que erão os de
1506: não podem persuadir-se de que de hum Judeo de origem possa
fazer-se hum bom Christão, e he este o pensar commum do povo. Cruel
sorte tem perseguido, a pezar dos clamores de muitos homens sábios, e
humanos, aos miseraveis descendentes de hum tronco tão famoso, desde o
tempo, em que Roma forão vendidos em público mercado, regulando-se o
seu preço por cabeça, pelo dos animaes, de que não comião a carne; e no
meio das perseguições forão sempre industriosos, fazendo o commercio,
e attrahindo as riquezas. Huma vez que abração o Christianismo,
não ha razão alguma para os distinguir dos outros Christãos, sendo
descendentes, como observa o nosso Legislador moderno, do mesmo, e
identico sangue, de que sahírão os fundadores da igreja.[16]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Li hum traslado daquella informe devassa, e são horrorosas as cousas,
que contém. São blasfemias proferidas contra Deos, e contra os seus
Santos, Crucifixos enterrados em esterqueiras, cruzes quebradas, e
cobertas de escremento humano, affirmativas de que já não governava
o Deos dos Christãos velhos, porque estava prezo, e de que estes
havião de pagar hum tanto para baptizarem os filhos, tanto para
se confessarem, e tanto para irem á Missa, maledicencias contra o
Soberano, remessas de dinheiro para Almeida ao General Loison, &c.
Accrescentão varias testemunhas terem proferido alguns dos culpados,
que Junot era seu primo; e o mais extraordinario he que para tudo se
achárão testemunhas presenciaes, que depozerão de vista, e de factos
proprios.
O Juiz sentenciou a devassa em 4 de agosto, pronunciando hum grande
número de culpados, e mandou remetter para o tribunal da Inquisição
de Coimbra as culpas respectivas á religião; mas a remessa não teve
effeito.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Observarei de passagem, que a mesma animosidade contra os Judeos,
que se manifestou em Bragança, e em Villa-nova de Foz-Coa, appareceo
igualmente em Viseu, na Covilhã, no Fundão, e em todas as terras do
reino, onde ha fama de elles se acharem estabelecidos; e por toda a
parte se lhes fizerão as mesmas imputações de adherencia aos Francezes.
Por ventura terião ellas algum justo fundamento? No geral não o creio,
no particular alguns individuos poderia haver, que merecessem esta
nota, assim como os houve em todas as classes, e jerarquias de pessoas:
como Historiador eu devo referir os factos com pureza; como cidadão
esforçar-me em destruir preoccupações contrarias ao bem, e ás leis do
meu paiz. Napoleão tem por politica concedido aos Judeos prerogativas,
e liberdades, a que erão pouco acostumados desde a dispersão das tribus
de Israel; o que na verdade he hum motivo assás forte para os metter
nos seus interesses: he o mesmo, que affecta praticar para com os
Catholicos na Italia, e onde o Catholicismo tem o predominio, e para
com os protestantes, onde estes são os mais fortes, o que praticou
para com os Mahometanos no Egypto, e na Syria, e o praticaria para com
os Parsis, os Bramines, e os Bonzos, se chegasse a penetrar até as
regiões do oriente; mas tiraremos nós daqui, sem outras premissas, as
consequencias de que o Protestante, o Judeo, o Mahometano, o Parsi, o
Bramine, e o Bonzo são traidores? Demais, os Synedrios da França, da
Hollanda, e da Alemanha nada tem com os Judeos dispersos, e izolados
de Portugal, que, confundidos na massa da nação, como os descendentes
dos Carthaginezes, dos Romanos, dos Suevos, dos Godos, dos Arabes, e
de outros póvos, que habitárão o nosso paiz, ao menos no exterior se
conformão aos usos, e ás leis do Estado: devemos suppôr, que tambem
no interior, não são responsaveis aos homens pelos segredos das suas
consciencias, e estão sogeitos aos nossos tribunaes por todas as suas
transgressões puniveis, e manifestadas por actos externos; mas de
nenhuma fórma ao povo, e aos individuos em particular.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Não he difficil achar na intolerancia religiosa, e politica dos
Judeos, enquanto formavão hum corpo de nação, para com os outros
póvos o odio, em que erão tidos por toda a parte; não admira, que
ainda depois de dispersos fossem perseguidos em Roma, e nos outros
paizes, onde cerceavão as moedas, fazião conspirações, e praticavão
usuras intoleraveis; mas porque razão procuraremos ainda hoje, que
estes motivos tem cessado, eternizar o odio entre nós, e elles?
Consideramos o que com este abuso temos perdido, e o que fizemos ganhar
á Inglaterra, e á Hollanda, e toleremo-los, pois que elles nos não
perturbão no nosso culto, na nossa tranquillidade, nas nossas leis, e
nos não cerceão as nossas moedas; restando ainda a indagar, no fim de
tudo, os titulos genealogicos, que a travez dos seculos verificão a sua
origem. Como observantes do Christianismo, devemos desejar que todo o
mundo abrace as suas santas maximas, mas não tornar-nos perseguidores;
temos mesmo rigorosa obrigação de amar todos os homens. Abracemos pois
o Judeo, o Protestante, o Mahometano, o Bramine, o Bonzo, e até o A. do
Correio Brasiliense, se se limitar a escrever tolices.