CAPITULO XLIV.

_Negocios da provincia de Tras-os-montes. Tumultos em Bragança,

e em Villa-nova de Foz-Coa, e procedimentos, a que derão causa.

Considerações sobre os Judeos._

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

OS negocios da provincia de Tras-os-montes proseguião na mesma marcha,

em que os deixámos: a reorganização do exercito, o bloqueio de Almeida,

e a defeza das fronteiras, que por aquelle lado começárão a ser

ameaçadas desde o meado de julho pelo corpo d’exercito do Marechal

Bessieres, erão os principaes objectos, a que tinha de attender-se.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

A pezar das desconfianças, por não dizer contestações, que sempre

continuárão entre a junta provincial de Bragança até a sua extinção,

e a suprema do Porto, o General Sepulveda se tinha conservado em

perfeita harmonia com o Bispo Governador, e cedendo aos convites deste;

determinou em fim partir para o Porto: era o seu intento tomar o

commando do exercito nascente, como General mais antigo. Na declinação

de huma importante molestia, e ainda muito atenuado de forças, partio

de Bragança a 5 de julho, encaminhando-se por Chaves a Villa-Real,

onde lhe era preciso demorar-se alguns dias, para ordenar as cousas

desta parte da provincia. Por toda a parte o recebião os póvos, como o

seu libertador, e em Villa-Real lhe estava preparado hum cortejo mais

pomposo: derão-lhe huma entrada magnifica, e na sua presença fez a

camara recitar em seu louvor a oração, que corre impressa, e de que já

em outro lugar fiz menção.

Estando a partir desta villa, sobrevierão os tumultos de Bragança,

acontecidos nos dias 19, 20, e 21, que lhe embaraçárão a jornada,

de fórma que não sahio da provincia senão em agosto, quando o nosso

exercito já seguia o Inglez com direcção á capital do reino. Huma falsa

noticia de que os Francezes se aproximavão pela parte da Hespanha,

deo motivo a hum rebate, e do rebate resultárão os tumultos; porque o

povo, tendo-se ajuntado, e não apparecendo inimigos, voltou-se contra

aquelles Portuguezes, que julgava traidores, ou que os cabeças de motim

por taes fazião passar; o que recahia principalmente contra os que erão

apontados, como descendentes de origem Hebraica.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Logo na manhã do dia 19 huma multidão desenfreada entrou a clamar

contra as Authoridades estabelecidas, e correndo ao castello, forçou

as portas, e se fez senhora das armas, que nelle se achavão. Tentou

tambem apoderar-se do armazem da polvora, ao que obstou o Sargento-mór

da praça Antonio Corrêa de Castro Sepulveda, filho do General, e muito

respeitado do povo, vendo-se com tudo precisado a mandar distribuir

algumas pequenas porções della pelos amotinados, para os satisfazer.

[Sidenote: 1808 Julho.]

A junta, pensando apagar o fogo, não fez senão ateallo convocando o

povo, para que se ajuntasse na tarde desse mesmo dia no largo de Santo

Antonio, a fim de o trazer á razão: apenas congregado, entrou a clamar

contra a propria junta, pedindo a exclusão da maior parte dos seus

membros, e nomeando outros em seu lugar. Passou depois a registrar as

casas dos particulares, que lhe erão mais odiosos, sendo a sua maior

furia contra hum chamado por alcunha o _Olhos de vidro_, do

qual se dizia, que tinha feito huma figura do General Sepulveda, e a

fregíra em huma certã: quebrárão-lhe, e estragárão-lhe quanto tinha em

casa, e até os vidros das janellas. Enfurecêrão-se igualmente contra

hum tal Lobo, e hum tal Sá, imputando-se principalmente a este o ter

correspondencias com os Francezes. Prendêrão a todos tres, e quizerão

logo fuzilar o Sá, chegando a apontar-lhe as armas, e parece que a

desfechar alguma espingarda velha, que por felicidade não tomou fogo:

foi sempre escapando no meio de huma escolta, e conduzido com os outros

á prizão.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Da populaça o espirito de insubordinação, e de revolta se communicou

á tropa. Os soldados do regimento de cavalleria n.^o 12.^o, que

se achavão reunidos, levantárão-se contra o seu proprio Coronel

Amaro Vicente Pavão, que nesse tempo era hum dos membros da junta,

caracterizando-o, de falsario, e dizendo, que o não querião por chéfe.

Tentárão matallo, e hum individuo da plebe lhe encarou a espingarda,

e ia a desfechar com elle, o que evitou o Sargento-mór da praça,

mettendo-lhe por baixo o braço, e levantando-a: a bom concerto o

deixárão vivo; mas hum chamado Nicolao lhe intimou, que se não

intrometesse a mandar cousa alguma, sem primeiro o participar ao Senhor

Viseu.

Por esse facto ficámos sabendo, que estes dois homens erão grandes

personagens nesta scena. O Viseu, assim chamado por ser natural

da cidade deste nome, era hum çapateiro, que neste tumulto tinha

adquirido huma ascendencia desmarcada sobre a populaça: o Nicoláo,

hum taberneiro, que enfatuado pela força do povo se declarou General,

intitulando-se o Loison Portuguez, o que foi muito bem recebido, por

ter elle hum braço aleijado, como o Loison Francez. Chegou a adquirir,

hum tal imperio, que mandava a hum corpo de tropa que se movesse, e o

corpo se movia; a hum homem, que se confessasse para morrer, e o homem

se confessava.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Informado Sepulveda em Villa-Real destas desordens, mandou seu genro

Francisco de Figueiredo Sarmento, para as socegar, com alguma tropa;

mas quando este chegou a Bragança, já a tormenta tinha declinado.

No dia 21 tinha ella crescido, em razão de ser dia de feira, e as

authoridades públicas, vendo que tudo ia a submergir-se em um abysmo

horroroso, tomárão vigor nas suas medidas: cahírão nesse mesmo dia á

noite sobre os chéfes dos amotinados, e conseguírão prendellos; logo

na manhã seguinte os remettêrão para Chaves, e de Chaves para o Porto.

Dado este passo, tudo ficou socegado, impondo respeito hum esquadrão

de cavalleria de Miranda, e o regimento de milicias, de Bragança:

o Governador do Bispado, o Major de milicias Manoel Ferreira de Sá

Sarmento, o Conego Bento de Figueiredo Sarmento, e outras pessoas

caracterizadas tambem concorrêrão muito para o restabelecimento da

tranquillidade; mas sempre foi necessario, para accommodar o povo,

fazer-lhe a vontade em alguns pontos, sendo hum delles o trabalhar-se

no concerto de algumas peças velhas, e collocarem-se em certos lugares.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

O Corregedor da comarca procedeo a huma devassa, em que ficárão muitos

culpados, que se forão livrando ordinariamente. He muito notavel,

que a voz pública nunca os criminou pelos excessos, em que se havião

precipitado, á excepção dos roubos, que commettêrão: ainda a respeito

destes, muitos os defendião, sustentando tenazmente, que as casas,

que tinhão sido saqueadas, o devião ser, e que os ministros estavão

peitados pelos Judeos. Tal era a opinião geral do povo.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Os tumultos de Villa-nova de Foz-Coa forão ainda mais pezados, e

tiverão huma perfeita analogia com os de Bragança na sua origem, e

progressos. Villa-nova he a terra de maior povoação da comarca de

Trancozo, e huma das mais ricas da Beira alta, pelo muito commercio,

que alli se faz, tanto em sedas, como em bacalháo, arroz, e outros

generos, e comestiveis, que por aquelle ponto se distribuem pelas

terras comarcans de Portugal, e Hespanha: offerece-lhe estas vantagens

a sua posição junto ao Douro, que he navegavel até as suas visinhanças

em huma grande parte do anno, ajudada pela industria dos seus

habitantes. Nella se achavão estabelecidos desde tempo immemorial

muitos dos que se apontão como descendentes das tribus de Israel, e em

cujas mãos principalmente se achava concentrado este trafico, e por

consequencia muita riqueza; o que era bastante, prescindindo de outras

razões, para excitar a inveja, e emulação de muitos daquelles mesmos, a

quem nutrião, e abastavão com a sua industria.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Tinha rompido a revolução em Villa-nova de Foz-Coa nos fins de

junho, quando Loison fazia a sua travessa de Viseu para Almeida, e

nos primeiros momentos não houve senão zelo, e patriotismo; havendo

porém alguns mal intencionados, que se aproveitárão dessa occasião,

para darem exercicio ás suas paixões criminosas, o zelo, degenerou

bem depressa em frenezi, e a par dos _vivas_ ao Principe Regente

começou a ouvir-se: _morrão os Francezes, e os Judeos, que os

protegem_. Estas vozes, na apparencia patrioticas, forão o sinal da

revolta, abrindo o campo a scenas horrorosas. Houve hum rebate falso de

que os Francezes marchavão contra a villa, e ao toque dos sinos o povo

se levantou em massa, e chegou a caminhar algum espaço. Verificando-se

porém, que os inimigos não vinhão, voltou ainda em tumulto, e se lançou

sobre hum grande número de casas dos seus compatriotas, que entregou

ao saque, sempre com as mesmas vozes: _morrão os Francezes, e os

Judeos_. A voz pública dos que não tiverão parte nos tumultos,

crimina sem rebuço, como authores da desordem, a certos homens

prepotentes, que querião extorquir dos Judeos, ou dos que por taes se

designavão, grandes sommas de dinheiro, e se servírão da populaça,

instrumento sempre prompto para taes emprezas, e muito principalmente

nas circunstancias, que o tempo apresentava; respeitarei porém os seus

nomes, pois que os orgãos da lei os não tem dado por culpados.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Era hum grande ajuntamento de povo miudo com espingardas, fouces,

piques, picaretas, machados: huns arrombão as portas, outros fazem

buracos nas paredes, ou abatem os telhados, entrão todos, quebrão

bancas, cadeiras, e tudo o que guarnecia as casas, e estas em pouco

tempo ficão destruidas, e até arrancados os seus pavimentos. Os moveis

preciosos, e todos os objectos de valor, que podião conduzir-se, forão

roubados, não cessando o saque, senão com a total ruina de vinte e

tantas familias das mais ricas da terra.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Dos infelizes, que a populaça procurava, alguns pudérão fugir, outros

forão insultados por mil maneiras, e arrastados á cadêa pública: alli

mesmo os sediciosos lhes encaravão as armas, e elles tremendo, e com as

mãos levantadas pedião, que lhes poupassem as vidas. Felizmente a todos

as conservárão, o que attribuo á segurança, em que os mesmos sediciosos

julgavão a sua preza; porque na verdade elles se tinhão de tal modo

apoderado da força, que tendo principiado este horroroso espectaculo

nos fins de junho, continuou com todo o calor por espaço de quatorze,

ou quinze dias, sem que houvesse authoridade, ou poder, que contivesse

as desordens; e ainda nos principios de agosto a junta de Moncorvo,

ou o seu Presidente, officiava ao Bispo, á junta, ao Chanceller da

Relação do Porto, e ao Marechal Botelho, para darem providencias, que

as fizessem cessar.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Bem quizerão a mesma junta de Moncorvo, e o seu Presidente atalhallas

no seu principio, mas não tiverão forças. Com este intento fizerão

destacar da guarda, que estava na barca do Pocinho, huma patrulha; mas

sobindo á villa, soffreo huma descarga, com que teve de retroceder.

Alguns dos miseraveis fugitivos de Villa-nova forão refugiar-se em

Moncorvo, e daqui resultou huma especie de guerra civil entre as duas

villas. O Douro divide os dois territorios, e não passava hum individuo

da parte de Moncorvo para a de Villa-nova que não fosse insultado,

e até lhe rasgavão os passaportes, como emanados de authoridades

illegaes: encarregando este ramo de singular policia a huma companhia,

que armárão, denominada de voluntarios, a qual não era senão hum bando

de faciosos, que infestavão a margem meridional do rio.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

O contagio lavrou por Freixo de Numão, e terras visinhas, passou o

Douro, e penetrou mesmo até Moncorvo; mas a junta evitou os seus

progressos, fazendo prender em huma noite, e á mesma hora os seus

principaes agentes. Tiverão a mesma sorte, e forão remettidos para o

Porto o capitão da célebre companhia de voluntarios de Villa-nova, e

hum seu companheiro, que tinhão ousado passar o rio: a não serem estas

medidas vigorosas, a provincia de Tras-os-montes ia arder em fogo, e

os seus habitantes se dispunhão para se degollarem huns aos outros.

Dois filhos do Desembargador Thomaz Ignacio de Moraes Sarmento,[13] (o

Presidente da junta de Moncorvo) estiverão a pontos de pagarem com as

vidas as torturas, que seu pai causava aos revoltosos. Nos principios

de agosto passavão elles por Freixo de Espada á cinta com mais tres

companheiros, (todos o erão nos estudos de Coimbra) e sendo conhecidos,

forão prezos como Jacobinos: os tres ultimos conseguírão facilmente o

serem soltos, mas quanto aos filhos do Conselheiro, gritava o povo que

morressem.

O Juiz de fóra lhes quiz valer, mas os revoltosos entrárão tambem a

clamar contra elle, de fórma que para todos se livrarem da morte,

foi necessario dizer-lhes o Juiz de fóra, que tivessem paciencia, e

mandallos conduzir á prizão. Deo-se parte deste successo a Moncorvo,

d’onde immediatamente sahio huma escolta, para ir resgatar os prezos,

com o pretexto de os conduzir para as cadêas desta villa: o Coronel

commandante dos postos do Douro destacou tambem 60 milicianos com o

mesmo objecto, que quando chegárão, já a escolta tinha concluido o

negocio.[14]

[Sidenote: Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

O Governador do Porto expedio ordens ao Desembargador Thomaz Ignacio,

para tomar conhecimento destes factos; ao que este ministro se

escusou, pelos fundamentos de falta de saude, e de se achar implicado

no negocio, por causa dos insultos commettidos contra seus filhos. Em

consequencia foi commettida esta diligencia ao Desembargador Jeronymo

Caetano de Barros Araujo e Beça, com a clausula de que se lhe não

admittiria escusa alguma: elle tambem a desejava, por tocar a hum povo

visinho da sua patria; teve porém de obedecer.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Tres mezes e meio gastou na devassa, e exames, de que resultou serem

prezos alguns dos réos, tendo fugido a maior parte delles para

Hespanha, d’onde ainda em outubro de 1809 voltárão quarenta e tantos,

para fazerem novos disturbios, dando a voz: _morrão estes cães,

e viva o nosso Principe, que já voltou_: isto por occasião de

terem passado a Villa-nova de Foz-Coa alguns officiaes de justiça, a

sequestrar-lhes os bens, com os quaes, assim como com outros das terras

visinhas, tiverão os revoltosos varias pendencias.

Não ha muitos tempos fui eu informado de que alguns dos perseguidos

pelo furor popular se não tinhão recolhido a suas casas, as quaes

offerecem ainda monumentos horrorosos da destruição. Soffreo immenso

a industria, e a riqueza daquelle povo, que por este modo se acha

assás punido dos seus crimes, e largo tempo terão ainda de sentir-se

em Villa-nova de Foz-Coa as fataes consequencias de tão sediciosos

tumultos.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Não devo deixar em esquecimento, que o Juiz ordinario desta villa

procedeo a huma devassa, a que servio de corpo de delicto a fama, que

tinha chegado aos seus ouvidos, de que havião malevolos, que antes, e

depois da restauração dizião mal do nosso amado Principe, e do seu

Governo, approvando o dos Francezes intrusos neste reino, e mostrando

descontentamento de que os Portuguezes sacudissem o seu pezado jugo;

e de que muitas pessoas, esquecidas do temor de Deos, proferião

blasfemias, e fazião destincção de dois differentes Deoses. Vê-se pelo

contexto da devassa, que isto queria dizer o Deos dos Christãos velhos,

e o dos Christãos novos, como se não fosse o mesmo, suscitando-se esta

odiosa differença, que em todos os tempos, desde que se introduzio,

tem produzido tantos males, e que nem as luzes do seculo, em que

vivemos, nem a voz da humanidade, e da politica, nem as severas penas

comminadas pelas nossas leis tem podido desterrar.[15] Ha ainda muitos

Portuguezes, que a este respeito são hoje o mesmo, que erão os de

1506: não podem persuadir-se de que de hum Judeo de origem possa

fazer-se hum bom Christão, e he este o pensar commum do povo. Cruel

sorte tem perseguido, a pezar dos clamores de muitos homens sábios, e

humanos, aos miseraveis descendentes de hum tronco tão famoso, desde o

tempo, em que Roma forão vendidos em público mercado, regulando-se o

seu preço por cabeça, pelo dos animaes, de que não comião a carne; e no

meio das perseguições forão sempre industriosos, fazendo o commercio,

e attrahindo as riquezas. Huma vez que abração o Christianismo,

não ha razão alguma para os distinguir dos outros Christãos, sendo

descendentes, como observa o nosso Legislador moderno, do mesmo, e

identico sangue, de que sahírão os fundadores da igreja.[16]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Li hum traslado daquella informe devassa, e são horrorosas as cousas,

que contém. São blasfemias proferidas contra Deos, e contra os seus

Santos, Crucifixos enterrados em esterqueiras, cruzes quebradas, e

cobertas de escremento humano, affirmativas de que já não governava

o Deos dos Christãos velhos, porque estava prezo, e de que estes

havião de pagar hum tanto para baptizarem os filhos, tanto para

se confessarem, e tanto para irem á Missa, maledicencias contra o

Soberano, remessas de dinheiro para Almeida ao General Loison, &c.

Accrescentão varias testemunhas terem proferido alguns dos culpados,

que Junot era seu primo; e o mais extraordinario he que para tudo se

achárão testemunhas presenciaes, que depozerão de vista, e de factos

proprios.

O Juiz sentenciou a devassa em 4 de agosto, pronunciando hum grande

número de culpados, e mandou remetter para o tribunal da Inquisição

de Coimbra as culpas respectivas á religião; mas a remessa não teve

effeito.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Observarei de passagem, que a mesma animosidade contra os Judeos,

que se manifestou em Bragança, e em Villa-nova de Foz-Coa, appareceo

igualmente em Viseu, na Covilhã, no Fundão, e em todas as terras do

reino, onde ha fama de elles se acharem estabelecidos; e por toda a

parte se lhes fizerão as mesmas imputações de adherencia aos Francezes.

Por ventura terião ellas algum justo fundamento? No geral não o creio,

no particular alguns individuos poderia haver, que merecessem esta

nota, assim como os houve em todas as classes, e jerarquias de pessoas:

como Historiador eu devo referir os factos com pureza; como cidadão

esforçar-me em destruir preoccupações contrarias ao bem, e ás leis do

meu paiz. Napoleão tem por politica concedido aos Judeos prerogativas,

e liberdades, a que erão pouco acostumados desde a dispersão das tribus

de Israel; o que na verdade he hum motivo assás forte para os metter

nos seus interesses: he o mesmo, que affecta praticar para com os

Catholicos na Italia, e onde o Catholicismo tem o predominio, e para

com os protestantes, onde estes são os mais fortes, o que praticou

para com os Mahometanos no Egypto, e na Syria, e o praticaria para com

os Parsis, os Bramines, e os Bonzos, se chegasse a penetrar até as

regiões do oriente; mas tiraremos nós daqui, sem outras premissas, as

consequencias de que o Protestante, o Judeo, o Mahometano, o Parsi, o

Bramine, e o Bonzo são traidores? Demais, os Synedrios da França, da

Hollanda, e da Alemanha nada tem com os Judeos dispersos, e izolados

de Portugal, que, confundidos na massa da nação, como os descendentes

dos Carthaginezes, dos Romanos, dos Suevos, dos Godos, dos Arabes, e

de outros póvos, que habitárão o nosso paiz, ao menos no exterior se

conformão aos usos, e ás leis do Estado: devemos suppôr, que tambem

no interior, não são responsaveis aos homens pelos segredos das suas

consciencias, e estão sogeitos aos nossos tribunaes por todas as suas

transgressões puniveis, e manifestadas por actos externos; mas de

nenhuma fórma ao povo, e aos individuos em particular.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Não he difficil achar na intolerancia religiosa, e politica dos

Judeos, enquanto formavão hum corpo de nação, para com os outros

póvos o odio, em que erão tidos por toda a parte; não admira, que

ainda depois de dispersos fossem perseguidos em Roma, e nos outros

paizes, onde cerceavão as moedas, fazião conspirações, e praticavão

usuras intoleraveis; mas porque razão procuraremos ainda hoje, que

estes motivos tem cessado, eternizar o odio entre nós, e elles?

Consideramos o que com este abuso temos perdido, e o que fizemos ganhar

á Inglaterra, e á Hollanda, e toleremo-los, pois que elles nos não

perturbão no nosso culto, na nossa tranquillidade, nas nossas leis, e

nos não cerceão as nossas moedas; restando ainda a indagar, no fim de

tudo, os titulos genealogicos, que a travez dos seculos verificão a sua

origem. Como observantes do Christianismo, devemos desejar que todo o

mundo abrace as suas santas maximas, mas não tornar-nos perseguidores;

temos mesmo rigorosa obrigação de amar todos os homens. Abracemos pois

o Judeo, o Protestante, o Mahometano, o Bramine, o Bonzo, e até o A. do

Correio Brasiliense, se se limitar a escrever tolices.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 29 / 42 题