CAPITULO XXXII.

_Loison parte de Almeida com a sua divisão. Hostilidades que commette

na Guarda, e Alpedrinha. Levantamento da Covilhã, e outros successos

daquella expedição._

[Sidenote: 1808 Julho.]

A 3 de julho sahio Loison de Almeida com a sua divisão, e chegou á

Guarda pela tarde. Os habitantes desta cidade tinhão tido o valor de se

levantarem no dia presente, formando, ainda que com pouca consistencia,

hum Governo, de que o Bispo era Presidente, sem se assombrarem com a

visinhança deste corpo inimigo, e sem poderem contar com meios alguns

de defeza.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Era hum domingo, e dia de feira, quando Loison se aproximou; e vendo

as entradas da cidade cheas de povo, ainda que quasi tudo sem armas,

parou algum tempo a meia legua de distancia, não se atrevendo a

chegar-se mais, em quanto as suas observações lhe não fizerão conhecer

a qualidade de gente, que tinha á vista. No antigo, e desmantelado

castello havia huma peça de ferro, que, por ter estado exposta ás

injúrias do tempo havia seculos, se achava toda esfoguenada, e

destruida, sem aparelhos, e até sem azas; em huma palavra, incapaz de

todo o serviço: assim mesmo alguns enthusiasmados paizanos a conduzírão

sobre hum carro para huma eminencia sobranceira á estrada. Eis-aqui

todo o trem, e apparato, com que se disputava a Loison a sua passagem.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Feitos pois os reconhecimentos, este General fez avançar os seus

soldados, e disparar muitos tiros todos ao vento, porque a gente

desappareceo logo aos primeiros movimentos. Entrárão, e saciárão o

seu furor sobre alguns velhos, aleijados, e mendigos, que fiados na

sua innocencia, e na piedade, que o seu aspecto devia excitar, se

tinhão deixado cahir em poder destes barbaros, que os assassinárão

cruelmente. Dizem, que Loison procurava com muito empenho pelo Mithra:

o Mithra (bem se entende que era o Bispo) tinha-lhe escapado, mas

com grande risco. A esta tarde sanguinosa seguio-se huma noite de

rapinas. A maior parte das casas foi saqueada, de que resultou aos

inimigos hum consideravel despojo: roubárão tambem o deposito público;

exigírão dinheiro ás freiras; levárão ouro, prata, roupas, e animaes;

despedaçárão móveis, entornárão pipas, praticárão quanto a licença, e a

cobiça lhes inspiravão, e continuárão no dia seguinte a sua marcha.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Taes forão em resumo os successos da Guarda; mas o boletim 4.^o do

exercito Francez os pintou de huma maneira bem differente. Os rebeldes,

collocados em duas linhas, com flancos cobertos por pontos fortes,

e o centro sustido por duas peças de artilheria, Loison atacando os

atiradores com presença de animo, e intrepidez, e rechaçando-os com

perda enorme, as linhas procurando manter-se, mas sendo ao mesmo tempo

forçadas, rotas em varias partes, e cercadas, huma matança terrivel,

de que resultárão mais de mil Portuguezes estendidos sobre o campo de

batalha, e Loison perseguindo os restos dispersados, e entrando na

Guarda a passo de ataque: eis-aqui como Junot representou aos olhos do

público esta gloriosa façanha do famoso heróe de hum só braço.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Por este tempo se levantou tambem a Covilhã, villa notavel, que o

grande trato de lanificios tem feito populosa, e rica, a qual se

estende sobre huma ramificação da serra da Estrella no seu flanco

meridional 6 leguas abaixo da Guarda. O Zezere, que corre em pequena

distancia, e huma infinidade de regatos, que cahem das montanhas,

ajuntão a fertilidade á amenidade dos seus campos, e ás vistas

soberbas, e pitorescas, que ornão este paiz, hum dos mais deliciosos

de Portugal. A villa acha-se hum pouco desviada da estrada, e a sua

posição a salvou de ser destruida.

Logo que se effeituou na Guarda o levantamento no dia 2, expedírão-se

avisos á Covilhã (assim como a outras mais terras em roda) os quaes

concorrêrão com outros do Governador de Coimbra; e foi em consequencia

delles, que o Juiz de fóra Caetano de Mello da Gama Araujo e Azevedo

acclamou das suas janellas o nome do Principe Regente a 3 pelas 9 horas

da manhã. De tarde repetio-se a acclamação pelas ruas em concurso,

e procissão solemne da camara, e de hum grande número de pessoas de

todas as ordens; sendo conduzido o estandarte Real pelo Tenente-Coronel

do 1.^o regimento de milicias da comarca Gregorio Tavares. Estava

destinado o dia 4 para a celebração de hum _Te Deum_; mas chegando

nesse mesmo dia pelas 7 horas da manhã a noticia dos estragos da

Guarda, e da marcha de Loison, foi necessario suspender nas funções da

igreja, para se cuidar nas de defeza.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Gregorio Tavares pôde reunir huns 200 homens, quando muito, do seu

dissolvido regimento. O Juiz de fóra, e os officiaes das ordenanças

ajuntárão hum maior número de paizanos, que tratárão de armar do modo

possivel, e distribuir pelos postos de mais importancia: polvora

achou-se bastante, mas faltavão as balas, que sómente pudérão fazer-se

depois de passado o perigo, e tambem as espingardas erão em pequeno

número. O povo manifestava hum grande enthusiasmo; e aquelles, que se

tinhão posto á sua frente para o dirigir, muita actividade, e muito

patriotismo; forão porém manchadas estas bellas disposições com o

sangue de dois infelizes: exporei o facto.

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Achavão-se estabelecidos na Covilhã hum Irlandez, chamado Mattheus

Reynolds, homem assás industrioso, e com muitos conhecimentos das

artes, e hum outro estrangeiro, que lhe servia de lingua, e de

ajudante, encarregados da construcção de huma nova máquina, para a

fiação das lãs da fabrica. Estes homens, que como estrangeiros, e póde

ser por genio, tinhão pouca communicação com a gente da terra, não

tomárão a parte activa, que o povo quereria, nestes seus movimentos.

Quando se andava pelas casas pedindo a cada hum as armas, e munições,

que tinha, tambem se foi ter com elles, e não quizerão dar as suas,

fazendo-se por isso mesmo suspeitos ao povo, que em consequencia os

apertou mais vivamente, e elles se encerrárão em casa. Em hum instante

foi esta rodeada, e sahindo o lingua com huma espada na mão, como quem

queria brigar, apenas ia pondo os pés na rua, cahio morto no meio da

multidão. Então Reynolds se fechou depressa por dentro, e rompeo no

desvario de sobir a huma janella, e fazer fogo sobre o immenso povo,

que tinha concorrido; immediatamente huns investírão a porta outros

as janellas, e outros mesmo aos telhados, e o infeliz, querendo

atravessar por entre a multidão, cahio opprimido, e atordoado com

pancadas, mas não morto. Pedio confissão, e he o que lhe salvou a vida,

porque suspendeo o furor popular: era tal o estado, em que se achava,

que o conduzírão em huma tumba para a misericordia, conseguio porém

restabelecer-se, e foi depois remettido para o Porto.

Muitas balellas se espalhárão a respeito destes estrangeiros, e penso

que sem fundamento verdadeiro. Registrárão-lhes exactissimamente a

casa, e achando-lhes alguns arrateis de polvora, e huma porção de balas

de cobre, que provavelmente lhe servirião de alguma cousa para o uso

das suas máquinas, chamárão-lhes traidores, e publicárão, que tinhão

correspondencias com os inimigos, e conservavão para elles grandes

depositos de armas, e munições, até das balas de cobre figurárão balas

envenenadas, e da pertinaz resistencia, que se propuzerão fazer,

tirou-se por conclusão, que esperavão os Francezes, pensando pelo ruido

do povo que ouvião serem estes que vinhão já entrando na terra.

[Sidenote: 1808 Julho.]

He muito provavel que Loison se não propoz a entrar na Covilhã; se

se propozesse não havia alli forças, que lhe podessem obstar. Foi

seguindo a estrada direita, e na tarde do mesmo dia 4 se avistou a

2 leguas da villa para as partes de Belmonte, ficando-lhe de permeio

o Zezere. Toda a noite seguinte foi de grande reboliço, e Gregorio

Tavares teve o arrojo de ir com hum piquete observar o inimigo junto

ao lugar de Caria, onde tinha acampado: Loison o que queria era ver-se

livre do meio de tantos póvos insurgidos, e por isso, sem acceitar

desafios, levantou campo, e continuou seu caminho, ficando em poder dos

nossos hum extraviado, que foi conduzido á Covilhã com grande alvoroço,

e declarou, que a columna inimiga era de 4$400 homens, e não levava

artilheria.

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Á vista do prisioneiro levantou-se hum franciscano chamado Fr. José

da Madre de Deos, natural, e morador da Covilhã, e disse: _Pois

eu não heide tambem ir buscar alguns prisioneiros!_ Foi dito e

feito: sahio acompanhado sómente de hum paizano valoroso chamado o

Bichinho, passando o Zezere unírão-se-lhe mais quatro paizanos do

lugar de Pera-boa, e forão dar com sete Francezes junto á Capinha,

de que matárão hum, e aprizionárão os seis restantes. Foi este o

primeiro passo da carreira patriotica, e militar do Padre Fr. José da

Madre de Deos, em que depois se distinguio muito, qual outro frade do

habito branco,[6] principalmente no bloqueio de Almeida. Eu o conheci

ultimamente em Lisboa, solicitando licença para ir levantar huma

guerrilha contra o exercito de Massena.

O Fundão despovoou-se, mas Loison não entrou nesta villa, porque se não

desviou da estrada. Assim mesmo lhe forão ficando por aquellas terras

bastantes prisioneiros, que provavelmente se extraviavão, por não

poderem seguir a marcha.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Alpedrinha tinha tambem quebrado o jugo, por unanime, e espontanea

resolução dos seus habitantes, apenas alli constárão os successos do

Porto, e Coimbra, communicados por dois Academicos no dia 2 de julho.

A 4 reunírão-se as differentes classes do povo, e fizerão celebrar

hum auto público da solemne acclamação, seguido de huma função de

igreja, servindo de inflammar mais os animos o chegar nesse mesmo

dia a Alpedrinha a célebre proclamação de Junot--_Que delirio he o

vosso?_--a qual foi promptamente reduzida a mil bocados. Neste acto

nomeou o povo para seus Governadores em 1.^o ao Juiz de fóra João

Pedro Ribeiro de Carvalho, em 2.^o ao Capitão-mór das ordenanças, para

cuidarem nos meios de organização, e defeza.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Principiavão a tomar-se as medidas competentes, e já se havião

expedido emissarios para as terras daquellas visinhanças, quando de

repente se vio accommettida a villa por huma grande parte da divisão

de Loison, que acabava de chegar á Atalaya. Os paizanos, ainda que

em pequeno número, e mal armados, ousárão disputar-lhe a entrada,

animados principalmente pelo cura da terra, mas em poucos momentos

forão desbaratados, ainda que sem perda por então. Os barbaros lançárão

hum cordão á roda da villa, e introduzírão nella huma columna das suas

tropas, que foi matando quanto encontrou, sem perdoar ás proprias

crianças; insultou os templos, roubando-lhe as suas preciosidades;

arrombou o sacrario da igreja matriz, e não achando o vaso sagrado, lhe

furtou huma cruz preciosa, que nelle se guardava; entregou em fim a

terra a hum saque geral, a que se seguio o incendio de varias casas, e

a destruição de muitas outras. O Juiz de fóra, relatando estes estragos

em huma carta official, que escreveo ao Governador de Coimbra, diz, que

a perda se calculou em mais de meio milhão: somma extraordinaria para

huma terra tão pequena.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Chegou a atrocidade dos invasores ao ponto de tirarem de casa de

hum boticario da villa a hum pacifico velho seu tio, levando-o para

o campo, onde o queimárão vivo á vista da paizanagem fugitiva, que

de alguns montes visinhos ouvia ainda os seus lamentos. A hum outro

deixárão estendido, tendo-lhe arrancado os olhos, cortado o nariz, e os

orgãos da geração. E quem diria, que o bom Charlot, a cuja humanidade

tributei os meus respeitos (tom. I. cap. XIX.) foi o commandante desta

expedição? expedição de tigres, que todos são os mesmos, em se lhes

offerecendo occasião! Felizmente era quasi sol posto quando entrárão

na villa, ainda se derramárão pelo campo, e pelos montes, e apanhárão

alguns fugitivos nos desfiladeiros de Alcongosta, e alturas de N.

Senhora da Serra; sobreveio a noite, que servio de asylo aos mais.

Chegando á Covilhã a noticia destes successos, ainda o Juiz de fóra,

e o Tenente-Coronel de milicias chegárão a pôr em movimento hum corpo

escolhido de ordenanças, e as mesmas milicias, para irem atacar o

inimigo; mas este sahio logo no dia 6 de Alpedrinha, e foi dormir

ás Sarzedas. Nesta travessa passou a 3 leguas de Penamacor, e era

precisamente quando esta villa fazia o seu levantamento. No mesmo dia

6 ficárão dispostas as cousas, e a 7 de manhã se procedeo a acclamação

solemne, seguindo-se o estabelecimento de huma junta.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Nas Sarzedas os Francezes, além dos roubos, e estragos particulares,

arrombárão, e despojárão a igreja principal, como já tinhão praticado

em novembro de 1807, tirárão do sacrario o vaso sagrado, e espalhárão

as sacrosantas Fórmas pelo pavimento. Achando a terra despovoada

(he huma das que mais tem soffrido em todas as invasões desde 1807)

arrancárão portas, queimárão santos, e commettêrão as maiores

hostilidades. Pretextavão estes procedimentos com a fuga dos póvos; mas

o infeliz Capitão-mór das Sarzedas, que tinha ficado em sua casa, não

deixou por isso de experimentar a humanidade destes hospedes: elles o

descalçárão, roubárão, e insultárão; só lhes faltou tirarem-lhe a vida.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Semelhantes ultrajes ião praticando em muitas outras terras, por onde

passavão; e aqui vem a proposito addicionar com os seguintes factos a

narração dos que por estes mesmos sitios tinhão perpetrado em 1807,

quando entravão como amigos. Em Villa de Rei fizerão cavalharices da

misericordia, igreja paroquial, e ermidas, e deixárão envolvida no

esterco das bestas huma imagem do Senhor morto, que se guardava na

misericordia. Em casa do Capitão-mór da mesma villa despedaçárão hum

crucifixo, atirárão com elle á imundicie, e degollárão huma imagem de

S. João Baptista. Na villa de Mação acutilárão o Senhor dos Passos.

Na ermida de S. Domingos junto á ribeira do Codoy, termo do Sardoal,

queimárão as imagens dos santos, que achárão; e no convento de Santo

Antonio de Abrantes tambem já tinhão no fogo a de S. Francisco, mas

acudio-lhe hum frade, &c. &c. &c. E depois de milhares de factos desta

natureza, perpetrados públicamente, e sem rebuço pelo exercito Francez,

ainda Junot ousava dizer-nos em suas proclamações: _A vossa religião

não he ella a nossa? Tem ella soffrido alguns ultrajes?_

Tornando a Loison, este General foi seguindo sempre a estrada por

Abrantes, e ao longo do Téjo até Santarem, fazendo espalhar mil

imposturas proprias a inspirarem terror aos póvos, para o não

inquietarem na sua marcha.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 10 / 42 题