CAPITULO XXXI.

_Imposturas, e maquinações por occasião dos successos de Leiria, e

de Thomar. Junot serve-se da authoridade dos Prelados, e superiores

ecclesiasticos, tanto seculares como regulares, para conter póvos na

obediencia ao governo intruso, e faz excommungar os que se levantassem.

Margaron em Thomar._

[Sidenote: 1808 Julho.]

DADAS as disposições referidas, poz-se Margaron em marcha com a sua

tropa no dia 7. Não faltárão sustos de que tomasse o caminho de

Coimbra; mas ou porque elle julgasse insufficientes as suas forças para

marchar sobre este lado, ou porque fossem outras as ordens, que tinha,

voltou sobre Thomar. Em quanto Margaron seguia esta estrada, publicava

Junot em Lisboa o já citado boletim 3.^o que contém as façanhas da

expedição de Leiria. E que affectação, que impostura na narração dos

factos! He muito util o conhecerem-se, para que os Francezes, e as suas

decantadas proezas appareção hum dia como são, e não como elles se

pintão.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Não he nada, inventou Junot hum exercito de 7$ insurgentes das

provincias do norte, reunidos em Leiria, e marchando armados sobre

Lisboa, publicando que vinhão destruir o exercito Francez. Fez-lhes

dar huma batalha campal pela divisão de Margaron, em que os Francezes

tinhão feito desapparecer tão rápidamente as vantagens do número, e

da posição dos insurgentes, que ametade de tropas, e a totalidade

da artilheria não tiverão tempo de entrarem na acção. Annunciou

consequentemente o completo desbarato do nosso exercito, deixando

quinhentos insurgentes mortos no campo da batalha, e os mais largando

as armas, para fugirem, ficando ao mesmo tempo libertados alguns

dragões das brigadas de correspondencia, que isoladamente tinhão

sido prezos. Segue-se hum paragrafo muito notavel a respeito da

humanidade do General. _A perda do inimigo_, diz o boletim,

_mais consideravel haveria sido, se o senhor General Margaron não

tivesse contido a indignação das tropas: passado porém o instante do

combate, foi a moderação igual ao valor, e a ordem seguio de perto

a victoria._ Sepulcros de Leiria! Convencei a impostura, com que

tem enganado o mundo estes salteadores, tão cruéis, como pérfidos, e

enganadores.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Remata o boletim, fazendo o elogio das tropas, e officiaes da

expedição, sendo hum dos que merecerão a sua particular attenção

o Principe de Salm-Salm; este monstro, que já principiei a dar a

conhecer, e que nascido na Alemanha tem adoptado no serviço de Napoleão

a crueza, e as maximas dos mais resolutos corifeos da sua escóla.

Referem os nossos papeis públicos, que elle públicamente se jactava

de que nesta barbara expedição tinha feito morrer ás suas mãos cinco

frades, e que cahindo em seu poder huma mulher pejada, lhe soubera

fazer de tal fórma a operação, que de hum só golpe matára a mãi, e o

feto.[3]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Tinha muitos companheiros na devassidão dos costumes, e na sua conducta

atroz, e violenta; mas fez-se além disso muito célebre pela grosseria

do seu trato. Mudou de aboletamentos em Lisboa, sendo contínuas, e

extraordinarias as insolencias, que fazia nas casas onde entrava.

Ultimamente, estando de quartel em huma boa casa junto ao largo do

Quintella, hum dos lugares mais públicos da cidade, sahia muitas vezes

ao mesmo largo a toda a hora do dia, a pegar nos pés dos seus cavallos,

para se ferrarem, nú de corpo e pernas, sómente com humas chinellas nos

pés, e huma sobrecasaca branca sobre a pelle.

A seguinte carta he huma outra impostura, que Junot então manejava

por meio das seus agentes em Thomar, pertendendo com ella seduzir, e

aterrar os outros póvos, para que senão levantassem.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Carta.

_Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Senhor. Motins populares, excitados pelo

fanatismo, que em todos os tempos se tem servido da ignorancia para

os seus malvados fins, obrigárão a nobreza, e povo de Thomar a

fazerem actos contrarios ao governo estabelecido por S. M. I. e R.,

mas actos feitos por força são nullos, e logo que cessa a força ha

obrigação de assim o declarar. Isto he o que fazemos, supplicando a

clemencia de V. Ex.^{ca} para com aquelles, que forão allucinados

com opiniões falsas, segundo as determinações de V. Ex.^{ca} pois

que os que forão forçados, diante da justiça de V. Ex.^{ca} estão

livres. E se do agrado de V. Ex.^{ca} for, que a este respeito, e

para instrucção do povo se affixe alguma proclamação, fallohemos, em

cumprimento das ordens de V. Ex.^{ca} de quem temos a honra de ser,

&c._

[Sidenote: 1808 Julho.]

Foi publicada esta carta na gazeta de Lisboa de 8 de julho com 21

assinaturas entrando neste número as de alguns daquelles mesmos, que

tinhão sido mais fervorosos no acto da restauração. Ajuntou-se-lhe

huma nota de que havendo-se manifestado em Thomar hum principio de

insurreição, os frades, e a mais vil canalha forão os unicos, que

tomárão parte nesta chamada revolta; que porém os habitantes honrados

se derão pressa a dirigir a Junot a referida carta: que em consequencia

tivera ordem o General, que marchava sobre Thomar, para que

destinguisse esta villa da cidade de Leiria, a qual tinha persistido

no seu criminoso delirio, e por isso recebêra o castigo merecido, como

Béja, e Villa-viçosa: que a mesma sorte estava reservada a todas as

povoações, que ousassem revoltar-se.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Que aggregado de calumnias, e de insolencias! Só os frades, e a mais

vil canalha tinhão tomado parte na revolução de Thomar? Se assim fosse,

a vil canalha[4] se tornaria a porção mais illustre deste povo, porque

as acções brilhantes são as que tirão o homem da obscuridade; mas a

verdade he, que em frades, ou por occasião de frades teve principio

o levantamento, que porém todas as classes do povo concorrêrão

unanimemente, para o complemento da restauração. Foi no heroismo, e

não na violencia, que assentou esta generosa resolução dos habitantes

de Thomar: foi o patriotismo, e não o fanatismo quem os conduzio a

quebrarem o jugo, que os opprimia: foi virtude, que merece os mais

assignalados elogios, e não crime, pelo qual devessem humilhar-se, e

pedir perdão aos opressores.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Nunca apoiarei baixezas; mas seja-me permittido deixar cahir algumas

penadas, que adocem o procedimento dos que assignárão a carta; pois que

a natureza não foi pródiga em conceder aos homens aquelle alto gráo

de valor, e de firmeza, que os póde conduzir, a soffrerem voluntarios

o martyrio, pelo bem da patria. Considere-se o espantoso exemplo de

Leiria, a proximidade do barbaro Margaron com a sua divisão, o estado

inerme dos habitantes de Thomar, e a sua posição do meio das terras

invadidas, sentiremos menos repugnancia em desculpar hum acto, que

com tudo não podemos louvar. Muito fizerão elles em largarem das suas

mãos a carta com hum testemunho, que mostrará a todo o tempo, em que

for lida com reflexão, que ella foi hum parto da violencia. _Isto he

o que fazemos, diz ella, supplicando a clemencia de V. Ex.^{ca} para

com aquelles, que forão allucinados com opiniões falsas, segundo as

ordens de V. Ex.^{ca}_ Foi pois por ordens expressas de Junot que se

escreveo a carta: forão as baionetas as que dirigírão a pena.[5]

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Temos hum monumento mais extraordinario de huma semelhante violencia

na pastoral de 2 de julho, que se publicou em Lisboa em nome do

Collegio, _sede vacante_: peça memoravel, que tem sido impressa

por varias vezes (ultimamente no _Observ. Portug. pag._ 348) e

com vergonha do seculo presente nos reconduz ás idéas tenebrosas dos

seculos XI., e XII. Nestes tempos de ignorancia virão-se os Papas,

e os Bispos levar suas emprezas até o excesso de excommungarem,

e desenthronizarem hum grande número de Soberanos, desligando os

vassallos do juramento de fidelidade. Foi necessario, que os contínuos

combates entre o sacerdocio, e o imperio assolassem a Europa por muitos

seculos, para raiar em fim o clarão de dias mais tranquillos. Chegou

este tempo feliz, estabelecêrão-se os limites dos dois poderes sobre

bases, que parecião innabalaveis, como cimentadas pela razão, e pela

memoria horrorosa de tanto sangue humano, que o seu desconhecimento

tinha feito derramar. Forão os Francezes os que mais trabalhárão nesta

obra, levando-a a hum ponto, que degenerou em excesso; pois chegárão

a cobrir de hum tal ridiculo as censuras ecclesiasticas, que raras

vezes se fallava dellas nas conversações particulares, nas bellas

companhias, e nos circulos diplomaticos, sem que excitassem rizo, e

mofa.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Tal era o estado da opinião a este respeito nos fins do seculo XVIII.,

e principios do XIX.; e foi então que apparecêrão outros Francezes

armados, no meio de hum povo sempre cioso da sua independencia

nacional, e sempre fiel aos seus Soberanos, dictando decretos, não já a

hum Papa, ou a hum Bispo, mas a huma simples congregação capitular, que

fulminavão excommunhões, e anathemas, perdimento de cargos, e officios,

com inhabilidade para mais os haver, contra todo aquelle, que directa,

ou indirectamente, de palavra, por factos, ou escritos, em público, ou

em particular, procurasse commover os espiritos; para recobrarem a sua

liberdade, e o seu Principe, ou resistirem aos usurpadores, e muito

particularmente contra todos os que conservassem armas em suas casas.

E achárão hum texto na Epistola de S. Paulo _ad Romanos_, para

apoiarem esta doutrina! Faltava esta extravagancia, para servir de

ornamento aos annaes politicos dos reformadores da Europa! Eu não faria

justiça ao Collegio Patriarcal, senão affirmasse, que foi hum parto de

positiva violencia, como he bem sabido.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Os Prelados, e superiores ecclesiasticos, tanto seculares, como

regulares, tiverão insinuações, e ordens analogas: até o Guardião do

seminario do Varatojo foi inquietado no seu proprio retiro. Em 7 de

julho se vio este pobre religioso (Fr. Paulo de Santa Teresa, era o

seu nome) com hum correio á porta, que lhe levava ordem de Junot, para

que nesse mesmo dia pelas 5 horas da tarde lhe viesse fallar a Lisboa.

Poz-se a caminho, levando em sua companhia o Padre Fr. Francisco das

Chagas; mas a distancia, e o seu instituto, que os obrigarão a andarem

a pé, não lhes permittírão o chegarem ao quartel-general senão pelas

5 da tarde do dia seguinte. Junot os recebeo com palavras doces,

dizendo-lhes, que estava bem informado de que tinhão grande força,

para persuadirem os póvos com seus sermões; que queria por tanto,

que mandassem prégadores a Leiria, e ao Além-Téjo, para conterem

aquellas terras na obediencia. Desculpou-se o Guardião, que a rogos

dos Bispos tinha mandado em outubro precedente a varias terras todos

os Padres capazes de missionarem, e que por isso não havia então no

seminario senão alguns, improprios deste ministerio, huns por muito

velhos, outros por muito moços, e sem principios; que porém para lhe

fazer a vontade, mandaria vir os que estavão em Aveiro, e em Viseu.

Perguntando-lhe então Junot, quantos erão os Padres, que havia no

seminario, e respondendo o Guardião, que vinte, o cordeiro apparente

tornou-se em leão verdadeiro. _Ah! f ... franciscanos_, exclamou

Junot, _em vinte Padres não tendes quem vá para as partes, que eu

determino! Ah rebeldes, tenho entendido, que os que estão em Aveiro, e

Viseu andão rebellando os póvos._

[Sidenote: 1808 Julho.]

Com estes, e outros discursos semelhantes esteve moendo os frades por

boa meia hora, e vendo, que nada conseguia do Guardião, retirou-se

furioso para hum aposento immediato, e fechou a porta com grande

estrondo; mas com a reacção da pancada tornou a abrir-se em parte, e

virão elles, que Junot se poz a escrever. O Guardião de assombrado

ficou feito huma estatua; mas o companheiro o advertio, que era bom

irem aballando, antes que outra vez começasse a scena: assim o fizerão,

e acabou o entremez.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Entretanto seguia Margaron a sua derrota, e a 9 foi apresentar-se

em Thomar com a divisão do seu commando. Principiou por impôr huma

contribuição de 10$ cruzados, para serem pagos pelos conventos, e

corpo do clero: convocou a camara para lhe fazer prestar juramento de

fidelidade a Napoleão, fez vir á sua presença o Corregedor da comarca

João de S. Payo Freire d’Andrade, que se tinha refugiado para dalli

quatro leguas, e o inquietou, e aos outros ministros com perguntas

sobre a sublevação daquelle povo, e motivos porque a não tinhão

cohibido; mas não procedeo, senão com ameaças.

Estando proximo a partir, com o pretexto de novos motivos, impoz nova

contribuição de outros 10$ cruzados, com ordem de serem logo pagos,

para cujo fim reteve por algum tempo em refens hum freire conventual

da ordem de Christo, hum franciscano, e hum capucho. Dadas estas

disposições, e outras tendentes á manutenção da terra, que lhe levárão

tres dias completos, se poz com effeito em marcha para Lisboa, levando

ainda hum consideravel número de bestas, que extorquio aos póvos de

Thomar, além dos roubos da tropa: forão as penitencias medicinaes, que

acompanhárão a indulgencia plenaria, que lhes concedêra Junot. Por esse

mesmo tempo descia tambem ao longo do Téjo o General Loison com a sua

divisão, voltando da sua famosa expedição da Beira, de que vou agora

continuar o fio.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 8 / 42 题