_O General Margaron sahe de Lisboa, commandando huma divisão, para se
oppôr á insurreição das provincias do norte. Ataque, e devastação de
Leiria._
[Sidenote: 1808 Julho.]
A 2 de julho sahio de Lisboa o general Margaron com huma divisão,
que levava o destino vago de se oppôr á insurreição das provincias
do norte. Avaliava-se a sua força em quatro a cinco mil homens, e
no boletim 3.^o do exercito se fez o recenseamento das tropas, que
a compunhão, a saber: o 3.^o batalhão do regimento n.^o 12.^o de
infanteria ligeira, o do 82.^o de linha, os granadeiros, e atiradores
do 47.^o e 48.^o, 6 peças de artilheria, hum esquadrão de caçadores a
cavallo, e outro de dragões.
As nossas guardas avançadas de paizanos descião até os Carvalhos, tres
leguas abaixo de Leiria, e enviavão exploradores a maiores distancias:
foi por estas que se soube na tarde do dia 4, que o inimigo se
adiantava de Rio-maior. Esta noticia, transmettida immediatamente a
Leiria, poz tudo em consternação, apezar de haverem incredulos, que a
reputavão falsa, suppondo serem soldados das brigadas da estrada, esses
que se tinhão avistado: avisos conformes se forão succedendo huns aos
outros, e a breves passos todos se desenganárão de que realmente hum
corpo inimigo marchava aceleradamente sobre Leiria.
[Sidenote: 1808 Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
Na manhã desse mesmo dia tinha havido alguns movimentos na cidade,
em consequencia dos rumores vagos, que já corrião de que ella estava
proxima a ser atacada. Houve hum congresso das pessoas principaes
na casa da camara, d’onde o Coronel de milicias, e o Capitão-mór
expedírão ordens aos seus respectivos corpos, para se ajuntarem, e o
Alcaide-mór Rodrigo Barba Correa Alardo, Coronel aggregado ao regimento
Portuguez de cavalaria n.^o 10.^o, tendo mostrado muito patriotismo, e
fallado com energia, foi proclamado Governador. Tinha-se feito sahir o
estandarte da camara em procissão pelas ruas, recitando-se pelas mesmas
huma proclamação, que incitava os póvos á defeza, e celebrado hum _Te
Deum_ solemne na cathedral, officiando o Bispo. Tinhão-se mandado
retocar as armas Reaes nos differentes lugares da cidade, onde forão
destruidas por ordem do Governo intruso: tinhão-se mandado fazer novas
bandeiras no antigo castello, o que já não houve tempo de se ultimar,
e nada esqueceo, para influir enthusiasmo no povo. Faltava porém o
essencial, porque sendo huns 800 homens os empregados nas guardas, e
outros objectos do serviço, muitos delles começárão logo a abandonar
os seus postos; e chegando apenas a 200 os que tinhão espingardas,
para estes mesmos senão pudérão apromptar, senão 3 ou 4 cartuxos por
espingarda: de artilheria não havia nem huma peça.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Não se dormio na noite de 4 para 5, sendo tudo confusão, e anarquia,
que augmentavão á proporção, que o perigo se avisinhava, e se conhecia
a impossibilidade de resistir. Rodrigo Barba, prevendo os fataes
effeitos de tanta desordem, ausentou-se pelo meio da noite, sem o
participar a pessoa alguma, porque temia morrer ás mãos do povo, se
se manifestasse o seu designio; e foi maior a confusão, quando se
publicou a sua furtiva retirada. Passou-se o resto da noite, e a manhã
seguinte em hum estado horroroso de agitação, e ao mesmo tempo de
inactividade, que era o precursor de grandes desgraças. A jurisdicção
civil era exercitada pelo vereador mais velho Alvaro Soares, porque os
ministros tambem se retirárão, como, e quando pudérão, sem que com tudo
resultassem suspeitas contra elles, á excepção do Corregedor, que foi
por muito tempo a fabula do povo. Não tenho os dados precisos, para
increpar, nem para abonar o seu comportamento: direi sómente de facto,
que sendo apanhado na sua retirada, foi ignominiosamente prezo, e
conduzido a Coimbra, de Coimbra ao Porto, e sómente solto depois de ter
andado muitos mezes pelas cadêas.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Constou na manhã do dia 5 que huma partida Franceza de 12 homens se
tinha adiantado até o sitio da Canoeira, suburbio da cidade, e ahi
estava roubando huma quinta: hum destacamento nosso cahio sobre ella,
matou hum Francez, e trouxe cinco. O espectaculo de cinco inimigos
prisioneiros ainda reanimou algum tanto os espiritos; mas apenas
passados os primeiros momentos, recahio tudo em mortal apathia.
Era meio-dia, e ainda se ignorava na cidade o número, e a disposição
dos inimigos, que se sabia estarem muito proximos. Então Feliz
Lourenço, feitor, e constructor da estrada Real, que já tinha mostrado
muito patriotismo, e tinha sido o que retocára as armas Reaes, e
dirigíra a mão de hum tosco official de pintor, para as cobrir com as
tintas competentes, offerece-se para ir reconhecer as posições, ou a
marcha dos Francezes. Partindo para este fim com huma patrulha de 30
homens, assim que sahírão da cidade, estes o forão abandonando, de
fórma que no alto do Vieiro se achou sómente com hum companheiro: alli
se separárão hum do outro, já á vista dos inimigos, que avançavão; e
atravessando por entre pinhaes, fazendas, e vallados, conseguírão levar
aos nossos o aviso: aviso innutil, porque nem lhes augmentava a sua
diminuta força, nem podia minorar-lhes as desgraças.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Naquelle mesmo sitio dispozerão os inimigos as suas tropas para
cercarem a cidade, formando-se em meia lua, e collocando a artilheria
no centro, que foi marchando a passos lentos, em quanto as pontas se
estendião rapida, e silenciosamente, indo curvados os soldados, e
com as armas baixas, para não serem vistos. Tanto que descobrírão as
nossas avançadas, mandárão por parlamentario hum paizano, que tinhão
apanhado, com intimação aos nossos, que depozessem as armas: foi muito
mal recebido; e como os Francezes vissem, que se demorava, começárão o
fogo a tempo que o cerco estava feito, tendo-se adiantado a ala direita
inimiga pelo sitio da Mourãa para a cova do Picanço, e a esquerda pela
Carvalha, Santa Clara, Bairro ruivo, e Ollarias, a fechar na costa do
castello.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Não podia esperar-se grande resistencia da parte dos nossos; com tudo
foi disputado o passo da Portella, que o Coronel de milicias Isidoro
dos Santos Ferreira não abandonou, senão depois de cruzarem sobre
elle as balas. O Capitão-mór Manoel Trigueiros conservou-se a pé firme
na casa da camara, até a ultima extremidade, dando as competentes
providencias para as suas ordenanças e foi-lhe necessario, para
escapar, o despir alli mesmo o uniforme militar, e disfarçar-se em
trages de paizano pobre.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Vencido o passo da Portella, deixárão ahi os Francezes o parque de
artilheria junto á igreja de S. Bartholomeu com hum corpo unido,
que seria de 700 homens: o mais espalhou-se pela cidade, e seus
arrabaldes, matando, e roubando quanto se encontrava, e perpetrando
os mais aggravantes attentados. Mulheres, crianças, velhos, enfermos,
e aleijados era tudo sacrificado com igual impiedade. Os templos,
as casas, as ruas, e os campos offerecião as mesmas scenas de
mortandade, saque, sacrilegios, e libertinagem: nada escapou ao furor
destes barbaros. O paço episcopal foi huma das primeiras casas, que
procurárão, mostrando grande empenho por apanharem o Bispo; mas
tinha-lhes escapado poucas horas antes, seguindo a estrada da Figueira,
onde foi refugiar-se.
No convento de Santo Antonio hum religioso estava confessando huma
mulher, matárão o confessor, e a confessada, e depois se divertírão em
arrastar pelas ruas o cadaver da mulher, trazendo ao seu lado espetado
em huma baioneta hum filhinho de hum anno, que estava junto a ella. Hum
infeliz paizano, que estava de guarda junto ás grades da cadêa, não
teve tino, nem para fugir, nem para largar a arma: o proprio Margaron
quiz ser o assassino, que o atravessasse com a sua espada, e como
impellido pela força da estocada elle ficasse ainda em pé encostado á
parede, o mandou acabar a tiros d’espingarda.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Profanárão o recolhimento de Santo Estevão. A officialidade Franceza
quiz fazer o mesmo ao convento das freiras de Santa Anna; mas a
Abbadeça lhe appareceo á portaria á frente da communidade, e
dispondo-se a sahir com cruz alçada, lhes impoz respeito. Não ficou
escondrigio, que não remexessem, procurando riquezas; e aqui abrírão o
exemplo de revolverem as proprias sepulturas, como depois tem praticado
os novos bandos destas harpias devoradoras por todas as partes do
reino, onde tem penetrado. Em varias igrejas arrombárão os sacrarios, e
roubárão os vasos sagrados, espalhando pelo chão as sagradas Fórmas.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Não saciados ainda com o sangue das victimas, de que os cadaveres
juncavão as ruas da cidade, passárão a fazer huma caçada geral dos
homens, que pudérão descobrir, e arrancar dos seus escondrijos, e
os conduzírão ao sitio de São Bartholomeu, para ahi os arcabuzarem.
Entrou neste número o mesmo Feliz Lourenço, de que proximamente fiz
menção: apanhado por hum dos gend’armes, que tinhão estado na brigada
de Leiria, logo este o conheceo, e lhe disse: _Oh! moço do Principe,
e fez armas novas, ha de morrer_; e daqui se infere, que já sabia
que elle tinha trabalhado na restauração das armas Reaes. Foi com
effeito conduzido ao monte, onde já se achavão os outros infelizes, e
immediatamente lançado por terra com huma grande pancada de coronha
na cabeça, e começou a mais horrivel carniceria, que póde caber na
impiedade dos homens. Estavão pela maior parte de joelhos, e com as
mãos levantadas, supplicando huns piedade aos ceos, e outros a vida
aos assassinos; e estes malvados, sem se commoverem a tantas lagrimas,
e sem lhes tremerem as mãos, cevárão de sangue frio as espadas, e as
baionetas nos corpos de tantas victimas, traspassando a todos com
infinidade de golpes, e servindo-lhes de divertimento os seus dolorosos
lamentos; só depois de os terem por este modo feito lutar com a morte,
he que os acabárão com descargas de mosquetaria.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Dois escapárão com vida naquelle acto; mas hum destes veio a espirar
tres dias depois; o outro, que he Feliz Lourenço, ainda vive, mas
em que estado? Com o corpo, e o rosto desfigurados pelos vestigios
do fogo, e pelas cicatrizes de 28 picaduras de baioneta, com o olho
esquerdo de menos, que lhe levou huma bala, com os ossos do antebraço
direito despedaçados, innutilizados os tendões, e paralyzada a mão. He
delle mesmo que eu tenho as particularidades deste successo espantoso,
de que não resta alguma outra testemunha, a não serem os proprios
assassinos.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Acabada a mortandade, os assassinos estando dentro de huma cidade,
achárão-se em hum deserto, sem outra companhia que a dos cadaveres,
e alguns moribundos. Cuidou então Margaron nos meios de alliciar os
fugitivos, para que se recolhessem a suas casas, e principalmente os
officiaes de justiça, e hum Parocho: aquelles para lhe apromptarem
viveres, este para fazer enterrar os mortos, e servir de medianeiro
entre elle, e os póvos, para os fazer voltar aos seus lares.
Appareceo com effeito o Parocho da Sé, e o General o tratou muito
bem, permittindo-lhe o administrar os sacramentos aos feridos, que
ainda conservavão a vida, e cuidar no enterro dos mortos; e forão
successivamente sahindo das suas casas alguns outros habitantes da
cidade, espavoridos, e ainda incertos da sua sorte.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Pelo mesmo Parocho, e por outros canaes, que se lhe forão abrindo,
fez publicar, que Leiria estava perdoada. Que perdão depois de tantos
estragos! Que perdão, onde não havia crime! Sim o povo de Leiria se
achava culpado, porque he hum crime para com os tyrannos todo o passo,
que o homem possa dar para reasumir os seus direitos. Hum crime real
teria este infeliz povo, se lhe fossem imputaveis as vergonhosas
expressões de vil lisonja, com que quatro ou cinco homens tinhão
pouco antes incensado os usurpadores com escandalo da nação. Póvos
da Europa! Ponde os olhos em Leiria, e vede a recompensa, com que os
Francezes do nosso tempo retribuem aquelles, que os chamavão seus
irmãos primogenitos, que se davão por felices de se acharem situados
na estrada militar, para melhor se assinalarem na cordialidade, com
que os devião agazalhar, que os invocavão com os seus regeneradores,
e se desfazião em elogios, e baixezas para com esse que chamavão o
restaurador da nação Portugueza o seu Napoleão o grande, e para com
o seu novo Rei promettido.[2] Mas lancemos de pressa o véo: nem o
fiel povo de Leiria he culpado em taes baixezas, nem, quando o fosse,
deveriamos aggravar mais com declamações extemporaneas o grande pezo
das suas infedades.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Junto na cidade hum sufficiente número de gente, deo-lhe Margaron huma
especie de beija-mão (era o lobo acariciando os cordeiros) em que
lhe fez huma missão pungente. Reiterou a palavra, que tinha dado,
de suspender nos ulteriores procedimentos contra aquelle povo, e fez
affixar hum edital, para que todos os habitantes da cidade, que andavão
fugitivos, se recolhessem a ella dentro de 24 horas, pena de morte.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Por ausencia dos magistrados, creou hum Governo civil, composto de hum
Corregedor mór com dois adjuntos, os quaes erão dos fugitivos, que o
chamado perdão geral tinha feito recolher. Acceitárão de boa fé estes
empregos, sendo o Corregedor mór aquelle mesmo, que no dia 4 tinha
publicado pelas ruas a proclamação patriotica: curvárão á viva força; e
as funções da sua nova authoridade quasi se limitárão a fazer apromptar
viveres para os Francezes. O Prior do convento da Graça padeceo a nota
de ter sido feito Bispo de Leiria por Margaron. Este procedimento não
me admiraria pela parte do General Francez, porque era huma bagatella
no meio das extravagancias, e dos attentados desta gente, mas a verdade
he, que não appareceo facto algum, que possa servir de fundamento a
semelhante asserção, e que apezar de algumas complacencias do Prior
para com os Francezes, antes, e depois da desgraça de Leiria, não
consta (pelo menos de hum modo que chegasse ao meu conhecimento) se
involvesse em maquinações contra o Estado.