CAPITULO XXIX.

_Successos da expedição dos Academicos de Coimbra até Leiria.

Restaura-se esta ultima cidade, e se procurão os meios de a pôr em

estado de defeza. Levantamento de Nazareth, e povoações visinhas, e

consequencias que teve._

[Sidenote: 1808 Junho.]

A Expedição dos Academicos, que sahíra de Coimbra em 18 de junho,

composta de 1 furriel, e 15 companheiros, estudantes, e soldados

de cavallo, vinha fazendo levantar a paizanagem dos lugares, por

onde passava, de que huma parte se lhe ia incorporando, de fórma

que chegando a Leiria no dia 30, já se contavão huns 200, ou 300

combatentes, bem ou mal armados, marchando em tumulto, fazendo hum

motim, e levantando huma poeira, que se ouvião, e divisavão de muito

longe, e inculcavão a marcha de hum exercito. Em Condeixa, onde os

nossos Academicos entrárão a 28 pelas 7 horas da tarde, forão recebidos

com repiques de sinos, foguetes, e luminarias. Destinguio-se muito nos

auxilios, que lhes prestou, o Regente do hospicio de Santo Antonio,

armando-se, e acompanhando-os a varias diligencias, que consistião

principalmente na prizão de alguns individuos, que erão suspeitos.

[Sidenote: 1808 Junho.]

A 29 proseguírão a sua marcha pela villa da Ega, onde fizerão em

pedaços alguns editaes Francezes, que achárão affixados, descobrírão

as armas Reaes por entre os mesmos applausos do povo, e passárão

depois a Soure, onde praticárão os actos da restauração com as mesmas

acclamações, musicas, e descargas de mosqueteria. O Padre Fr José de

Santa Martha, hum dos da comitiva, recitou aos moradores desta villa

huma exhortação pathetica, accommodada aos successos, que fez derramar

muitas lagrimas; e com estas disposições se encaminhárão para o Pombal,

onde forão dormir, e organizárão huma especie de Governo, incumbindo,

com aprazimento dos póvos, á direcção de todos os negocios civís ao

Vereador mais velho, e a dos militares a hum Capitão de milicias.

[Sidenote: 1808 Junho.]

As brigadas Francezas de Condeixa, e Pombal tinhão desamparado os

seus postos, e reunindo-se á de Leiria, esperárão nesta cidade pelo

resultado, tendo sempre promptos, e sellados os cavallos, de que nem

de dia, nem de noite se separavão, e huma vigia em lugar eminente da

parte de Coimbra. Apenas os nossos chegárão a este sitio, a vigia

correo a toda a pressa levar a noticia aos seus, e os Academicos

correrão tambem para a cidade, adiantando-se do grosso da paisanagem, e

desfilando pela estrada ao longo do pinhal.

Á entrada da cidade corre o rio Lis, e atravessando-a, a divide em dois

bairros, chamados, hum o dos Agostinhos, e outro o dos Anjos: sobre

elle está fundada huma ponte, e foi junto a ella ao de lá do rio, que

os Francezes se postárão em linha de batalha; como quem se propunha

a disputar a sua passagem; apenas porém sentírão o motim, e o som de

hum grande tambor, que os nossos trazião, voltárão costas, e tomárão

o caminho de Lisboa. Mettêrão-se primeiro pela estrada velha, que vai

pela Batalha, mas voltárão depois para a nova; ou fosse para evitarem

os precipicios da primeira, ou para melhor se poderem furtar á vista

dos que os perseguissem.

[Sidenote: 1808 Junho.]

Os Francezes erão 22, e os Academicos, além de serem em menor

número, nem todos pudérão continuar a marcha, porque vinhão muito mal

montados; mas assim mesmo os restantes se lançárão como leões a trás

dos Francezes, e depois de os terem seguido por espaço de huma legua,

voltárão a Leiria com 3 prisioneiros, e varios despojos, que lhes

tomárão. Deo-se huma relação circunstanciada desta expedição, assinada

pelo seu commandante Victorino de Barros Carvalhaes, que por ordem do

Governo de Coimbra se publicou na Minerva Lusitana: eu me separo della

em alguns pontos, para evitar algumas exaggerações, de que a considero

revestida; mas transcreverei a seguinte passagem, que offereço á

crítica dos que a lerem, para que ao menos não fiquem escurecidos os

nomes dos valorosos Academicos, que mais se distinguírão.

[Sidenote: 1808 Junho.]

[Sidenote: 1808 Junho.]

_Perto de Leiria mandámos dois camaradas nossos a descobrir campo.

Immediatamente forão cercados pela inimigo, e atacados, mas estes

dois bravos Portuguezes disparárão suas pistolas, e fizerão recuar

22 Francezes. Informados por elles, e temendo nos escapasse a preza,

deixámos as ordenanças de Pombal, e partimos a todo o galope para

Leiria. Estavão os Francezes postados em linha de batalha na ponte

desta cidade com animo de resistir. Nós os vemos, voamos a elles, e

tudo foge. Mettemos á estrada Real em seu seguimento, mas os cavallos

canção, e não podem avançar. Seis camaradas sómente pudérão seguir

vinte Francezes fugitivos; seus nomes devem passar á mais remota

idade.--José Joaquim de Sá, João Pedro Correa, Gonçalo Velêz Zuzarte,

Joaquim Monge, Manoel José Soares da Cunha Paixão, Caetano Rodrigues

de Macedo affugentárão com terror vinte soldados velhos, e aguerridos.

Seis moços sem experiencia fazem tremer vinte heróes de Marengo, e de

Iena! Quatro dragões Francezes de cavalleria forão aprisionados. Hum,

por irmos já quatro sómente, foi desarmado, e dando sua palavra de

honra de não arredar pé, a não cumprio, escapando-se. Não he de admirar

em taes soldados hum tal procedimento!_

_Dos quatro camaradas dois se demorárão com hum Francez, que

resistia, e dois partírão até os Carvalhos, perseguindo o resto. Estes

dois bravos homens devem ser immortaes na Historia. Seus nomes são

José Joaquim de Sá, e João Pedro Correa. O primeiro, arrebentando o

seu cavallo nas alturas da Batalha, correo animosamente a pé com a

espada em huma mão, e a pistola na outra em seguimento do inimigo; o

segundo encarou só com tres inimigos, dos quaes ferio perigosamente

hum gens-d’armes. Os resultados deste brilhante combate forão quatro

prisioneiros, cinco cavallos, tres doentes, que se achavão no hospital,

e quatro feridos, que ainda pudérão fugir. Da nossa parte não houve o

mais pequeno perigo._

[Sidenote: 1808 Junho.]

Entretanto a paisanagem se tinha espalhado pelas ruas da cidade,

misturando os seus vivas com os dos habitantes da mesma. Hum frade

Arrabido, que andava entre os Academicos, montado em hum macho, de

jaqueta branca, espada na mão, e pistolas nos coldres, apanhando hum

capote, que os Francezes tinhão largado, fez com elle hum grande

reboliço na praça, atirando-o aos ares, e dando-lhes mil tratos, até

que o deixou feito em retalhos; o que acabou de enthusiasmar o povo de

hum modo extraordinario, entregando-se todo o resto do dia aos mais

expressivos testemunhos do seu prazer, e ficando desde logo arvorado o

estandarte da camara com as armas Reaes.

[Sidenote: Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

No dia seguinte convocou-se a camara, nobreza, e povo: nesta assembléa

lêo o Juiz de fóra Antonio Duarte da Fonseca Lobo a proclamação

do Governador de Coimbra, e á imitação do que se havia praticado

nesta cidade, passou-se a tratar do Governo de Leiria. Offereceo-se

primeiro ao Bispo, que como bom patriota, e vassallo fiel, se prestou

a quanto podesse fazer a bem da causa pública, menos o mandar; e em

consequencia desta escusa deferio-se a Miguel Luiz da Silva e Ataíde,

que o acceitou, com a condição de que o primeiro passo que désse seria

ir a Coimbra, e mesmo ao Porto, se fosse necessario, pedir hum corpo

de tropa, armas, munições, e os mais soccorros, que tudo alli faltava.

Esteve-se pela condição, e com effeito Ataíde se poz immediatamente

a caminho para Coimbra, ficando entretanto encarregados o Coronel

de milicias, e o Capitão mór das ordenanças de apromptarem gente,

estabelecerem corpos de guardas avançadas, e vedetas nos pontos, por

onde o inimigo podesse avisinhar-se, para cujo fim se combinárão com os

póvos do Pombal, Redinha, e mais terras adjacentes, dando-se todas as

providencias, que permittia o estado da terra.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Chegárão por este tempo a Leiria emissarios de Nazareth, a pedirem

soccorro contra os Francezes, que guarnecião, e infestavão aquelles

sitios; e huma parte do destacamento dos Academicos se poz logo a

caminho, levando comsigo hum corpo de paizanos dos que se achavão mais

bem armados. Os Academicos quizerão apropriar-se de toda a honra desta

acção; mas he necessario dar a cada hum o que lhe pertence.

[Sidenote: Junho.]

[Sidenote: 1808 Junho.]

[Sidenote: Julho.]

No forte de Nazareth tinhão os Francezes huma guarnição de cincoenta

e tantos homens com a competente artilheria; dahi a meia legua

tinhão mais o forte de S. Gião, com duas peças de grosso calibre,

e vinte e tantos homens, e huma força igual no de S. Martinho;

correspondendo-se todos estes pontos por sinaes telegraficos, e tudo

ás ordens de Miron, Tenente de artilheria Portuguez, que residia em

Nazareth. O Juiz da Pederneira era obrigado a fornecer diariamente

aos Francezes certa quantidade de viveres, e além destes foi intimado

por ordem de Miron para apromptar rápidamente quinhentas rações de

reserva, pena de ser saqueada a terra. Principiou o Juiz, e como as

não podesse completar nas poucas horas, que lhe forão aprazadas, os

Francezes começárão effectivamente o saque no primeiro de julho, e o

continuárão a 2. Passando nesta occasião pela praia huma ordenança

Franceza com despachos do forte de S. Martinho para o de Nazareth, os

pescadores, justamente indignados contra o barbaro procedimento dos

invasores, cahírão sobre ella, e a faqueárão, gritando: _morrão os

Francezes_. Immediatamente foi quebrado o masto, em que se fazião os

sinaes de communicação, e a sentinella, que o guardava, teve huma sorte

igual á da ordenança; o povo correo de todas as partes em tumulto, e os

Francezes intimidados se recolhêrão ao forte.

[Sidenote: 1808 Junho.]

Acabava de chegar a noticia da restauração de Leiria, e de publicar-se

a proclamação do Governo de Coimbra, o que animou muito os póvos, e deo

grande extensão aos seus movimentos. O Juiz de fóra de Alcobaça fez

apromptar toda a polvora, que appareceo na villa, e andava por quatro

arrateis (que quantidade para fazer frente ao inimigo!) ajuntárão-se as

poucas espingardas, que havia, os chuços, as fouces, e os espetos, que

consistia o principal armamento dos paizanos. Ao primeiro movimento os

Francezes de S. Gião abandonárão o forte, deixando mal encravadas as

suas duas peças, e enterrados dois barris de polvora: os de S. Martinho

tambem fugírão, indo incorporar-se a Thomieres, que girava por entre

as Caldas, Obidos, e Peniche, ficando os do forte de Nazareth cercados

pelo povo, que destacou hum corpo de gente ao de S. Gião, para conduzir

as peças, e os dois barris de polvora, que felizmente forão descobertos

por huns rapazes, e algumas outras munições, que tambem se achárão.

Aqui temos já os nossos com a artilheria prompta, para baterem o forte;

mas faltava quem a soubesse dirigir.

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Dizia-se, que estava em Leiria hum numeroso exercito Hespanhol, e he o

que sustentava os nossos na sua temeraria empreza. Era temeraria, não

pelo destacamento Francez de Nazareth, sim pela visinhança das forças

de Thomieres nos pontos, que occupava. Este General se pôs com effeito

em movimento com alguns centenares dos seus soldados, e mandou hum

emissario ao Geral dos Padres Bernardos, intimando-lhe, que tratasse de

accommodar aquelles póvos, e que aliás marcharia com 600 homens reduzir

tudo a cinzas; mas não passou de Obidos, fazendo adiantar sómente huma

descoberta de doze, ou quatorze homens até o sitio da Barquinha, onde

forão repellidos por hum destacamento dos nossos, composto de varios

clerigos, e paizanos. Estavão dadas algumas providencias, como a

cortadura de pontes, e estradas, para obstar á marcha do corpo inimigo;

mas Thomieres desistio do seu projecto, por ser informado de que

descião de Leiria, o que elle suppunha serem tropas regulares, e não

erão senão paizanos mal armados, estudantes, frades, e clerigos: o povo

apenas soube do seu retrocesso, cuidou sómente em estreitar o cerco do

forte.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Os repiques de sinos, com que na noite immediata forão recebidos os

soccorros vindos de cima, o toque de hum tambor, e o fogo das duas

peças, que logo na manhã seguinte rompeo contra o forte, davão tambem

idéa aos sitiados de que havia chegado algum corpo de tropa regular;

e foi talvez esta a razão, porque o seu fogo quasi cessou de todo,

tendo sido contínuo no dia precedente, posto que sem mais desgraça,

que a de ter ferido hum moço, que se affoitára a disparar sobre elles

hum tiro de espingarda de cima de hum monte de area, que lhes ficava

sobranceiro, e alli tinhão ajuntado os ventos, e consolidado alguns

arbustos, que nelles nascêrão, e lançárão raizes. He sobre este

monte de arêa que os nossos formárão huma especie de parapeito, e

collocárão as peças, com as quaes se atirou todo o dia para o forte,

mas sem effeito algum; porque como as peças se enterravão na arêa,

desconcertava-se a pontaria, e as balas não acertavão nem no forte.

Na noite que se seguio desertou hum artilheiro Portuguez, dos que

se achavão no forte servindo ao inimigo, e veio incorporar-se aos

nossos. Este homem fez mudar tudo de face, dando huma melhor direcção

ao fogo. Huma bala acertou logo sobre a porta do forte, e lhe causou

alguma ruina: com as muralhas estremecêrão tambem os animos de seus

defensores, levantárão bandeira parlamentaria, e capitulárão, ficando

prisioneiros de guerra; mas custou muito a salvallos das mãos do

povo, e principalmente ao commandante Miron, que se lhe tinha feito

extremamente odioso.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Tomado o forte, voltárão os Academicos, e a paisanagem, que os tinha

acompanhado, com os seus prisioneiros, deixando sómente cousa de 100

armas, e huma pequena parte das munições, que se havião achado, aos

póvos de Nazareth, que por este modo ficárão novamente expostos aos

insultos do inimigo, quasi sem meios alguns de lhe resistirem.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Pouco espaço tinhão andado os nossos guerreiros, quando começárão a

ouvir noticias confusas do ataque do inimigo contra Leiria (era na

tarde do proprio dia desta acção desgraçada) e em Pataios as achárão

mais bem verificadas. Adiantárão-se dois dos nossos, para se informarem

exactamente deste successo, e trouxerão a certeza da catastrofe de

Leiria aos nossos, quando já se achavão a menos de duas leguas de

distancia desta cidade. Foi-lhes necessario mudarem de estrada,

embrenhando-se por pinhaes, matas e silvados, até que depois de huma

noite, e hum dia de marchas penosas, chegárão á Figueira com os seus

prisioneiros, com os quaes forão dar em Coimbra huma entrada romanesca.

De Coimbra forão os prisioneiros conduzidos para o Porto; e o mesmo se

praticava com os mais, que se ião fazendo; porque em Coimbra senão

julgavão seguros.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Os póvos de Nazareth, e Pederneira, na triste situação, em que tinhão

ficado, proseguião sempre a defensiva entre sustos contínuos, mas com

grande valor. No dia 6 de manhã quatro atiradores, vantajosamente

postados, fizerão retroceder no sitio da Barquinha cincoenta Francezes,

que vinhão atacallos. Recorrêrão aos Inglezes, que occupavão as

Berlengas, os quaes lhes mandárão alguns artilheiros, e peças de

pequeno calibre, que com as que se pudérão aproveitar do forte

fazião o número de dez, e forão collocadas no alto de Nazareth, para

protegerem as povoações adjacentes. Os artilheiros tornárão logo a

embarcar, ficárão as peças servidas pelos pescadores daquella costa,

e assim permanecêrão muitos dias. Deve-se á sua exacção nas guardas,

não só o terem aprisionado quatro espias, que remettêrão para bordo

de hum brigue Inglez, mas tambem o fazerem acreditar, que tinhão alli

desembarcado alguns centenares, ou milhares de Inglezes; idéa, que

ainda trazião os Francezes, quando depois vierão com maiores forças

destruir estas mesmas povoações, e que até então os tinha tido em

respeito. He a este imaginario desembarque que alludia a expressão

da gazeta de Lisboa de 14 de julho dos _cem meninos perdidos_,

que dizia terem desembarcado na praia da banda de Nazareth, e costas

visinhas de Alcobaça.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 5 / 42 题