D. Isaura soltou um grito.

--Jesus! disse ella.

--Que tem, minha senhora? perguntou Henrique sollicito e afflicto.

--Meu Deus! exclamou Isaura, é que me aterraram com as suas loucas

historias, é que me puzeram n'um estado incrivel de sobre-excitação

nervosa. Meia-noite! vê? Meia-noite é a hora dos phantasmas, é a hora

das apparições! E esta sala é tão lugubre, e este silencio é tão

agoireiro!

--Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente, v. ex.^a suppõe

por acaso que nós sejamos phantasmas, e que estejamos quasi a

dissipar-nos em fumo como quaesquer entes mal-creados do mundo

sobrenatural? V. ex.^a está no meio d'um batalhão de gente viva capaz de

affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe, tres conventos de Lewis,

reforçados ainda pelos mil e um phantasmas de Alexandre Dumas.

--Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é que a meia-noite soou de um modo

tão lugubre... E nós a esta hora ainda a pé...

--V. ex.^a deita-se mais cedo em Lisboa? perguntou o doutor.

--Não, mas...

--Mas é que a meia-noite só aterra os que lhe dão ímportancia. É uma

hora covarde e manhosa, que, se vê a alegria do baile, as salas

illuminadas, as danças caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente

como outra hora qualquer, até com mais risos e mais alegrias, accendendo

mais o fogo das walsas, cumprimentando para todos os lados amavelmente.

Se vê o estudioso debruçado sobre os livros, indifferente e sereno,

entra timidamente, nos bicos dos pés, e abafa até as suas proprias

vibrações; se encontra n'um serão de familia a conversação alegre, o

bule de chá em cima da mesa, as cartas do _boston_ para um lado, um

livro para outro, bate á porta discretamente, e annuncia que é tempo de

se recolher cada qual para o seu leito. Ora agora, se encontra gente que

espera com susto, que está prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira

badalada que a annuncia, então eil-a que toma uns ares pavorosos,

engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha em torno de si o terror e o

assombro. Fóra com semelhante fanfarrão! É necessario darmos-lhe uma

lição mestra! Peço a palavra para um requerimento.

--Hein? disse lá da mesa do jogo o visconde da Fragosa, que aspirava á

deputação.

--Está concedida, visconde? disse o doutor, rindo.

--Mas que diz você? tornou o visconde muito espantado dos risos com que

os interlocutores do Macedo acolhiam a sua idéa.

--Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os effeitos seja abolida a

meia-noite.

--Approvado por unanimidade e mais um que é o visconde, tornou, rindo,

Lucio Valença. Agora queira o sr. deputado apresentar uma proposta

indicando o modo pratico de se levar a effeito essa medida importante.

--Proponho, tornou o doutor com gravidade comica, que de ámanhã em

diante affrontemos a meia-noite rosto a rosto, e lhe torçamos o pescoço.

--Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram Lucio e Leonor.

--O meio é o seguinte: O mau tempo ameaça prolongar-se, e nós ou não

podemos caçar, ou não podemos prolongar a caça por todo o dia, sob pena

de estoirarmos ahi de frio por essa serra. Portanto á noite estamos

frescos e descançados, e podemos protrahir o serão. Proponho que

organisemos um _Decameron_ para zombarmos da meia-noite, como os

narradores de Bocaccio zombaram da peste de Florença. Cada um de nós,

que se sentir para isso com forças, se compromette a compôr uma historia

phantastica, uma lenda, um conto maravilhoso que será lido aqui ao bater

da meia-noite. D'essa fórma affrontamos face a face a terrivel inimiga

do repouso da sr.^a D. Isaura, e, se ella ainda ousar fazer uso dos seus

sortilegios, comnosco se ha de haver!

--Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura, que soltou um grito,

exclamando:

--Isso é horrivel!

--Não, minha senhora, é uma receita, é um remedio heroico, é um banho

russo. Vou-lhe combater os seus nervos.

--Mate-me, doutor!

--Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite! Verá como depressa a

moda acceita a minha idéa. D'aqui a pouco tempo não se falla em Lisboa

n'outra coisa, e a _lenda da meia-noite_ será o anti-espasmodico mais

empregado.

A idéa de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco tempo se não

fallaria n'outra coisa foi o que decidiu D. Isaura. Ao mesmo tempo

terminára a partida do voltarete, e um dos jogadores, homem já de

cabellos grisalhos, vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do

romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou alegremente:

--Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo para uma montaria aos

lobos, vamos a vêr se tambem presto para uma montaria á meia-noite.

--É acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares. Eu já o conheço como

robusto campeão, e assento-lhe praça com enthusiasmo. Agora cabe-me

designar o serviço. Henrique Osorio, você é quem rompe o fogo.

Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente olhar á pallida

Isaura.

--Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o relogio. Saudemos,

meus senhores, a ultima meia-noite que passa, e vamo-nos deitar. Todos

se riram, e um borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores da

habitação. Ainda por algum tempo se sentiu o rumor de portas que se

abriam e fechavam, de passos que se perdiam ao longe, de vozes que se

despediam. Depois caiu tudo em silencio, e só se pôde ouvir o vento que

continuou toda a noite a gemer lugubremente as suas monotonas queixas.

* * * * *

A previsão do doutor realisou-se. O tempo continuou mau, e aggravou-se

ainda com a chuva que principiava a cair em torrentes. A noite seguinte

passou-se alegremente. Quando, porém, um relogio de parede, que fôra

posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda mais pallida do

que era, e houve no auditorio uns taes ou quaes signaes de commoção.

--A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente. Firmeza,

companheiros! Do alto d'aquelle relogio trinta minutos vos contemplam.

Houve de novo _entrain_, risos e enthusiasmo. N'isto o sino de S.

Martinho deu a primeira badalada da meia-noite. Soava ainda mais

lugubremente do que na vespera. Solta no meio dos loucos rumores do

vendaval, a vibração do bronze parecia uma nota perdida de agonia e de

desespero.

--Henrique! disse o doutor. Vamos! Estás um pouco pallido? É a commoção

do auctor e não a da meia-noite, juro-o aos deuses immortaes. Vá!

inflexão lugubre, voz cavernosa, gesto sombrio!

Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da attenção geral, leu o

seguinte:

* * * * *

A Lenda da Meia-Noite · 第 7 / 56 题