N'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa, n'essa montanha vestida
de verdura, onde se recosta Alpedrinha, e que domina o verdejante valle
do Fundão, ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa
varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas fazer os seus
ninhos, se descortina a extensa paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e
outras villas e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o verde
do arvoredo, e que tem como panno de fundo a imponente massa da serra da
Estrella, coroada com as suas neves eternas.
A casa não tem formosuras architectonicas, nem aspecto de palacio; é
apenas um edificio vasto, cercado de dependencias rusticas, tendo
defronte do portão as cavallariças, casas de habitação dos criados,
etc., que, desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro que dá ao
edificio campestre uma especie de pateo de entrada. A parte mais
caracteristica da residencia é a extensa varanda de madeira, tão usada
na provincia, onde nas tardes de estio se respira a viração da serra,
onde nas manhãs de inverno se toma alegremente a restea do sol.
Fica isolada a habitação que a largos traços descrevemos. Pegada com a
fachada principal está o muro, onde se abre o portão da quinta. Esta é
assombreada pelo magnifico arvoredo, que viça, com incrivel vigor,
n'esse torrão privilegiado conhecido na provincia pelo nome de cova da
Beira. Para um lado a pouca distancia fica Alpedrinha, a pittoresca
villa com as suas casas penduradas entre verduras da encosta da
montanha, para outro lado a estrada desce até ao Fundão. Por toda a
parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo das serras, os rumores
mysteriosos das solidões. É encantadora a situação d'aquelle formoso
eremiterio.
No outono e no inverno a paisagem toma uns tons mais carregados e
lugubres. A montanha assume um certo ar de grandeza. Nos soutos espessos
dos castanheiros passa o furacão silvando com furia; a trovoada vae-se
repercutindo de echo em echo pelas concavidades dos valles, e os
relampagos illuminam, com a sua luz sinistra, o arvoredo que se estorce
nos braços doidos do vendaval. Nos amplos salões d'esses edificios
isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos, e o vento,
fazendo ranger os pilares da varanda, entôa a musica triste das lendas
populares.
É exactamente no outono que nós conduzimos o leitor á casa da Fragosa,
como por lá se chama ao sitio em que ella fica. Os viscondes da Fragosa,
que alli moram, tinham convidado alguns amigos seus para irem caçar nas
suas terras, de fórma que estavam reunidas bastantes pessoas no grande
salão da residencia, junto da brazeira, no momento em que convidamos o
leitor para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do lume.
É já noite; a tarde estivera sobre-maneira ventosa e fria, de fórma que
os convidados, reunidos na varanda, para assistirem a um d'esses
esplendidos occasos do sol, que são tão frequentes no outono, tiveram
que retirar e fechar-se em casa, deixando o vento gemer lá fóra,
estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira, e,
esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma palestra tão animada,
como se se estivesse n'uma sala de Lisboa, a dois passos do Theatro
Italiano, e sentindo-se, a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade.
O salão era vasto e simples, mobilado á antiga. Nas paredes alguns
velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras, de pés torneados, forradas de
coiro lavrado, dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau santo,
ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse canto, onde se agrupavam
a familia e os convidados, havia uma profusa illuminação. O resto da
sala ficava perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse fundo
escuro os criados que vinham fazer algum serviço. O toque da campainha
não parecia que os chamava, parecia que os evocava. Saíam de subito da
penumbra, como se surgissem do chão. O aspecto da casa era, portanto, o
mais legendario que podia imaginar-se.
A conversação prolongára-se ainda depois do chá! Um medico, que residia
em Alpedrinha, para onde viera, não exercer a clinica, mas tratar da sua
propria saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homem de
espirito fino e amavel, fôra quem sustentára principalmente a palestra,
ajudado por um sr. Lucio Valença, escriptor de certa aura, e caçador
intrepido, e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica,
alegre e desembaraçada, que, apesar de ter vivido sempre em
Castello-Branco, e de ter ido apenas uma ou duas vezes a Lisboa, não
tinha nenhum dos acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance.
A pouco e pouco, porém, esmorecera a conversação: pausas cada vez mais
amiudadas cortavam a palestra, e o medico já tirára o relogio para vêr
se não íam sendo horas de retirada. Mas o visconde da Fragosa estava
agarrado, com o commendador Madureira, e alguns visinhos de campo, a um
impertinente _boston_, e em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a
tocar a recolher.
N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do vento na serra, e
os seus gemidos e silvos nos corredores da casa.
--Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito uma joven senhora, de
notavel formosura, extraordinariamente pallida, mas com umas opulentas
tranças negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados, que lhe
illuminavam com estranho fulgor o rosto de alabastro. O vento geme com
uns sons tão lugubres, que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas. É
uma noite de lenda allemã!
--Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva, a trovoada, a neve e
muitos outros accessorios germanicos. O vento só não basta.
--V. ex.^a gosta de lendas, sr.^a D. Isaura? perguntou inclinando-se
para ella um elegante moço do Fundão, em quem pareciam ter produzido uma
impressão profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha do
commendador Madureira.
--Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina. Ah! de certo,
adoro-as, mas gosto de as lêr em Lisboa, no meu gabinete e á luz do sol.
--Sem _mise-en-scene_ não prestam, observou com toda a gravidade o
doutor Macedo.
--A que chama _mise-en-scene_, doutor? perguntou Isaura.
--O Lucio que lh'o explique, minha senhora; não quero invadir os seus
dominios.
--Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, não é difficil de adivinhar. O
doutor entende que as lendas devem ser lidas e apreciadas á noite, no
meio do silencio geral, quando se está sósinho, n'um velho castello de
Anna Radcliffe, cheio de alçapões e de subterraneos, quando o vento geme
lugubremente nos corredores, e faz oscillar a luz da vela que illumina a
nossa solitaria vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se
rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo, em vez de estar
n'um castiçal, e que haja um cemiterio por baixo da janella.
--Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a mesma imperturbavel
gravidade, quero dizer... não julgo indispensaveis esses accessorios,
mas não posso negar que augmentavam de um modo notabilissimo o effeito
phantastico da narrativa legendaria.
--Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me morrer de susto com
essas historias pavorosas. Hoje com toda a certeza não durmo. Que idéa!
É necessario que não tenham a minima dóse de sensibilidade para assim
estarem zombeteando a respeito de coisas, que me produziriam uma
impressão tamanha, que os meus nervos de certo não resistiriam. Estou já
toda tremula!
--Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo, as lendas são como os
ananazes. Ha os nascidos ao ar livre, na sua terra propria, e ha-os
desabrochados artificialmente com o calor da estufa. N'um velho solar
provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores, n'uma noite de
inverno sulcada de relampagos, nasce a lenda tão naturalmente como o
ananaz no Brazil. N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de
macios sophás, entre os rumores meridianos da rua, a luz clara e alegre
do sol, a lenda não póde ter mais sabor do que um ananaz de estufa.
--Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo isso perfeitamente, e bem
sei que o phantastico só póde produzir toda a impressão de que é
susceptivel no scenario que o doutor descreve: mas é que levado a esse
ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto effeito.
Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou ella, eu adoro o ideal, mas o
ideal póde tambem partir as cordas da minha alma.
--Tomo o partido de Isaura, disse não sem alguma ironia a filha dos
viscondes de Fragosa, linda menina de cabellos castanhos claros e olhos
azues, de um azul tão vivo que produziam ás vezes a sensação de olhos
negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da aza negra do corvo;
tomo o partido de Isaura. Os senhores estão fallando ahi como creaturas
vulgares incapazes de sentirem profundamente as grandes commoções. Para
as almas privilegiadas os grandes prazeres da imaginação muitas vezes
são tambem o martyrio. São as Ophelias, as Marias de Noronha, as
creaturas ideaes cujos corpos são apenas, como o da irmã do bispo Myriel
nos _Misérables_, de Victor Hugo, pretextos para conservarem no mundo
almas de anjos.
--E cuidas que não ha na terra esses entes, cujas expressões mais
sublimes foram encontradas por tres grandes poetas que acabas de citar,
Garrett, Shakespeare e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta de
Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu idolo não comprehendêra.
--Não cuido tal, Henrique. A prova de que os ha é que Isaura é um
d'esses entes.
--Por quem és, Leonor... acudiu Isaura com uns certos ares de modestia,
que ainda mais desesperaram o seu apaixonado.
--É assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que se partiriam as cordas
da tua alma, se quizesses lêr á noite n'um quarto de uma velha casa
provinciana uma historia de phantasmas. Morrias se te achasses sósinha á
noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque tens a imaginação
exaltada, a sensibilidade nervosa das Ophelias e das Marias de Noronha!
--E não admirava, acudiu Henrique Osorio que assim se chamava o moço do
Fundão, não admirava, sr.^a D. Isaura, que v. ex.^a tivesse medo de
estar sósinha n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter a
imaginação calma, o prosaico bom senso, a fria intrepidez de Leonor. A
marqueza da Lusacia, de que falla Victor Hugo n'um dos seus poemas,
preferia perder a soberania do seu marquezado a ir passar a noite
sósinha, como o ordenava o costume tradicional, no castello de seus
avós...
--Logo encontrou quem a acompanhasse, interrompeu Leonor ironicamente.
--E não seria só ella.
--Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou qual amargura, se
quizeres passar alguma noite n'um castello legendario, como a marqueza
da Lusacia, já tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite, e
que te cante:
Si tu veux, faisons un rêve,
Montons sur deux palefrois,
Tu m'emmènes, je t'enlève.
L'oiseau chante dans les bois.
Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que em torno d'ella se
travava; Henrique Osorio calou-se. Leonor, um pouco arrependida de ter
mostrado um tal ou qual azedume, voltou-se para sua mãe que resonava
recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas palavras em
voz baixa, convidando-a a que lembrasse a seu pae que eram horas de pôr
um termo ao _boston_. O doutor levára a mão aos labios para cumprimir um
bocejo, e Lucio Valença, sorrindo-se, contemplava a esplendida formosura
de Isaura, e êsses olhos que Deus fizera tão formosos, e que não
reflectiam comtudo senão as preoccupações pueris da mulher da moda, e da
lisbonense frivola.
No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com mais força, para
depois gemer com mais tristeza, parecendo que se estabelecia um dialogo
entre os espiritos atmosphericos, e que aos rugidos ameaçadores de um
demonio respondiam as queixas plangentes de um ente fraco e debil.
De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma badalada no sino de S.
Martinho de Alpedrinha.
O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas azas as lugubres
vibrações do bronze.
Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres... doze badaladas.
--Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando o silencio em que
todos estavam, porque todos tinham estado contando as horas.
Mas a voz do doutor tambem tomára involuntariamente como que uma
sinistra entoação.