Nada sociavel, era conhecido pelo «misanthropo.»

Era-lhe indifferente o juizo que formavam do seu caracter, com tanto que

o deixassem entregue aos estudos scientificos e á pintura. Destes

trabalhos, um só divertimento o distrahia: era a natação, e n'este

exercicio ninguem o igualava: conservava-se tanto tempo debaixo d'agua

que parecia ter uma organisação priviligiada.

Só tu me comprehendes, dizia elle, e só comtigo me abro.

Quer, admirando os esplendores dos ceus, ou mergulhando a vista nas

aguas do Oceano, dizia com desprezo--«misera humanidade, que nunca

saberás o que são, e para que são, aquellas centenas de milhões de

astros que rolam séculos sem fim no espaço, obedecendo a leis

immutaveis. Frageis creaturas que somos! Nem ao menos, no nosso proprio

planeta, sabemos o que existe no seio da terra, nem o que occultam os

oceanos com oito e dez mil metros apenas de profundidade!

A sciencia diz-nos que o astro da noite é um planeta sem vida, destinado

a illuminar-nos de noite e a regular, por uma forma mysteriosa e por

isso contestada, varios phenomenos da vida animal e vegetal e o curso

das aguas dos oceanos. Diz-nos que os mais astros do nosso systema

plenetario são fragmentos apenas d'aquella massa colossal em fusão, o

sol, e que, por infinitamente mais pequenos, esfriaram no decurso de

séculos, em quanto que o astro rei, tarde ou nunca esfriará, porque é a

luz e a vida d'esses pedaços que elle cuspiu para o espaço e que, pela

força centrifuga e centripeta, giram perpetuamente em orbitas

inalteraveis.

Tão admiravel, como incomprehensivel; e mais incomprehensivel ainda,

essa infinidade d'estrellas, bastas como as areias das praias, que são

outros tantos soes, illuminando os seus mundos, invisiveis para nós;

soes de todas as côres e, talvez, de natureza differente.

Que espectaculo não deve ser o do Universo aos olhos do creador!

Depois, voltando-se para o Oceano, dizia: Carlos! Eu quando profundo

mais do que ninguem estas aguas, vejo o sufficiente para julgar da

riqueza da flora e da fauna dos mares que augmenta á proporção que

descemos aos seus recessos aonde nunca chegaremos.

Apenas a sonda nos traz um ou outro spécimen das opulencias submarinas.

Wyville Thompson, no Challenger, em 1873, investiga os mares do

Atlantico e do Pacifico e descobre nas grandes profundidades peixes

privados do orgão visual. D'aqui deduziu a sciencia que essa faculdade

se fazia desnecessaria aonde havia perpetua escuridão, por isso que os

raios solares penetravam a pequena distancia da superficie.

Seguem-se a expedição ingleza do Valerous em 1875, e a Scandinava do

Vortigen em 1876; e em 1877 e 78, a Americana do Blake.

Em 1880 e 82, o navio francez, Le Travailleur, profunda o golpho da

Biscaia, o Mediterraneo e o Atlantico; e em 1883, Le Talisman, munido de

apparelhos mais aperfeiçoados e sob a direcção de Alphonse de Wilne

Edwards, sonda os mares do Atlantico.

É n'estas derradeiras explorações que a sciencia, até então na persuasão

que a vida organica, devido á pressão e falta de claridade, não podia

existir a mais de 560 metros da superficie, revela-nos que, na

profundidade de 4500 metros, a pressão nada influe sobre a vida animal,

e que, pelo contrario, os seres que habitam o fundo dos mares, trazidos

pelas rêdes automaticas á superficie, chegados que são a certa altura, é

a propria falta de pressão que lhes dilata os olhos, lhes escancara

extraordinariamente a bocca, fazendo expellir as entranhas, ou os esmaga

e desfaz, á semelhança do que succede ao areonauta quando sobe a regiões

aonde a atmosphera rareia e por falta de compressão, golfa-lhe o sangue

pelos olhos, nariz, ouvidos e bocca.[1]

Conheceu-se então que a claridade do sol, nulla n'aquellas

profundidades, é substituida pela phosphorescencia animal.

As estrellas do mar, da especie _Ophiacanthia Spinosa_, transmittem uma

luz brilhante esverdeada.

Outros muitos viventes, em perpetuo movimento, levam a toda a parte uma

luz phosphorecente natural. Os olhos de certos peixes são dotados

d'ella, e serve-lhes de pharol nas suas perigrinações, illuminando as

aguas, menos abundantes de vida, e attraindo seres de que se alimentam,

do mesmo modo que o nosso pescador se vale da luz do candeio.

Ainda mais; longe, como se supponha, de que a vida organica, por falta

de luz, deveria ser destituida de côr, conheceu-se que as côres são,

pelo contrario, vivissimas e espantosa a sua variedade n'aquelles

grandes abysmos.

A sciencia está longe de nos dizer a ultima palavra; mas o que nos

ensina é já bastante para imaginar o que deverá ser a vida n'aquelles

recessos das aguas.

O homem descobriu o meio de se elevar á região das aguias; mas jamais

romperá a crusta do globo a devassar os segredos das suas entranhas,

não! que Deus não o fez dos metaes preciosos ahi amontoados, mas sim do

barro da superficie, ao qual, por affinidade de condições, está

eternamente agrilhoado. Assim discorria Luiz de.... a quem vamos escutar

a historia mais singular, mais extraordinaria até hoje conhecida.

--Eis-nos chegados, me disse elle, abrindo uma grade de ferro que

separava a casa de um jardim esmeradamente cultivado e rescendente de

perfumes das flôres que até a propria frente do edificio cobriam.

--Parece-me um ninho de fadas, Luiz! Vaes-me apresentar, sem duvida, á

divindade d'este sanctuario d'amor!

--Nada d'isso; Carlos! retorquio elle com um sorriso repassado de

amargura. Nas minhas horas vagas procuro distrair-me com as singellas

producções da terra, já que as de um mundo que não é do homem, só vivem

nas minhas recordações.

--Sempre com o pensamento no ignóto; no impossivel; Luiz! Nem os annos

poderam mudar a tua original natureza!

--Do ignóto! dizes tu! e um novo sorriso, mas d'esta vez ironico,

assomou-lhe aos labios.

Abriu-me então uma sala adornada de quadros soberbos, mas da mais

requintada phantasia.

--És o primeiro, e serás o ultimo a penetrar n'este recinto, Carlos!

Era um elegante _atelier_ de pintor.

Luiz fôra sempre distincto na pintura para a qual tinha um talento

natural; porem a mais caprichosa imaginação reinava em tudo quando eu

estava vendo.

A téla reproduzia o trabalho; a fadiga, deixe-me assim dizer, de um

cérebro febril e exaltado.

--Estes quadros são provavelmente, a reproducção fixa d'esses teus

sonhos d'outróra?

--Não senhor! É da realidade!

Voltei-me para elle, e o meu olhar obrigou-o a dizer-me:

--«Sem duvida, julgas-te na presença de um mentecapto!»

--Em quanto te tinha como phantasista, ou para melhor dizer,--o

nephelibata da pintura--não passavas de originalismo, mas quando me

queres impôr que tudo isto é verdadeiro, francamente, não me parece que

estejas no teu juizo perfeito.

--D'essa maneira, de que me serve contar-te a historia representada

n'estes quadros?

Ter-me-has na conta de um improvizador, e não sei mesmo, se de intrujão.

--Tudo, menos isso, Luiz!

Conheço demais a seriedade do teu caracter: mas não haverá no teu

espirito uma illusão, filha dos teus insaciaveis desejos de penetrar

os mysterios vedados á nossa investigação?

--Não, Carlos! Estes quadros são as memorias vivas do que me foi dado ver!

--O que homem! O centro da terra, e o fundo dos mares?

Agora começo a duvidar da tua sanidade intellectual! Como queres tu que

eu tenha por realidade, este quadro, por exemplo, em que vejo a tua

figura, pois evidentemente o é, com o trajo de banho que usavas, olhando

com pasmo um espaço enorme illuminado, segundo julgo, a luz electrica;

arcarias cristallinas a perder de vista, um lago sem fim que parece de

prata liquida, um arvoredo exótico, esplendido, e junto de ti,

encarando-te como em extasis, uma rapariga gentilissima, linda como pode

ser um anjo!

Que matizado tapete é este que se desenrola em toda a extensão do

quadro? Nunca a Persia produziu uma maravilha igual. E esta claridade,

suave como a da lua, que penetra, sem produzir sombras, todos os pontos

mais reconditos d'este phantastico recinto!

Pois tudo isto é real!

--É! respondeu-me elle; imperativamente.

Havia um tom d'authoridade n'aquella affirmativa que me fez emmudecer.

--Senta-te; me disse elle, e escuta-me. Por mais extraordinarios que te

pareção os acontecimentos que vou narrar, peço-te que me tenhas na

conta de verdadeiro. O mundo dava-me por doudo varrido, bem sei; e é por

isso que este segredo morreria comigo se o acaso nos não aproximasse

mais uma vez na vida.

--Descança, Luiz, lhe respondi: serei mudo como o tumulo.

--Não me opponho a que divulgues a minha singularissima aventura, pois

poderá servir de proveito, com tanto que supprimas a minha individualidade.

Sabes, continuou elle, quanto eu lamentava não poder arrancar ao seio

das aguas e ao centro da terra os seus mysterios! Pois bem! Um dia,

precisamente a vespera d'aquelle em que desappareci, tinha-me lançado ás

aguas, mergulhando a grande profundidade, como era meu costume, para

admirar as plantas da costa submarina e a variedade de peixes que o

pescador não apresenta no mercado.

De subito; pareceu-me distinguir um rosto humano e uns olhos que me

espreitavam com curiosidade e interesse.

Veio-me á idea a lenda das sphinges, meio corpo de mulher e meio de

peixe, ideia tão repellente, quanto attractiva era a espressão d'aquelle

rosto.

Era-me, porém, precizo ganhar a superficie para renovar os pulmões de

ar.

Quando desci pela segunda vez, o mysterioso ser tinha desapparecido.

Não sei que influencia exercêra sobre mim tão singular apparição.

Queria profundar aquelle mysterio e temia-o ao mesmo tempo.

Não se me tirava da imaginação: sentia-me fatalmente arrastado para a

borda do mar, mas, por cautella, armei-me de punhal que cozi pela

bainha, ao fato de banho.

Nada me assegurava que fosse um ser inofensivo, e devia ir preparado

para o peior.

Quando cheguei á maxima profundidade, la estava o ente mysterioso; não,

como na vespera, em distancia, mas proximo.

Corpo mais gentil, rosto mais seductor, não podia existir.

A Sphinge desappareceu immediatamente da minha imaginação. Fiquei como

enfeitiçado!

O mysterioso, como deves lembrar, tinha sobre mim um poder magico. Não

senti, senão já tarde, a necessidade de respirar: um desfallecimento

apoderou-se de mim, era a asphyxia: perdi os sentidos, mas não sem

perceber que estava sendo impetuosamente impellido para o fundo.

Quando os recuperei, achei-me acolá, aonde me vês, extendido sobre uma

alfombra de fino musgo matizada pela Alternánthera e outras flôres

lindissimas de variadas côres, e, curvada sobre mim, estava a mais

encantadora e sympathica creatura imaginavel.

Puz-me de pé:--Olhei maravilhado para ella e para tudo que me rodeava.

Uma abobeda descommunal, cristalina, reflectindo a luz suave que vês

n'aquelte quadro e illuminando soberbas arcarias perdidas na distancia,

brancas como jaspe; e, sem se conhecer os limites, um lago que parecia

de azougue, reproduzindo na sua superficie refulgente de aguas

adormecidas, as sumptuosas naves e a vegetação esplendida d'esta

archicathedral.

Miragem admiravel!

Passado o primeiro momento de espanto voltei-me para a minha companheira

a pedir-lhe me dicesse, se não era ella a Eva legendaria, perpetuada

atravez dos séculos, tal como Deus a pozera no paraiso, e se o que

estava vendo não fazia parte do proprio Eden.

Não só conservou-se calada, mas demonstrou surpreza quando fallei.

Repeti a minha pergunta em outras linguas, e sempre a mesma mudez.

Rodeava-a um bando de cabras. Tomando de cima do enflorado tapete uma

concha, que primeiramente passou pelas aguas limpidas de um arroio que

corria perto de nós, mugiu uma cabrinha alva de neve e offereceu-me

aquella rustica taça, acenando-me para beber do precioso leite.

Seria ella muda?

Embora o fosse, a minha admiração da sua belleza attractiva redobrava de

momento para momento.

Tomei, reconhecido, as suas mãos nas minhas e ella abraçou-me sem

constrangimento. Uni-a a mim e beijei-a.

A expressão de amor com que ella me olhava era mais eloquente do que

quanto podesse exprimir a palavra.

Sobre nós espraiavam-se as largas e magestosas folhas da Muza, cujos

esplendidos cachos de côr dourada beijavam o chão.

A Passiflora, com seus fructos roxos, e outras trepadeiras lindissimas

em flôr, enlaçavam-se aos troncos.

Palmeiras elegantissimas, com seus differentes fructos, erguiam-se

magestosas. A Vanilla, com suas perfumadas e deliciosas bages, arvores

de fructo de que não tinha conhecimento, a Vanda, a Begonia, e outras

plantas ornamentaes que n'aquelle ambiente tépido e inalteravelmente

tranquillo, floresciam como nas nossas estufas na maxima perfeição.

Afastando-se então, por momentos, ella preparou uma refeição composta de

leite, fructos varios, entrando n'este numero os da Muza, das Palmeiras,

e outro que tomei pela fruta pão de que ouvira já fallar, e o côco. A

fruta pão cortava ella com a lamina afiada de uma concha alongada, prova

evidente de que não possuia instrumento algum proprio para estes usos.

Indicando então o côco, perguntei-lhe, por meio de gestos, como lograria

ella fender e separar o tegumento filamentoso e resistente d'aquelle

encouraçado fructo.

Estendendo então a mão, ella tirou d'entre o massiço esponjoso da relva

um machado.

Examinei-o: era de Silex!

Fez-se-me, instantaneamente, luz.

Estava no interior do globo, e tinha diante de mim uma descendente do

homem primitivo, d'essa raça da idade da pedra; d'esse genesis da

humanidade em que a vontade e o pensamento ainda se não traduziam pela

palavra.

E que importava; se eu tinha a existencia ligada áquella creatura divina!

N'aquelle modelo, ainda cinzelado pela mão de Deus, eu via a typica

puresa das obras do Creador, até mesmo na ingenuidade da alma.

O angulo frontal, levemente accentuado, reforçava, com a engraçada

saliencia das sobrancelhas, o brilho e expressão dos olhos.

Eu lia n'elles o seu pensamento, como, atravez das aguas cristalinas

d'um ribeiro, se distingue os seixos e os lichens do fundo.

A cutiz assetinada e côr de perola tornava-a adoravel.

Cahi-lhe aos pés, como ante uma divinidade. Parecia-me vir das proprias

mãos de Deus, pura como um anjo.

Chegou-me a fronte junta ao seio: olhou-me com inexprimivel amor, e um

beijo d'aquelles castos labios foi o sello de uma paixão intensa,

inextinguivel, Carlos, no meu coração dilacerado por uma dôr infinita.»

N'este ponto o meu pobre amigo levou as mãos á face como para desvenecer

uma visão. Eu já não punha em duvida a veracidade da narração.

Releva-me, continuou elle, esta fraqueza, Carlos; mais adeante saberás a

sua causa.

Apertei-lhe silenciosamente a mão: comprehendêra que elle a tinha

perdido, e que o tempo não apagára aquella immensa saudade.

--«Depois d'admirar a grandiosa magnificencia de tudo quanto me rodeava,

ella encaminhou-me para outro ponto.

No nosso caminho ficava uma arvore singular: os ramos despidos de

folhagem e o tronco offereciam as disposições artisticas de um

candelabro. Querendo examinal-a de perto fui-me approximando, quando, de

repente, sinto-me bruscamente desviado por ella: o seu gesto fez-me

conceber a idea de um perigo qualquer.

Então, fez-me comprehender que o contacto d'aquella arvore era fatal.

Seria dotada de electricidade? Teria a força da pilha galvanica?

O brilho metallico do tronco e ramos nús fazia-o suppôr.

Chegamos a um campo de verdura aonde pastava o rebanho de cabras.

Approximaram-se de nós os animaes e affagaram-nos, mansos como cordeiros.

A vida animal no seio da terra!

Ella! unico exemplar da raça humana! Estes animaes, procreando-se n'este

extraordinario meio!

Como explicar este phenomeno?

Occorreu-me então o que tinha succedido a Pompea e Herculanum,

submergidas pelas lavas, deixando os edificios intactos; e os lagos

subterraneos, grandes como mares, que se encontram no continente Americano.

E quem sabe; dizia eu se, nos tempos primitivos, em que as convulsões do

globo, necessariamente mais activas e violentas do que presentemente,

devido ao gradual resfriamento do globo; um cataclysmo, invertendo uma

parte da crusta ainda plastica e mais delgada, apanhou, no reviramento,

uma d'aquellas grutas, unicas habitações então do homem, excluindo assim

uma familia da face da terra, dando-lhe porem accesso ao interior?

Era natural que esses seres tivessem armazenado fructos para seu

sustento e resguardado, junto de si, seus animaes domesticos da

perseguição e voracidade d'outras especies bravias, explicando assim a

existencia das cabras e da vegetação que ahi se encontrava.

Ou, teria essa familia tido accesso para esse maravilhoso espaço formado

pela dilatação dos gazes por occazião das erupções volcanicas, como

frequentemente succede e de que os lagos subterraneos e algares são

exemplo, até que, por uma convulsão, ficou-lhe vedada a sahida, e esses

seres condemnados a viver no interior do globo? Por qualquer d'estas

formas se podia explicar a presença da vida animal e vegetal n'este meio.

Mas, o que se não explica, pensava eu, é o estado de completo isolamento

em que vive esta joven de uns deseseis annos.

Quem eram seus progenitores, e o que era feito d'elles?

Como, porém, fazer-lhe comprehender o meu pensamento?

Tive uma idea feliz.

Servi-me das cabras para esse fim. Peguei n'um cabrito, indiquei-lhe o

macho e a fêmea que eram os pais; comparei-a ao filho, e assim formulei

em mimica a minha pergunta.

A intelligente rapariga levou-me então a um ponto aonde se tinha dado um

desabamento medonho: blocos enormes de pedra amontoavam-se em

desordenada confusão, percebendo-se porém ainda, vestigios de ter

havido n'aquelle sitio passagem para fóra da grande gruta.

Ella, adoptando a minha phraseologia figurada, explicou-me, apontando

para as duas cabras que me tinham servido de typo, que, quando ella era

ainda pequena, os seus tinham sahido por aquella abertura: que pouco

depois houve um grande tremor de terra, dando-se então aquelle

desmoronamento, e que nunca mais voltaram.

O que determinaria o seu afastamento d'aquelle Eden aonde nada lhes

faltava?

Haveria, do outro lado das ruinas, mais recintos habitaveis e habitados;

ou teriam elles, em exploração de subterraneos escusos e medonhos,

succumbido á fome, ficando nas profundidades da terra um unico individuo

d'essa especie? Ella!

Um dia; mas que digo eu se aqui não havia divisão de tempo, senão a que

poderia dar o isochronismo?

Uma vez, melhor direi, convidou-me a um passeio no lago e conduziu-me a

uma enseada aonde fluctuava uma enorme concha de tartaruga em que

cabiamos á vontade.

Empunhando então uma pá, ramo d'uma planta qualquer, e dando-me outra,

pozemo-nos a caminho, passando por baixo d'arcarias de formas

caprichosas. Pude então examinar de perto a extructura d'esta vasta

crypta de granito em que sobresahia a mica branca argentina de

extraordinario brilho, rajada de veios magnificos de mica preta, de

feldspatho e quartz, com malhas de porphyro e semeado de palhetas de

ouro e prata,--um mosaico soberbo,--chamando-me particularmente a

attenção, uns caracteres que mais pareciam obra de arte levada ao maior

apuro d'execuçâo; circulos que, começando n'um ponto microscopico,

augmentavam progressivamente, conservando a curvatura das linhas n'uma

distancia e perfectibilidade mathemathica; hieroglyphos que dirieis

letras chinezas, um conjuncto em summa, de que dá uma ideia, ainda que

vaga, o Kalaidoscopo.

A presença do ouro levou-me a perguntar-lhe se o havia em maior quantidade.

Fez-me comprehender que, a seu tempo, me condusiria aonde existia muito.

Uma enorme tartaruga appareceu então á flôr d'agua e tomando,

provavelmente, o nosso batel por um seu semelhante, seguiu-nos sempre.

Varios peixes passaram junto a nós como conscios de inteira segurança.

Perguntei-lhe se ella se alimentava d'elles.

Pareceu-lhe extraordinaria a minha pergunta, e o gesto de repugnancia

que o acompanhou certificou-me que nenhuma carne ou peixe entrava na sua

alimentação.

Ja nos faziamos entender perfeitamente: não podia ter professora que

mais se insinuasse nos meus sentidos, nem mais habilitada.

O amor tem a linguagem de todos os povos e não preciza de interprete:

essa hade ser eternamente, e tambem unicamente, universal; e os olhos

d'ella fallavam mais alto que a mais quente e affectuosa palavra até

hoje inventada pelo homem.

A existencia de differentes especies de peixe n'estas aguas veio

confirmar a minha idea da inversão de uma parte da crusta, e absorpção,

durante esse extraordinario processo, das aguas do Oceano, e, de envolta

com ellas alguns individuos marinhos no sorvedouro.

Quando regressamos, ella guiou-me para uma gruta artificial formada por

algumas Musas dispostas em circulo a cujos troncos se enlaçavam,

artisticamente, trepadeiras em flôr.

Ella tinha o sentimento do bello!--ahi estava a prova.

Aquelle massiço de verdura, coroada pelas largas folhas da Musa, vedavam

a claridade: era o unico ponto aonde não penetrava a luz senão brandamente.

Fetos de singular belleza e o _Asparagus plumosus_ desenvolviam-se

n'aquella quasi escuridão, perfeitamente.

O que determinaria n'ella aquella escolha de plantas para ornamentar

a sua camara de repouzo?

Não seria o conhecimento da sua natureza, propensa aos logares sombrios?

Anoitecêra para nós.

Ao acordar, vi uma refeição preparada.

Uma grande concha com leite, fructas diversas e, o que mais me

surprehendeu, uns tuberculos assados.

Satisfazendo á minha curiosidade sobre este ponto, levou-me, em seguida

á refeição, a um algar aonde o calor augmentava á proporção que

progrediamos, e quando chegavamos ao fim, vi uma abertura incandescente.

Estava explicada aquella singularidade, demonstrando igualmente que

estavamos muito proximos de uma communicação com o centro da terra, que

lhe proporcionava assim um forno natural e sempre esquentado.

Os selvagens da Oceania, por occasião do descobrimento das diversas

ilhas, na falta de utensilios de toda a qualidade, abriam covas no chão,

enchiam-as de pedras levadas a alta temperatura, e deitavam sobre ellas

as suas iguarias que cobriam com folhagem e terra: era d'este modo que

cozinhavam.

Com esta alimentação simples, sentia-me agil e sem a enervação que

produzem as carnes e outras substancias que o homem, á proporção que se

hia civilizando, ou, para melhor dizer, asselvajando nas suas luctas com

as féras, adquirindo com o cheiro do sangue, o instincto do bruto; ou,

apertado pela fome, o habito de se alimentar das suas victimas, do mesmo

modo que ellas, quando vencedoras, se refocilavam nas carnes do homem.

As enfermidades a que está sujeita a humanidade eram desconhecidas a

esta raça primitiva; assim colligi da sua ignorancia da mais leve

indisposição. A que attribuir esta admiravel conservação da especie

humana, condemnada a viver nas entranhas da terra, em quanto que a

humanidade, exposta a intemperies desconhecidas n'este meio; entregue a

todos os prazeres e excessos que o progresso lhe proporciona, é victima

de mil soffrimentos?

Á sobriedade unicamente? ou contribuiria tambem a invariavel egualdade

de temperatura?

Quanto tempo levamos entregues ao mais acrisolado amor, sem nenhuma das

perturbações que ordinariamente succedem, por uma falsa idea da vida e

das pessoas, não sei!

Deveriam ter passado muitos mezes, pelas alternativas que constituiam as

unicas divisões do tempo; mas séculos que fossem, nunca uma saudade do

grande mundo me viria lançar uma sombra na vida.

Couza alguma tinha quebrado este encanto! Era a felicidade completa!

Uma vez, remechendo a areia da praia, notei a presença de ouro em pó.

O meu reparo levou-a a significar-me que havia em grande distancia muito

d'aquelle metal, e dando-lhe a entender que o desejava ver, fez-me saber

que depois do descanço me conduziria a essa região aurifera.

Effectivamente, quando acordei, encontrei-a amontoando uma quantidade de

fructas em uma grande concha de tartaruga que o nosso batel deveria

levar a reboque, preza por uma especie de cipó.

Comprehendi logo que era para uma longa viagem por mar.

Pozemo-nos a caminho por esse extenso e tranquillo lago, descançando de

quando em quando para admirar aquelles soberbos cimbres até que se

apresentou um arco abatido e, curvando-nos, penetramos por um estreito e

extenso canal que conduzia a outra gruta de dimensões infinitamente

menores, mas de deslumbrante effeito. Estavamos debaixo de uma montanha

de ouro que, por occasião de estar toda aquella massa em fusão, ahi se

formára como acontece, em ponto, relativamente, pequenissimo, nas nossas

fundições, deixando aquellas paredes lisas e como burnidas.--O nosso

batel aportou então a uma praia de ouro em pó. Extendi-me sobre aquelle

areal: as proprias aguas, pelo reflexo, pareciam de ouro liquido:

mergulhei n'ellas; quiz banhar-me na'quelle mar de ouro.

Peguei em punhados de area, e fiz-lhe comprehender que, se carregassemos

o nosso batel d'aquelle pó e podessemos ganhar a superficie da terra,

teriamos uma riqueza e couzas muito bonitas.

--Como isto? perguntou ella, tirando-me do cinto o cinzelado punhal com

cabo de marfim que ella admirava frequentes vezes?

Muito mais! lhe fiz entender; e, com a extremidade ponteaguda do ferro,

comecei a burilar um palacio, carruagens tiradas a quatro magnificos

cavallos, homens, senhoras elegantemente vestidas, cavalleiros e

cavalleiras, navios á vella e a vapor etc.

Ella, depois de examinar com muda, mas visivel surpreza, aquellas

producções do genio do homem, cahiu em profunda melancolia.

Olhava para mim, e eu lia no seu meigo e limpido olhar tudo quanto se

passava no fundo da sua alma. Ella comparava, evidentemente, o meu viver

d'outrora com o presente, a nossa quasi nudez com aquellas esplendidas

toilettes, a vida e movimento do grande mundo com a solidão que nos

cercava, e dizia no seu intimo; porque sequestrei eu este moço,

privando-o de todas essas grandezas que acaba de me mostrar?

Porque o não reconduzi á superficie do oceano quando elle

desfaleceu, em logar de o trazer para o interior da terra, para este

ermo, para esta sepultura da vida?

Era o remorso que germinava já, desconhecido até então no seu espirito!

Enlacei-a nos braços; cobri-a de beijos; e convenci-a que tudo quanto

deixára traçado n'aquellas paredes aurifulgentes nada era comparado com

o seu amor; que sem ella, eu não voltaria, mas queria que ella me

reconduzisse ao Oceano e que fosse commigo gozar a vida no meio que o

Creador tinha destinado á humanidade.

Então ella, apontando para uma mulher elegante que eu desenhára, conheci

que despertava n'ella o sentimento do ciume.

Em vão quiz banir essa idea, e então fez-me comprehender a

impossibilidade de satisfazer o meu desejo; que nas profundidades do mar

estava o tempo que precizava estar, mas que, em chegando aonde havia um

grande clarão, suffocava, e não podia avançar mais.

Caso extraordinario! Creada n'aquelle meio, carecia da pressão como os

viventes das grandes profundidades.

Quando me salvou, chegava, provavelmente, até onde a sua organisação lhe

permittia, e então occorreu-me que, sentindo já os effeitos da asphyxia,

como era que não me afogára conservando-me, certamente mais tempo

n'aquelle elemento, do que gastaria se tivesse podido remontar á

superficie?

Teria eu, afundando mais, e entrando n'essa zona aonde a pressão das

aguas é já sensivel, adquirido aquella propriedade singular de que ella

era dotada?

Só assim explicava a minha extranha salvação.

Tinhamos regressado e repousado das fadigas d'aquella viagem.

Descrevia já, sem sombra de uma alma attribulada por sentimentos

dolorosos, o que eu na gruta aurifera lhe mostrei.

Então, voltei novamente á minha insistencia para trocarmos aquelle meio

por outro melhor; que a camada d'aguas que ella supponha de impossivel

percurso, transpunha-se em tão pouco tempo que os seus effeitos

asphyxiantes não eram para temer.

Uma sombra espalhou-se-lhe pelo rosto: apontou para o seu rebanho de

cabras, unicas companhias de tantos annos, e duas perolas que eu recebi

nos labios trahiram a sensibilidade d'aquelle coração: ella presentia,

quem sabe, que em outro qualquer meio que não fosse aquelle, a

felicidade não podia ser completa.

Um dia, o profundo silencio que nos cercava foi subitamente interrompido

por um ruido longinquo, semelhante ao do trovão e, augmentando de

intensidade, pareceu a detonação de mil canhões disparados a um

tempo, e senti, não os effeitos d'um tremor de terra, mas uma trepidação

propria do meio em que me achava, mas que, na superficie do globo,

deveria ser um violento abalo, partindo do centro para as extremidades.

Venha d'ahi me acenou ella, como adivinhando o interesse que me deveria

proporcionar o phenomeno maior do globo, e colhendo algumas folhas da

viscosa Wygandia Macrophilia, salpicou-as de um pó vitrio que conheci

ser producto vulcanico e que facilmente adheria á viscosidade da folha

até formar uma camada uniforme.

Era, evidentemente, um isolador.

Assim armada, quebrou um ramo da arvore electrica que segurou na mão

direita, e com a esquerda conduziu-me a passo apressado.

Em pouco estavamos á entrada de uma especie de corredor estreito e

escuro, cujas paredes eram de lava preta, lisa como vidro.

O ramo que ella colhera, illuminava perfeitamente o caminho que terminou

em uma vasta galeria tenebrosa que a claridade electrica illuminava mal.

Esta galeria estava innundada de vapores quentes.

Então ella collocou-me junto a uma abertura practicada na parede, d'onde

eu deveria observar o que se passava do outro lado.

Um enorme lago de uma materia betuminosa em ebullição extendia-se diante

de mim.

Era lava em fusão.

Derepente, da abobeda amollecida pela evaporação aquosa do lago,

desprende-se uma verdadeira montanha para dentro da massa fervente.

O que que então succedeu foi espantoso. Senti estremecer o chão debaixo

dos pés.

Espadanaram jactos enormes de lava que foram lamber a crusta superior

com resaltos prodigiosos, ao tempo que uma onda colossal, partindo do

centro para os lados, e refluindo de tres quartos de circulo, foi

despenhar-se, com horrivel fracasso, pelos rebordos d'essa parte

accessivel á formidavel maré, n'um abysmo d'aguas inferior áquella bocca.

Volumes de vapor desenvolveram-se então com incrível velocidade,

irrompendo por uma garganta medonha e, chegando a certa altura, pareciam

recalcados com violencia. Impellidos novamente debaixo com força

irresistivel, attacavam a crusta do globo com prodigiosos esforços,

acompanhados de estampidos e vibrações do sólo muito sensiveis, até que,

os gazes, assim reprimidos, fizeram explosão na face da terra o que

evidenciou a livre corrente ascencional.

Ella, então, encaminhou-me para outro ponto mais elevado da galeria e,

por uma fenda da espessa parede que me separava da chaminé, vi

passar na sua ascensão por essa garganta, rios de lava incandescente, e,

redobrando d'intensidade, quando chegou ao rubro, converter-se em areas

e escorias, ao principio abrazadas e declinando, gradualmente, da cor

avermelhada, para o preto.

Houve então uma intermittencia, quando comecei a ouvir um borbulhar de

materias crassas e subir, lentamente, pezadamente, um lodo espêsso que

expellia de si um cheiro nauseabundo.

Finalmente, cessou de todo o movimento volcanico, e as fontes d'agua

que, durante a erupção, tinham seccado, começaram novamente a correr.

Eu tinha sido mudo expectador das evoluções de um volcão em actividade,

desde as repetidas cargas de vapores accumulados e o rompimento da

crusta, até á ascensão das ondas lodosas vomitadas dos ultimos recessos

do abysmo, derradeiro acto d'aquelle espantoso drama passado nas

entranhas da terra.

Em quanto durou esta scena, terrifica de ver e ouvir, o calor tornára-se

intenso e asphyxiante: sentia-me verdadeiramente torrado, porém a

anciedade que experimentava d'observar este extraordinario phenomeno era

superior a todos os soffrimentos physicos.

Quando abandonei o meu posto d'observação, a minha companheira tinha

desapparecido.

Pode-se imaginar o horror da minha situação, vendo-me só n'aquellas

trevas, sem poder attinar com o caminho que me reconduziria áquelle Eden

aonde passára os melhores tempos da minha existencia.

Quiz chamal-a; mas como? se ella não tinha nome!

Dei um grito, e pareceu-me que mil gritos respondiam de todas as direcções.

Era simplesmente o écho da minha voz resoando nas abobedas d'aquelle

vasto e deserto labyrintho.

O effeito foi tão assustador que me não atrevi a repetil-o. Julguei-me

perdido, sepultado em vida, e perdida para mim, essa creatura por quem

daria a felicidade eterna.

Estendi as mãos para apalpar um objecto que me podesse servir de apoio.

Encontrei o vacuo!

Receoso de dar um passo em falso, não me buli.

Então, é que comprehendi todo o horror da minha situação.

Nem ao menos, podia caminhar ás apalpadellas.

Derepente, pareceu-me distinguir um ponto luminoso semelhante á

claridade electrica da gruta cristallina.

Seria alguma fenda que communicasse com ella?

Deliberei-me arrostar todos os perigos. Tudo era preferivel a morrer,

lentamente, em meio de trevas eternas, e morrer, a peior das mortes;

pela fome.

Sondando o terreno, passo a passo, e servindo-me das mãos como d'escudo,

fui caminhando na direcção d'aquella diminuta estrella em ceu tétrico,

unica esperança que me restava.

O ponto luminoso hia augmentando, e na mesma proporção, diminuia a minha

agonia.

Reconheci que procedia do ramo que nos havia servido de guia em meio da

tenebrosa escuridão da caliginosa noite do centro do globo.

Avancei reanimado: iria ter luz ao menos, mas se ella me tivesse

desamparado, de que me serviria, se o contacto d'esse facho sem o

isolador, era fatal!

Desamparado! repetia eu, de mim para mim!

Não! não é possivel! mil vezes não! Ella era o meu anjo da guarda!

Teria ella fugido espavorida d'aquelle espectaculo medonho e aterrador,

e, esquecendo-se do perigo, tocado, com a mão desarmada, no fatal ramo?

Iria eu encontral-a morta?

Esta idea tornou-me louco!

Ja não tacteava o caminho; avancei, sem precaução para a luz n'um

dilirio atroz. Tropecei e cahi: faltaram-me as forças para me

erguer:--arrastei-me como um reptil.

Na minha anciedade de chegar, pareceu-me que a luz se afastava!

Gritei doudamente, e as cavernas da terra repercutiam o grito que me

chegava sinistramente aos ouvidos.

Sentia que se me esgotavam as forças, e confesso-te que me senti

repassado d'horror.

Mas a luz ainda lá estava: logo, o seu afastamento era uma illusão das

minhas faculdades.

Ergui-me, caminhava já mais desembaraçado; uma quasi imperceptivel

claridade permittia-me ver que não tinha obstaculo na minha frente, e ao

passo que avançava o caminho via-se distinctamente.

Guiado pela luz electrica, entrei alvoraçado n'uma gruta e cahi de

joelhos ante o corpo inanimado d'aquelle ente adorado.

Morta! meu Deus! exclamei, respondendo ás minhas apprehenções.

E os echos de novo repetiram: Morta!

Abracei aquelle corpo, uni o meu rosto ao seu, e soluçando,

gritei--Perdida!... Perdida para sempre!

E os mesmos malditos échos repetiram,--Perdida!... Perdida para sempre!

Horrorisado, tomei-a nos braços para fugir d'alli.

Unindo-a então a mim, senti-lhe bater o coração.

Pousei-a novamente no chão:--um regato d'agua gelada, corria ao pé,

enchi as mãos do precioso liquido e banhei-lhe o rosto.

Reabriu os olhos, sorriu-se, e lançou-me os braços ao pescoço.

Deixei passar alguns momentos, e empregando os unicos meios

communicativos, comprehendi que, não podendo mais supportar o calor do

volcão, se afastára, procurando o refugio da gruta, unico logar

supportavel, e que ahi perdera os sentidos, quasi asphyxiada pelas

emanações mephyticas dos ultimos paroxismos do vulcão.

Não sabia já exprimir a minha alegria.

Nunca sentira uma commoção tão forte: era a reacção do martyrio porque

acabava de passar.

Cahi de joelhos, ergui as mãos ao ceu, e agradeci a Deus!

Qual não foi a minha surpreza, quando a vi junta a mim, na mesma postura!

Eu tinha-lhe feito comprehender a existencia de um Ente superior que

creára as maravilhas que nos cercavam, a quem deviamos tambem, a

existencia; e aquella creatura, mesmo dos profundos abysmos do globo, o

estava adorando!

Admiravel inspiração que acompanha a humanidade desde a infancia do

mundo, sem excepção de raças, embora com difinições diversas!

Depois, ergueu-se, lançou-me um olhar radiante de fé, armou-se do

isolador e, empunhando o facho electrico, precipitou-se fóra da gruta

levando-me pela mão.

Adivinhára que eu devia estar morto de fome, e effectivamente cahia de

fraqueza: havia muitas horas que tinhamos estado privados de todo o

alimento.

Quando entramos na esplendorosa habitação da fada destas regiões

subterraneas, parecia-me ter voltado novamente á superfície do globo,

tal o contraste entre aquelle paraiso e as galerias caliginosas do

interior.

Proseguindo nas minhas investigações, observei uns pontos, superiores em

brilho ao cristal.

Examinando-os bem, conheci serem gemmas de grande valor encrustadas na

rocha.

Ella, vendo o meu empenho em arrancar uma pedra d'estas, gesticulou-me

para desistir d'uma tentativa inutil.

Procurou então d'entre os seixos, um que lhe pareceu satisfazer ao seu

designio, e pegando no machado de silex, partiu o seixo, apresentando-me

um magnifico brilhante como nenhum soberano da Europa, ou Rajah da

índia, possue.

Era um thezouro de que me não queria apartar; mas aonde guardal-o e para

que, se eu me via condemnado a viver e morrer nas entranhas da terra!

Apoderou-se então de mim um pavor indiscriptivel: aquella idea

esmagava-me, e cahi n'um estado de verdadeira prostracção moral.

Reparei n'ella.

Parecia estar lendo o que se passava no meu espirito, e a melancholia

impressa n'aquelle rosto d'anjo dissipou instantaneamente esse doloroso

sentimento para dar logar a outro mais doloroso ainda.

Teria eu coragem de me separar d'ella, mesmo quando se me offerecesse

occazião?

Não! mil vezes, não!

Aquelle ente era para mim, tudo!

A par d'ella, que valor tinha o grande mundo para mim?

Nenhum! E sem ella, era a morte.

A minha mocidade, passada no isolamento, não me preparára para este

mesmo meio, embora extraordinario?

La, nunca conhecêra a felicidade que agora gozava.

Para que imaginar o mal, aonde não havia senão o bem?

Um raio de verdadeira alegria fulgurou certamente no meu olhar, porque o

seu illuminou-se tambem.

A tempestade tinha passado.

Ella tinha evidentemente, e nem podia deixar de o ter, o sentimento do

bello, comparando o seu brilhante Eden com os antros medonhos que

tinhamos percorrido por occasião da erupção volcanica.

Cingindo-me com um braço, levou-me para a enseada aonde se achava o

nosso barco, e, convidando-me a entrar, tomou tambem assento, e

começamos a padejar, costeando, d'essa vez, a margem do lago.

D'ahi, cêrca de uma hora, entramos n'uma bahia, e pouco depois, deparo

com um espectaculo magestoso.

Um portico enorme abria-se na nossa frente.

Columnas colossaes de systematica egualdade e do mais formoso pórphyro

encorporadas umas nas outras, formavam, como nas celebres grutas de

Fingal, a entrada d'aquelle vasto recinto em que entramos.

O mais formoso templo do mundo não tinha tão rica collecçâo de marmores,

polidos pela acção da agua que as banhava, cahindo-lhes pela face como

um véo diaphano.

Era uma maravilha! e para que fosse completa, os reflexos d'aquella

variedade de cores sobre as limpidas aguas do interior, davam-lhes a

apparencia d'um pavimento de mosaico altamente polido.

Preocupava-me a mysteriosa faculdade que ella possuia de poder dispensar

a renovação do ar nas grandes profundidades.

Era evidente que eu tinha attravessado essa zona e que, á propria

pressão das aguas, devêra a existencia.

Lembrava-me bem, sentir-me desfallecer, e que, necessariamente, teria

succumbido se não é entrar n'um outro meio, que só podia ser; ou ganhar

a superficie, o que era já impossivel por ter perdido completamente as

forças; ou então, submetter os pulmões a uma influencia que inutilizava

as faculdades para que foram destinados.

Ficavam, por outra, dotados de faculdades duplas, á semelhança da

tartaruga, da phoca, da rã e d'outros amphybios.

Discorrendo por esta forma, achei muito natural que ao homem não fosse

negado o que o Creador concedêra a animaes tão inferiores como eram

aquelles.

Queria conhecer essa nova vida que me permittia observar, á vontade, e

sem a imperiosa necessidade de voltar amiudadamente á superfície do mar,

differentes peixes desconhecidos e plantas marinhas, sobretudo os coraes

magnificos cujas dimensões, eu já tinha podido notar, augmentavam na

razão da profundidade.

Ainda mais; se essa faculdade era douradoura, como parecia ser, podia

até descer ao fundo do Oceano e admirar a vida dos mares na sua

maxima profundidade, vida que as recentes investigações declaravam

riquissima, e dever ser de surprehendente effeito.

Communiquei-lhe os meus desejos.

A fixidez do seu olhar parecia penetrar no mais intimo do meu pensamento.

Temeria ella abrir a porta da gaiola ao passarinho?

Munindo-se, porém, do seu isolador, e partindo uma vara da arvore

electrica, pozemo-nos a caminho, internando-nos por uma passagem

subterranea e escura, guiados unicamente pela luz do nosso facho.

Chegados a certo ponto, resvalei: ella, que me segurava pela mão, com

este movimento, cambaleou, e deixou escapar o ramo que cahiu junto a

mim, mas felizmente sem me tocar. Senti porém um entorpecimento em todo

o corpo, o cérebro enervado, a vista perturbada e sem poder distinguir

os objectos.

Apenas percebi que estava sendo conduzido por ella, e só recuperei o

pleno uzo da razão no seio das aguas.

Este incidente não permittiu orientar-me sobre a mysteriosa sahida para

o mar.

Olhei para todos os lados; o facho só illuminava n'um certo raio; a

terra tinha desapparecido.

Estavamos n'uma zona de mar quasi deserta de vida: raros peixes

appareciam, e esses, pela sua marcha rapida e em linha recta, procuravam

outras regiões, preferindo aquelle caminho menos frequentado, como

querendo evitar seus adversarios.

Desciamos lentamente quando principiei a distinguir, abaixo de mim, uma

claridade comparavel á aurora.

Á proporção que afundavamos, augmentava, até que a prespectiva

assemelhava-se á que deve disfructar o areonauta, passando em balão e

d'alto sobre uma vasta cidade illuminada, com a differença que, em vez

da sua luz brilhante, e do movimento de uma população, via uma

phosphorecencia n'uma extenção enorme e um formigueiro indescriptivel;

um cruzar e recrusar de seres de todas as dimensões, feitios e côres,

que naturalista algum seria capaz de classificar.

Era precisamente esse movimento continuo o motor d'aquella claridade que

permittia ver-se perfeitamente o leito do Oceano, com os seus bosques e

os seus prados, e, por entre esta agglomeração de objectos diversos, a

vida animada d'esse campo, ora accidentado, ora extendendo-se em planicie.

Quando eu contemplava o extranho e maravilhoso quadro que me ficava

inferior, um monstro de proporções enormes, semelhante a um

crocodilo, os olhos em braza e de fauces abertas, avançava rapidamente

para nós.

Istinctivamente, levei a mão ao punhal, como se uma arma tão fragil

podesse penetrar as placas rijas d'aquelle encouraçado, cuja bocca era

um abysmo prestes a engulir-nos ambos d'um só trago;--um sorvedouro!

Horrorisei-me!

Ella, pelo contrario, conservou-se tranquilla, e, no momento em que eu

lhe via as fauces escancaradas, a meio metro de distancia, estendeu o

braço e tocou-lhe com a sua vara.

Não foi precizo mais: as fauces fecharam-se, cerraram-se-lhe os olhos e,

fulminado pela electricidade, desappareceu nas profundidades.

Ficava explicado o movimento brusco e expressão de horror que empregou

para me afastar da arvore de apparencia metallica no primeiro dia.

Aquella arma era terrivel, rapida nos seus effeitos e unica a empregar

em semelhante conjunctura, em que o perigo não era inferior ao dos

campos da India. Os mares tambem tinham os seus tigres, as suas

panthéras e os seus leões.

Assim nos conservamos muito tempo admirando aquella vida animada,

aquellas florestas illuminadas e aquelles prados constellados de luz.

Á proporção que desciamos, hia este quadro tomando novo aspecto.

A floresta de coraes, sobre a qual pairavamos, parecia um vasto viveiro

d'aves, umas abrindo passagem por entre a ramada, outras, e estas eram

os peixes voadores, saltando de ramo em ramo.

Aproximando-nos mais, pareceu-me ver ninhos nos ramos e avesinhas

abrindo de vez em quando, as azas e o bico como fazem os implumes ao

approximar-se a mãe trasendo-lhes de comer.

Não queria acreditar os olhos: apalpei-as: eram effectivamente aves do

mar, uns bivalvos que se abriam e fechavam á maneira da borboleta: esta

pequena concha, encrustada na ramagem e terminando n'uma das

extremidades em bico, illudia perfeitamente.[2]

Embrenhamo-nos então na floresta illuminada por uma multidão assombrosa

de especies e de côres em constante movimento.

Os coraes eram uma maravilha.

O coral preto, sobre tudo, cujo tronco dois homens não abrangiriam, com

a sua folhagem fina e arrendada á imitação de filigrana, era de

surprehendente belleza. A seus troncos, altamente polidos, nenhum

mollusco podia adherir, o que o tornava distincto de todos os mais.

O coral vermelho de troncos nús e nodosos, e o branco em gigantesco

leque com as suas multiplas ramificações alvas de neve, formavam um

conjuncto que ultrapassava a explendida vegetação das mattas virgens da

America.

Estas duas ultimas qualidades offereciam um aspecto singular, com as

suas encrustações de parasitas animaes e vegetaes de variadissimas

especies: conchas diversas, esponjas, serpulas, vermes e insectos

microscopicos que ahi tinham adherido, construindo suas instancias,

consoante a sua natureza.

Pouzamos então sobre um banco de coral animal, essa construcção

produzida por myriades de seres microscopicos, e que, no decurso de

seculos, chegam á superfície dos mares formando ilhas.

Ostras de grandes dimensões, como jámais foram vistas em maiores

alturas, adheriam áquelle chão escarlate em cujas fendas existiam

pérolas, das quaes, uma só, faria uma fortuna.

Então, recordei-me do que escreveu um sabio.--«O mar tem maiores

riquezas do que a terra».

O fundo do Oceano dividia-se em grandes malhas:--uma de arvoredo, outra

de erva ursina compacta, campos d'esponjas finissimas sobre as quaes

se estendiam, como em fofa cama, animaes marinhos de differentes

especies ruminando, como manadas de gado bovino, as colheitas feitas em

pastagens proprias ao seu sustento.

Alguns d'estes animaes eram pachydermes de gigantescas proporções:

olhavam-nos perfeitamente indifferentes, o que não pouco me

tranquilisou, porque contra uma colligação e attaque em massa, era

impotente a electricidade.

Outras malhas eram de campos d'algas de extraordinaria altura.

As suas palmas eram grandes bolhas d'ar que conservavam as hastes

perfeitamente verticaes, e algumas que se desprendiam da planta mãe

pareciam fléchas despedidas do arco em direcção á superficie.

Outras malhas eram d'um lyrio lindissimo, produzindo um effeito

extraordinariamente bello.

Uma planta era muito curiosa: dava flores que eram procuradas por um

pequeno peixe para lhe sugar, provavelmente, um mel, ou substancia

qualquer, á imitação da abelha.

Estas flôres, porém, com o contacto, envolviam o peixinho nas dobras do

seu calice, ficando prisioneiro.

É n'este momento que um outro peixe de proporções maiores e de

marcha indolente que estivera de espreita, engulia a flôr e a sua

victima, e d'este modo, sem conflicto, e sem trabalho, provia ao seu

sustento.

Nunca poderia imaginar que no fundo do mar existissem parazitas como na

superficie do globo, vivendo á dispensa do trabalho d'outros e com todo

o cynismo.

Grandes crustaceos, mettidos em furnas escuras, expelliam raios de luz

dos olhos, e estes focos chammejantes possuiam o poder da attracção. O

crustaceo, perfeitamente immovel no seu esconderijo, tinha menos

trabalho do que a aranha na sua teia, pois apenas dava-se ao encommodo

d'abrir a bocca, na qual o magnetizado peixe se precipitava.

Era o processo do sapo!

Que affinidade em tudo entre estas naturezas tão diversas; a vida da

terra e a vida do mar, até mesmo nos contrastes!

A par dessas malhas floridas e de vegetação esplendida, havia tambem

malhas de um lodo, como carbonato de cal, residuos de conchas e detritos

animaes. Á sua superficie deslisava uma quantidade de peixe miudo, e

d'entre as camadas lodoçentas, surgiam de quando em quando, cabeças de

serpentes, reptis, bichos informes e annelidos.

A immobilidade das aguas n'esta profundidade era completa:--as plantas

mais delicadas e flexiveis não tinham o mais ligeiro movimento.

Couza singular! Esperando achar um frio intenso n'aquelles abysmos aonde

a acção calorifera do sol não podia chegar, assim como não penetrava ahi

a sua luz, havia uma temperatura superior á das aguas nas regiões da

superficie, e quando pousei no chão, achei o solo com um calor que não

esperava.

Seria devido á menor espessura da crusta?

O que é natural, é que, sem aquella temperatura, a vida, sobretudo a

vegetal, não poderia ser tão florescente e bella como era.

Estavamos n'esta contemplação quando sentimos uma forte vibração nas

aguas, seguida de um rugido espantoso.

Presenti, immediatamente, um acontecimento grave.

Irrompiam de dentro da erva ursina de que se revestia grande parte do

fundo, myriades sem conto de pequenos peixes correndo, como espavoridos,

em todas as direcções, e enchendo o espaço que nos circundava de uma

verdadeira chuva de fogo.

Reptis enormes, até então occultos nas depressões lodocentas, sairam das

lamas e tomaram a fuga.

Conhecendo o instincto animal, mais agudo do que o do homem, comprehendi

que tivera logar uma violenta commoção subterranea.

Não tardou que grandes pachidermes, com seus filhos, e outros peixes

desconhecidos, passassem por nós, tomando todos uma direcção que nos

advertia que o perigo estava d'onde vinham, e não para onde hiam.

Succederam-se novas trepidações, cada vez mais violentas, e estampidos

que se approximavam, sem que podessemos atinar de que lado procediam.

O desamparo em que os povoadores marinhos deixaram o ponto aonde nos

achavamos, levando comsigo a claridade que só provinha da sua

phosphorescencia, era o único indicio de que estavamos no fóco do perigo.

Restava-nos só a que nos ministrava a vara electrica, mas a sua luz

tinha um raio muito limitado e não nos deixou perceber que nos

avizinhavamos de um campo d'algas.

De repente, o sólo rompeu-se com horroroso estampido: as aguas,

repellidas com espantosa força, impelliram-nos para esse perigoso meio,

ficando com os movimentos embaraçados e prezos entre aquellas liaças que

pareciam enlaçar-nos como serpentes.

Tentei cortal-as com o punhal, mas cada novo movimento só servia para

nos envolver mais.

O volcão, que ao principio, vomitou immensas columnas de cinsas

acompanhadas de linguas de fogo que sahiam d'entre aquellas massas

enormes, começou a expellir pedras que, arrojadas perpendicularmente,

vinham cair na cratéra, impedindo a livre expulsão das materias

volcanicas, de que resultou serem estas cuspidas em todas as direcções.

A pequena distancia que nos separava do fóco, expunha-nos a sermos

alcançados por aquella metralha, sem lhe poder fugir.

A nossa situação tornou-se então assustadora.

N'este ponto, Luiz não poude proseguir:--a commoção embargava-lhe a falla.

Percebi que estavamos chegados á parte mais pungente da narrativa, e

disse-lhe:--«se te parece, guarda o resto para logo; adivinho uma

catastrophe que te amargurou a vida».

--«É verdade, Carlos!--Eu amava aquella creatura com delirio;

concentráva n'ella todas as minhas affeições e, para a não perder,

renunciaria para sempre o estrellado ceu e os campos verdes da terra,

ainda mesmo que tivesse mil ensejos de me emancipar do seu interior.

Uma pedra, Carlos, d'esse maldito volcão, e da minha, ainda mais maldita

curiosidade, bateu-lhe em cheio no peito.

Cahiu-me morta nos braços.

Quando eu a depositava no chão para renovar a tentiva de cortar as

algas, e conduzil-a, sem saber para aonde; estas, desprendendo-se

subitamente das raizes, arrebataram-me irresistivelmente em sentido

ascencional:

As grandes bolhas d'ar eram como boias que subiam com espantosa rapidez,

porém, de repente, em certa altura, arrebentaram, deixando-me entregue

aos meus proprios recursos para alcançar a superficie. Percebi

immediatamente que a falta de pressão fôra a cauza d'aquella explosão,

devendo por tanto não estar longe da superficie.

Com que difficuldade, porém, lá cheguei! Á proporção que se encurtava a

distancia, a necessidade de respirar era cada vez mais forte.

Sentia já a asphyxia; redobrei de esforços: era uma lucta entre a vida e

a morte.

Quasi morto, achei-me á flôr da agua: estava salvo, mas aonde; meu Deus!

Em pleno mar!

Então deitei-me de costas sobre as aguas para descançar.

Quanto tempo estive n'esta posição, sustentando-me machinalmente, não

sei:--Os raios solares cegavam-me: cerrei os olhos e apoderou-se de mim

um lethargo.

Tinha perdido o conhecimento de todo!

Quando voltei a mim, achei-me estendido sobre o convez d'um navio.

De bordo tinham avistado um corpo boiando á tona d'agua e deitando uma

lancha ao mar tiraram-me ainda a tempo.

O meu primeiro pensamento foi para ella: tornei a fechar os olhos para

não ver os habitantes da terra: a saudade do paraiso que tinha deixado

para minha perdição, e a dôr que me enlutava a alma, não me permittiam

outro sentimento, outro desejo, senão o da morte.

Levaram-me então para a camara.

Ouvia dizer aos meus salvadores «cahiu, necessariamente, ao mar sem que

se tivesse dado por isso a bordo; ou não o poderam salvar por ser talvez

de noite.

Resolvi-me approveitar estes juisos para não ter que revelar os

acontecimentos extraordinarios que precederam a minha mysteriosa

apparição sobre as aguas.

Não tinha outro meio senão alimentar essa idea quando tivesse de

responder ás suas perguntas.

O meu estado d'apathia, tomado por uma extenuação de forças, livrou-me

da necessidade de recorrer a subterfugios, até que uma nova fatalidade

me separou d'aquella boa gente.

Sobrevindo um temporal, fomos arrojados sobre as costas de... morrendo

no naufragio toda a tripulação.

Mais uma vez, devi a vida aos meus recursos natatorios, e pude ganhar

uma praia sobre a qual as ondas me depositaram.

O sinisto deu-se de noite, e eu ignorava completamente aonde me achava.

Uma luz guiou-me os passos para uma casa, não muito distante; ahi bati.

--Um naufrago! respondi eu a alguem que viera á porta.

--Queira esperar, me responderam de dentro.

Momentos depois, foi esta aberta e appareceu-me um sujeito idoso que me

mandou entrar, recebendo-me com evangelico carinho e commiseração.

Todo enxarcado e com frio! exclamou elle.

A primeira cousa que preciza é de uma vestimenta completa.

A maneira porque lhe agradeci convenceu-o, certamente, de que não fazia

parte da tripulação do navio naufragado.

Fui conduzido a um elegante quarto e provido de tudo quanto precisava

para me tornar um habitante da terra, menos no comprimento e desalinho

do cabello que tinha crescido extraordinariamente.

Conduzido á casa de jantar aonde estava servida a ceia, quiz o meu

hospitaleiro conhecer os promenores do naufragio.

Eu tinha sabido o sufficiente para o orientar sobre todos os pontos

precizos concernentes ao navio e sua procedencia etc.

Dá'me licensa, continuou elle, com sorriso malicioso, que lhe pergunte,

se o fato que lhe mandei é o que lhe compete, pois entro em duvida

se é rapaz ou rapariga. Como não tenho familia, não lhe pude ministrar

outro.

Logo vi qual a causa da sua duvida, mas não sabia bem como sair-me

d'aquella difficuldade e recorri ao expediente de dizer que era voto que

fizera, porém que, tendo cessado a cauza, lhe pedia me proporcionasse os

meios de reivindicar os meus fóros de homem.

Avisado o nosso consul do succedido, veio-me buscar no seu trem: escrevi

ao meu procurador, impondo-lhe silencio absoluto em relação á minha

existencia, e ordenando-lhe me mandasse as minhas rendas, devendo d'ahi

por diante remettel-as para aqui.

--E não voltas?

--Não! Escolhi esta cidade, muito afastada do mar que nunca mais

tornarei a ver: avivar-me-hia, atrozmente, o meu soffrimento.

Morri para o mundo; assim como o mundo morreu para mim.

Não conheço aqui ninguem e ninguem me conhece.

Não receio, por tanto, ser importunado sobre a minha vida passada que se

encerra n'este aposento.

O meu fiel amigo e constante companheiro, é este, referindo-se a um

formoso danois que pousára a cabeça sobre os seus joelhos.

Abro para ti uma excepção: sempre que queiras aqui apparecer, vem; que

és tambem uma grata recordação da minha mocidade.

Era já alta noite: abracei-o, e regressei ao hotel.

Ao acordar no dia seguinte entrei em duvida se teria sonhado, tão

extraordinario era tudo quanto ouvira e presenceára na vespera.

Hia a sair em procura de Luiz de..., quando o creado do hotel me

preveniu que apenas me restava o tempo precizo para almoçar e partir

para a estação do caminho de ferro.

Tive, pois, de desistir, levando comigo impressões que me ficarão

gravadas para sempre na memoria.

Um novo mundo · 第 6 / 7 题