Atravessando, ha pouco, a França, em direcção á Allemanha aonde me
chamavam negocios importantes, demorei-me vinte e quatro horas em Lyon.
Acabava de entrar em um dos magnificos _restaurants_ d'esta cidade,
quando tomou logar a uma meza proxima á minha, um individuo que pediu
café e charutos.
Aquella voz despertou-me recordações de um amigo de collegio, reputado
morto havia seis annos. Ergui instinctivamente a vista de cima do jornal
que estava começando a ler e encarando com elle, exclamei, levantando-me
e dirigindo-me para o seu lado, «é impossivel que não seja Luiz de....!»
--Carlos! exclamou elle, por seu turno.
Um abraço removeu todas as duvidas, se algumas já podessem existir.
--Aonde, não me dirás tu, tens estado desde que foste dado como victima
dos teus exercicios natatorios; e qual a razão do teu mysterioso
desapparecimento?
--Não é este o logar, retorquiu elle, para te contar uma historia quasi
inacreditavel, mas verdadeira. É um caso extraordinario, unico, desde a
existencia do mundo.
Vem a minha casa; só ahi, te posso fazer essa revelação.
Em quanto vamos pelo caminho, quero informar o leitor de algumas
particularidades d'este meu amigo intimo e condiscipulo.
Desoito annos mais completos, tanto no moral como no physico,
dificilmente se encontram.
A elegancia de formas, a correcção das linhas do rosto, e a elasticidade
de membros, reunidos a grande vigor muscular, estavam em perfeita
harmonia com a nobreza de sentimentos e bondade do coração.