Equivalia certamente a dizer: «É feitio da fazenda, não ha que extranhar.»

Um amavel que uma vez escorrega, fica tão maltratado em sua boa fama,

como ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande

das Aguas Livres sobre as hortas da Rabicha.

Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em

requintes de cortezia, andando adoentado de irritação intestinal, teve a

infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle

proprio dolorosamente surprehendido por alguma coisa que o vexou.

O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro

infeliz pegou no chapéo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr

pela escada abaixo.

As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras,

receiosas de que alguem as ouvisse.

Os que estavam jogando o voltarete e o _whist_ perguntavam admirados:

--Então acabaram tão cedo o seu divertimento!

--Aconteceu alguma coisa?

--Por que se foi Fulano embora tão depressa?

E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio,

que só quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga.

No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade.

--Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano?

--Não sei.

--Pois ainda não sabe!

--Eu lhe digo...

E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente

o pasmo com que a noticia era recebida.

--Ora essa!

--Um homem tão correcto!

--Um tão perfeito cavalheiro!

--Que pena!

--Que desastre!

--Que fiasco!

E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que

não podesse acontecer a qualquer outra pessoa?

Tinha deixado cair um borrão no claro estofo da sua boa fama.

Se se tratasse de um grosseirão, toda a gente haveria dito apenas que

era proprio da fazenda.

Viajando em caminho de ferro, quem é que não tem encontrado um

companheiro tão amavel, que chega a aborrecer?

Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de

cortezia, e pergunta:

--Quer a janella aberta, não é verdade?

Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da

cortezia:

--Pois não é verdade, pergunta, que desejava a janella fechada:

Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste,

persegue quasi, que é talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter

que acceitar por força, ir mal disposta, e comer pouco.

--Você--dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser

esperado--você janta hoje comigo sem appellação nem aggravo.

--Não posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho

que seguir hoje viagem.

--Que pena! que pena! Mas veja lá se póde de algum modo fazer o

sacrificio de jantar hoje comigo...

--Absolutamente, não posso, meu caro.

E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo

e procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro.

Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que

aliás não tinha dotes de muito esperto.

E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo:

--Seu pae como está?

--Menos mal, obrigado.

--E seu tio?

--Esse passa peior.

--Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito.

--E aquelle seu primo de Torres Novas?

--Esse! Morreu ha um anno!

--Não sabia! Que pena! um homem ainda tão novo!

De repente, voltando ao offerecimento do jantar:

--Mas, decididamente, você janta hoje comigo...

--Não posso, meu caro, porque o comboio não dá licença.

--Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se

depressa. Ó José Maria, anda cá.

José Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando

foi accender o charuto:

--Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa lá

alguma coisa grande e pomposa.

Vem o José Maria e, de barrete branco na mão, espera que o amo o

interrogue.

--O que temos nós hoje para jantar, José Maria?

E o cosinheiro, que estivera matutando na invenção de alguma coisa

grande e pomposa, responde:

--Saiba v. ex.ª que temos uma balea.

Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa.

O cosinheiro fica atarantado, suppõe que tinha dito ainda pouco...

--O que dizes tu, José Maria! Uma balea!

E o cosinheiro querendo emendar a mão:

--Duas... duas, meu senhor.

Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas

baleas, porque não se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador

da sua amabilidade hospitaleira.

E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso ás gargalhadas, fazendo

alastrar a nódoa com que uma tão distincta pessoa maculára a sua

reputação de homem amavel.

Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho

um brutamontes rebelde a todas as correcções.

Pae e filho foram convidados a jantar fóra de casa. O filho quiz ir por

força: o pae consentiu, com a condição de que elle fallaria o menos

possivel.

Á mesa, o visinho da direita disse ao rapaz:

--O tempo está magnifico!

Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabeça.

O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez:

--Que magnifico tempo!

Elle tornou a meneiar a cabeça.

D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos:

--Este rapaz é um grosseirão!

E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte:

--Olhe que elles já me conheceram! Posso fallar á vontade.

O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os

outros convivas.

--Desculpem, isto é mesmo da fazenda.

Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os

grosseiros. E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel,

devendo ter sido grosseira!...

Manhãs de Cascaes · 第 48 / 75 题