Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre
previdentes, tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que,
quando não encantam, incommodam com certesa os outros...
Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são
impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de
o ser por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.
Com a differença de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se
mostra amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se
um amavel, tambem por descuido, commette uma grosseria, fica a
gente quasi vexada de vêr que elle estragou com um involuntario borrão
todo o seu passado de homem fino.
A cortezia é como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se
torna saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer
incorrecção de côr, qualquer sombra, por maior que pareça, tem sempre
esta desculpa: «É mesmo da fazenda...»
Um brutalhão de marca maior costumava espancar a mulher por dá cá
aquella palha. As visinhas tinham dó da pobre creatura sempre que ella
acabava de apanhar a sova do estylo. «Coitada! diziam-lhe, vocemecê
sempre foi muito infeliz com o marido que escolheu!» E ella respondia,
cheia de philosophica resignação: «É genio d'elle, não façam caso.»