--Lá vem enterro... Isto agora...
Não tem descanso o coveiro!
--Vem d'acolá d'onde mora
A mulher do Zé Cabreiro.
--Foi o filho... É de creança
O caixão: eu inda vejo!
--O coveiro não descansa!...
--Inda hontem lhe dei um beijo!
--A quem? Ao coveiro?!
--Irra!
Ao filho do Zé Cabreiro.
--O frio as creanças mirra.
--Lá vem atraz o coveiro...
--A morte leva os fedelhos,
Mata n'um dia um rapaz,
Emquanto que nós, os velhos.
Vamos ficando p'ra traz!
--A morte é uma gulosa,
Gosta de bocados finos.
Carnes que cheirem a rosa,
Polpa de tenros meninos...
--Póde ser!...
--Pois certamente!
Nós cá, ossos esburgados,
Nem para a cova de um dente
Lhe chegavamos, coitados!
No alto mar me contava
Um velho de Guimarães
Que a terra se embebedava
Com as lagrimas das mães...
--Por isso lhes leva os filhos!...
A gulosa!... Quer banquete!
--Quem tem filhos tem cadilhos.
Morreram-me. Eu tive sete!...
--E eu nenhum.
--Nem eu.
--Agora,
Sem ter filhos nem mulher,
Visto que ninguem nos chora,
Nem mesmo a terra nos quer!...
Janeiro de 1891.