III

--Lá vem enterro... Isto agora...

Não tem descanso o coveiro!

--Vem d'acolá d'onde mora

A mulher do Zé Cabreiro.

--Foi o filho... É de creança

O caixão: eu inda vejo!

--O coveiro não descansa!...

--Inda hontem lhe dei um beijo!

--A quem? Ao coveiro?!

--Irra!

Ao filho do Zé Cabreiro.

--O frio as creanças mirra.

--Lá vem atraz o coveiro...

--A morte leva os fedelhos,

Mata n'um dia um rapaz,

Emquanto que nós, os velhos.

Vamos ficando p'ra traz!

--A morte é uma gulosa,

Gosta de bocados finos.

Carnes que cheirem a rosa,

Polpa de tenros meninos...

--Póde ser!...

--Pois certamente!

Nós cá, ossos esburgados,

Nem para a cova de um dente

Lhe chegavamos, coitados!

No alto mar me contava

Um velho de Guimarães

Que a terra se embebedava

Com as lagrimas das mães...

--Por isso lhes leva os filhos!...

A gulosa!... Quer banquete!

--Quem tem filhos tem cadilhos.

Morreram-me. Eu tive sete!...

--E eu nenhum.

--Nem eu.

--Agora,

Sem ter filhos nem mulher,

Visto que ninguem nos chora,

Nem mesmo a terra nos quer!...

Janeiro de 1891.

Manhãs de Cascaes · 第 42 / 75 题