IX

Era em abril...

C'était en avril, un dimanche,

Oui, le dimanche!

J'etais heureux...

Vous aviez une robe blanche

Et deux gentils brins de pervenche,

Oui, de pervenche,

Dans les cheveux.

Nous étions assis sur la mousse,

Oui, sur la mousse,

Et sans parler,

Nous regardions l'herbe qui pousse,

La feuille verte et l'ombre douce,

Oui, l'ombre douce,

Et l'eau couler.

Un oiseau chantait sur la branche,

Oui, sur la branche.

Puis il s'est tu.

J'ai pris dans ma main ta main blanche.

C'etait en avril, un dimanche,

Oui, le dimanche...

T'en souviens--tu?

Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra

em si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril,

quando o laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um

_bouquet_ de noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que

fragrancias de _boudoir_, que estonteamentos de volupia, cheia de

mysterios, de segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno

grandes manchas encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram

convidando ao remanso d'um idyllio, oui, d'un idylle...

No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de

Pan, dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha

no céu o bello sol ocioso d'um domingo... _oui, le dimanche_!

Perto, um veio d'agua crystallina e múrmura dá uma enorme sensação de

frescura e de preguiça, porque não ha nada que enerve mais

deliciosamente do que vêr correr a agua sobre um campo... _et l'eau

couler_.

Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam

n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa

vitalidade vernal...

Nous regardions l'herbe qui pousse,

La feuille verte et l'ombre douce.

Delicioso abril! Primavera encantadora! por mais que a gente

queira adorar-te sem rhetorica, é completamente impossivel, porque tu

mesma és a rhetorica da creação, o Padre Cardoso da naturesa...

* * * * *

_C'était en avril..._

Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o

ar, os laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e

o meu amigo Rosendo, tão feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao

Campo Grande passar um domingo, uma esplendida manhã de domingo... _oui,

le dimanche_.

Tinham ido por ahi fóra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada

de phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres

pilecas rebeldes ao amor e ao chicote.

Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um

grande desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de

mocidade e elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas,

uma rosa natural, um chapeu com _blonde_ verde, luvas de _peau de

Suéde_... Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera tão fascinante, nunca

um Rosendo sentira no coração um bando de rouxinoes tão palreiros e tão

musicos como naquella hora deliciosa. Imagine-se a pressa do

Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes

dentro do coração, estava em risco de morrer de hypertrophia, se não

chegasse de pressa,--mesmo muito de pressa.

Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de

idyllio, que nem que fosse mandado pôr ali de encommenda pela camara

municipal, para uso dos namorados ao domingo... _oui, le dimanche_. Por

de traz, um bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso

como um mudo.

Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na _Revista dos

dois mundos_, e por os haver achado deliciosos.

Tratou de pôl-os em acção, ou antes, de pôr a sua mão de enamorado

Rosendo sobre a mão branca de Ambrosia.

J'ai pris dans ma main ta main blanche...

Não faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da

_Revista dos dois mundos_: a erva vecejante, a folha verde, a agua

corrente, o domingo e a felicidade.

Passaros folgasãos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de

_virtuoses_, e á distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o

ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se.

Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem

ambos n'uma grande consubstanciação amorosa.

Elle só tinha um desgosto:--que ella, em vez de uma rosa no vestido, não

trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... _oui, de pervenche_.

De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para

elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de

Tantalo:

--Ó Rosendo, vamos nós almoçar ao José dos Caracoes?...

.........................................................................

_T'en souriens tu..._ Rosendo?

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Manhãs de Cascaes · 第 23 / 75 题