A mascotte

Ter ou não ter _mascotte_, eis a questão, para tudo e para todos.

Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto,

constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.

Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em

superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as

superstições, que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia

benefica de um genio bom e tutellar, a que modernamente chamamos

_mascotte_.

Até--seja dito em confidencia--já tive uma _mascotte_.

Por que não hei de contar francamente essa historia?

Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha

custado doze vintens e que ninguem seria capaz de me comprar por seis.

Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala,

cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na

minha vida.

Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o

mau tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.

Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha

suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia

seguinte a bengala substituia o chapeu de chuva.

Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle

reles pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu

talisman. Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a

acreditar na existencia de uma _mascotte_ que, se me abandonava um

momento, me deixava exposto ás maiores contrariedades.

Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava

sahir sem a _mascotte_, importando-me pouco que as outras pessoas

podessem fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de

chover a potes, deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala

debaixo do braço.

Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha _mascotte_,

a tomar um trem.

Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva,

comtanto que não tivesse de largar a _mascotte_.

Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer

roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala

na mão, não a abandonava um momento.

Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o

desgosto que n'esse dia me feriu.

Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava

na rua de S. João da Matta.

Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um

livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me

estava occupando.

Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o

livro _A jornada dos seculos_, que eu trazia entre mãos. Julio de

Vilhena offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia

seguinte a sua casa, á uma hora da tarde, buscar o livro.

Chovia: tomei um trem.

Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a

bengala a um canto da carruagem.

Quando cheguei á rua de S. João da Matta, disse-me o correio que o

ministro estava ainda almoçando, e que eu teria de esperar pelo menos

meia hora.

Despedi o trem, sem tomar sentido no numero.

Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando.

Quando o ministro acabou de almoçar, e me recebeu no seu escriptorio,

lembrei-me subitamente de que a _mascotte_ tinha ficado no trem.

Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietação, porque

elle conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala.

Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do braço, e dirigi-me

immediatamente ao commissariado geral de policia.

A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro

de uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas

seis vintens, mas que eu estimava muito.

O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordação de

familia. Socegou-me. Como a bengala não tinha valor material,

appareceria facilmente, ia dar as suas ordens, e eu prometti gratificar

o policia que encontrasse a bengala.

Sahi do commissariado de policia para ir dar umas voltas, tratar

de negocios particulares. Mas tinha a convicção de que tudo me correria

mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de mim! havia perdido a

_mascotte_. Era, moralmente, um homem morto.

Ás cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o

Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso

de reconhecer o cocheiro que me tinha levado á rua de S. João da Matta.

De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim,

e pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da

caixa da almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da

algibeira dez tostões que lhe dei como alviçaras.

O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis

vintens, ficou a olhar para mim, espantado.

Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da

rua do Alecrim.

Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da

_mascotte_, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao

commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite,

contando a historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.

Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar

a minha crença no condão maravilhoso da bengala. Era decididamente

uma _mascotte_.

Mas um dia--que terrivel dia esse!--por acaso, n'uma esgrima simulada, a

bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção d'este

mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum

tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade

tinha-se partido com ella, ai de mim! A _mascotte_ havia fugido, como

uma alma abandona um corpo.

O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria

cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um

acaso levou.

Não ha philosophia que resista aos factos.

De varias pessoas sei eu que tiveram _mascotte_, e que criam n'ella como

em Deus.

Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que

morreu conde de Torres Novas.

A sua _mascotte_ era uma escova de fato, que o não abandonava jamais.

Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo

seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não

querer separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da

barretina.

Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O

golpe tel-o-ia prostrado, se entre a barretina e a cabeça não

estivesse a escova,--a que ficou devendo a vida.

Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos

interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez

por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar.

Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas

superstições.

Manhãs de Cascaes · 第 22 / 75 题