garantia para a tua subsistencia?
--Não quero nada.
--Pois então, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me
compraste. As nossas contas estão saldadas.
--Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.
--Fóra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada;
quem perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me
queria indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu
não fosse dissoluta, o que seria de ti?
--És muito infame lançando-me em rosto taes favores...
--Tu não córas, meu bom amiguinho. A differença entre nós é toda a meu
favor, e, se não ha outra, a unica, que conheço, está entre o vestido e
as calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma
occasião de mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em
quanto pude. Tu, nem agora, sabes dizer-me do fundo da escada:
«obrigado, rapariga!»
--Hei de embolsar-te das tuas despezas...
--Como quizeres.
--Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.
--De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim,
vê se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que
feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica,
e de me prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...
A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem
deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da
Cunha sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na
cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.
O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o
mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante
oito mezes. Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de
vigia. Estava completamente doudo: não conheceu o filho, supposto se
deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.
Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho
bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os
bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo
estava sujeito á restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra
apenas o indispensavel para manter uma vida inutil.
Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer
limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria
expulso, logo que o doudo morresse.
O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde
elle se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um
conselho; nem um indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os
credores unicamente; e d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se
retiravam appellidando-o ladrão, ou fugindo á bôca de um bacamarte com
que o devedor insoluvel os ameaçava.
Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas
botas, e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso,
que o fazia correr sem destino.
Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de
Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia
comportar a reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se.
Era imputar-lhe a causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração
absoluta de todas as suas esperanças.
Viveu assim dous mezes.
João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão
cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O
enigma dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda
todos suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que
lhe pedia contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.
Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no vinculo, mandou
immediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de
homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pae, que
foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma entorpecida
para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a
sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada
n'aquelle coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para
animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os
meios infames, com tanto que podésse tornar ao mundo e convertêl-o em
fel, em escarneo, em vingança.
Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma
esperança absurda o lisongeava!
Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria
assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com
que se lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e
devassidão com os mais distinctos da sua fileira.
Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de
furriel, na primeira promoção.
Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou
incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia
travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O
mestre de esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz
da Cunha fugiu a cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.
Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa.
Ahi vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor.
Seguiu, Tejo acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir
jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de
prêso, á qual tentou fazer uma resistencia, que lhe custou algumas
cronhadas d'arma.
No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em
conselho de guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de
Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicidio, e emprasava para elle o
momento posterior á deliberação do conselho de guerra. Dizia-se que o
mais encarniçado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar,
que promettêra uma commenda da Conceição ao auditor, se conseguisse
que o conselho militar condemnasse o réo a degredo perpetuo.
O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o
essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz,
contou a Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da
Cunha, desde as punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa
alma, deixava transpirar a compaixão das palavras, e attribuia a
expiação á serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais
tarde o levariam á forca.
A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os
infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um
momento de dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez
mezes tinham decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns
mezes de apaixonado delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel
lhe fôra. A religião, sucessora de todas as affeições de Assucena,
operára em sua alma a maravilha do perdão para todas as injurias, d'onde
quer que ellas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e não podendo
explical-a, attribuiu-a ao destino, interpretando assim do peor modo o
livre arbitrio do homem remido pelos sacrificios de Jesus, e salvo pelas
suas obras meritorias de recompensa, ou condemnado pelas infracções da
lei divina. Esta anomalia intellectual é a enfermidade de muitas pessoas
dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e descahidas, quando mais
intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do fatalismo, do destino,
do «estava escripto» de Mafoma, e do _quó Deus impulerit_ de Cesar.
Assucena viera a convencer-se do _que tem de ser_ a respeito de Luiz da
Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau
para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça.
A Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira
que ella incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san
doutrina.
D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.--Perdoar-lhe para
amal-o--dizia ella na sua consciencia--isso nunca, em quanto a mão de
Deus me não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina
se aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu perdão,
que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...
Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego,
e de sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que
ella, em extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára
compungido as desventuras de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam;
mas, de todo o meu coração, creio que sim. Não se explicam certos actos
que divinisam a creatura, se a não considerarmos tocada d'um magnetismo
que mana de fonte sobrenatural. Não posso conceber o heroismo do perdão
de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade d'um impulso divino, d'um
condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não seja esta, que
imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz de
produzir o que outro homem não produz.
Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia;
mas a coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha,
visto que não tem pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja
solto, o dinheiro que quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por
sombras que é ella a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e
padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da caridade, não tem uma só
palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promette esgotar todos os
recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos poderosos de Luiz.
XI.
SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.
O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha,
seu aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico.
Difficultava-se, portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia
na reincidencia do delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e
entregue por isso á summaria jurisprudencia militar.
Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas
Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do
dinheiro, instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.
O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por
dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho
militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente
de Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por
suggestões do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro
de Buridan, entre o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo
escrivão do processo, absolveu o réo, dando assim um testemunho da sua
moralissima independencia de viscondes.
O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão,
e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á
vista da limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia,
aluindo os obstaculos com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal
protecção poderia vir, e julgou-se ainda debaixo da tutelar
influencia de Liberata, que não podia deixar de ser o seu anjo valedor,
em todas as crises.
Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua
sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato
de fivela.
--O senhor Luiz da Cunha--disse Madureira--deve ter conhecido que alguem
o protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da
sua soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.
--Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!
--A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser
conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o
protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua
caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para
que o senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum
interesse do capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este
beneficio?
--Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer
esse Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que
me dêem baixa.
--Ha de têl-a. O senhor tem dividas?
--Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são
ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que
podésse.
--Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire
honrado de Portugal, apparentemente ao menos.
--Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo;
mas, por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me
fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse
quatro, em cinco ou seis annos prometto que os faria chegar a cem.
--É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se
arruinasse até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...
--Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se
traçam os grandes planos.
--Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos
produzam cem em cinco ou seis annos, só se meditam quando o coração
está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...
--Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?
--Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa
de importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...
--Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor
tinha razão...
--Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua
presença d'espirito!
--Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que
nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de
me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo
dia e a certa hora...
--Que foi o que o conteve?
--Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me
promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de
meu pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao
caso... O facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então
entrei nos grandes calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria
fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra
fabulosa.
--Está, portanto, resolvido a sahir?
--Se fosse já, era uma fortuna.
--Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos
dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.
--Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...
--Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos,
será sufficiente...
--Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte
mil e tantos cruzados?!
--Serão pagos.
--Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a
bondade de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance
de novella! Já me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!
--Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?
--É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha
mãe, porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem
ella foi, nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e
teria mais dinheiro que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não
tenho amigos, não sei d'onde me possa vir esta restituição, não me
consta que seja o herdeiro presumptivo d'algum capitalista... emfim,
aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me em linguagem
portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr necessario
esconder a beneficencia como se esconde um crime.
--Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.
--_Seu_, ou _sua_?
--Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um
cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.
--Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.
--Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem
custado horas d'uma tormentosa reflexão?
--Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no
sorvedouro da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não
sou insensivel á sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me
espantado da logica maldita dos meus infortunios, tenho combinado a
minha ultima desgraça com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer;
mas, ao cabo de tudo, reconheço que as minhas desventuras são fataes,
não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou victima da minha
organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto arbitrio no
mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro
representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e
abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e
evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de
que se não sáe com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive
muitos d'esses exames de consciencia, e fugia d'elles, e de mim,
aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas
o que se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a
esmola d'umas botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel
n'um philosopho descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que
os bons instinctos renascem no coração do perverso, quando o terrivel
assedio das desventuras levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das
commodidades, e pervertido n'ellas, não se divorcia voluntariamente do
vicio, na indigencia. Se meu pae não está doudo n'essa occasião, e me
recebe com carinho, e me perdoa sem me repellir da sua amizade, e me não
nega o necessario para a decencia, parece-me que a minha vida passava
por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario: vi-me abandonado;
entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me de
respeital-a.
--E lucrou, desobrigando-se?
--Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em
que vou.
--Mas deve recuar...
--Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.
--Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.
--Os outros tem sido para mim algozes.
--Todos?
--Todos, sim.
--Então o senhor não tem feito victimas?
--D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os _honrados_ pelo
suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso
que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.
--E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar
será feliz?
--Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame
padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que
não lhe encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo,
que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se
ella fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria,
fazendo a completa ventura do marido. Como fugiu comigo, o padrasto
insultou-me, cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a
cabeça...
--E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas
antipathias do padrasto...
--São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder
explicar-se... Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a
essa mulher. Entendi que abandonal-a era restituil-a á mãe; e
conserval-a minha amante era obrigal-a a cahir comigo no abysmo da
miseria, fazendo-a testemunha dos esforços criminosos que eu faria para
não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje mais feliz sem mim...
Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor conheceu-a?
--Não a conheci.
--Conhece a viscondessa?
--Sim, senhor.
--Como está essa pobre mulher? Será ella a minha protectora?!
--Não, senhor.
--De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do
casal. É um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever
em verso chulo a biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do
Porto! O responsavel da desgraça de Assucena é elle, que a não quiz
remir da deshonra com o valor de duas duzias de pretos dos centenares
d'elles, que ainda hoje são empilhados por sua conta no porão dos seus
navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o escandaloso, o malvado!
Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que sou. Dêem-me uma
independencia, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os homens
hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com elles. Como tenho
contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido,
em vez d'um ai, receberei um escarro na cara.
--Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus
precedentes são pessimos para uma rehabilitação. Empregue o capital, que
lhe derem, n'um ramo de commercio licito; aspire á independencia sem
fausto; habitue-se a uma tranquilla mediocridade; agouro que
voltará um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e
enojado das tristes recordações do que foi.
--Póde ser................................................................
..........................................................................
Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os
seus creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.
Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e
folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.
Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em
que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta
coacção á sua vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um
camarote, nos cafés, nos passeios, e nas praças. O desconhecido padre,
porém, déra-lhe como preceito a reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia,
maniatado pela dependencia do capital promettido.
O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da
pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de
beijar as mãos ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade.
Era o simples desejo d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não
obedecia ao desejo, resistindo ao silencio do agente da mysteriosa
pessoa, é por que receava perder a beneficencia com a sua imprudente e
até inutil indagação.
Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e
ahi lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro
seis contos de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes
portuguezes, que deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.
A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de
Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de
Deus para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das
culpas na balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou
n'esse momento, a contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da
Cunha, pagando as suas dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde
poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de
seu marido a espantada narração do successo, e não podéra ser superior
ao pasmo de José Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade
de Assucena, quando o caso não era de se ouvir sem pasmo.
--Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!--perguntava a viscondessa.
--Qual mulher, minha mãe?
--Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...
--Não foi, minha mãe... Fui eu.
--Tu!
--Fui eu, minha mãe!
A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha,
exclamando:
--É uma lição de virtude que dás a tua mãe.
--Um segredo eterno, sim?--disse Assucena a tremer.
--Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal...
Ficaste pobre, minha filha?
--Eu nunca posso ser pobre.. O espirito do meu bemfeitor não me
desampara...
--E não... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da
Cunha sahisse de Portugal.
--Não aceito, minha mãe... Não é por odio que lhe tenha... é que preciso
viver sósinha para gosar os poucos bens do espirito que tenho... Quem me
tirar da solidão, mata-me...
--Mas viverás sósinha com tua mãe, no meu quarto...