O prescrutador alapou-se n'um casebre fronteiro, e viu que, ás onze

horas e meia, uma sege parava defronte do portão. O padre estava a pé:

era necessario seguil-a, e, para isso, desceu da sua dignidade

sacerdotal ás astucias de gaiato, e sentou-se na taboa. O impeto da

corrida não dava tempo á desconfiança do sota. A sege parou na rua do

Collegio. O padre apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na

travessa do Pombal. Depois, seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma

casa da rua de S. Bento, reparando na subtileza com que a porta fôra

aberta e fechada. O padre não era de meias informações. Queria, por

força, distinguir á luz azulada da lua o numero. N'esta difficultosa

empreza, demorára-se, sem attender a um vulto, que desembocara da

travessa de Santa Thereza, e caminhava para elle, deixando, alguns

passos atraz, dous outros vultos parecidos, pelo capote e chapéo

derrubado, com os importantes sicarios de qualquer drama em cinco actos.

O primeiro dos tres chegou, hombro com hombro, a par do irreflectido

Madureira.

--Que quer aqui o senhor?

--Não queria nada--respondeu, retirando-se o observador.

--Não quer nada, e está com os olhos espetados n'aquella janella!

Ólé--disse o encapotado para os da rectaguarda--Conhecem este homem?

Approximaram-se os dous, e responderam negativamente.

--Que está vossê aqui fazendo?--tornou carrancudo, com voz de tyranno,

sem descobrir a cara, o interruptor de uma analyse innocente.

--Responda!--recalcitrou um dos dous--quando não metto-lhe quatro

pollegadas de ferro na barriga.

O padre não era connivente na proposta, e evitou o melhor que pôde

aceital-a, explicando d'este modo a sua paragem n'aquelle sitio:

--Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa é esta.

--E conhece o sujeito?--perguntou o que tinha certa authoridade, e certa

polidez no metal de voz.

--Conheço, sim, senhor, mas só de vista.

--E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?

--Para satisfazer a minha curiosidade.

--Pois, se está satisfeita, retire-se.

Madureira estava satisfeitissimo até com o inesperado desenlace.

Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma

porta onde entrára Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa

Nova, e esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrára:

dous foram postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois,

vira sahir um vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre

elle os outros dous, ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo

cambaleando até cahir. Duas patrulhas correram ao local do grito.

Madureira confiou nas garantias da guarda civica, e aventurou-se a tirar

a ultima conclusão dos seus principios. Foi, e viu, nos braços dos

soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que lhe

transsudava do collête branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo

menos: uma no peito, e outra no pescoço.

--O senhor viu como isto foi?--perguntou um soldado ao padre.

--Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.

--Conhece este homem?

--Nada, não conheço.

--Quem é o senhor?--perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em

que o deixára o abalo.

--Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.

--Olha que firma!--murmurou um soldado para o seu companheiro de

patrulha--Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o

murro com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que

topou com a fôrma do seu pé...

Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por

cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa

de seu pae.

Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias,

correu á rua do Principe, onde expôz na melhor ordem as aventuras da

noite; só não soube dizer que o vulto, que o accommettêra, e desempalára

o furão da casa de Liberata, fôra o conselheiro Costa e Almeida, que

não era tão _excellente creatura_ como a sua amante o imaginava.

Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais

dentro o que elle não viu, nem saberá contar ao espantado conego, e á

espavorida Perpetua.

O conselheiro fôra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. Á

primeira não deu credito. Á segunda deu algum, porque lhe marcava a hora

da entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal,

e tamanha como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz

bater á porta; mas faltou-lhe o animo na conjectura de ter de

encontrar-se com o rival. Na segunda noite, sem inspirar desconfianças a

Liberata, entrou armado, fortalecido pelo ciume. Procurou-o em todos os

cantos, com finura e resolução, e não o viu. No dia seguinte, recebe a

terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia quando elle entrava.

Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instrucções, que elles

desempenharam d'um modo que não deixou nada a desejar, porque o julgaram

morto, e as instrucções eram assim pontualmente executadas.

Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia

querer distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno,

significou-lhe a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio á

janella, e perguntou a um grupo de soldados e cabos de policia o que

acontecêra. Responderam-lhe que fôra alli apunhalado um rapaz de boa

familia do Campo Grande. Liberata voltou para dentro, entrou no seu

quarto, correu desfigurada com um punhal á sala, onde passeava o

conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle amparou

no braço.

--Já fóra de minha casa--bradou ella--quando não grito aqui-d'el-rei

contra um ladrão, contra um assassino!

--Cale-se, que eu retiro-me.

--Já sû assassino! ámanhã hei de publicar o seu nome nos jornaes, como

matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fóra de minha casa, patife!

O official maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da lingua que do

punhal.

Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso para o

Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do conde das Galveas a

cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com frenesi; fêl-o

entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um medico;

deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa

com o filho de Ricarda desfallecido nos braços, pela perda de sangue,

que ella em vão quizera estancar com os lenços, e até com as meias de

sêda branca, servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.

O medico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortaes.

Luiz da Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um

passeio de sege, ao escurecer, a par da sua estremecida amiga.

As indagações da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro não

foi poupado á irrisão publica, e a dedicação de Liberata era celebrada

como um heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos

promettiam um drama em tres actos sobre bases tão dramaticas. Outros

escreviam poesias em versos grandes intercalados de pequeno, sem que se

promettia a rehabilitação de todas as Liberatas. E com isto, os pobres

rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles, porque, desde esse dia, até

no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do abysmo, e sahiram de lá

espancados por algum marujo, que entendia melhor de fado e vinho, que de

regeneração e amor, e ellas tambem, pelos modos.

..........................................................................

Bernabé Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante

á indifferença. Eram passados quatro mezes, depois da sua quéda. A

infeliz erguia-se sem sensibilidade: parece que perdêra, com a

esperança, a memoria do passado. Ainda assim, Bernabé não se atinha ás

apparencias. Era necessario sondal-a.

Fallou-lhe em Luiz da Cunha como incidente n'uma conversação sobre o seu

passado no collegio. Assucena pedira-lhe que não fallasse em tal homem.

Replicára o conego, perguntando-lhe se lhe seria então indifferente a

vida ou a morte de Luiz.

--Antes quero que viva.

--Porque o ama ainda?

--Porque me queria vingar...

--Vingar-se!...

--Sim... vingar-me pelo remorso... É impossivel que elle não venha a

sentil-o...

--Isso é do coração?

--Do coração, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje odio a esse homem,

porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por elle, depois

de me perder... Minha mãe que devera despresar-me, ama-me... V. s.ª, e

sua irmã adoram-me como se eu fosse d'esta casa... Só elle!... é elle o

que me esquece... o que me deixou, desamparada!...

--Desamparada?... E Deos não a acolheu?

--E sabe elle se eu a estas horas peço uma esmola!

--Não... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a ultima aventura

d'esse homem?

--Não... não me importa... Onde está elle?

--Em Lisboa.

--Em Lisboa?! Não me disseram que fôra para o Brazil?!

--Quando foi conveniente dizer-lh'o. Hoje póde saber que Luiz da Cunha

vive em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a unica mulher digna

d'elle...

--Cale-se, por piedade, meu amigo...--interrompeu ella.

--Pois que? Não me disse que lhe era indifferente...

--Basta-me o odio que tenho no coração... Não posso com mais...

--Odio é muitas vezes demasiada importancia ao que é sómente

despresivel. Eu quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para

perdoar-lhe no seu coração, conversando com Deos, se os infortunios

d'esse homem forem taes, que possam attribuir-se a expiação do crime em

que Assucena foi a primeira victima.

--Perdoar-lhe... eu!

--Não gosto d'essa exaltação de cólera, filha. Em quanto ella existir,

não está cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.

Bernabé Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras

colhidas de informações que eram já do dominio publico. Assucena

escutou-as com attenção. A arte valeu-lhe muito. Manteve silenciosa

impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoção. Mas, apenas

livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O

seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dôres: odio,

amor, ciume, saudade, desesperação, consciencia da sua quéda nos braços

de tal homem, a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!

O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de

Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o conego lhe dava

despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se

distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeição com que pagava

pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua,

pareciam tornal-a indifferente ás reminiscencias, se ellas existiam, das

suas passadas desventuras.

Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em

poucas linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperára, se não um

resto de contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um

ar de saude, que os medicos lhe não promettiam. O visconde, preoccupado

com a alta e baixa de fundos, esqueceu a affronta recebida nos

Paulistas, e nunca perguntou o destino de Assucena. Luiz da Cunha de

quem no proximo capitulo fallarei mais de vagar, vivia com Liberata.

João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao menos tres partes

do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas

inintelligiveis.

Ao cabo de dez mezes Bernabé Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte,

antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.

O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irmã,

fechando-se com ella em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves,

tranquillos, e auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A

viscondessa de Bacellar ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito.

Assucena, sempre ao lado do enfermo, não podia chorar na presença

d'elle, porque o venerando velho dava visiveis signaes de que lhe era

custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas faces da que elle chamava a

sua corôa de triumpho sobre os vicios da terra. A filha de Rosa

Guilhermina só acreditou na perda do seu bemfeitor, quando o moribundo

apertou entre as suas, quasi frias, as mãos de Perpetua e as d'ella,

dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos sobre tudo que lhe era

caro, fechando os labios com a palavra «Deos» e aceitando, já no limiar

da eternidade, convertidas em flôres, as lagrimas, que enxugára aos seus

irmãos de exilio.

..........................................................................

O conego Bernabé Trigoso passava por pobre, attendendo á sua velha

chimarra, ás suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado

tricorne. O seu espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança

de seu pae, de seus avós, thesouro até preciosissimo para a numismatica,

pela variedade de moedas de prata e ouro desde D. Affonso III.

D. Perpetua não tocou n'essa caixa quadrada, com dimensões bastantes

para conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ella. Mostrou-a,

sem abril-a, dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu

patrimonio está aqui, minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é

a dona. Meu bom irmão não teve animo para lhe dar os seus ultimos

conselhos. Já morreu, já lá está na presença de Deus; mas elle vê e ouve

o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem cedo vou ter com elle. Tenho

sonhado todas as noites, que meu irmão me chama para si... É tempo de

cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, Assucena será

tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui nascida e

creada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa

ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus

chamar a contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva

n'essa quinta, que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religião e o

temor dos juizos divinos. Tome como director da sua vida o padre

Madureira, que aprendeu a ser virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a

menina ha de entrar na casa de sua mãe, e então estará livre de todas as

perfidias do mundo; mas, em quanto o não fizer, viva recolhida com a sua

boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus desgostos, dando-se ao

prazer de dar esmolas sem ostentação, que foi sempre a constante

virtude do santo, que Deus nos levou para a côrte celestial. Ha quasi um

anno que vive n'esta casa: já agora ha de fechar os olhos ás duas

pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo a pedir ao

Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos, porque

meu irmão está no ceo pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo

nosso anjo.»

A singela prática acabou por lagrimas, que a interromperam.

Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicavel effeito de uma causa

superior ao entendimento.

Como o seu desejo era morrer onde nascêra, a irmã do conego mudou para o

Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas

senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.

D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de

caridade, como se devesse ser essa a ultima lição de Assucena.

Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a

rapida consumpção que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em

verdade seu irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas

ainda de vitalidade para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao

padre Madureira. E fechou o cyclo das suas virtudes, convidando a sua

attribulada amiga a presenciar a morte d'uma mulher sem a consciencia

d'uma injustiça. Só ella conheceu o seu fim, como se o anjo da

bemaventurança lh'o segredasse. Morreu, abençoando Assucena, e

passando-lhe ás mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto pela

aridez cadaverica.

..........................................................................

Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão

desvalida. Não sabia a significação encyclopedica da palavra «dinheiro.»

X.

COMO OS ANJOS SE VINGAM.

Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias,

comparadas entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando

para Deus um vôo; a outra afundando precipitadamente na região das

trevas, na infinita desesperação.

O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em

casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na

convalescença dos ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a

taes protestos de retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que

Liberata, tão incapaz de avalial-os como quem lh'os promettia, ria com

cynica desenvoltura da sua rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.

O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias,

entrára na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára

certas maximas de alta importancia para a sua futura felicidade.

A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito.

Primeira maxima.

O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque

assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio

douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.

Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é

feliz na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.

A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta,

muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.

A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas

propensões, quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente

de seios nús no estrado do alcouce. Quinta.

O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a

outra, é um tolo. Sexta.

_Et cetra._

E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era

esta a mulher, que mais servia as suas propensões, e mais credito

adquirira sobre o seu reconhecimento.

Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se allia

ao nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vêl-a saltar-lhe

ao pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta

a gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata

tambem tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas

entre as do seu amante não se encontravam algumas, que eram a base

fundamental de todas as outras no catecismo d'ella. Eram estas:

Toda a philosophia sem dinheiro é uma tolice.

Não ha nada que se pareça tanto com o mendigo como o philosopho pobre.

Bolsa vasia, intelligencia manca.

Sem dinheiro não se affrontam os desprêsos da sociedade.

Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te

despresa, mas dá-te com o tira-pé.

Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.

A deshonra, que se estorce n'uma esteira, é que nunca se rehabilita.

Rehabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.

Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria

proposta de Luiz da Cunha.

--Estás doudo!--accrescentou ella, batendo as palmas--Tragam-me uma

camiza de força para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar

comigo!... Tu fallas sério?!

--Fallo sério... fallo-te com o coração.

--Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de

creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...--dizia ella,

anediando-lhe as guias do bigode--Que será feito d'essa illustre menina?

--Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas

diz-me cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!

--É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda

asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria,

pouco mais ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico

para sustentar o meu marido pobre.

--Mas hoje não acontece assim.

--Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi

despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A

sege e os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão

depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario

adquirir outros. Ora agora, imagina tu que és meu marido, e vê lá se te

convém ficar atraz da porta, muito caladinho, para não assustar o amante.

--Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te

sacrificarias ao amor e á posse d'um só homem.

--Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os

credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este

vestido de sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita

de uma costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a

teu pae! Não te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo

extravagante para me phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas

que pareciam cahidas do ceo n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas

resolvido a pôr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balcão!

--É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.

--Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma divida. Sem ti,

meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em

espectaculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escandalo faz

perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, vendo-me comtigo. O

capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O

americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de

muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva.

Quando não podér, digo-te adeus por algum tempo.

--E despedes-me?

--Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se

não offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por

algumas horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de

mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres

aproveitadas...

Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra

ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma

permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um

curto passeio.

Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural,

fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu,

porque tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das

mesmas sensações, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os

cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de

fóra, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não

lhe dava canceira a restituição dos fundos.

Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se

congregavam em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis

vadios, poucos litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre

infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda,

e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da

consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se

infame. As maximas, que forjára na cama, durante o periodo da cura,

não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A

devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos

despertos da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em

baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com

Liberata esta importante prática:

--Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum

tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a

pedra philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais

quatro mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as

minhas pulseiras, e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais

d'um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai

ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. Já te disse

que não sympathiso nada com a honrada miseria, e a miseria a que nos

vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno da desesperação, embora

digam as novellas que uma tranquillidade de consciencia, mantida pelo

trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu deixo essa ventura á

mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...

--Isso quer dizer que...

--Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma

penetrante intelligencia. Não achas que tenho razão?

--Tens...

--Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz

seu herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu

tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto

é que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

--Vejo que és sempre a mesma mulher!

--Não te comprehendo bem.

--És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

--Justamente a mesma.

--Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na

mesma noite do dia em que a deixei.

--Tal e qual.

--A mesma dissoluta.

A Neta do Arcediago · 第 6 / 13 段