artista apaixonado e de homem de coração, como elle mesmo o confessa.
Espirito educado nas pugnas litterarias, adestrado luctador da imprensa,
temperamento rijo e masculo, como em regra o dos filhos da região
septentrional, Marques de Carvalho, ao deixar o posto de redactor d'_A
Provincia do Pará_, a brilhante folha do norte, onde muito cedo ainda
começara a trabalhar ao lado do dr. Assis, de Antonio Lemos, de Jovino
Ayres e de muitos outros jornalistas distinctos, trazia um nome
laureado. _Hortencia_, _Livro de Judith_, _Contos Paraenses_ e alguns
opusculos em que firmou a sua ardente fé republicana, davam-lhe foros de
escriptor consagrado pelos applausos publicos.
Secretario do governo republicano do Pará e mais tarde diplomata, o
auctor de _Entre as Nymphéas_, apezar das responsabilidades e dos
labores da carreira politica, não esqueceu o culto ás lettras, nem
abandonou os seus antigos idéaes.
Prova-o o seu novo livro.
Começamos estas linhas dizendo que a imprensa argentina colmara de
elogios esse livro, cuja edição é um primor de factura typographica, e
referimo'-nos a isto para mencionar de preferencia, entre tantas
noticias laudatorias dos jornaes portenhos, como _Patria Italiana_, _El
Diario_ e muitos mais que vimos, o bellissimo artigo de Rubén Dario, o
elegante e fino estylista, no periodico illustrado _Buenos-Aires_.
Rubén Dario é um escriptor venezuelano e critico erudito, que illustra
com seus trabalhos litterarios varias folhas da capital argentina,
especialmente _La Nación_, onde temos lido ultimamente o seu bellissimo
estudo sobre o admiravel livro de Menéndez Pelayo, _Antologia de poetas
americanos_.
Tratando do livro do nosso compatriota Marques de Carvalho, diz Ruben
Dário[1]:
«Pouco conhecida é entre nós outros a litteratura brazileira
contemporanea, aliás tão opulenta e brilhante, que quasi poderia
considerar-se a primeira da America latina. Desde os velhos, os
veteranos das lettras, que escrevem na _Revista Brazileira_, até essa
ardente e amestrada geração que se manifesta em publicações tão
habilmente sustentadas como _A Semana_, a producção mental do Brazil é a
muitas respeitos digna de attenção, e d'ella, mais que de nenhuma outra
dos paizes latino-americanos, se tem occupado por vezes a critica
européa.
Quem conhece entre nós--para citar só um nome--esse critico de tão
solida e profusa erudição, tão moderna variedade e bella galhardia, que
se chama Araripe Junior?»
.........................................................................
E accrescenta depois:
«Ao percorrer as paginas d'este livro, vê-se que quem o tratou é
escriptor que não desdenha o amor da arte da palavra. Se não ha ali o
labor de um artista, se não chega até aos virtuosismos de fórma de
alguns dos seus jovens patricios--a verdade é que elle se proclama
singelamente «naturalista na expressão»--tem uma espontaneidade e um
dizer amavel que impressionam mui favoravelmente.
Narra sem _ambages_; dá uma bella impressão da natureza tropical nas
suas descripções selvagens e fluviaes.
No principio conta os suaves deleites do isolamento; Zimmermann ficaria
muito satisfeito com elle. Depois, um bando de gaivotas leva-o a exhalar
suspiros de vaga melancolia. Recordando o pavoroso naufragio do _Purús_,
no grande rio, catastrophe em que pereceu a mãe de sua mãe, a
manifestação do sentimento expande-se em commoventes e intimos periodos.
As expansões familiares continuam em amorosos trechos dedicados á sua
filhinha. No _Cemiterio da floresta_, a phrase se avigora e o cuidado do
estylo substitue os anteriores desafôgos pessoaes, que se renovam n'uma
pagina profundamente sentida, na qual rememora a morte de sua mãe. Ahi
conclue a primeira parte, que elle denominou _Subjectivismo_.
Na segunda, _Objectivismo_, encontram-se elegantes, delicadas, graciosas
coisas. _A pesca de Deodato_ é um conto repleto do bom-humor, que alegra
o fantastico da narração; etc.
_Mater dolorosa_ é um triste episodio de dôr materna; _Yaras paraenses_,
uma encantadora _humorada_; _Uma historia de amor_, uma série de cartas
de um Marcel Prévost, agradabilissimas, e _A filha do Pagé_, uma
narrativa muito humana e muito bonita.
O livro lê-se rapidamente, gostosamente. Eu felicito o seu auctor, que
me proporcionou uma feliz meia-noite até o amanhecer».
Taes são os conceitos expressos pelo illustre critico em artigo especial
do _Buenos-Aires_, illustrado com um excellente retrato de Marques de
Carvalho.
O nosso joven compatriota deve sentir-se bem compensado dos seus
esforços, vendo-os prestigiados por auctoridade tão eminente nas lettras
americanas, e nós não dissimularemos o jubilo que nos enche a alma cada
vez que o nome de um brazileiro levanta longe da Patria applausos e
acclamações tão raramente e tão avaramente prodigalizados em geral.
[1] Rubén Dario é um dos mais competentes criticos litterarios da
actualidade e o mais vigoroso estylista em idioma espanhol na
America do Sul.
De Arthur Azevedo, na secção «Palestra», d'_O Paiz_:
Li de uma assentada _Entre as Nymphéas_, o interessante livro que o
nosso distincto compatriota J. Marques de Carvalho publicou em
Buenos-Aires, onde exerce o logar de 1.º Secretario da Legação
brazileira.
O volume divide-se em duas partes--_Subjectivismo_ e _Objectivismo_. A
primeira consta de paginas intimas, escriptas em estylo agradavel, mas
um tanto rebuscado; na segunda, mais curiosa, mais simples e mais
variada, encontram-se quatro bellos contos que transportam o leitor ás
magestosas margens do Amazonas e _Uma historia de amor_, fantasia
psychologica, condimentada _à la mode de Paris_.
Essa espirituosa composição contém sete cartas, escriptas por uma mulher
durante mez e meio, que são o prologo, a acção e o desenlace de uma
aventura de amor. O livro de Marques de Carvalho, que sabe manejar a
penna perfeitamente; contém paginas verdadeiramente encantadoras. _A
filha do Pagé_ o conto com que termina o livro, é uma chave de ouro.
Accrescentarei que o volume, um primor de impressão, imitando as mimosas
edições Guillaume, de Paris, faz honra ao editor Arnoldo Moen e á
typographia _La Vasconia_, de Buenos-Aires.
O general dom Bartholomeu Mitre, que foi commandante das forças alliadas
contra o Paraguay e presidente da Republica Argentina,--sendo além de
tudo um dos mais eruditos e festejados litteratos contemporaneos,
dirigiu a Marques de Carvalho as seguintes linhas, ao receber um
exemplar de _Entre as Nymphéas_.
Bartholomeu Mitre saúda attenciosamente ao ex.mo sr. J. Marques de
Carvalho Encarregado de Negocios do Brazil na Argentina e agradece o
precioso livro que se serviu offerecer-lhe, o qual conservará como uma
lembrança na sua Bibliotheca Americana, com a honrosa dedicatoria
autographa do auctor, a quem deseja todas as felicidades n'este paiz.
O sr. dom Mariano Pelliza, diplomata e historiador argentino, tambem
enviou estas palavras ao auctor:
Mariano A. Pelliza, sub-secretario de Relações Exteriores, saúda ao seu
amigo Marques de Carvalho e compraz-se em enviar-lhe os seus
agradecimentos pela joia litteraria (por esta vez,--joia--não é
metaphora) com que teve a gentileza de o obsequiar.
Herculano Marques Inglez de Souza, o illustre jurisconsulto e eminente
litterato brazileiro, endereçou a Marques de Carvalho a seguinte carta:
Cumpro um grato dever, agradecendo cordialmente a V. a dupla distincção
que se dignou fazer-me, offerecendo-me um exemplar do sou bello
livrinho--_Entre as Nymphéas_ e dedicando-me as sentidas e delicadas
paginas que escreveu a proposito da tragedia do vapor _Purús_.
Já conhecia de V. alguns trabalhos e, entre elles, a _Hortencia_,
romance em que revela grandes qualidades de observação e muito amor á
verdade na Arte. O seu novo livro mostra que áquelles predicados sabe V.
alliar muito sentimento _verdadeiro_ e um estylo colorido e sóbrio.
A conceituada _Revista Brazileira_, do Rio, estampou o seguinte juizo
critico:
Como a canôa que deslisa por entre a vegetação aquatica que deu o titulo
a este elegante livro de contos, vae a alma de quem o lê levada de
narrativa em narrativa, sem se emmaranhar nas enrediças do estylo
caprichosamente entrelaçadas.
Com effeito, reproduzem-se n'este livro delicado as infinitas gradações
de côres que o sol dos tropicos, enfiando o pincel de raios pelo prisma
das cataractas, fixou nas pennas das aves e nas folhas dos nenuphares. E
com a vehemencia com que pelas regiões do Amazonas brotam as açucenas do
seio das aguas, o sentimento do bello enraizado profundamente na alma do
escriptor desabrochou em commovidas phrases á flôr do pranto que lhe fez
verter a saudade da filhinha ausente ou da mãe que elle viu finar-se.
_Brinde a minha filha_ e _Um anniversario_ são paginas escriptas com o
proprio sangue e incluidas na 1.ª parte--_Subjectivismo_, que o auctor
offerece a sua esposa. O subjectivismo terá sempre esta superioridade
incontestavel: que na ignorancia em que depois de tantos seculos de
philosophias ainda se encontra o homem com respeito á lei do universo,
somente a que em si sente póde ter uma tal ou qual consciencia; d'onde
resulta que, ainda quando copía o mundo exterior, é o seu proprio
sentimento que empresta ás coisas. Por isso o homem persiste em affirmar
que os montes são tristes, que choram os mares, que riem as searas, que
folgam as aves, e não quer ver que nem os montes são tristes, nem choram
os mares, nem riem as searas, nem folgam as aves e que só elle é triste,
chora, ri ou folga, porque só elle possue em toda a natureza a
capacidade das alegrias supremas comparada com o dom das supremas
angustias.
Da 2.ª parte--_Objectivismo_, commoveram-nos principalmente as duas
narrativas _Mater dolorosa_ e _A filha do Pagé_, a historia
entristecedora de uma mãe que vê o filho engulido pelo gigante rio do
Norte e a de um velho indio que chora a filha deshonrada. Estes dois
contos confirmam-nos na crença de que é, quando menos, inutil para a
arte a distincção entre _subjectivismo_ e _objectivismo_. Se o auctor
logra transmittir a quem o lê a emoção espontanea ou reflexa de que se
acha possuido (e é o caso do sr. Marques de Carvalho), a obra é
verdadeira; se não logra, a obra é falsa, porque, em todo caso, é sempre
o objectivismo do leitor que julga em ultima instancia.--S. R.
End of Project Gutenberg's Contos do Norte, by João Marques de Carvalho