A villa em peso acudira á solennidade, attrahida pelo repique jovial dos

sinos. Por entre as portas escancaradas vinham de junto do altar-mór

adocicadas emanações de thuribulos; o fumo azulado do incenso evolava-se

muito subtil para o alto, como a imagem das aspirações geraes. E as

mulheres, lá dentro, oravam contrictas, duplicando as preces ao

ceu,--que não viessem os cabanos trazer até acolá as infamias cuja

narrativa era bastante para levantar-lhes os cabellos apavoradamente.

* * * * *

A subitas, um murmurio na matriz annunciou que ia começar o sermão.

Houve no adro um movimento de refluxo; afinal, mais ou menos toda gente

penetrou na egreja. Raros homens ficaram saboreando as ultimas

cachimbadas nos rechinantes taquarys de Cametá. Um minuto depois, erecto

no pulpito, pallido na alvura engommada da sobrepeliz de rendas, padre

Constancio dominava o auditorio com a singeleza da sua palavra

despretenciosa.

Appareceu então na praça que antecede o adro um grupo de homens

desconhecidos: quatro caboclos de féra catadura olhavam para tudo e para

todos, como se visitassem a localidade pela vez primeira. Buscavam,

tanto quanto possivel, que ninguem os visse; e auxiliava-os a gosto uma

grande moita da carrapateiros, ahi deixados pela foice descuidosa dos

capinadores municipaes ou pelo capricho do sacristão, que era o

superintendente do asseio do sitio.

Ia vindo a noitinha. O ceu fizera-se antes da côr da perola, mas a pouco

e pouco ensombrava este matiz com as tintas da sua palheta nocticolor.

Tauxiações indecisas de estrellinhas palpitantes picavam-se aqui e ali,

na sombria abobada. Volitavam auras fagueiras e, por toda a parte,

invisiveis insectos zumbiam. Só o areial da praia fronteira extendia

pela orla da floresta um listrão claro, como se houvesse absorvido e

conservasse o quente rubor do raio de sol que estivera a mordel-o pouco

antes.

De repente, estrondou um tiro no adro; a chamma scintillou com viva

fulgencia no crepusculo expirante. Um dos caboclos avançava, já affoito,

do meio dos carrapateiros. Na matriz foi um só o presentimento geral: os

cabanos! Padre Constancio quasi desmaia no pulpito, muito pallido, sem

voz. E nem desvanecido estava o sobresalto da primeira surpresa e já

toda gente pensava em correr a casa e encerrar-se. Mulheres levavam as

mãos á cabeça, chamando os filhos, gemendo de mansinho umas,

lamentando-se outras em altos gritos. Uma consternação! Pensar na

resistencia ninguem poderia fazel-o. A villa, bonacheirona, confiara ao

ceu a tarefa de a livrar dos rebeldes: entre todos os habitantes não

seria facil encontrar e reunir mais de meia duzia de espingardas. Que

calamidade! Deu-se então, por todos os lados, uma desordem,--os

atropellos, a algazarra dos grandes panicos. Buscava-se a porta

principal, com fernesi. No entanto, a affluencia do povo formara uma

columna espessa, demasiado larga, e não tardaram as compressões.

Creanças e mulheres estertoravam sob o sapateio dos fugitivos. Do adro

vinha a grita dos cabanos, já senhores da localidade.

Tremendo então pelas suas amadas ovelhas, sopesando a responsabilidade

em que incorrera, padre Constancio deixou-se cair genuflexo e levantou

as mãos, do lado do altar, com desvairado fervor.

* * * * *

Os cabanos tinham vindo por terra surprehender a villa em plena festa de

Ramos. Guiara-os pelo matto o Mané Xico, o inimigo do juiz de direito,

ficando no furo da Jararaca, a duas milhas de distancia, as numerosas

canoas da expedição rebelde.

Quando os primeiros fugitivos sairam para o adro, já a praça contigua

estava occupada pelos cabanos, em numero superior a duzentos, muito bem

armados. Capitaneava-os o Borba, feroz caudilho que Angelim distinguira

como chefe das operações n'aquellas bandas. Este individuo votava

profunda ogerisa ao vigario: jamais lhe perdoaria a reprimenda com que,

um anno antes, o fulminara, em Curralinho, por ter esbofeteado a propria

mulher. Que bello ensejo então para pregar-lhe uma peça! Chamou o seu

logar-tenente e mandou buscar o padre.

Veiu logo o sacerdote, com a sobrepeliz amarrotada, a estola do avêsso,

todo elle tremendo como a sururina moribunda.

--Ora passe p'ra 'qui, seu fradalhão! gritou-lhe o Borba, mal o avistou

entre dois cabanos, ameaçadoramente armados de clavinotes. E logo

ordenou que fôssem buscar tambem a Mariasinha, filha do pescador Sabá.

Quatro grandes fogueiras, accêsas por ordem do chefe, illuminavam o

recinto. Ninguem mais ousara fugir; o povo agrupava-se pelo adro e pela

praça, em recolhida attitude, quasi sem movimentos, temeroso da morte.

Eram tão maus os cabanos! Havia pelos grupos feminis silenciosos

soluços. Lancinante quadro, em verdade e por elle é que o ancião chorava

também perdidamente.

--Faça-me soffrer, exclamou, porém não persiga esta boa gente!

--Cale a bôcca, idiota! respondeu-lhe o Borba, n'um meio sorriso que a

todos apavorou mais do que a maior das ameaças.

Entretanto, acercava-se um troço de rebeldes, trazendo comsigo Maria,

discipula de Constancio. Que vinha por seus pés quasi não se poderia

affirmar, pois era ao collo que o mais espadaúdo caboclo a conduzia,

semi-morta de mêdo.

Borba tomou petulante attitude, cofiando as raras répas do bigode falho,

sempre a sorrir. Ordenou:

--Padre Constancio, passe á frente!

Arriscou o sacerdote algumas pernadas trôpegas.

--Aqui, ao lado da Mariasinha, tornou a dizer o chefe.

Constancio approximou-se.

--E agora, intimou o caudilho; se quizer, dê um beijo na cunhantan. Eu

sei que você gosta d'ella. Pois despeça-se!

E, voltando-se para os companheiros, explicou em voz fortissima:

--Deliberei repudiar a vibora de minha mulher, amigos, e casar-me com

outra rapariga. Convido-os para assistirem á ceremonia que padre

Constancio, bem contra vontade, celebrará agora mesmo. A egreja está

preparada e a noiva é esta!

E designava a mimosa discipula do padre, cuja primeira communhão fôra

marcada para o proximo domingo.

Não pôde o povo dominar uma exclamação de surpresa e repugnancia. Ao que

logo retorquiu o cabano:

--Que ninguem arrede d'ahi. O socego é a condição da vida dos habitantes

da localidade.

E tomando a caboclinha nos braços, levou-a para o templo. Constancio,

barafustando, protestava aos gritos, arrastado por dois sicarios.

* * * * *

O desenlace do caso é evidente: recusando-se a satisfazer ao sicario, o

padre foi assassinado sobre os degraus do altar. Mas nem por isso a

cheirosa e innocente Mariasinha deixou de ser, d'então em deante, a

concubina do caudilho, que a violou ali mesmo, na sacristia.

Só por tal preço os cabanos abandonaram a localidade, na manhã seguinte.

UM COMO TANTOS

UM COMO TANTOS

PARA O LICINIO SILVA, ESTA OBSERVAÇÃO.

Haviam já passado para Nazareth, de volta do Vero-peso, os derradeiros

bonds do espectaculo. A pouco e pouco, os peões tinham rareado no

cimento dos largos passeios das avenidas,--o transito fizera-se nullo,

um ou outro noctivago impenitente andava errante á sombra propicia das

folhudas mangueiras, investigando a distancia com olhares incendidos de

uma ponta de lubricidade contida a contra-gosto. Nos renques da

illuminação electrica manifestavam-se eclipses intermittentes, contra os

quaes praguejava, sem bem saber porquê, o cocheiro d'uma carruagem

estacionada em frente ao Club Universal. Poucas mesas restavam no

terraço do Café Riche. Entretanto, um creado somnolento, não obstante a

ausencia de frequentadores, persistia, pelo habito, em dispôl-as em

symetria, rodeando-as de cadeiras. O chão estava zebrado de humidades

adocicadas, escorrido de Apollinaris transbordante, coalhado de rolhas,

aqui e acolá brilhante de pedaços de capsulas das garrafas de cerveja.

Perto, gania um cão. Mas outro cachorro irrompêra do centro da enorme

praça, viera em linha recta, cabeça baixa e cauda erguida, para junto

d'aquelle e, após as rapidas saudações peculiares, fôram-se ambos,

General Gurjão a baixo. Liberrimos animaes!

Silverio, meio voltado para a esquerda, acompanhara-os com a vista,

distrahidamente; até desapparecerem na silente escuridão da rua. Estava

sentado n'um banco, havia muitas horas, defronte da curva dos bonds. O

olhar avistara um cartaz collado á parede da Casa Adolpho: uma

parisiense, com a saia batida pelo rijo vento de Montmartre, puxava um

carro-annuncio, formoso preconicio do estabelecimento. Pareceu-lhe que a

sua situação moral estava em analogia com o quadro, afora os matizes

garridos. Elle tambem andava atrelado ao carro da vida, fustigado e

zurzido pelo tufão dos dissabores domesticos. As tintas, porém, com que

se devêra pintar a sua existencia tinham de ser amassadas na palheta das

desditas,--toda a gamma sombria das cores carregadas, desde o roxo dos

goivos ao negro da infelicidade.

Desviou a vista do obsidiante cartaz, pois não fôra para atiçar tristes

lembranças que saíra de casa. Bem ao contrario, necessitava de distrahir

o espirito, refrescar o cerebro na suave tranquillidade da noite, em

plena praça. Tirou o chapéu, conservando-o na mão direita e extendeu os

braços pelo espaldar do banco. A cabeça, de largas entradas, pendeu para

traz: dir-se-ia um crucificado; e o olhar foi ao alto, cravou-se na

insondavel amplidão do espaço, ao fundo da qual phosphoresciam

estrellas, aos milhares. Afundou-se então na tremenda reviviscencia dos

seus infortunios.

--Lá vae ella outra vez, bradou alguém, á direita.

Silverio, com um estremeção, voltou á vida exterior, buscando descobrir

quem falava. Era o cocheiro,--o Cadete ou o Bruzegas,--á porta do Club,

encarapitado na bolêa, a denunciar em soliloquio cada intermissão na luz

do foco electrico mais próximo.

--Feliz mortal, murmurou Silverio, invejoso da despreoccupação d'aquelle

homem.

O Riche, a cuja porta cabeceava o proprietario, estava sempre

illuminado; e o servente, fatigado alfim de ordenar mesas e cadeiras que

ninguém desarrumava, ia toscanejando, mesmo de pé, escorado á cêrca de

uma das mangueiras. Cessara de todo o movimento de transeuntes. Os

demais cafés da avenida haviam fechado. Pelas janellas abertas do

Universal, desciam ondas da illuminacão dos salões desertos. Nos dois

passeios, varredores urbanos passavam sobre o cimento, em largos gestos,

longas vassoiras de sacahys. E bem adeante de si, viu Silverio, ao meio

do enorme quadrilongo, com o pedestal rodeado de fulgurantes globos

electricos, erecta no alto da desproporcionada columna, a estatua da

Liberdade, emergindo por sobre a folhagem da arborisação.

--Liberdade! Não ser eu também livre! murmurou suspirando. E, mau grado

o seu empenho em distrahir as idéas, voltou a concentrar-se nas maguadas

recordações da propria desgraça.

Casado ha quatro annos, com uma compatriota, uma italiana, a quem aliás

déra logar em seu leito por um impulso de generosidade, ante a extrema

pobreza dos paes d'ella, a breve praso começou a verificar que

disparidades capitaes de genios e educação os incompatibilisavam para a

vida commum. Ao principio, insignificantes arrufos chegaram a

offerecer-lhe um sabor novo na existencia: das pazes que se lhes seguiam

vinha um renascimento de ternura, uma ineffavel delicia para a

intimidade dos longos e mudos amplexos. Illusorios aperitivos, taes

amuos. A pouco e pouco avultaram, tomaram corpo, assumiram as proporções

de graves pendencias barulhentas. A mulher tinha a bóssa da loquacidade

desenvolvida; e, quando se enfurecia, eram interminaveis gritarias, que

o desesperavam na razão directa do natural socegado e taciturno do

infeliz.

Aggravou-se depois esta situação, já bem penosa, com a intromissão dos

paes de Luiza. A sogra levou-lhe para o lar a contribuição de torturas

ineditas. A cada gesto, a cada passo de Silverio, uma recriminação.

Embalde buscava o pobre comprar a paz do lar á custa de pequenos

presentes para seus tres algozes: nada prestava, tudo de infima especie.

«Já viram homem tão falto de gosto?» O Silverio experimentara ao

principio chamar á ordem a mulher, com o auxilio de raciocinios

discretos, arriscados a medo, mansamente, meigamente. Emtanto, por amor

dos dois filhinhos que tinham surgido entre accessos de raiva e curtas

calmarias, sacrificou todo o resquicio de sua virilidade moral:

recolheu-se ao impassivel silencio de quem acceita resignado a

brutalidade do destino. Quando rebentavam-lhe no lar os grandes

temporaes, recolhia-se a um quarto, embrulhava-se na rêde, tapava ambos

os ouvidos. E mulher e sogra, espicaçadas pela inesperada evasiva, iam

levar-lhe a saraivada das invectivas superagudas, esganiçadas em

falsete,--emquanto o sogro, impando da farta bonaxira de malandrim

obeso, fazia em voz cava os soturnos trovões das ameaças: «Hei de

quebrar-te as pernas, cão!»

Todo o seu affecto reverteu para as duas creanças, um pequeno e uma

rapariguita adoraveis, que chegavam a ter graça, tal a sua candidez,

mesmo repetindo em timidos balbucios as calumniosas exclamações da

velha: «Papae é mau! papae é feio!»

Feio, sim, e não era por sua vontade que nascera com uma caraça

espalmada, que o sol da America do Sul tostara duramente. Mau, porém,

não; e em silencio protestava contra o qualificativo. Dizia-lhe a

consciencia não ser merecida a apostrophe; comtudo, sem escorraçar os

meninos com a mais leve sombra de censura, tomava-os ternamente pela

cinta, sentava-os ao collo, um em cada joelho, acariciava-os de manso,

amimava-os, cobrindo-os de beijos e de silenciosas lágrymas.

De tudo isto lembrava-se o desditoso Silverio, inerte no banco da

avenida, as pernas entorpecidas pela demorada immobilidade. Ainda ha

pouco, ao anoitecer, houvera em casa uma terrivel scena. Persuadira-se

Luiza estar o marido auferindo grandes lucros n'uma industria inaugurada

mezes antes, lucros que desviava ás occultas para a Europa. E deu para

exigir-lhe «a sua parte no negocio». Sogro e sogra tinham acudido com

argumentos e gritos: «De certo, é preciso pintar já para aqui os

cobres!» E, desenvolvendo preceitos juridicos, explicava o velhote que

«a não cohabitação material dos conjuges recolhidos sob o mesmo tecto

não impedia a co-participação na pecunia». Dispensou-se de se desculpar,

o Silverio; e, para não irem mais longe os brados, que estavam já a

incommodar a vizinhança, tomou dissimuladamente o chapéu, fugiu

precipite rua adeante, até á avenida. Ali, ao menos, estava fóra da

socerina alçada. Safa!

A vista da estatua suscitara-lhe a nostalgia da liberdade. Relanceou um

olhar pelo passado, desde a sua chegada a Belém e pasmou de ainda sentir

dentro de si o que se chama um coração e uma alma, após soffrimentos tão

longos e tamanhos. Onde teria elle o bomsenso, já revelado desde a

adolescencia, quando commetteu a leviandade de casar com Luiza? Nada o

libertaria agora, porque a sua inteireza de animo, a sua correcção

nativa lhe vedavam o supremo recurso da fuga. Prendiam-n'o ao cepo

abençoadas cadeias: os filhos, que eram os doces élos ligando o seu

alvedrio á desdita.

As creanças! Elle também fôra pequenito, descuidoso e travesso infante,

nas amplas veigas lombardas, rescendentes a rosmaninho. Creara-o a

inexgottavel ternura da velha mãe, e tinha sido ao som dos rudes osculos

bonachões do pae que elle, apaparicado á porfia, encetara a solettração

do singelo alphabeto das caricias familiares. Em casa, no antigo e pobre

lar, tão arejado no verão e tão cheio de tepidos brazeiros pelo inverno,

quando o norte inclemente bramia rispido nos olivaes e carvalheiras, só

recebera edificantes exemplos de tolerancia mutua entre esposos amantes,

de respeito calmo, de intensissima affeição. E na dupla contemplação do

carinho de seus progenitores e da forte paixão com que o gado amava na

pradaria, manhã cedo, ao abalar da arribana, iniciara Silverio, desde

joven, o seu grande sonho de um lar todo meiguices, em férvida ventura

conjugal. O sonho fôra deveras fugaz. Em pesadelo tornara-se depressa,

n'estes ardentes paizes americanos, onde tudo parece crescer,

desenvolver-se e passar vertiginosamente. Aquelles saudosos tempos

estavam longe, formavam um grupo separado, distincto, na vasta collecção

de suas recordações de outróra. Presentemente, nada restava da

tranquillidade em que se formara a sua adolescencia, na Europa, nem dos

esperançosos, dulcissimos sobresaltos que chegavam a tirar-lhe o somno,

retendo-o até alta noite no sombrio tombadilho do vapor, quando fizera a

travessia do Atlantico. Tudo fugira, na definitiva liquidação da sua

felicidade.

Esta dolorosa introversão foi interrompida por um relinchar de cavallo.

Olhou Silverio á direita, como voltando de um sonho. Tinham-se afastado

os varredores, andava ainda no ar, peneirada na luz dos focos

electricos, a poeira levantada pelas compridas vassoiras. Sempre aberto,

o Universal manchava de claro a ramaria das mangueiras com a projecção

das salas illuminadas. Em frente á porta, o cocheiro falava manso aos

animaes impacientados. E o creado do Riche, desperto pelo relincho,

obtivera do patrão a ventura de um gesto, ordem muda para fechar.

Entrou Silverio a acompanhar-lhe com a vista os movimentos, as idas e

vindas, mesas levadas aos pares, cadeiras conduzidas a duas e duas em

cada mão. Feliz homem, esse creado, pensava, se não tinha a inenarravel

desdita de possuir um inferno em vez de lar. Ia dormir socegado, tendo

trabalhado materialmente,--reparadoramente. A subitas, atravessou-se-lhe

uma idéa no cerebro. Erguendo-se n'um esforço, bateu forte com os pés no

lagedo, para os desentorpecer, e chamou o servente:

--Deixe essa mesa, disse, traga um cognac.

E sentou-se, com esta sentença espipada de sua ironia dolorida:

--O alcool é a mortalha da dôr.

INDICE

PAG.

Dedicatoria

Uma homenagem I

Represalias 13

Um exgottado 35

Conto do natal 49

A neta da cabocla de Ourém 57

O banho da tapuia 83

Complicações psychologicas 95

Um caso da cabanada 111

Um como tantos 127

OPINIÕES DA IMPRENSA

ENTRE AS NYMPHÉAS

Contos e sensações

POR

J. MARQUES DE CARVALHO

Edição-miniatura de Arnoldo Moen, de Buenos-Aires

_OPINIÕES DA IMPRENSA_

Este novo livro do auctor de _Hortencia_ foi muito lisonjeiramente

acolhido pela imprensa nacional e extrangeira. Vamos reproduzir algumas

opiniões de jornaes e escriptores notaveis, externadas por occasião do

apparecimento do formoso livrinho.

D'_O Paiz_, do Rio de Janeiro:

De Buenos-Aires recebemos um volume do livro _Entre as Nymphéas_, ultimo

trabalho litterario do nosso compatriota Marques de Carvalho, Secretario

da Legação brazileira. Compõe-se de onze novellas escriptas na Amazonia

e foi primorosamente impresso pela casa «La Vasconia» da capital

argentina.

É o primeiro livro em portuguez publicado em Buenos-Aires, mas não foi

posto á venda ali. Apenas será encontrado na livraria Fauchon, d'esta

capital.

Em breve daremos a nossa opinião sobre o seu merito.

Da _Gazeta de Noticias_, do Rio:

_Entre as Nymphéas_ é o titulo de um volume, escripto e publicado em

Buenos-Aires pelo nosso compatriota J. Marques de Carvalho, já tão

vantajosamente conhecido pelos seus trabalhos litterarios. A edição é

formosissima e do merito do livro com mais vagar falaremos.

Do _Jornal do Brazil_, da Capital Federal:

_Entre as Nymphéas_, nitido e elegante volume, impresso em Buenos-Aires

e de que é auctor o sr. J. Marques de Carvalho, Secretario da Legação

brazileira na Republica Argentina. Contém uma excellente collecção de

contos e narrativas, escriptas em estylo correcto e elevado bastante

para revelar as aptidões litterarias do auctor, que não é um

desconhecido nas lettras patrias.

Do _Jornal do Commercio_, do Rio:

O sr. João Marques de Carvalho, Secretario da nossa Legação na Republica

Argentina, publicou um volume com o titulo _Entre as Nymphéas_, contendo

diversos trabalhos litterarios seus: compostos em diversas épocas e que

offerecem agradavel leitura.

A impressão feita em Buenos-Aires é nitida.

Ainda d'_O Paiz_, secção «Livros Novos»:

Desobrigamo'-nos hoje do compromisso ha dias assumido, publicando a

impressão que nos deixou a leitura do novo livro de Marques de Carvalho,

Secretario da Legação brazileira era Buenos-Aires.

O volume _Entre as Nymphéas_ contém onze trabalhos, seis dos quaes

incluidos na 1.ª parte, sob a denominação geral--_Subjectivismo_,

ficando os outros cinco subordinados ao titulo _Objectivismo_. Os

primeiros contêm ou descrevem impressões intimas, subjectivas, conforme

o proprio titulo indica, falando n'elles a alma «na livre expansão da

sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que possue».

São dedicados pelo auctor a sua esposa, «o amparo dos seus desanimos, o

jubilo dos seus dias prazenteiros».

A nota dominante do livro é toda de tristeza e de melancolia. Através de

suas paginas percebe-se a saudade, a dôr, o desespero, o horror a tudo

quanto não é puro, a tudo aquillo que resulta da falsidade, da mentira,

do convencional. Collocado em meio das florestas virgens do Amazonas,

vivendo a vida simples dos habitantes d'aquellas paragens encantadoras,

que outra impressão poderia beber o auctor em tão suggestiva situação,

senão a impressão do bom, do justo, do sentimental?

D'ahi a naturalidade com que o livro foi escripto, sem grandes

arreganhos de fórma, embora n'um ou n'outro periodo a gente fique a

suppôr que Marques de Carvalho pende para o falso _nephelibatismo_.

Indubitavelmente a naturalidade é uma das primeiras qualidades do

escriptor, sendo que os livros que mais successo causam, são justamente

aquelles em que o estylo, sempre correcto, sempre bello, não ultrapassa

as raias do espontaneo, do natural, para caír no ridiculo das

adjectivações estrambolicas, retumbantes e malsonantes.

Lê-se com prazer os onze contos concebidos «entre as nymphéas, na região

dos nenuphares e da Victoria Régia». Destacamos, porém, da primeira

parte, por nos ter melhor impressionado, a fantasia intitulada _O

cemiterio da floresta_, em que o auctor faz bonitas considerações sobre

a hypocrisia das grandes cidades dos mortos e sobre a poesia de uma

sepultura entregue á guarda das mattas virgens e ao eterno choro das

aguas que deslisam mansamente junto á orla da floresta.

Da segunda parte, onde apparece, com as _Yaras paraenses_, uma ponta de

bom humor, pedimos permissão para salientar ainda dois trabalhos: _Mater

dolorosa_ e _A filha do Pagê_, conto indigena com que o auctor fecha o

seu livro.

_Entre as Nymphéas_, embora impresso em Buenos-Aires--o trabalho

typographico é admiravel--não está á venda n'aquella capital.

Os jornaes platinos têm tecido muito merecidos elogios ao nosso

compatriota, com a apreciação do seu livro. _La Patria Italiana_,

principalmente, diz ter-lhe causado a mais agradavel das impressões a

leitura dos contos de Marques de Carvalho, affirmando que _Entre as

Nymphéas_ vem augmentar os louros colhidos pela actual geração

litteraria do Brazil.

Felicitamos cordialmente o nosso compatriota e collega, cujo talento de

escriptor já se tem manifestado nas suas diversas faces com a publicação

de tres opusculos e de tres outros volumes: _Hortencia_, _O livro de

Judith_ e _Contos Paraenses_--todos bem recebidos no paiz e no

estrangeiro.

De Valentim Magalhães, em folhetim d'_A Noticia_.

_Entre as Nymphéas_ é o lindo titulo de um livro lindo--por fóra e por

dentro.

É seu auctor o sr. dr. J. Marques de Carvalho, nosso ministro em

Buenos-Aires. É um livrinho do feitio e do gosto d'esses da _Collection

Papyrus_, impresso n'aquella cidade e editado por Arnoldo Moen.

Contém onze narrativas divididas e grupadas em duas partes, que o auctor

intitulou _Subjectivismo_ e _Objectivismo_. São contos curtos, muito

intimos e suavissimos os primeiros; pittorescos, rapidos, _flagrantes_

os segundos,--todos escriptos com elegancia e colorido.

Da primeira parte citarei, como melhores, _O isolamento_, _O naufragio

do Purús_ e _O cemiterio da floresta_, e da segunda _Mater dolorosa_ e

_A filha do pagé_. O dr. Marques de Carvalho, que já tem atraz de si

varios livros, é um fantasista delicado e sentimental, e apaixonado pela

sua terra, o que lhe dobra o encanto e o valor.

_Entre as Nymphéas_ é um mimo: recommendo-o a quem se sinta embaraçado

na escolha de um presente para uma menina ou senhora.

De Bellarmino Carneiro, n'_O Paiz_:

A imprensa argentina não tem regateado elogios ao precioso e elegante

volume com que Marques de Carvalho acaba de fazer a sua reapparicão nas

lettras patrias.

Contos do Norte · 第 3 / 4 段