Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito á

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NOÇÕES ELEMENTARES

DE

ARCHEOLOGIA

OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS

E

UMA INTRODUCÇÃO

Do Sr.

I. DE VILHENA BARBOSA

Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias

DEDICADA Á MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO

MR. A. DE CAUMONT

por

JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA

Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de França,

Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade

Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris,

correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de

Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc.

MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES

CONFERIDA NA SUA SESSÃO DE JUNHO DE 1869

LISBOA

LALLEMANT FRÈRES

6, Rua do Thesouro Velho, 6

1878

A SUA ALTEZA REAL

O SERENISSIMO PRINCIPE

*D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara*

DUQUE DE BRAGANÇA

*Com a mais respeitosa homenagem*

O. D. C.

*O humilde auctor d'este compendio*

JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA.

INTRODUCÇÃO

I

Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como

uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a

sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o

nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer

antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a

historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era

christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente

da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam

de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem

entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao

conhecimento do viver dos povos da antiguidade.

Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que

accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos

preciosos, variadissimas manifestações da arte e da industria dos

vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze,

prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os

romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham

enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu

archeologico, apreciavam-n'as, repito, sómente como despojos arrebatados

aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias,

que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio.

Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e

ricos de tradições antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padrões de

tão remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creacões

do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da

civilisacão; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores

d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da

sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisações,

que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os

mysterios da vida d'essas nações, sumidas nos abysmos do passado.

Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens,

visitou a maior parte do mundo então conhecido, vindo depois estabelecer

a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu

a _Descripção da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os

seus monumentos. Porém limita-se a descrevel-os como historiographo, sem

os estudar e apreciar como archeologo.

Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo

tufão, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho

resplandecente, que irradiava a luz da civilisacão para todas as regiões

do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma.

Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da

ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante

seculos, até que emfim raiou a aurora da regeneração social, renascendo

as letras e as artes. Foi então que surgiram os primeiros ensaios da

archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura

moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo

a todos os sabios na investigação dos manuscriptos antigos, no

descobrimento e decifração de velhas inscripções, e no estudo das

moedas, em que o segundo se occupou.

Não tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o pó dos

seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas

antigas, em excavações casuaes, quando os espiritos já começavam a

raciocinar sobre a theoria da arte, e quando já se principiava a

apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das gerações

passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos

escurissimos caminhos da nova sciencia.

Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos

estudos archeologicos.

Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a

Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura

e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em

1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e

seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande

primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram

com desvelada applicacão descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da

arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigação em

investigação visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da

architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel

esculptura e as inscripções lapidares.

Estes estudos foram tão applaudidos, e tão reconhecidas as suas

vantagens, que não tardou a fundar-se em Florença, sob o governo dos

Médicis, a primeira escola publica d'antiguidades.

Tal foi o começo da archeologia.

II

O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em

França, Allemanha, e outras nações, onde alguns homens estudiosos, não

cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de

investigações archeologicas, posto que em geral restrictas á numismatica

e á epigraphia.

Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos

_antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira

metade do XVIII.

Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este

passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no

principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de

Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo

acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei

D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e

reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de

historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um

museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos

d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro

museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se

crearam na Europa.

Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve

principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio

o incentivo.

Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias

maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos

descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o

emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava

n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós.

Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem

de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de

Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter

tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu

a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O

trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor

dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e

perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas

com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava

na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de

monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras,

em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da

imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_,

publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ_,

impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou

manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta,

romanorum in Lusitanis urbibus_.

Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram

n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio

romano.

As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto

mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos,

desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se

ensinava ou discursava sobre antiguidades.

Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando

alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo,

desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os

resultados das suas investigações.

Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e

Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João

Jorge Groevinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos

repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais

particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de

todas as partes da archeologia.

III

Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel

do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real

de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de

escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos

monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados

para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que

viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de

antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos

duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares.

Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas

por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a

antiguidades nacionaes.

Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura,

continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos,

de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por

conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve

academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos

inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em

uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que

chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da

Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós

relativamente a monumentos prehistoricos.

IV

Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da

archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse

periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João

Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou

pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da

universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da

esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da

arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra,

sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra

magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo

incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta,

como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os

aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o

desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao

mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim.

Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da

nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por

diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu

estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com

que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da

civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se

alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas

collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o

estudo.

Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_,

assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços

prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem

chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo

que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli

cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o

assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O

celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente

a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a

ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri,

italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a

um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais

proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas

e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma.

O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos

e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se

começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito

de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade

romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas

interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a

sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos

antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus

usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de

coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.

Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade

Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega,

antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o

antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e

as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e

patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota

antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os

soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa

exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses

mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão

os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.

D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os

seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e

assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no

esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_,

por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca

varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de

Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu

excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicações não menos

interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns

sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e

popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou

rudimentos da archeologia_.

Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento

ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos

authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria,

trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie

humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e

patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os

homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões

casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a

reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que

nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da

exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão

competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto

passado.

Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a

apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia

prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com

enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera

origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.

No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em

Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se

os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram

o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam

largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do

segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de

1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição

universal, com uma secção intitulada _Historia do trabalho humano_, onde

figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes

do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade.

Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade

scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas,

reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as

pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.

V

Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz

civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle

movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado

estranho.

Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa,

provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de

assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso

n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se

tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos

investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é

uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero,

digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam

o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo

existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas.

Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e

artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do

trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata,

bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino,

sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em

excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos

conventos.

Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio

Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos

architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no

edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo,

onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de

muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes

collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e

chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo

accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e

apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente

collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a

cobertura das naves da egreja.

Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e

Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se

estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa

importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis,

instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio

do extincto convento de Jesus.

* * * * *

Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica

traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia

archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar

n'este livro.

A archeologia é a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome,

o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos

por meio do exame e apreciação dos monumentos, que nos deixaram, e de

todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestação do seu

engenho e do seu trabalho.

A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as

consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos

que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que

mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como

testemunha d'aquelles successos.

A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os

antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e

philosophico, faz resaltar o conhecimento das idéas, da religião, dos

usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do

viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam.

Portanto a archeologia faz importantes serviços á historia, não só

esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo é trevas, mas tambem

completando-a com uma infinidade de noções e de objectos reaes, que nos

apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade,

que sem os esforços dos archeologos seriam ignorados ou apenas

conhecidos superficialmente.

A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem:

1.^a _litteraria_--2.^a _artistica_--3.^a _usual_. Comprehende a

primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripções, quaesquer que

sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em

_paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a

decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com

caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como

os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_

indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a

authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretação das

inscripções gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia.

A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade,

taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de

obras d'arte.

Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito ás obras

d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que é o

estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em

_numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em

_glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer

figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a

qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos,

militares, funerarios, etc.

São estas as divisões scientificas da archeologia. Porém, considerada

relativamente ás grandes épocas da vida da humanidade, póde dividir-se

em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas

do homem, das quaes não restam memorias escriptas, nem gravadas, nem

tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra

alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos não menos toscos e

grosseiros, encontrados em escavações: em _archeologia dos antigos

imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em

_archeologia christã_, que comprehende o periodo desde o nascimento de

Christo até á renascença das artes e letras.

Emfim a archeologia é uma sciencia tão lata e complexa, que ainda

precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante missão,

soccorrer-se a outras sciencias accessorias como são a _linguistica_, a

_paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_.

J. DE VILHENA BARBOSA.

PROLOGO

N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado progressivamente nas

principaes nações, não podia esquecer por mais tempo um estudo que

consiste em investigar o modo como começára a existencia da raça humana

desde o berço até o seu simultaneo desenvolvimento, não só dos objectos

necessarios para a defeza exterior, como em relação aos usos domesticos

e habitações: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro

ácerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos

habitantes da terra.

Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas

encarniçadas e continuas das differentes raças, as quaes se disputavam

tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas

d'essas raças já desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e

em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas

nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta

d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa não lhes

proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os

costumes, para se dedicarem ao aperfeiçoamento intellectual: portanto,

só pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham

encerrados entre as camadas successivas da terra, só por diversos

fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram

o grau de sua nascente civilisação. Assim formulâmos a historia, ainda

que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os

segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforços da

intelligencia humana desde o seu alvorecer.

Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas

conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o

territorio d'essas raças indigenas, e depois de renhidas batalhas o

povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porém

n'essas épocas já havia historiadores que nos deixaram as narrações de

taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, não é tão difficil,

porque não precisâmos de ir inteiramente á crusta terraquea pedir-lhe os

seus segredos.

A invasão dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de

suas conquistas, e a destruição que ella causou foi total, e de tal

modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se

ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois,

feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo,

os barbaros do Norte não foram menos prejudiciaes por aniquilarem a

civilisacão que os romanos haviam plantado na Europa.

Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o

desprezo e o esquecimento da instrucção; até que appareceu um homem de

animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder,

formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias

alcançou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisação na

Europa.

A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos

para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisação

triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois

surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da

nova civilisação.

Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos

fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como já dissemos,

justa idéa dos usos, costumes e crenças dos primeiros habitantes do

mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais

interessante para nós, por vivermos no territorio occupado por elles.

Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a

Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigações com respeito aos

tumulos, ás fortificações, aos templos, aos ornatos, ás habitações, a

tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a

qual supprimos a falta da historia escripta.

Foram os allemães, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram

d'essas curiosas investigações; e os sabios que se dedicaram a taes e

tão uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que

publicaram obras de grande merito, são dignos da nossa admiração e do

nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana,

nos revelaram interessantes conhecimentos, que não só serviram para

coordenar a historia das épocas mais remotas, mas tambem para estimular

o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e

desprezadas, attestando ignorancia e incuria.

Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instrucção, posto que em

alvará de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as

informações indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que

facilitassem o estudo da archeologia, porém ficou em letra morta; e

tanto assim que só em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico,

por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo

para esse fim a concessão das ruinas da monumental egreja gothica do

Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos

um curso ácerca da historia geral da architectura.

Como quer que seja, a sciencia da archeologia não fôra cultivada entre

nós methodicamente, e por isso não deve estranhar-se que não apparecesse

até hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu

estudo. Para supprir tal falta, ousamos nós mandar imprimir um resumido

trabalho, que comprehende a descripção dos objectos antigos, desde a

edade de pedra até ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do

sr. de Caumont, o qual, além de distinguir-nos com a sua apreciavel

amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e

já que nos é licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas

paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em

França, como levantado a um dos testemunhos da nossa veneração.

No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lançámos haverá sete

annos, estão illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto,

as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observação;

seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como já indicámos,

procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicações das antiguidades

encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos

compatriotas.

Suppomos que este livro poderá ser tambem de proveito nas nossas

escolas, onde é tão geralmente reconhecida a necessidade de livros

especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que são hoje do dominio

de uma educação liberal; assim se tornarão adeptos do estudo e da

sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que

sejam outros tantos propagandistas da conservação da nossa arte e das

nossas preciosidades archeologicas.

Apezar de ser trabalho complexo e difficil, não só para a nossa limitada

intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor

para uma publicação d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o

gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular

o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da

arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante ás faltas que houvessemos

de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais

perfeita e de maior tomo para os que possam lançar-lhe hombros mais

robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o

estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a á conta da boa vontade e da

sinceridade com que sempre tentámos bem servir a patria.

17 de Maio de 1877.

NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA

* * * * *

CAPITULO I

*Tempos prehistoricos*

Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que não existe historia

escripta.

Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia

escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o

progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios

mais ou menos incompletos.

O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir

algumas _probabilidades historicas_, com observação escrupulosa dos

factos averiguados. Os antiquarios modernos têem-se dedicado com

entranhado amor a este genero de investigações.

Estabeleceram na historia pertencente á existencia do homem, _anterior

ás épocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber:

Idade de Pedra

Idade de Bronze

Idade de Ferro

A fundição, ou reducção dos metaes, é uma operação difficil, que foi de

certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisação

deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria

defensa e para a caça, assim como para os usos communs da vida,

empregando pedras rijas, como é o silex (pedreneira), os ossos dos

animaes, ou a madeira.

O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes,

principalmente em França, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca,

confirmou esta supposição.

As collecções dos museus contém quantidade consideravel de pontas de

frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande

numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em

differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos

dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os

metaes não estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominação de _idade

de pedra_.

As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos

cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_

verde, e algumas variedades de _porphyro_; porém o silex tem sido, como

parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de

preparar a forma requerida.

Seguramente, se dermos com certa precaução uma martellada sobre um

fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalará, e a pedra

que se desligue tomará logo a forma conoidal; ficará chata de um dos

lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este

modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem

encontrado centenares de modelos.

[Figura 1]

Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa

habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros

instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta

pagina.

Os objectos pertencentes á _idade de pedra_ e á _idade de bronze_ tem

sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_,

em algumas _cavernas_, antigamente habitadas.

Examinemos os depósitos que indicamos, porque nos offerecerão, segundo

recentes explorações, matéria variada e curiosa para o nosso estudo.

*Tumulos*

Os tumulos ou sepulchros, compõem-se d'um recinto central formado de

pedras de rocha de grande dimensão, no qual se entra geralmente por um

corredor de egual construcção, estando tudo encerrado em immenso montão

de pedras e terra.

Quer fosse porque estivesse com imperfeição o recinto central encerrado

no meio do outeirinho factício; quer, o que parece mais natural, porque

se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em época posterior,

muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central

sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; então n'este

caso chamavam-se Antas (dolmen).[1]

[Figura 2: Vista exterior de um tumulo]

Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral

apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central,

tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas

vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso

commum.

Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo

aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o

n.^o 5, a perfeita Anta de Guitamães, em Vianna do Castello.

[Figura 3: Vista interior de um tumulo]

[Figura 4: Dolmen central de um tumulo]

Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos

por _altares druidicos_, porém ao presente esta ideia está quasi

desprezada, por falta de provas positivas.

O cobre com liga que lhe dá maior rijeza, foi empregado depois da

pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados

aperfeiçoaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes.

[Figura 5: Anta de Guitamães (Minho)]

Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das

lanças_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as

_fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos

fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os

paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em França, e na

Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez

imitados do mundo antigo pelas nações civilisadas, e trazidos para a

Europa occidental em época que não se pode fixar, foram reproduzidos sem

alteração, em moldes apropriados.

[Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan]

[Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan]

Esta época importante da historia dos progressos da humanidade rasgou

bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a

denominação de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por inducção,

quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes.

Ha annos, o sr. Worsaæ e os antiquarios dinamarquezes publicaram que

os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme

descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os

joelhos juntos á barba e os braços cruzados no peito; em quanto os

tumulos da idade de bronze não apresentavam esse compartimento

reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos,

compostos de terra e de pequenas pedras, não encerravam cadaveres, mas

tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas

vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e ás vezes de ouro.

Inferia-se d'estas differenças, que os instrumentos de bronze haviam

sido trazidos por uma raça que invadira, absorvera e talvez aniquillara

a indigena; raça que teria costumes diversos, armas superiores e

civilisação mais adiantada que a subjugada.

Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa

occidental por um povo conquistador em época desconhecida.

Os objectos de barro não nos guiam suficientemente n'esta exploração. Os

que foram achados com os instrumentos de bronze são de fabrico

grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que

os compõem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos

sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos

tumulos raramente se viam vasos com azas; á forma dos gargalos parecia

não ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentação em

linhas em direcções diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em

xadrez.

Além d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e

muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de

bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se

que servira successivamente para sepultura em differentes povos.

Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente

caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam

objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na

posição _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra.

Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na

proporção de 20 por cento, talvez como demonstração, segundo o sr.

Lubbock, dos ultimos representantes das gerações passadas que tivessem

apego aos antigos usos.

*Habitações lacustres*

Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades

_lacustres_.

Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural

das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich,

socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses

vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e

declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por

vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da

antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal

descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores

se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos,

nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria.

Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de

dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros

utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos

tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação.

Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa;

contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das

que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc.,

etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que

muitas pareçam ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano,

todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze.

Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem

collecções completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de

terem sido conservados por séculos debaixo das aguas.

Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos

alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua

para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das

tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes

levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com

as margens.

Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de

diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de

animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e

entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas,

porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos

vestigios do cavallo e da cabra.

*Cavernas*

As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades,

deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de

objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época

do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados,

e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas

de animaes giganteos, que já hoje não se encontram.

Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á

idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas

deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do

homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á

formação do terreno _quaternario_, considerado até então como anterior

ao apparecimento do homem.

O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon,

proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar

taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e

da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo

interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa

antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é

difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação

actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi

descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive

isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá

ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o

nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o

extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de

ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma

dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os

seus despojos e gosar da sua civilisação.

Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas

margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques

existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir á

baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região.

Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje

entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes.

Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações

occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os

seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com

os tumulos, dos quaes já tratamos:

Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra;

Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os

_alinhamentos_;

Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a

outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem

mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No

Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade.

*Pedras erguidas*

[Figura 8: Pedras Erguidas]

As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de

_Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., são pedras toscas de

forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se

collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás

vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para

baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um

pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem

cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com

vários pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posição vertical

e podem estar assim naturalmente collocados.

[Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven]

_Alinhamentos_.--Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As

pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos

intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas

tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero,

conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas

pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou

do Norte a Sul.

Noções elementares de archeologia · 第 1 / 13 段