O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido na Ilha, onde
tinha muitas relações.
Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo uma festa
«tão magnifica como podia ser em França» disse o padre Claudio, a qual
assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. Foi da sua habitação que
partiram os nossos para tomar posse do lugar, onde se edificou o _Forte
de Sam Luiz_. Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos
portuguezes.
Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, muitos
francezes não seguiram o exemplo de Manoir, e se estabeleceram na nova
Colonia, onde só foram permittidos artistas.
Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão fundada com tanto
zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor alteração foram incumbidos
d’ellas os Franciscanos: a este respeito achou-se tudo quanto podia
desejar-se no _Orbe Seraphico_ do padre Jaboatão.
Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco do Rosario,
frade celebre na Ordem de Sam Francisco, que tomou posse do Convento dos
Capuchinhos perto de dez annos depois, que estes o abandonaram de todo.
Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos desertos
desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar os indios.
Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus que visitou.
Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se fosse encontrada, como
precioso commentario á obra do padre Ivo.
Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta até a imaginação,
foi para a Bahia, onde revestido das dignidades da ordem falleceo com
cheiro de santidade em 24 de fevereiro de 1650.
Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes
acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da Hespanha, dava
independencia ao Brasil.
Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios que
deixaram em começo os nossos Religiosos, e por isso foi elle em Sam Luiz
julgado como o primeiro fundador do Convento da sua Ordem.
Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. Serão ellas ainda
um dia completadas pelo trabalho, que ha de preceder a _Relação do Padre
Claudio d’Abbeville_, e si se quizer, o podem ser ja, consultando se
varias obras francezas contemporaneas, absolutamente despresadas, sob
este ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, entre
outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, ninguem pensaria
achar n’uma _Historia das Indias orientaes_ todos os factos religiosos,
acontecidos em Maranhão antes de 1607.
Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se a
tragica historia dos padres Francisco Pinto e Luiz Figueira, jesuitas
portuguezes, os primeiros que visitaram os desertos desconhecidos, cujo
littoral occuparam os francezes.
Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena cidade de Laval,
nos contou tambem na sua _Relação das Indias e especialmente das Ilhas
Maldivas_, o que na Europa se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o
padre Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer.
Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida mais pela obra de
Mr. Herald do que por outras antigas, ficou por muito tempo fóra da toda
a vida politica.
Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso historiador das
Indias, só foi conhecida na Europa por uma lastimavel catastrophe, pois
era esquecida apesar da fertilidade e da magnificencia da sua vegetação.
Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais importantes, onde
se verificou o que era o Brasil no seculo XVI: queremos fallar da bella
_Carta_ de Gaspar Viegas, que tem a data de outubro de 1534, hoje na
Bibliotheca Imperial de Paris.
Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de sua exactidão
tão admiravel para aquelles tempos e ainda continuaria a ser esquecida
se o Sr. de Cortambert não nos fizesse o favor de communicar-nos a sua
existencia.
Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho do
desconhecido geographo vae de hora em diante ligar-se ao mais vasto e ao
mais exacto reconhecimento das costas do Brasil, que tem podido obter a
sciencia n’estes ultimos tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo
o Sr. capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a respeito do
littoral do Brasil.
Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se na França e
mesmo na America o texto do nosso velho viajante.
Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel para
comprehender-se o valor do documento por nós exhumado.
O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre Ivo d’Evreux, disse
em 1613 ao Superior do seo Mosteiro á proposito das regiões, por onde
evangelisou, o seguinte:
«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um pouco estabelecido,
será um verdadeiro paraiso terrestre.»
A esperança do bom Religioso não era das que se podem realisar
completamente: não caminham assim as coisas neste mundo, porem não sendo
o paraiso, é o Maranhão uma das provincias de um vasto Imperio, que vae
progredindo.
No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de espiritos
felizmente bem intencionados, o progresso intelletual do paiz está muito
longe do que devia ser.
As recordações do passado, que tanto desenvolvem as populações, ahi não
existem.
Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições litterarias,
e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. D. Pedro 2º, ha dez annos
incumbio um dos homens mais activos e eminentes d’este paiz para examinar
na Cidade de Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital
do Maranhão.
Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas do Sr.
Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos estabelecimentos, objecto de
suas investigações.
Pode lêr-se o seo _Relatorio_ escripto em bom estylo na _Revista
Trimensal_ publicada com tanto zelo pelo Instituto Historico do Rio de
Janeiro.
Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou 2:000 volumes
na Bibliotheca Publica e no Almanach de 1860, edictado pelo Sr. B. de
Mattos, apparecem 1:030 em deploravel estado!
Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar uma nova era na
patria de Odorico Mendes, de Gonçalves Dias, e de João Lisboa.