São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de indios.
Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração e no encanto
das particularidades, senão um só viajante portuguez á Ivo d’Evreux e á
Claudio d’Abbeville, e é aquelle cujo nome acabamos de proferir.
Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á ordem dos
jesuitas.
Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas as dignidades
até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento dos francezes ao
Norte do Brasil, e certamente na Bahia soube de sua expulsão, e sobre
isto infelizmente nada disse.
Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre Ivo d’Evreux.
Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se os indios
ao christianismo, perdendo sua grandeza primitiva e conservando a maior
parte dos seos usos.
O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, que combatem
pela sua independencia contra seos conquistadores.
Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera indulgencia e
admiração para com os povos ainda na infancia, aos quaes pregaram, e cuja
prévidencia é o seo maior e mais terrivel defeito.
As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas pelo incansavel
autor da _Historia geral do Brasil_.
O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome n’esta preciosa
publicação, honra que aqui lhe restituimos, e a que tem direito como
homem de saber e gosto.
O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de _Narrativa epistolar de uma
viagem e missão jesuitica pela Bahia, Ilheos etc etc._—_Lisboa_, 1847, em
8.º de 123 paginas.
Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem preciosas
informações á respeito de Cardim e dos missionarios contemporaneos do
Brasil n’um escriptor de Toulon por nome Jarric. (Vide _La 2me partie des
choses plus memorables advenues tant aux Indes orientales que autres pays
de la découverte des Portugais en l’establissement de la foi chrestienne
et catholique etc. Bordeaux 1610_ em 4.º É dedicado a Luiz XIII. O que
n’este livro se refere ao Brasil, e particularmente ás regiões visinhas
do Maranhão, acha-se na pag. 248 até 359.)
Morreo o padre du Jarric em 1609.
Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia em 1615.
Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada em 4 vol. em
8.º