As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir as formigas, e
activar a caça d’estes insectos, não o faziam somente para destruil-as,
ou para resguardar suas plantações de milho de uma invasão invencivel.
As formigas grandes torradas eram consideradas como uma das golodices
mais preciosas, cuja receita foi por ellas ensinada a alguns colonos
do Sul, e sem duvida não será desputada pelos nossos modernos Brillat
Savarin.
Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados em sal ou
pela dissecação, e os Guaraons das margens do Orénoco apreciam muito
as larvas da palmeira Muriti (não fallando de outra comida da terra do
mesmo genero), assim tambem os nossos selvagens guardam grandes provisões
d’estes insectos para sua nutrição.
Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que percorreo o
Brasil, achou ainda em vigor o costume de se comer formigas assadas.
Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar no Espirito
Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre rivaes dos da Cidade
da Victoria, os chamavam _Tata Tanajuras_, «comedores de formigas»,
accrescentou «eu mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma
mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide _Le second voyage au
Brésil_. T. 2.º pag. 181).
Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio de Tours dos
Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito que os indios tiravam
das formigas como alimento.
Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois de haver fallado
da especie grande, a que chamam Içans, escreveo—«_E estas formigas comem
os indios, torradas sobre o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns
homens brancos andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, e
o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas de Alicante: e torradas
são brancas dentro._»