Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si muito menos o
soberano, á vista do comportamento de outros feiticeiros, que entretinham
relações com o diabo, e que assim ficasse gosando a tranquillidade de sua
consciencia até o dia do seo baptismo.
Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo quanto
via—altares, paramentos, e imagens.
Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se de mim para
regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe imagens para levar comsigo,
o que recebeo com muita alegria, e expliquei-lhe o que significavam, e
recommendei-lhe que as guardasse com todo o cuidado para que _Jeropary_
não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho de Deos,
que morreo na Cruz.
Com taes impressões partio.
Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a quem permittimos
edificar uma Capella na sua aldeia, onde celebrariamos missa, e
baptisariamos quando fossemos a _Tapuitapéra_.
Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve ciumes, e
mandou-me dizer, que muito se admirava de eu ter dado licença a Martinho
Francisco para fazer uma Capella na sua aldeia antes d’elle construir uma
na sua, preferencia que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo tambem
padres comsigo como lhe fôra permittido.
Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado de
forma alguma minhas palavras e promessas, que era elle o primeiro
de _Tapuitapéra_, a quem tinha dado licença para fazer uma capella,
que devia preceder os outros e em quanto aos padres ainda não tinham
chegado: que quando fossemos a _Tapuitapéra_ não deixariamos de ir vel-o
e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, ja
christão, o ter junto de si uma casa de Deos para fazer suas orações.
Achou boa a resposta.
Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, foram dois
dos filhos d’este _Muruuichaue_, e com isto teve Martinho singular
consolação, animando-os a aprender suas crenças e a doutrina christan;
porem aconteceo, infelizmente, serem elles seduzidos pelas más palavras
de um de nossos interpretes para deixarem o Christianismo.
Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado seos habitos
e vestidos, lhes disse o que ides fazer? moveis-vos por bem pouco!
«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais ser christãos?
«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar Martinho
Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a doutrina, que os padres lhe
ensinaram.
«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua companhia.
«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.»
Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar seos vestidos,
vieram procurar Martinho Francisco, que foi ter com o grande feiticeiro,
e veio depois em companhia de muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para
nos declarar, e aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a
ellas se deo remedio, conforme a occasião permittio.
O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, foi vêl-o em
sua aldeia, onde foi muito bem recebido, notando toda a alegria que póde
mostrar no rosto um selvagem, presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes
que si quizesse morar em _Tapuitapéra_ que escolhesse para residencia
sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto quanto permitte o paiz.
Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado _Chenamby_,
«minha orelha,» com sua mulher, ambos com carga, e um filho pequeno.
Disse _Chenamby_—Meo pae está com muito cuidado em ti, receia que não
tenhas farinha, e é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle
te mandará muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem os
Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, e atravessará o mar
para cumprimental-os, pedir um d’elles e leval-o comsigo para aprender a
sciencia de Deos, e ser por elle lavado.
Dois dos meos irmãos são _Caraibas_, os quaes, como sabes, se despiram,
apesar das observações, que lhe fizeram, actualmente vão indo bem, e
estão sempre com o _padre-miry_, «padre pequeno,» (sobrenome que davam a
Martinho Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas):
quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha mulher, que aqui
está, e meo filho pequeno que ella carrega, o qual chegando á idade
propria, darei aos padres para ser por elles instruido.—
Este _Chenamby_ balbuciava um pouco o francez, e entendia tambem alguma
coisa, graças ao trabalho e empenho, que para isso empregava, fallando
com os francezes o mais que podia.
Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, d’esta forma:
«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós principalmente
pela constancia da boa vontade de seo pae e de seos irmãos para com
o christianismo, e especialmente vendo elle e sua mulher dispostos a
receberem a fé christã, e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o
que fosse conveniente quando comnosco estivesse.
«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher constancia em
tal desejo.»
Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e trazia em seos
olhos não sei que pudor, não se animando a olhar-me directamente: alem
d’isto occultava com o pé direito de seo filho sua enfermidade, guardando
o respeito natural de não se apresentar de outra forma diante de mim,
de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas maneiras e
procedimento: achei-a muito boa e caridosa para com os francezes, humilde
e obediente a seo sogro e marido, virtudes não pequenas n’uma india.
Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria com outra, e nem
a abandonaria.
Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam á face da igreja,
depois de baptisado.