Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á respeito das
Indias Occidentaes.
Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado responder á
todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz.
1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes
delicados, naturaes de um paiz temperado, criados com cuidado e bons
alimentos, pois não parece poderem se accommodar n’um paiz agreste,
selvagem, cheio de mattas, entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e
ardente.
Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, porem pouco a
pouco apparece a facilidade.
Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e encommodo no
principio, porem depois de alguns annos tudo vae bem, e os nossos padres
ja ahi deixaram o fructo de suas fadigas.
Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo não deixaram Roma e
Italia para plantarem suas colonias nas florestas gaulezas e allemans?
O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito a todas as
molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem é neste ponto mais soffredor
do que nós, pois bem sabe ser necessario primeiro lavrar para depois
colher: comtudo estabelece-se muito bem no Brasil, faz grandes negocios,
sendo a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro ha ahi de
tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a paciencia dos homens tem
tornado, dentro de oito mezes, boas e ferteis as terras crestadas pelo
gelo ou congeladas, uma terra, o coração do mundo, não será habitavel
pelos francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, que
esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como é a França, si for
bem cultivada e provida de viveres necessarios e acommodados ao gosto
francez, como sejam pão e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises,
ha de tudo isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher e
plantar os vegetaes.
Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem patinhos
assados, as corças, quartos de carneiro, recentemente tirados do espeto,
e o ar andorinhas bem cozidas, de fórma que não havia mais trabalho do
que abrir a bocca e comer.
Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque arrepender-se-hia.
É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não tiverem
commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde.
2.ª Eis o que disse, e basta[82] a terra é habitavel, e pode ahi
morar-se com algum encommodo durante alguns annos. Mas será saudavel
para os francezes? Os indios ahi são sadios, e vivem longo tempo,
embora selvagens e barbaros, nascidos n’este clima, e acostumados á tal
temperatura. Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos á
muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. Respondo
a isto, que julgamos das substancias pelos accidentes, e das terras pelos
encommodos e enfermidades.
Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia Francesa n’estas
terras, e no espaço de um anno achamos haver na aldeia dez vezes mais
doentes do que em dois no Maranhão.
Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em toda a parte está a
morte: assim são as molestias.
D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes os mais
agradaveis e salubres, que se possa imaginar.
Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a do Rvd. padre
Ambrosio:[83] fallo da morte natural, porque os devorados pelos peixes, a
culpa foi d’elles por se lançarem ao mar.
Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando muito atado a
derrubar arvores grandes, e tendo o suor molhado seo habito, foi assim
mesmo celebrar missa, e apenas sahio da igreja foi acommettido por uma
febre, de que falleceo poucos dias depois.
Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se fóra em
serviço de Deos os outros dois padres.
Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si.