Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle paiz.
Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha muitas na terra
firme, proxima a Maranhão.
Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho mundo, porem são mais
furiosas, atrevidas, e valentes, que accommettem os homens, e não fazem
seos ninhos, sobre rochedos, como diz Job, _Aquilla in petris manet_ «a
aguia mora nos rochedos» porem entre as arvores.
Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão sobre duas
aguias extraordinariamente ferozes, que vieram aninhar-se nos mangues
_d’Uy-rapiran_, aldeiazinha na costa, distante legoa e meia do Forte de
S. Luiz.
Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em que passeiando pelo
mar fui visitar um francez, morador n’essa aldeia.
Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que uma côxa de homem,
e tinham feito tão boas acommodações, que melhores não fariam doze
homens.
Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem se atrevia
a passar por perto.
Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos com unhas e bicos,
e depois trazem alguns boccados a seos filhos.
Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, pirapamas,
e trombudos, e tiram-no do mar com suas garras, deitam-nos em terra,
dividem-nos em pedaços, que levam a seos filhos.
Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher _Tupinambás_, o
que lhes causou a sua morte e a do seos filhos, porque si lhes armou
uma cilada tão bem arranjada, que conseguio-se matar o macho, e a
femea achando-se viuva retirou-se para a terra firme abandonando
seos filhinhos, que foram passados pelas armas dos _Tupinambás_ em
vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que elles mataram, e
destruio-se-lhes o ninho.
A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar vivo e feroz,
poupa forte e irriçada no cume da cabeça, pennas grossas no canudo e
grandes como a de um gallo da India: servem-se d’ellas os _Tupinambás_
para emplumar suas flexas.
Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si os selvagens
as misturam com outras pennas, como sejam de araras, e de outros passaros
grandes, são estas roidas e comidas por aquellas, pelo que são guardadas
a parte, e com outras não as deitam em suas flexas.
Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o Senhor e o Rei não
por igualdade de forças, mas por subtileza e ligeireza de vôo, subindo
muito alto quando quer perseguir os passaros grandes, e descendo mui
rasteiramente quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça com o
bico.
Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo grito, calam-se e
occultam-se entre folhas.
Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas brancas,
que vivem nas praias, saltando de ramo em ramo, esperando a vinda de
passarinhos para assaltal-os e agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e
despedaçal-os n’um momento.
Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não poupam a alguma
serpente ou cobra que por ventura encontrem.
Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para flechal-as.
Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas aos raios do sol,
tirando com seo bico as pennas velhas, que por esse estado ja não servem:
ahi vão os selvagens buscar estas pennas para seo uso.
Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos da India, e são
muito boas para escrever.
Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados _uira uaçú_, quasi do
tamanho dos abestruses da Africa,[80] mais compridos, porem não tão
grossos.
Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi para a França,
levado por nossos companheiros, saibam que ha outros ainda mais grossos.
Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso procuram a occasião
em que os paes vão caçar.
São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, e vão mudando até
que alcance suas pennas e cor verdadeiras.
São muito glutões, e parece que não se fartam, porem quando comem é por
muitos dias.
Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir essa raça, o
fariam indubitavelmente, porque perdem milhões dos seos para sustento
d’ellas.
Os _Tupinambás_, que criam estes passaros, conhecem que a melhor carne,
que se lhes pode dar, é a de macacos, e para isto vão ao matto caçal-os e
matal-os.
Ha outras especies de passaros grandes, porem que não se comparam com
estes, e são as _araras_, os _canindés_, e outros, os quaes são agarrados
pelos indios por maneira astuciosa.
Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes passaros passar a
noite, e onde se recolhem depois de comer: fazem debaixo d’essas arvores
uma casinha redonda, com capacidade para conter tres homens, e coberta
de palhas: ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que como
não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens lhes atiram
qualquer projectil, que os atordoa sem matal-os, cahem em terra onde são
facilmente agarrados e prendem, e com o correr do tempo de tal maneira
se domesticam, que embora os soltem, não deixam a casa do seo dono:
introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, com voz similhante a
do côrvo, aprendem a fallar como os papagaios, e dão suas pennas á seos
hospedes para com ellas se adornarem e enfeitarem.[81]
Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher colchões, e os
indios tiram as pennas d’estes passaros para fazer seos enfeites e
adornos.
Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, e outras mais
pequenas.
Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem de peixe, e trazem
alguns inteiros a seos filhos que principiam a comel-os desde os seos
primeiros dias.
Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do tamanho de um
arenque, no ventre de uma garça, pouca implumada.
Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados de bons cacetes
para se defenderem dos paes e mães, que em tal caso não deixam de acudir
aos que nutrem tão terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie.
Similhantes as garças ha outros passaros chamados _forquilhas_ pelos
francezes e portuguezes, porque teem a cauda fendida quando vôãm: fazem
seos ninhos nos mangues, em lugar recondito, e pouco frequentado dos
homens o quanto é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o
mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma grande bolsa, que
trasem debaixo da goela, e que depois levam a seos filhos: quando está
vasia esta bolsa, enche-se de vento que os alivia e sustenta no meio do
ar, quando passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se pelo
mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos.
Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem do mais alto
lugar, a que sobem, o peixe que náda no mar, e sobre elle cahem e
agarram-no. Tem uma propriedade muito boa e é que perseguem os peixes,
que andam atraz dos pequenos para devoral-os.
Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, perseguem-nos o
quanto podem.
Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, entre os quaes
merecem especial menção os seguintes.
As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem as praias nas
vasantes: são boas para se comer, e á vontade matareis muitas com uma
arma, carregada de chumbo miudo, e sentado n’uma canoa.
Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a ponto de não se
acreditar, e comtudo é verdade, por mim experimentada, os quaes tem por
bico duas facas, embutidas em seos cabos, e aos quaes dão o nome de
_navalhas_: o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem
que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes não lhes servem
senão de passatempo quando passeiam pelas praias, e encontram outros
passaros, que são por elles cortados pelo meio.
No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente ao Sr. de Sam
Vicente, que me acompanhou em toda a minha viagem, matou um, cujo bico
guardei e trouxe para a França.
Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no canto, que espandem
suas pennas á vontade no fim das chuvas, quando vem o bom tempo visitar
os habitantes da zona tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas
soltam um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo as
tempestades do inverno, si tal nome merece.
Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros cor de
violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem os selvagens penachos
de suas pennas, que são muito caras por ser difficil matal-os, porque
presentindo o inimigo, que os busca, trepam-se no cume das arvores mais
altas, nas pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com uma
embira muito forte, e na outra extremidade que cahe no sollo, fabricam
uma especie de pote de terra, no qual criam seos filhos entrando por um
só buraco, proporcional á sua grossura.
Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram muita admiração.
Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não excede no corpo á
extremidade do pollegar, e acrescento com todas as suas pennas, e tem
canto melodioso, que faz lembrar o das andorinhas, que imitam quando
querem cantar: levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem,
e o sustentam em quanto o permittem suas azas.
Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão banhar suas
azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi perto fazem seos ninhos, e
imaginae o tamanho dos ovos, que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda
são de mais admiravel pequenez.
São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos d’elles.
Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc.