Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e da viagem ao Uarpy.
Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca se fallou,
desconhecida por todos os _Tupinambás_, moradora nos mattos na distancia
de mais de 400 á 500 legoas da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados
e das foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e assim
viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob a obediencia de um
Rei.
Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, da vinda dos
francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, trazendo comsigo Padres, que
ensinavam qual era o verdadeiro Deos, e absolviam os selvagens dos seos
peccados.
Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas canoas, e
n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, d’esta nação, acompanhado
por duzentos mancebos fortes e valentes, ageis na natação e no uso da
flecha, com instrucção de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em
terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos francezes,
e regressando depois á sua terra tomando todo o cuidado para não ser
descoberto o caminho que seguiam.
Chegaram defronte de _Tapuitapera_, onde então se achava o interprete
_Migam_, que apenas soube da chegada d’elles foi ao seo encontro no mar,
e com o seo Principal fallou por muito tempo.
Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, o que faziam e
ensinavam: á respeito dos francezes, quaes suas forças, e mercadorias,
si era certo terem conciliado os _Tupinambás_ com os _Tabajares_, e si
viviam em paz na Ilha.
Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou satisfeito
e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria a seo Rei e a
sua Nação, porque todos desejavam aproximarem-se dos francezes para
conhecerem a Deos, terem machados e foices de ferro, com que cultivassem
suas roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos,
plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, como
recompensa, aos francezes, aos quaes apenas pediam alliança e protecção.
Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e si estava muito
longe, ao que respondeo affirmativamente, marcando a distancia por legoas
pouco mais ou menos, que podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando
com os dedos o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios
para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso dizer o logar
da nossa habitação, porque meo Rei assim me prohibio, e tambem porque
receiamos, que si nos faça guerra. D’aqui ha seis mezes regressarei para
te dar certas noticias, e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras
as tuas informações viremos morar por aqui perto.»
O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que fizemos, as
grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, e os francezes, que as
guarnecem para de tudo dares noticias á teo Rei.»
«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não saltar em terra».
Tanto porem instaram com elle, quase recebendo refens, consentio alguns
dos seos saltar em _Tapuitapera_, onde foram muito bem tratados, e ahi
adquirindo, em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices,
regressaram mui contentes.
Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os remos armados, e
tudo prestes se houvesse alguma traição. Tinham os outros as flechas e os
arcos promptos, tanto desconfiam estas nações umas das outras!
Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se em paz. Deos
os guie e os traga ao seo gremio.
Quanto á viagem ao _Uarpy_,[64][BE] rio e região, em distancia para mais
de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas dos Caietés, foi emprehendida
pelo Sr. de Pezieux, com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos
seguintes motivos.
Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia de
100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos trouxeram enxofre
mineral, muito bom, e por tanto havia esperança de serem as minas boas e
abundantes.
Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande numero de minas
de oiro, misturado com cobre, de prata misturada com chumbo,[65] o que
provam as agoas mineraes que descem dos montes.
Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, habitante das
margens do Rio.
Terceiro: para procurar uma nação de _cabellos compridos_ por ahi
errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, e que negociam
com os _Tupinambás_.
Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em pouco tempo
rica de generos cultivados por todos estes selvagens reunidos, e
tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes, e descançando
n’esta esperança vou fallar de algumas raridades, que notei ahi, cortando
as difficuldades que se apresentam á primeira vista por meio de razões
boas e naturaes.