Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações, e
procedimento.
N’esse tempo a nação dos _Tremembés_, moradora alem da montanha de
_Camussy_, e nas planicies e areiaes da banda do rio _Tury_, não muito
distante das Arvores Seccas, das Areias Brancas, e da pequena Ilha de
Santa Anna, sahio, sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os
passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o ambar gris,
e se pesca grande quantidade de peixes, com intenção, de surprehender
os _Tupinambás_, seos inimigos irreconciliaveis, o que malogrou-se,
visto que muitos _Tupinambás_ da Ilha tendo ido ahi com o fim especial
de pescar, foram accommettidos pelos _Tremembés_,[59] sendo uns mortos
immediatamente, outros captivos sem saber-se o que d’elles fizeram, e
finalmente alguns embarcados n’uma canôa poderam salvar-se regressando á
Ilha do Maranhão, onde contaram tão tristes casos causando nas aldeias,
a que pertenciam os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em grita e
chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram pela vingança,
ao que acquiesceram os Principaes, vindo pedir aos francezes um chefe e
alguns soldados, no que foram satisfeitos.
_Japy-açú_ foi o conductor d’este exercito[60] composto de grande numero
de selvagens, e acompanhado por alguns francezes.
Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram em terra
para descançar e passar a noite pescando uns, caçando outros, e as
mulheres e as filhas procurando agoa pelos areiaes, a qual não podia
ser senão salôbra, isto é, meia doce e meia salgada, armando as redes,
fazendo fogo e preparando a comida.
Os mancebos _Tupinambás_ fizeram _Aiupuues_, (choupanas) tanto para
os Principaes como para os Francezes: na melhor _auipaue_ alojou-se
o Coronel, e os Capitães armaram suas redes ao redor da do Coronel,
ceremonia que observam em todas as suas guerras, especialmente quando se
acham perto do inimigo.
Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos pelos
inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer subir no cume de arvores
muito altas suas sentinellas afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos.
Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande areial cercado de
mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: ahi encontraram as choupanas
dos _Tremembés_, uma panella portugueza, e combinando isto com o que
já sabiamos anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam
na _Tartaruga_, na serra de _Camussy_, unidos aos _Tremembés_, aos
_Montagnars_, tanto de _Ybuapap_ como de _Mocuru_, principalmente com
_Jeropary-uaçu_, isto é, com o _Grande-diabo_, principe e rei de uma
grande nação de Cambaes,[61] muito amigo dos francezes, e inimigo natural
dos portuguezes, podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes
ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, por ser
_mulato-francez_, isto é, filho de um francez e de uma india.
Voltemos ao nosso proposito.
Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, que fugio para
o mato, e escondeo-se no concavo de uma arvore; porem ouvindo o som das
trompas de guerra, que eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as
aberturas superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio muito
magro, e quase que sem figura humana por não ter comido durante oito dias
senão folhas da arvore, onde escondeo-se: ensinou, como lhe permittiram
suas forças, o lugar onde jaziam mortos seos companheiros, que foram
encontrados com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os machados de
pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por ser costume entre elles
nunca se servirem d’uma arma com que ja mataram um inimigo.
_Caruatapyran_, um dos Principaes de Comã, trouxe-me um d’esses machados
de pedra, ainda tinto de sangue, com alguns cabellos adherentes, e com um
pouco do cerebro do Principal _Íanuaran_, que com elle foi morto, o que
se soube por ser encontrado sobre seo corpo.
_Caruatapyran_ pegando um d’esses machados, feito em fórma de crescente,
ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me terem os _Tremembés_ o
costume mensal de vellar toda a noite fazendo seos machados até ficarem
perfeitos, em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para a
guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, e sim sempre
vencedores.
Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a este trabalho dançavam
as moças e os meninos a frente das choupanas ao luar do crescente.
São valentes os _Tremembés_ e temidos pelos _Tupinambás_; d’estatura
regular, mais vagamundos do que estaveis em suas moradias: alimentam-se
ordinariamente de peixes, porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam
de fazer hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem as
planicies ás florestas porque com um simples olhar descobrem tudo quanto
está ás suas vistas.
Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se com seos arcos,
flexas, machados, um pouco de _cauï_, algumas cabaças[62] para guardar
agoa, e umas panellas para cozinhar a comida: com mais destresa que os
Tupinambás pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo
braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se fosse um capão.
Dormem n’areia ordinariamente.
Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores seccas para
agarrar os _Tupinambás_, como ratoeira para pilhar ratos, e isto por tres
razões.
A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada.
A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros vermelhos de todas
as partes vem fazer ninho para desovar. Não deixam de ir ahi em certo
tempo os _Tupinambás_ para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios
chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, quando
regressão á villa, provisão para dois mezes, preparando antecedentemente
uns assados, e outros seccos e duros como paus, o que nunca me agradou, e
a fallar verdade, nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens o
primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns uzos particulares,
e bem notaveis, d’estes passaros.
O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado pelos Tupinambás
_Piraputy_ «excremento de peixes,»[63] por que elles pensam ser o
ambar-gris o excremento das baleias, ou de outros peixes iguaes em
corpulencia, o qual vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas
praias.
Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa mais do que a
«flor do mar,» a que os selvagens chamam _Paranampoture_, ou uma certa
gomma do mar, _Paranamussuk_.
Decida o leitor como lhe aprouver.
N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais n’um tempo do que
n’outro, e algumas vezes chega a massa a tal tamanho e grossura, que
merece ser guardada n’algum gabinete real, não podendo ser justamente
apreçada e vendida. Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos
os bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, das
circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as com
cuidado, e por isso são essas grandes massas partidas em varios pedaços.
Aconselhei a elles, que ahi fizessem um _Forte_ não só para impedirem
as correrias dos _Tremembés_, como para tapar a entrada aos navios, que
buscam a Ilha de Sant’Anna afim de colherem o ambar-gris; não ha duvida,
que o mar atira muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi
espalhado é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens da
Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante o anno.
Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para pagar as despezas do
Forte, da sua guarnição, e do mais que fosse necessario.
Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações por varios
lugares somente acharam os corpos mortos dos seos, as choupanas, e
vestigios de inimigos, e assim regressaram á Ilha mais famintos do que
feridos.