VI.

Assim, entre amarguras,

Me delirava a mente!--

E o sol ía fugindo

No termo do occidente.

E os fortes lá jaziam

Co'a face ao céu voltada;

Sorria a noite aos mortos,

Passando socegada.

Porém, a noite delles

Não era a que passava!

Na eternidade a sua

Corria, e não findava.

Contrarios ainda ha pouco,

Irmãos em fim lá eram!

O seu thesouro de odio,

Mordendo o pó, cederam.

No limiar da morte,

Assim tudo fenece!

Inimisades callam,

E até o amor esquece!

Meus dias rodeados

Foram de amor outr'ora;

E nem um vão suspiro

Terei, morrendo, agora:

Nem o apertar da dextra

Ao desprender da vida:

Nem lagryma fraterna

Sobre a feral jazida.

Meu derradeiro alento

Não colherão os meus?

Por minha alma atterrada

Quem pedirá a Deus?

Ninguem!--Aos pés o servo

Meus restos calcará;

E o riso do despreso

Vaidoso soltará.

O sino luctuoso,

Não lembrará meu fim:

Preces, que o morto affagam,

Não se erguerão por mim!

O filho dos desertos,

O lobo carniceiro

Ha-de escutar alegre

Meu grito derradeiro!

Oh morte!--o somno teu

Só é somno mais largo:

Porém, na juventude,

É o dormi-lo amargo.

Quando na vida nasce

Essa mimosa flor,

Como a cecem suave,

Delicioso amor:

Quando a mente accendida

Crê na ventura e gloria:

Quando o presente é tudo,

É inda nada a memoria;

Deixar a cara vida,

Então, é doloroso;

E o moribundo á terra

Lança um olhar saudoso.

A taça da existencia

No fundo fezes tem;

Mas os primeiros tragos

Doces--bem doces--vem.

E eu morrerei agora,

Sem abraçar os meus,

Sem jubiloso um hymno

Alevantar aos céus?

Morrer!--E isso que importa?

Final suspiro, ouvi-lo

Ha-de a patria. Na terra

Eu dormirei tranquillo.

Dormir?--Só dorme o frio

Cadaver, que não sente;

A alma vôa, e se abriga

Aos pés do Omnipotente.

Tambem eu para o throno

Accorrerei do Eterno:

Crimes não são meu dote;

Erros não pune o inferno.

E vós entes queridos,

Entes que tanto amei,

Dando-vos liberdade

Contente acabarei.

Por mim livres chorar

Vós podereis um dia,

E ás cinzas do soldado

Erguer memoria pia.

_Porto--Julho de 1832._

*D. Pedro.*

A Harpa do Crente Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta · 第 74 / 76 题