II

O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefável

sensação de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as

viagens em nós despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num

alviçareiro estímulo interior. De tudo quanto o rodeava crescia para êle

o interêsse. Livre, pelo momento, de preocupações sôbre o futuro e

assediado por todo um mundo de sons, aspectos, côres, idéas e coisas

novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma

dilatava-se-lhe num voluptuoso apaziguamento sem têrmo, como essa lisa

toalha imensa de mar, sem perfídias e sem cóleras.

A corneta chamara para o primeiro almôço. Fóra, pelo espaço, havia sol,

havia luz, e o tépido acariciamento da brisa casava-se numa euritmía

perfeita com o manso ronronar das águas. Neste plácido ambiente de

espuma e oiro, as silhuetas saltavam nítidas, as tonalidades ganhavam

valor, sentia-se mais amigo e mais próximo, mais potente, mais cálido,

mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar

extasiado do Silveira, todo o bigarrado movimento de bordo se esmaltava

de tintas de relêvo, de cânticos pagãos, de brados genésicos, de

inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe

pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixões fôssem mais

fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Saíndo, na direcção do

refeitório, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrança dos seus

ignorados, dos seus humildes correligionários da passada noite, e ia a

demandá-los, com piedosa atenção, através a gradeada porta da masmorra

que ali assim perto os mantinha a distância, quando uma outra

solicitação mais empolgadora e mais instante lhe rompeu da alma em

alvorôço: a imagem fugidía e alada da joven argentina, entrevista tambêm

na véspera, no salão. Mas, por azar,--debalde o Silveira esperou!--nem

ela nem ninguêm da família baixou a comer.

Não havia então remédio senão confiar do acaso o providencial milagre de

a ver aparecer.--Mas quando? mas aonde?...--E aí sóbe êle de golpe no

ascensor e vem atravessar o salão e faz o giro afanoso do barco, mirando

em tôdas as direcções, perquirindo os bizarros grupos distribuidos

preguiceiramente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das

cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupação essencial, o resto

marcava zero para êle, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber.

Acotovelava insensível os arremangados homens do _sport_, cortava

indiferente as interesseiras chalras de grossos burgueses, vestidos de

fustão branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente,

às louvaminheiras investidas do dr. Contreras, em termos de passar por

malcriado; e por um triz não préga de bôrco sôbre o convés com uma

barafustante paqueta baíana, magra, pequenina, ictérica, que comandava a

poder de gritos e truanescas evoluções uma chusma de pequerruchos.

Por fim, essa adorável argentina ei-la que aí vem agora avançando... Vem

só. Era alta, esguia, frágil e avançava leve e aérea, como um reflexo de

si mesma, lembrando no porte e na frescura um dêsses longos, finos e

erectos fustes da _palmeira imperial_, com o vértice perenalmente verde.

Seguia breve e alheadamente, com uma simplicidade não isenta de nobreza,

e foi sentar-se junto da mãe, uma repousada e aparatosa senhora que nos

parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que

denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela

segurança de tranqùila contemplação que emfim conseguia, já não

abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e

desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que

fôsse notado, entregar-se a esta viva e desbordante análise que a sua

alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia à excitação

misteriosa que dentro de nós faz chispar o maravilhoso reflexo interior

da simpatia.--Era curiosa, enternecedoramente curiosa, com efeito, esta

linda desconhecida. Aparentava 20 anos, não mais. Farto cabelo castanho,

_mousseux_, sem brilho, descendo em bandós singelos a juntar-se sôbre a

nuca; pequenina testa espiritual, em triângulo; os olhos castanhos

tambêm, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lançadas

sôltamente; o nariz projectado direito e um pouco longo, toda a face

alongada por igual, perfil grego, traçado num como que afinamento

idealista e ingénuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos,

muito iguais, e a bôca breve, os lábios finos mas expressivos, resumindo

o que porventura havia de vida e de paixão nesta criatura reservada e

tímida. Nenhuma espécie de atavios: nem espartilho, nem jóias. Apenas na

base do pescoço, ático e longo como um mármore da Jónia, um colar de

corais napolitanos. As suas mãos, de dedos brancos e finos como longos

estames, e mais claras que o tom _mate_ do rosto, eram o prolongamento

lógico de tôda a figura, lembrando os tenros rebentos duma árvore de

sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se-lhe no vago, enquanto na

filigrana húmida dos lábios perpassava um frémito breve de emoção.

Na alma ardente do Silveira rompêra agora o desejo veemente,

irreprimível, de mutuar impressões com a linda desconhecida.--Mas como

consegui-lo, como chegar adonde a ela?...--considerava com afinco,

instalando-se-lhe na frente, numa atitude de estudado abandôno, os

cotovelos sôbre a amurada.--Tinha que haver uma apresentação, manobra

táctica reconhecidamente difícil para o investimento cortês duma família

como aquela, que êle não via comunicar-se com ninguêm, que ninguêm

saùdava e que a ninguêm retinha, mantida mui deliberadamente no seu

desprendido círculo de isolamento e indiferença. Assim, uma aproximação

em condições favoráveis, segundo as regras do bom-tom, não era empresa

vulgar.--O Silveira, de lábio pregado, reconhecia-o, e esta

descoroçoadora evidência, longe de o desalentar, mais o

enardecia.--Havia que buscar...--Numa fêvera crescente de impaciência,

planizava estratagemas, ideava hipóteses, amontoava projectos, que, mal

esboçados ainda, todos logo fracassavam. Então, em alternâncias de

dulcíssima pausa, como um bálsamo, o áspero aguilhão do seu cuidado

amolecia na contemplação deliciada e atenta dêsse baluarte suave de

isenção e de virtude. Mas logo, mais despótica, mais tenaz, a sua

amoruda obsessão voltava, por cada um destes venusinos exames trazida a

um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatava a vontade e lhe

acendia o desejo.

Um momento veio então em que o Silveira notou que, um pouco mais ao

largo, à ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um joven glabro

e calvo, com o engerido busto dobrado sôbre uma destas pequeninas mesas

portáteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lápis seguiam

numa carreira febril, dir-se-ia ao atropêlo cálido da improvisação,

enchendo fôlhas sobre fôlhas sôltas, que a aba loira dum grande _panamá_

protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propósito exibitivo e

grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e

imobilizava-se, como que colhido em pausas de transcendente laboração

interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lápis erguido

digitalmente sôbre o lábio sibilino. Depois, num ímpeto criador, um

estremeção simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, êle

recomeçava inflamadamente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao

Silveira que, numa destas estases de espiritual concepção, o biltre

encarára particularmente a adorável argentina, a criatura esfíngica do

seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambiára com ela um qualquer familiar

sinal de inteligência.--Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz até

à insolência... Bem, mas então, nesse caso... havia que conhecê-lo a êle

tambêm!--E forte nesta idéa, feliz por êste relâmpago de aproximação

salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de

espaço a espaço aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso traço

iniciai à sua fortuna.--Era uma figura abortiva e grotesca, assim

tortuoso, magrote, pequenino, com o seu bigodito loiro, raso à raíz dos

lábios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, com a cabeça tôda em

tortumelos, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal,

aparada caricaturalmente em ponta, num dêsses estiramentos cucurbitáceos

peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoço sôbre a

ladeira débil dos ombros mais acentuava o desliamento quebradiço e

vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sôbre êste pescoço

estriado, sôbre estas mãos nodosas, sôbre esta cabeça paradoxal que

parecia recêm-saída dum cataclismo, não havia a epiderme rugosa e áspera

que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penujosa e clara

duma pele de efébo, _mate_, adoçando os contornos, com transparências de

aguarela e velaturas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente;

a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava súbito a

uma rubefacção herpetizada e adusta no revestimento crassoso das

desertas grimpas do cránio luzidío.

Vestia um jaquetão negro de lustrina, colete e calça de flanella créme,

sapatos brancos, peúgas rôxas, a camisa mole _ajourée_, e a farta

gravata de sêda negra caída e sôlta num desmanchado laço de artista. Um

mixto de pedantismo e inconsciência, de garridice e desmazêlo.

Propunha-se o Silveira abordá-lo, quando um pequeno incidente surgiu, a

cortar-lhe o propósito e colocá-lo num passo difícil... Era o conde

Améglio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o «grande

fidalgo português e seu não menor amigo», logo de acercar-se-lhe,

expansivo, sorridente, num afectuoso desbarato de gestos e mimadas

atenções, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mão,

familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas,

ofertas, lembranças, solicitudes.--Que fazia ali assim? porque não vinha

com êles?...--A adorável irlandesa, numa sublinha cativante, sorria

tambêm. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de

súbito posto à prova na duplicidade egoísta dos seus instintos.

Gaguejava de embaraço, não acertava com uma posição, as palavras não lhe

acudiam. Tomava-o uma espécie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se

assim entaliscado estúpidamente entre essas duas solicitações, qual

delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar,

por fazer-se admitir ao convívio da linda americana, cuja linha patrícia

e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual _Mrs._

Edith, cujas bôas graças não queria perder, mas junto da qual tambêm não

lhe convinha fazer demasiado ostentiva parada de atenções, neste

momento. Defendia-se por monossílabos, numa grande instabilidade de

movimentos, còrando como um colegial e mirando de escape, numa idiota

solicitação de escusa, a bela argentina, que nem dava por êle. Por fim,

ante a insistência pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo

que breve iria, a estibórdo, ter com êles; e tornou a còrar mais forte

quando o conde, já longe e ao dobrar a esquina do _deck_, se voltou num

gesto afável, acenando-lhe convidativo com a cabeça.

Daí a instantes, liberto do arreliativo pesadelo, acercou-se dissimulado

do incansável rabiscador, o qual, no momento justo, arredára, num desvio

brusco do antebraço, a grande aba do _panamá_ protector de sôbre as

tiritas de papel, que logo desparramaram ao acaso, como arvéloas, pelo

espaço. E logo tambêm o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solícito,

baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolhê-las.

--_Un millón de gracias, caballero_.

--De nada...--obtemperou, amável, o Silveira; e com discreta

atenção:--São produções inéditas?

--_Apuntes del natural_,--tornou singelamente o outro, sempre em

espanhol,--esquissos, impressos, simples notas do momento, fugazes como

êste instante de vida em que voamos.

--Deve ser interessante.

--Não vale nada...--derivou o iluminado anotador, num gesto

desprendido.--Um modo inofensivo de matar o tempo.

Convidou o Silveira a sentar-se e acercavase-lhe, solícito,

insinuante.--Sem dúvida era português? Pelo modo, pelo acento, via-se

logo... Muito folgava! Êle era andaluz. Um pouco periodista e um pouco

homem de negócios.--Impingia-lhe o seu cartão de visita, impresso em

tipo gasto e vulgar, modestamente.--Ramón Alvarez, _tout court_.--Mas,

sôbre a caligrafia tôrpe dos caracteres, um empenachado elmo luzia

heráldicamente, mais tôrpe ainda.--Êle era duma família da mais antiga

linhagem, família de cronistas, de poetas, de galans... e tivera sempre

um grande fraco pelas letras. Tinha dois livros em preparação, uma

novela e um poema épo-histórico, e tambêm um drama prestes a ser pôsto

em scena pela Maria Guerreiro.--Oh, os intelectuais!--exclamou o

incompreendido escriba, desarticulando o busto, rolando os olhos em

êxtase e, num bravo arranque de entusiasmo, atirando a enormidade

paradoxal da cabeça sôbre a nuca.--São a flor por excelência, a suprema

exaltação da terra!--Infelizmente, êle vivia... viviam os dois, que lhe

perdoasse se tomava a liberdade de o dizer... mas lá como cá... viviam

numa peste de países de analfabetos, onde por via de regra os

pensadores, os génios, os grandes eleitos do talento e do saber, morriam

de fome. De sorte que, assim, havia que ser-se ao mesmo tempo um pouco

prático.--Que remédio!--com enfado soberano rematou. E iludia o seu

prosaico mistér de caixeiro viajante num vago eufemismo, dizendo «que

vinha à Argentina estudar o país».

--E conhece argentinos?--logo o Silveira indagou com calor.

Amor Crioulo vida argentina · 第 13 / 22 题