AMOR CRIOULO

I

Naquela tarde mormacenta de fevereiro, João da Silveira embarcára em

Lisboa, no _Almería_, com róta à America do Sul. Considerava-se um

sem-pátria, agora, na sua bôa e amorável terra, sôbre cujo manso e

carinhoso seio não fumegavam senão escombros; terra perdida e maldita,

pelo jacobinismo vermelho do 5 de Outubro abalada nos seus fundamentos e

furtada criminosamente ao seu destino. Todo o ambiente tradicional em

que havia sido criado, êste parasitário rebento do vélho regímen vira-o

derruir de roda de si com estrondo. Crenças, privilégios, isenções,

benesses e preferências, tôda essa contrafeita armadura de iniqùidade e

obscurantismo que sustinha ainda de pé a combalida ficção monárquica,

tudo rolára desfeito, num epilepsiado arranco, numa comoção formidável,

enquanto invadia ferozmente o espaço em tôrno um caótico fumo de

confusão e de treva... e a visão inquieta do futuro envôlta num tôrvo

mistério, como um polvoréu de ruína.

Tudo lhe havia quitado descaroávelmente esta estúpida idéa da Rèpublica:

os cincoenta mil reisitos que êle, mensalmente, ia ou mandava com tôda a

pontualidade receber, a título dum amanuensado hipotético na Junta do

Crédito Público; as bôas graças da sua apetecida noiva, a Laurita, filha

dum acaudalado burguês e pelo pai abominávelmente educada, a qual agora,

com o Afonso Costa no poleiro, já cantava tambêm de papo; e até,--o seu

pensamento hipócrita rematava,--e até as nobres, as suavíssimas côres da

bandeira de seus avós, êsse azul calmo e êsse branco ingénuo, símbolo

irrefragável da alma nacional, ora via suplantadas por um vermelho de

açougue e um verde de curral, duas tonalidades irreconciliáveis, duas

côres ásperas, irritantes, heréticas, como punhais, como blasfémias.

Durante os primeiros meses da Rèpublica, João da Silveira, como tantos

outros, conspirou. Aquecia-lhe a alma êste vago _sebastianismo_ solapado

no íntimo de todo o bom português, acicatava-lhe o desejo a gulosa

lembrança daqueles magros cobres orçamentais que, somados ao activo do

seu escasso património, lhe serviam a governar sofrivelmente a vida.

Assim, na sua ferina hostilidade contra o novo regímen, concorriam

simultâneos a alma e o estômago, uma predilecção ancestral e um instinto

devorista. E foi certamente esta dualidade antinómica de inspirações

que, embora visando ambas o mesmo fim, cardou a sua actuação de

conspirador de todo o carácter excessivo. Porque êste cauto Silveira

firmou várias adesões e compromissos, fez nutrida propaganda verbal

entre os rústicos, prontificou-se a recrutar gente, enviou mesmo algum

dinheiro; mas sem arriscar-se nunca pessoalmente no campo da luta

militante. Após a frustrada incursão de Chaves, não quis mais. Os seus

40 anos previsores e calculistas haviam grado em grado esmoitado, na

gafa estrutura moral dêste malogrado d'Artagnan, o espírito de aventura.

Vendeu a sua reputada vinha do Pinhão, arrendou a linda quinta da

Folgosa com o solar «de sete capelas», seu fidalgo berço natal e

residência muito em conta quando em apuros de dinheiro; à noiva escreveu

«que a sua dignidade, em briga com o seu amor, o forçava àquele exílio

doloroso»; e aí o temos agora dobrado com indolência sôbre a amura do

_Almería_ em marcha, vergado o busto, as mãos pendentes ao abandôno,

evitando olhar o manso deslise da cidade donde sentia que lhe vinha um

frio vento de repulsa, com as pálpebras froixas seguindo, em baixo, o

rasgar da prôa pela limosa torrente caudal do rio, e os lábios vorazes

vagamente encrespados na voluptuosa antevisão do Desconhecido.

Primogénito dos três filhos dos Silveiras Lôbo, de Mosteirô, o pequeno

João fôra criado com tôdas as mimadas preferências e tôda a jactanciosa

despreocupação dos antigos morgados. Todos os perniciosos desvíos lhe

havia consentido o dissolvente meio familiar e êste odioso prejuízo

educativo, todos: desde o achincalho, o abandôno burlão dos mestres, até

ao abuso feudal das raparigas. Daí que, resultando uma organização

inadaptável ao trabalho e um carácter voluntarioso e cego, o Silveira

havia consumido o melhor da sua vida ou bambochando em saborosas

sensualidades, ou luzindo em bárbaras pimponices, porêm um mísero

hóspede sempre da pura emoção, sempre refractário às reacções da

alquimia ideal do sentimento. Alto, forte, moreno, com uns negros olhos

dominadores e uma estrutura apolínea, entretanto no seu belo rosto

varonil espatinava-se a tinta de vulgaridade que imprime às fisionomias

de hoje a dureza, a ausência do sentir. Pronto sempre e álerte ao

galanteio, à volúpia, à brutalidade, ao prazer, nunca até àquele momento

se sentira capaz duma paixão que o arrancasse a si mesmo, que montasse o

seu egoísmo e as suas ambições tacanhas, que lhe pusesse asas na vontade

e lhe espiritualizasse o desejo. Nutria um tédio altaneiro pelos

aspectos triviais da vida,--êste tédio que é o triste apanágio das almas

sem vôo, dos corações vazios. Jàmais consentira intimidades e votava,

pelo geral, aos homens um desdêm cortês, às coisas uma indiferença

amável. Podia ser assim na medida do seu critério material, o mais feliz

dos homens, de vida rolando e fluindo suavemente como um exercício de

patinagem, se não tivera a furuncular-lhe, como uma fatalidade

ancestral, a crôsta da alma empedernida, o culto ardoroso, despótico,

incessante, bárbaro, da mulher. Era êste o flanco vulnerável do seu

_eu_, o único ponto em brecha naquele carácter dominador e altivo.

Abstenção feita da condição, da raça e da moral, o alarmante _odor di

femina_, fôsse urbano ou rústico, fidalgo ou plebeu, negro, amarelo ou

branco, amolecia-o. Posta em conflito com o perturbador mistério

feminino, a sua melindrosa sensibilidade capitulava, cedendo a um vício

de receptibidade extrema que se traduzia na falta absoluta de energia.

Nem por isso o nosso herói consentira nunca em descer aos atormentados

abismos da paixão, ou se deixára enlear no labirinto vêsgo da loucura.

Mal aflorava com o desdenhoso lábio o mel turvo do prazer, saltitando

despreocupado dum amor a outro amor,--epidérmicos todos, breves,

fugazes, como frutos apenas mordidos e logo deitados fóra. Era de

ordinário a vulgaridade do instinto que o dirigia, arrastando-o não raro

a scenas ridículas; mas já tambêm, uma que outra vez, a virtude suprema

da emoção, transfigurando-o, o erguera a desgarradas alucinações de

artista. Nesses altos, raros momentos de libertação êle sofrera, numa

atónita inconsciência, o puro domínio da Beleza. E agora mesmo, nesta

sua voluntária demanda da Solidão, neste atoado caminhar para o

Infinito, sem o amparo duma doce mulherita ao lado, o Silveira sentia o

coração árido e triste como o ardido leito duma torrente sem água...

Tremeu um instante, como no terror mortal de ir transpôr o vácuo, e

sacudiu-o um confrangido alvorôço, uma como que compaixão de si mesmo,

que o fez aprumar-se, esperto, na amurada, erguendo os inquietos olhos

ao espaço, por onde lhe parecera ouvir bater um esparrôdo incerto de

asas, e depois, com as pálpebras húmidas num ensopamento de ternura,

querendo reter o perfil indeciso da cidade que lhe fugia, na magoada luz

do crepúsculo, envôlta em lívidas musselinas de mistério.

Para onde ia êle? que ignorados destinos o aguardavam lá longe, nesse

novo grande mundo, para êle um enigma, e onde tudo era colossal,--o

progresso e a barbárie, a miséria e a riqueza?... Interrogações que

naturalmente lhe acudiam e vinham, freqùentes, cocegar-lhe a inculta mas

viva inteligência. Vagamente sentia que o homem que viaja aumenta sempre

e a cada momento enriquece a sua bagagem impressionista interior, a

qual, bago a bago, se vai então enceleirando, como um precioso tesouro

sentimental, no arcão das íntimas recordações, das lembranças

carinhosas. Cada povo, cada ambiente, cada país, cada raça deixam aí a

sua marca indelével, e essas pitorescas estratificações são outras

tantas parcelas novas que veem somar-se à história da nossa vida,

despertando-nos cordas inéditas no sentir ou alargando a latitude moral

da experiência. Não eram estas coisas postas bem a claro nem sentidas

nítidamente pela insuficiência mental de João da Silveira; nítidamente,

contudo, êle sabia,--isto sim!--ser a América do Sul terra «de lindas

mulheres»; e o relâmpago desta promessa acirrante fazia-lhe o passo

leve, encrespava-lhe a medula e acendia-lhe o desejo. Depois, havia

ainda que ver os seus sócios de viagem, havia que observar e indagar

quem, quanta e que qualidade de gente vinha ali a bordo com êle. Sem que

soubesse explicar-se bem porquê, tomava-o êste antecipado encanto dos

conhecimentos adquiridos em viagem, breves contactos de almas volitando

ligeiras entre os dois infinitos do céo e do mar, qualquer coisa de

adorávelmente vago, de efémero e profundo ao mesmo tempo. São como que

brisas do sentimento: se não prendem o coração tonificam a alma.

Os primeiros dois dias de viagem, té à Madeira, foram maus. Tempestade

constante. Aquele primeiro mormaço ameaçador engrossára e fechára té

disparar na trágica violência dum temporal desfeito. A chuva, a

cerração, o mar revôlto e o sudoeste rijo, soprando contrário, atrasavam

o barco e com êle jogavam perdidamente, sacudindo o transatlântico em

rijas convulsões que reduziam a arrogância industrial do seu poderoso

arcaboiço a proporções irrisórias. Nada estava seguro, pairava-se

indeciso na comoção e na treva. De quando em quando, varria de lés a lés

a embarcação uma ráfaga mais intensa, e tudo então a bordo dançava,

estalava, tiritava e gemia, no estrangulamento brutal da garra do

Desconhecido. Grupos descalços de marinheiros, trotando rápidos, faziam,

aqui, ali, a sua aparição fantástica, cerrando escotilhas, aprontando

escaleres, correndo presto a manobra. E agora, a intervalos, na

opacidade da noite como tinta, acima do ranger do cavername do monstro e

do rugir cavo das águas, por sôbre tôda essa brava orquestração da Morte

roncava e erguia-se alarmante o grosso apitar da máquina em desespêro.

E era como se não houvesse viv'alma ali dentro. A ninguêm era permitido

estacionar nos salões, no _bar_ ou nas cobertas; mas de horas antes que

perante a ameaçadora fúria do vendaval, poucos se sentiam em segurança,

e daí que uns pelo enjôo, outros pelo terror, outros por méra prudência,

tudo, na timorata demanda do seu beliche, fôra sucessivamente

desertando. João da Silveira, tomado dum indefinível mal-estar, com a

cabeça como chumbo, descera tambêm ao seu camarote, que era situado num

dos extremos do barco, formando esquina, junto à prôa. Tinha uma

ventanilha sôbre o mar e outra sôbre aquele ângulo avançado da coberta,

descobrindo assim um trecho dessa renovação iníqua das galés, essa

enorme grilheta ambulante, onde, sob um miserável tôldo, à intempérie,

ao abandôno, no mais absoluto desamparo, na mais sórdida promiscuidade,

num baralhamento ignóbil de idades, de sexos e de raças, rolando ao

áspero sabor da tormenta, como lastro, como calhaus, como lôdo, como

viva espuma, seguiam, empilhados a monte, os passageiros de 3.^a classe.

Foi a primeira sorte de gente que, a bordo, se lhe antolhou ver mais de

perto; tinha agora ali assim, ao alcance inevitável, próximo da atenção,

misérias, tristezas, espantos, dores que até ao momento êle arredára

sempre com dureza do seu coração, de ordinário avesso à piedade. Agora

tinha que forçosamente senti-las, ouvia-lhes o singelo relato das suas

penas e angústias, chegavam-lhe lamuriados protestos, tímidos gritos de

rebelião, surdas frases doloridas; começava a interessá-lo o aspecto

resignado, humilde, sofredor daquelas rôtas máscaras de agonia,

vinha-lhe o fartum nauseabundo da comida que lhes serviam; e durante a

sua primeira noite de mar, noite de pesadelo, noite de insónia, noite de

incomportável pavor, em que a madorna do cansaço lhe era a cada momento

posta em sobressalto pelo súbito martelar dos mais estranhos ruídos,--o

ferrolhar brusco de cremalheiras, silvos raspantes de cordagens, choques

brancos de metais, ringidos como rasgões, estalidos como pragas,--quem,

neste poema de extermínio, dava ainda a nota mais sinistramente aguda,

era essa atormentada frandulagem humana, quando, sôbre o convés

encharcado rojados à mistura, os seus altos gemidos em súplica rasgavam

ululantes o espaço, formando um concertante macabro com o alarído

bárbaro da tormenta.

Quando o _Almería_ conseguiu por fim fundear, frente à Madeira, a

caligem persistente no céu, as grossas cordas de água e as vagas

alterosas não permitiam fácil às pequenas embarcações acercarem-se do

paquete, e furtavam arreliativamente à contemplação do Silveira a

maravilha habitual dêsse scenário paradisíaco,--o amoroso encanto da

luz, a aragem perfumada do ambiente, a graça ingénua das construções, o

azul translúcido das águas, a esmeraldina frescura, o contôrno sensual

daquele monte atrevido de colinas salpicadas de claras harmonias, o

deslumbramento sem par e a euritmía incomparável dêsse atrevido

anfiteatro pagão, único no mundo, apenas agora entrevisto pelos claros

farpados na neblina, como através um entremeio de renda. Entretanto,

bôjo acima da pequena cidade flutuante, os vários _decks_ começavam a

animar-se; de tôda a parte surdiam lindos rostitos timoratos, cautelosos

bustos, ou enérgicos perfís, duras e arrogantes linhas masculinas,

incrédulos ainda, ávidos, curiosos, abertos numa cantante expressão de

alívio ou movidos numa alegre inquirição de interêsse; miravam-se

solícitos, acercavam-se efusivos e palreiros, formando vivos grupos de

acaso, intromiscando-se, reconhecendo-se, beijando-se; no salão

aparatoso da 1.^a classe, todo em _boiseries_ e estofos, os compassos da

orquestra espraiavam-se em molhadas ressonâncias; no extremo oposto,

pela grossa atmosfera heteroclita do _bar_, as rôlhas do Champagne

saltavam, preludiando estúrdiamente o distanciar do perigo. Mas o

Silveira, de fito sempre ao largo, não cessava de considerar o

deslumbramento panorâmico da ilha; e então viu como de roda do grande

barco, arfante ainda e a escorrer, sôbre a juba crespa e revôlta do mar,

dezenas de lanchas bailavam doidamente, em riscos de, num choque mais

violento, se estilhaçarem contra o colosso, na impossibilidade duma

aproximação tranqùila. E notou que vinham atulhadas de emigrantes,

outros tantos míseros foragidos como aqueles seus tristes vizinhos de

bordo, uns centos mais de desgraçados que iam ser pasto da voragem

insaciável dessas regiões intérminas onde fulgura o mito precário da

riqueza; protéico enxurro humano, encarnação polimorfa da desgraça na

demanda hipotética da fortuna. Eram carne votada à gleba, vítimas

forçadas da iniqùidade económica, a quem nem por isso o duro

mercantilismo reconhecia a importância do seu valor, como utilidade

social. Eram lágrimas que vão trocar-se em pérolas, vidas heróicas que

vão fundir-se em oiro, e que, não obstante, são tidas por nada por

aqueles mesmos para quem o seu descraziante esfôrço é tudo. Eram almas

tratadas como coisas, e que ali em baixo esperavam transidas, no mar em

cólera, sob a chuva, que os içassem como fardos miúdos, como valores

mercantís, como bagatelas, como bugiarías, como sucata, por uma corda. A

operação era primitiva: atados em pequenos molhos por um grosso cabo,

sem escolha, não importa como nem por onde, lá vão subindo em cachos,

escorrendo água, atoadamente, morosamente,--as mães com os filhitos a

dôrso, chorando, agitando no espaço as mãos como vermes; os vélhos

pendendo resignados na frouxidão da impotência; os moços ganhando

distância em arrancadas simiescas, e todos numa ansiada alternância

movendo os olhos pávidos entre a promissora segurança do navio, ao alto,

e em baixo a fúria glauca do abismo.

Passada, porêm, a Madeira, o tempo amainára, e agora, enquanto a dupla

hélice do _Almería_ fazia o seu arroteio manso de espuma, pela

imensidade movediça do oceano o espelhamento límpido do céu

prolongava-se, águas adentro, em opalinas suavidades, em claridades duma

transparência infinita. Como conseqùência, a bordo restabelecia-se a

tranqùilidade e pelas diferentes cobertas a mancha buliçosa e a sonora

chalra dos viajeiros alastravam, cruzavam-se, demandavam-se e cresciam

numa algarada cantante de alegria. Á hora de comer, já noite, João da

Silveira baixou, entre os primeiros, a ocupar o logar de acaso que lhe

haviam indicado e êle aceitára dócilmente, no seu altaneiro desdêm por

aquela camaradagem fortuita de gentes vindas não sabia bem donde e

destinadas a desvanecer-se pronto, finda a viagem, no distanciamento

vago da indiferença. Era o único logar que havia ainda vago, numa

pequena mesa para cinco talheres. Sentou-se. Até àquele momento, mal

havia tido ocasião de encarar os outros comensais, abotoados

naturalmente na constrangida reserva em que se nos fecha de ordinário a

expressão, à visinhança de estranhos; porêm, agora começava a vê-los sob

um novo aspecto, voltava cada um aos seus gestos habituais, mutuavam-se

olhares de confiante inquirição, saùdavam-se efusivos, seguros,

contentes. Fizera-os comunicativos a simultânea vibração do perigo. Á

direita tinha o Silveira um curioso espanhol, abundante, palreiro,

grosso tipo de homem roçando pelos 50 anos, calvo, vermelhaço, grandes

dentes ralos nos grossos lábios gretados e rôxos, a barba grisalha curta

e mal cuidada. Vestia com vulgaridade, e na lapela usada do _smoking_

ostentava a roseta de Isabel a Católica, sofrívelmente suja. Á esquerda

ia um italiano, já entrado em anos tambêm, ponderado, gordote, a papugem

flácida das olheiras denunciando um grande _viveur_, a pele rosada e

fina passada de cosméticos, um ar importante, as mãos muito cuidadas.

Seguia depois um joven chileno, irrequieto, pomposo, farta cabeleira

revôlta pastichando a indumenta cerebral dum génio, um colarinho mole

inverosímil, os olhos negros e ardentes como carbúnculos, os dedos como

que modelando incansavelmente no espaço abstrusas, incompreendidas

formas, O quarto comensal era um puro _gentleman_, de finas maneiras,

olhar inteligente e doce, um riço buço incipiente sôbre a lisa cútis

morena penujando, e uma linha geral atraente, correcta, comedida.

--Rijo temporal, hein?--comentava com vivacidade, sacudindo a cabeça, o

espanhol, quando o Silveira tomou logar à mesa.

--Foi de respeito!--acentou pronto o chileno.

--Não acha?--tornou o primeiro interpelante, adiantando com intimativa o

busto para o italiano, que se limitou a baixar a cabeça num tácito

assentimento.

O joven brasileirito julgou oportuno corrigir:

--Foi forte, sim... ah! mas não se compara com as borrascas da Biscaia

ou da Mancha.

Ao que, num abundôso gesto de desaprovação, o espanhol, agitando o

guardanapo:

--Não, isso lá... O meu caro marinheiro, bem sei que é homem da

profissão... desculpará, mas não estamos de acôrdo. Então, eu não

sei?--E em tom convincente para o grupo:--Olhem que foi um passo... um

passo _de ponersele à uno los dientes de vara y média_!

--Mas, parece que não houve desastres a bordo?--aventurou quáse

maquinalmente o Silveira.

E logo o outro, tranquilizador, dogmático:

--Ah! não senhor. Nada! Nem _desperfectos_ nem doenças. É um grande

barco êste. Acabo de o assegurar ao comandante, que deposita em mim tôda

a confiança. Ah, lá isso...--E, num risinho envaidecido,

atestou:--Amigos vélhos!

--Contudo, aquela pobre gente da 3.^a classe...

O _soi-disant_ íntimo do comandante teve um desprezível encolher de

ombros:

--Ah, sim, naturalmente... alguns _resfrios_. Mas eu já por lá andei.

Que o comandante, já digo, para estas coisas não quére outro... Pois não

há nada, não... Vão tomar musgo e leite. _Una jugadita pasajera, no

más_.

O caso foi que a familiaridade banal desta aresta de diálogo determinou

um começo de conciliação do Silveira com o ambiente. Êle passeava agora

distraídamente os olhos pela trivialidade cosmopolita do recinto,--êsse

vasto quadrilongo sussurrante e refulgente, todo em branco e oiro, com

os seus colunelos tarracos, os metais scintilantes das vigías dos

flancos, o tilintído límpido dos cristais e loiças, e,--constatava com

orgulho,--as lusas caravelas simbólicas pinturiladas com arrogância nos

luxuosos vitrais do teto. Interessava-o o ambiente e atraíam-no as

figuras. E com os seus eventuais companheiros de comida, agora, numa

saborida mutuação de impressões, ia travando gradualmente

conhecimento.--O espanhol, dr. Contreras, era médico, pelos modos: um

pobre diabo espalhafatoso e inofensivo... quando não exercia a

profissão, e em quem a arrogância dispersiva da figura buscava

caridosamente iludir a inércia tacanha do intelecto. Parece que o seu

govêrno, para se descartar dum importuno e juntamente evitar ao país o

aumento na cifra da mortalidade, o comissionára _in perpetuum_ para

seguir estudando as condições de sanidade a bordo dos grandes

transatlânticos. Um pretexto inocente e a missão mais a carácter para

êste pobre Esculápio _à rebours_, cuja educação profissional

cristalizára na terapêutica obnóxia dos purgantes e das sangrias.

Norberto Mackenna, o joven chileno, era um pintor cubista que ao seu

país tornava, após 4 anos de regalona vida em Paris, sectário _enragé_

de Picasso e grande devorador de azeitonas. O moço brasileiro era o

tenente da marinha Euclides Pereira, que ia matrimoniar-se a S. Paulo,

de regresso tambêm duma viagem oficial de estudo. O italiano,

finalmente, êsse dizia-se marquês e da mais alta estirpe. Descendia dos

Colonna di Mafiori, e em lances sucessivos de azar desbaratára ao jôgo o

melhor da sua fortuna. Esta maldita obsessão desfolhára e deixára

totalmente a nu, de prosápia e de oiro, o seu frondoso e arcaico talo

genealógico, abatido agora burguêsmente ao mercenário ofício de balcão.

Porque o marquês ia a Buenos-Aires negociar em alfombras. E dizia estas

displicentes coisas numa resignada bonomia, com clara singeleza, com

altivez, quáse com brio, mirando as unhas; e imobilizava-se em atitudes

de dignidade distraída ante a natural incidência da atenção alheia.

Com o brasileiro seguiu o Silveira, no ascensor, ao salão da 1.^a

classe, pronto irmanados os dois nesta instintiva aproximação em que os

prendiam identidades seculares de língua e de raça. Em cima, o recinto

estava pleno da mais variada gente, e havia o confiante abandôno

familiar dos estômagos contentes. Ás curiosas, inquirições do Silveira

mal podia o tenente Euclides, tam hóspede ali como êle, cabalmente

responder, limitando-se quáse a informá-lo sôbre o que sabia das

famílias suas compatriotas. E é que estas não só abundavam ali, como

tambêm, com a sua vivacidade despretenciosa e a sua bonachona

loqùacidade, davam a nota dominante. Norte-americanos, e ingleses--êles

e elas,--mal avançavam, um instante, pelas portas laterais, as cabeças

arrogantes e logo partiam, por um momento desviados na sua desportiva

tarefa de fazer indefinidamente o circuìto do barco, em largas e sólidas

passadas. Havia chilridos, cantos, vôos, jogos inocentes de crianças;

implicativos _snobs_ que continuavam a imperturbável leitura trazida,

sem intervalo, do comedor, forrados agora na apática moleza dum

_fauteuil_, cruzando as pernas; e ao lado duma aparatosa francesa, de

cabelo duvidosamente loiro e traje não menos equívoco, um derrancado

vélho sonoleava.

Mas o Silveira, que se dirigia a Buenos-Aires, buscava de preferência

exemplares argentinos; queria verificar ali, em documentos vivos,

flagrantes, se lhes assentava bem essa fama de galhardia, de distinção,

de urbanidade e opulência, da beleza soberana nas mulheres e de

enfatuado _estiramiento_ nos homens, que fazia do nome argentino o giro

dominador pelo mundo.

--De argentinos, aqui a bordo...--informou, circunvagando em tôrno a

vista, o Euclides, hesitante,--não é esta a época... Não dou conta senão

duma família.

E apontava-lhe, em cauteloso grupo à parte, num dos tôpos do salão, um

homem grosso e grisalho, todo de negro, a face totalmente escanhoada,

com uma senhora idosa, vestida de negro tambêm, muitos anéis e colar de

pérolas, sentada em meio das duas filhas. Poisavam singelamente, sem

estudo, sem afectação, o ar abstracto, numa atitude natural de abandôno

tranqùilo. As duas senhoritas principalmente parecia quererem delir-se

numa suave atmosfera de simplicidade e renúncia que era a antítese

formal de todo o propósito de exibição galante: contudo havia na sua

linha geral, sobretudo duma delas, um não sei quê de espiritual

selecção, de fino, de subtil, de espontâneamente belo e vagamente alado,

que começava por fixar com agrado a atenção e gradualmente nos trazia à

alma um superior encanto.

Seguia interessadamente o Silveira, por entre as volutas quiméricas do

fumo do charuto, o exame desta esquiva e singular figura, quando, todo

sorridente e afável, se aproximou dêle o marquês: «que perdoasse, se

acaso o vinha molestar... mas queria apresentar-lhe um compatriota assaz

distinto, fidalgo tambêm, como êle... não tanto... e como êle

arruìnado». Amávelmente o Silveira acedeu, e daí a instantes sentia o

efusivo apêrto de mão do conde Améglio di Paoli, espécie de emérito

charlatão internacional, vivo, matreiro, na larga face a inalterável

palidez dos cínicos, farta cabeleira negra, a mirada penetrante e fugaz,

os gestos abundantes. «Duros golpes da fortuna,--dizia,--o haviam

constrangido a demandar a América para ver se conseguia colocar aí meia

dúzia das melhores telas da sua esplêndida galeria. Telas dos séculos XV

a XVIII. Ricos pedaços da sua alma! Um sacrifício enorme... Não tivéra a

coragem de o consumar na Europa, onde o extraordinário valor das suas

colecções era aliás bem conhecido». Exprimia-se com abundância teatral

de efeito, num atropêlo de frases mortificadas exteriorisando como que o

pejo da sua precária situação; e tudo era desatar-se em atenções e

lisonjas perante êsse «grande aristocrata português» em que a sua

cabotina codícia farejava erradamente uma vítima. Luzia no _smoking_ uma

roseta vermelha e branca. Porêm, o Silveira achava-o plebeu, mórmente

posto em confronto com o divino perfil, de Madona, da irlandesa que se

lhe sentava ao lado. Era sua mulher. Num dado momento, a querer captar a

confiança do Silveira, apresentou-a; depois, sempre nas suas prolixas

aclarações e deferências, ia atropelando: «que levava aí assim... havia

de ver! um pequeno mostruário de obras tôdas de mestres, que eram puras

maravilhas. Vendê-las-ia mesmo perdendo, que remédio!... E que, em

Itália, êle era assim um como que avaliador oficial de objectos de arte,

pois fôra o inventor dum engenhoso processo de constatar a autenticidade

dum quadro por meio da microfotografia. O único infalível! Não sabia?...

Era um método ignorado, exclusivo seu, porêm a um tam nobre

senhor,--batendo-lhe amigávelmente no ombro, epilogava,--não teria

dúvida nenhuma em o fazer comparte do segrêdo».

O Silveira escutava-o numa indiferença cortês, distraídamente; enquanto

o melhor da sua atenção se fundia com deslumbrada ternura na figura

adorável da irlandesa, que lhe agradava enormemente, com o seu ar

repousado e cândido, a linha puríssima das feições, o arranjo ático do

cabelo castanho, o busto sóbriamente redondo, o gesto singelo e nobre.

Daí que, nos breves claros de repouso que lhe consentia a chalra

interesseira do marido, êle fez perante a diva o ensaio de algumas

amabilidades discretas... deplorávelmente perdidas,--logo êle desolado

verificou,--porque esta deliciosa filha de Erin não falava nem

compreendia senão a língua do seu país natal, de que o nosso desapontado

galã não percebia patavina.

Quando, pelas 11 horas, desceu à _cabine_, o Silveira trazia vivo e

palpitante no cérebro o baralhamento policromo e difuso de tôdas aquelas

figuras, tôda essa efémera _kermesse_ de notas de acaso, na aparência

desconexas e de cujas cruas tintas, bruscas oposições e antitéticas

formas, reçumava contudo um encanto especial, uma clara e singular

harmonia. Enquanto se despia, êle notou que ali assim fóra, à sua

ilharga, no triângulo aberto da prôa, havia tambêm alegria. Ali, a noite

era quási total. Uma única pêra eléctrica, com reflector, esclarecia

apenas o limitado espaço ao seu alcance, e a maior porção do recinto

ficava sob o domínio impreciso de vagas sombras dançando sôbre montes de

andrajos. No aplastamento próprio desta hora de repouso e sob o mesmo

invariável tôldo negro, os grupos, sórdidos, compactos, alargavam-se e

faziam monte sôbre rolos de cordas, sôbre as bagagens, sôbre mantas

vélhas, troixas, sacos, sôbre esteiras; e a escassez da luz erguia em

deformações de pesadelo, emprestava monstruosas ampliações de horror a

êsse caprichoso arranjo de cansaço e de miséria. Mas havia ainda muita

gente desperta; mesmo encostados à _cabine_ do Silveira, dois rústicos

italianos faziam pausadamente o interesseiro cálculo de quanto poderiam

vir a forrar, em cada mês, dos seus hipotéticos salários; um francês,

mais longe, trauteava _couplets_ canalhas; e tôda a sorte de vozes, de

idiomas, de murmúrios, gritos, expansões, risadas que eram lamentos,

suspiros que eram bocejos, tôda a gama fruste da animalidade, tôdas as

brutas explosões do instinto, se entrechocavam e faziam côro nesta

exótica Babel flutuante, grosso concêrto bárbaro que afogava o marulho

manso das águas e que ainda o sôpro galhofeiro dum _harmonium_ vinha

cobrir, a espaços, com a sua toada _chillona_.

Acomodado já o Silveira entre os lençóis, pareceu-lhe distinguir o

quebrado dedilhar duma guitarra, acompanhado duns acordes de violão...

Apurou o ouvido, não havia dúvida... aí voltam êles, trinaditos, leves,

como quem está afinando, êsses sons tam seus familiares, tam seus

queridos. E agora são já os prelúdios dengues do _fado_, um _fado_

choradinho e autêntico como só a alma portuguesa, enamorada e fatalista,

é capaz de bem sentir. Daí a momentos, em bom português, alguêm cantou:

_Das barbas do Afonso Costa

Mandei fazer um pincel

Para escovar as botinas

Do querido D. Manuel._

O Silveira saltou no leito, radiante, e ergueu meio busto, à espera de

mais, ávidamente. Já não se sentia tam só. A ironia gaiata daquela trova

fê-lo estremecer de vindicadora alegria. Esta descoberta inesperada

espancava-lhe o sono, aclarava-lhe a alma. Oh, a justiceira voz do povo!

O desdobramento do mote devia ser impagável. Vamos a ver que mais

viría...

O ignorado trovador cantou ainda outras duas quadras, porêm já sem

interêsse para o Silveira, porque gemiam lamechas trivialidades de amor.

No entanto, o grato alvorôço daquela primeira impressão ficou. «Não era

só êle...» comprazia-se em repetir no íntimo, vivamente sensibilizado

por êste traço imprevisto de afinidade moral com gentes de condição tam

abaixo da sua. Tinha ali assim, tam perto, analogias de sentir e fêveras

de ódio como as dêle, e a súbita descoberta desta conformidade

palpitante trazia-lhe confôrto. Inimigos tambêm do novo regímen...

dando-lhe costas, maldizendo-o como êle. E mais eram do povo, pudéra!...

do povo, sim... êsse pobre e sempre ingénuo povo português, de cuja

hipócrita adulação os rèpublicanos haviam feito plataforma essencial de

propaganda, e que depois do triunfo estavam agora burlando iníquamente.

Ah, mas êles lhes diriam! Brava gente! E tinha-os ali seus visinhos...

«Havia que conhecê-los, vê-los de perto. Bem...»

E adormeceu contente.

Amor Crioulo vida argentina · 第 12 / 22 题