Soncas, porque sospirar?
I a que se pueden alzar
Ia los ojos sin dolor?
Ni a que se pueden bajar
Donde los pornás enjutos?
Adelante, o cara atras?
Las tierras niegan sus frutos:
El sembrar es por demas,
Los aires andan corrutos,
Los hombres cada vez mas.
De aquel gran pino a la sombra...
Ia ves quanto que ensanchó!
Que el prado i zarzas cobrió
I los vezinos asombra.
A allusão, o _gran pino_, entendia-se com o valido de el-rei, o conde de
Castanheira D. Antonio de Athaide. Este, como todos os favoritos
poderosos, orgulhoso e despotico, abusava com frequencia de seu
prestigio e, no caso a que se referia a ecloga, elle não deixaria de
concorrer grandemente para o desenlace que se deplorava.
Embora franca e rude, a allusão era, comtudo, digna e não deprimente. Os
inimigos de Sá de Miranda aproveitaram-a para tecer uma habilissima teia
e afastarem para longe o atrevido poeta, implacavel para com os seus
desmandos. Intrigando na sombra, torceram a interpretação da ecloga e
deram ao trecho incriminado um sentido que, certamente, não tinha.
Apresentaram-o como um ataque directo. O conde de Castanheira, cioso de
seu valimento, comprehende-se bem, não poude levar á paciencia a
intervenção do poeta e muito menos tolerar o que considerou atrevidos
insultos.
Quaes as consequencias da torpissima intriga e do furor do valido, eis o
que não é precisamente conhecido. Dos versos de Sá de Miranda pode-se
inferir que foi cruelmente perseguido, correndo talvez mesmo grave risco
de, quem sabe, ser assassinado. Com effeito, mais tarde, quando já em
seu retiro, escrevia a seu irmão:
Agora, por que vos conte
O que vi, tudo é mudado:
Quando me acolhi ó monte,
Por meus imigos de fronte
Vi lobos no povoado:
e tambem:
Polo qual a este abrigo,
Onde me acolhi cansado
E ja com assaz perigo,
A essas letras que sigo,
Devo que nunca me enfado,
Devo a minha muito amada
E prezada liberdade
Que tive aos dados jugada.
Aqui sômente é mandada
Da rezão boa e verdade.
A bella _Canção a Nossa Senhora_ parece ter sido escripta quando o poeta
soffria duro captiveiro. Pelo menos, se se tomar á lettra estes versos:
ao meu destroço,
Assi tam perseguido como vedes,
D'antres tam altas, tam grossas paredes,
De ferro carregado,
Note-se que essa canção, como o proprio Sá de Miranda declara, foi
_feita por aquela de Petrarcha: «Virgine bella»_. Longe de constituir
uma vaga reminiscencia, é uma imitação positiva, embora livre, e que se
pode acompanhar com o modelo. Se não houvesse a confissão do
consciencioso poeta em seu _ms._, bastaria a simples confrontação para o
provar. Dias Gomes, que a analysou com uma minucia de grammatico
estrophe por estrophe, verificou que o poeta portuguez até lhe deu o
mesmo numero de estancias e versos, a mesma disposição metrica e
simulcadente, começando, como retrarcha, cada uma d'aquellas pela
palavra _Virgem_.
Não ha duvida em que a factura da _Canção_ seja posterior ao regresso do
poeta ao paiz. Mas seria composta por esta epoca? A ex.ma sr.ª D.
Carolina Michaëlis de Vasconcellos julga que sim.
A illustrada senhora, reconhecendo que o assumpto foi tratado
magistralmente e que a _Canção_ de Sá de Miranda excede em muito o seu
modelo, quanto á profunda expressão e intensidade do sentimento, não
concorda com Dias Gomes em que ella seja a producção mais sublime que se
encontra nas composições do illustre poeta da Tapada. A nosso ver, a
_Canção_, realmente admiravel pelo sentimento que a vivifica, tem o seu
tanto ou quanto de artificiosa.
Se não, veja-se:
...............................
Virgem, seguro porto e emparo e abrigo
Ás môres tempestades; ah que tinha
Ós ventos esta vida encomendada
Sem olhar a que parte ia ou vinha,
Vãmente descuidado do perigo,
Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada,
Não vos seja em despreço [~u]a coitada
Alma que ante vos vem,
Por rezõis que tem,
De imigos grandes mal ameaçada.
E que eu tam pecador e errado seja,
Vença vossa piedade
Minha maldade grande e assi sobeja.
Virgem, do mar estrela, neste lago
E nesta noite um faro que nos guia,
Pera o porto seguro um certo norte;
Quem sem vos atinar, quem poderia
Abrir sômente os olhos vendo o estrago
Que atras olhando deixa feito a morte?
Quem proa me daria com que corte
Por tam brava tormenta?
De toda a parte venta,
De toda espanta o tempo feo e forte.
Mas tudo que será? coa vossa ajuda
Névoa que foge ao vento
Que num momento s'alevanta e muda.
.....................................
Virgem, nossa esperança, um alto poço
De vivas aguas, donde a graça corre
Em que se matão pera sempre as sedes;
Não de Nembrot, mas de David a torre,
Donde socorro espero ao meu destroço,
Assi tam perseguido como vedes,
D'antre tam altas, tam grossas paredes,
De ferro carregado,
Um coração coitado
Chama por vos envolto em bastas redes.
Esse que eu som, sinais inda algums tenho
De ser do vosso bando,
Que a vos bradando por piedade venho.
Virgem do sol vestida, e dos seus raios
Toda cuberta e ainda coroada
De estrelas, e debaixo o sol, a lua,
São vindas minhas culpas d'assuada
Sobre mim tantas; valei-me ós meus desmaios!
De tantas que possa ir chorando alg[~u]a!
Não me deixárão desculpa nenh[~u]a
Os meus erros sobejos;
Levarão me os desejos
O milhor das idades [~u]a e [~u]a.
Quem tromenta passou por toda a praia
Cos ventos contrastando,
Saia nadando, ja coa vida, e saia.
Virgem, horto cercado, alto e defeso,
Rico ramo do tronco de Jessé
Que milagrosamente enflorece,
Custodia preciosissima da fe
Que toda junta tivestes em peso
Quando um e o outro sol sua luz perdeu;
Rompão os meus sospiros o alto ceo,
E a vos cheguem, senhora,
Que assi voa de ora em ora
Envolto n'este cego e basto veo;
De dia em dia, vou me de ano em ano,
A minha fim chegando
Dessimulando a vergonha e o dano.
Não será exactamente a referencia á prisão artificio poetico? A _Vida_
assevera que Sá de Miranda viu com desgosto a errada e malevola
interpretação do _Aleyxo_, mas que, _nem querendo declarar-se milhor,
nem esperar á vista os effeitos da ira declarada, tendo-lhe el Rey dado
hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas_,
preferiu retirar-se voluntariamente da côrte. Isto afasta, portanto, a
idêa da perseguição.
Como se poderia explicar que o poeta soffresse duros tratos se contava
com a amizade provada do seu bom amigo D. João III e com a terna
affeição do herdeiro da corôa que lhe mandava pedir suas poesias! É
natural que se tenha manifestado acceso, a pretexto da _Aleyxo_, o odio
dos inimigos de Sá de Miranda, mas não parece provavel que o soberano
consentisse em o ver perseguido como um animal damninho a que fosse
necessario encurralar. Vamos mesmo porque se metteu de permeio
agraciando Sá de Miranda com a Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas,
conhecedor de sua grande vontade de se recolher á solidão.
O facto é que Sá de Miranda abandonou a côrte para nunca mais voltar a
ella. Deixou _o mimo da Corte, a conversaçam dos amigos, a esperança de
mayores merces assegurada no favor do Principe Dom João, que em muito
tenra idade, começava a fazer lhe grande, e do Cardeal Dom Henrique, que
com mostras de particular affeição assistia a suas cousas_. Tudo pôz de
parte preferindo-lhe o socego corporal e espiritual.
O Minho, com a sua verdura de esmeralda, o seu azul purissimo, a
fertilidade de seu solo, a simplicidade encantadora de primitiva de seus
costumes, prendeu o philosophico poeta. A Commenda das Duas Egrejas, a
que se retirara, ficava perto do Pico de Regalados, na margem esquerda
do Rio Neiva, margens deliciosas como todas as do norte portuguez
accidentado e exuberante de vegetação.
Por lá se deixou ficar Sá de Miranda, no encanto e socego da paisagem, a
descançar das agitações da côrte e a inspirar-se em o doce decorrer de
uma tranquilla existencia. Ali, que até a natureza é tocante de candura,
que tudo encanta a alma e enleva o espirito, se fortaleceu o seu animo
abatido pelos desgostos experimentados na côrte e foram produzidas as
suas melhores composições poeticas.
Proximo da Commenda das Duas Egrejas vivia, em propriedades suas,
Antonio Pereira Marramaque, senhor de Basto, homem tido por mui douto e
versado em humanidades. Antonio Pereira entregava-se á vida placida dos
campos, não sem que votasse os seus maiores ocios ao estudo,
acompanhando com vivo interesse o movimento intellectual da Europa.
Seguia os resultados do conflicto provocado pela Reforma e defendia-a
com calor. Poetava tambem.
Entre Sá de Miranda e Antonio Pereira estabeleceram-se relações que
rapidamente se estreitaram e tornaram das mais intimas. Os dois poetas
foram mesmo quasi inseparaveis durante cerca de dois annos, sendo Sá de
Miranda hospede assiduo e considerado da casa de Basto, onde passava a
maior parte do anno.
Das mãos de Antonio Pereira recebeu Sá de Miranda o primeiro exemplar
das obras de Garcilaso e isto antes de 1536. Foi talvez esse
offerecimento o ponto de partida da amizade que os dois sustentaram.
Esse exemplar era, sem duvida, manuscripto, pois que a primeira edição
d'aquellas obras appareceu em 1543. É certo que para o primeiro
anniversario da morte de Garcilaso, em 1536, compôz Sá de Miranda a sua
ecloga _Nemoroso_ em que evidencia o mais intimo conhecimento não só das
poesias do grande lyrico hespanhol como de sua propria vida.
Apraziveis dias passaram os dois poetas. Gozaram a pulmões cheios o
encanto dos prazeres campezinos. Sá de Miranda, _era inclinado á caça
dos Lobos_. Não faltaram egualmente festas caseiras nem representações
de comedias improvisadas a que vinham assistir os mais nobres dos
arredores. Ás vezes, como era amigo de musica, Sá de Miranda tangia
viola de arco.
Assim foram os primeiros annos que Sá de Miranda passou em o campo. Tudo
tem fim n'este mundo e essa magnifica existencia da casa de Basto
terminou por haver Antonio Pereira _partido para a côrte com a sua casa
toda_, como o poeta diz em a carta que lhe dedicou.
Não é precisamente conhecida a causa nem a data da partida de Antonio
Pereira para Lisboa. Ha escriptores que affirmam ter-se ella realisado
depois de 1540, isto é, em epoca em que o senhor de Basto começava a
preoccupar-se com o futuro de seus filhos, nascidos por 1530, e entendia
dever apresental-os na côrte. Parece a outros que Pereira pensava em os
levar a frequentar a Universidade, o que não é possivel admittir-se pois
que aquella, reformada por iniciativa de D. João III, voltou para
Coimbra em 1537.
Seja qual fôr a causa que a determinou, a ida de Antonio Pereira para
Lisboa deve ter-se effectuado antes de 1536. Accusam-o diversos
indicios, entre outros os versos da carta que lhe dirigiu Sá de Miranda
e pelos quaes se conclue que, ao tempo em que era escripta, viviam ainda
Garcilaso e Gil Vicente. De resto, não se encontra n'ella a minima
allusão a seu casamento, o que era natural dar-se sendo, como eram, os
dois tão intimos amigos e constituindo aquella por assim dizer, um
precioso inventario da feliz temporada que elles haviam levado em sua
convivencia.
Sá de Miranda assistiu com immenso desgosto á partida de Antonio
Pereira. A proposito, escreveu a esplendida carta em que lhe faz
amarissimas reflexões e reprova as enormes despezas que a mudança
exigia. Depois, o perigo de seu bom amigo se perverter ao contacto com
essa côrte de que elle fugira!
Como eu vi correr pardaos
Por Cabeceiras de Basto,
Crecer em cercas e em gasto,
Vi por caminhos tam maos
Tal trilha, tamanho rasto,
Nesta ora os olhos ergui
Á casa antiga e á torre
Dizendo comigo assi:
Se nos deus não val aqui.
Perigoso imigo corre!
Sá de Miranda recorda saudosamente, em sua carta, o bello periodo de
convivio doce e sereno que tivera com Antonio Pereira, convivio simples
e puro em que a conversa attrahente e erudita do respeitavel poeta que
viajara por Italia era apreciada como o merecia. Confronta bellamente
esse viver de provincia, á antiga, com o dos cortezãos sempre famelicos.
Os bons convites antigos,
Antes de se tudo alçar,
Erão pera conversar
Os parentes e os amigos,
Que não pera arrebentar.
Os mezes mais calmosos do anno, julho e agosto, passavam-o os dois em a
fonte da Barroca. A meza era frugal, a remir dias, placidamente, em
suave conversação.
Á vossa fonte tam fria
Da Barroca em julho e agosto
(Inda me é presente o gosto)
Quam bem que nos i sabia
Quanto na mesa era posto!
Ali não mordia a graça,
Erão iguais os juizes,
Não vinha nada da praça,
Ali da vossa cachaça,
Ali das vossas perdizes!
Ali das fruitas da terra,
(Que dá cada tempo a sua)
Colhida á mão cada [~u]a!
Nunca o sabor a vista erra,
Cheirosa, formosa, e nua.
Oh ceas do paraiso
Que nunca o tempo vos vença,
Sem fala da nossa ou riso,
Nem carregadas do siso,
Nem danadas da licença!
Os dois poetas liam, saboreavam e discutiam as melhores producções dos
poetas antigos e contemporaneos d'elles. Falavam de Ariosto, de Bembo,
de Sanazarro, de Laso e de Boscan, e Sá de Miranda apontava as bellezas
dos modelos que procurava introduzir, advogava colorosamente suas
innovações.
Des i, o gosto chamando
A outros môres sabores,
Liamos pelos amores
Do bravo e furioso Orlando,
E da Arcadia os bons pastores.
Se eu isto estimado agora
Vira como d'antes era,
Por meu conto avante fora,
Mas não diz ora com ora:
Vão se como ó fogo a cera!
Ou como se lê em uma outra variante de sua carta;
Liamos os Assolanos
De Bembo, engenho tam raro
Nestes derradeiros anos,
Os pastores italianos
Do bom velho Sanazaro.
Liamos ao brando Lasso
Com seu amigo Boscão
Que honrárão a sua nação
Ia me meu passo a passo
Aos nossos que aqui não vão,
Desejando pôr Antonio Pereira a coberto das tentações da côrte, Sá de
Miranda descreve-lhe o máo estar do paiz, aponta-lhe os perigos que
corre e condemna energicamente os desvarios de uma perdida nobreza. O
seu amigo, assim prevenido, decerto se acautelaria e prudentemente havia
de resistir ao refluxo da absorvente maré.
É entrada polos portos
No reino crara peçonha
Sem que remedio se ponha.
Ums doentes, outros mortos,
Outro polas ruas sonha.
Fez nos a ousada avareza
Vencer o vento e o mar,
Vencer caje a natureza.
Medo hei de novo a riqueza
Que nos torne a cativar.
Em torno de Sá de Miranda como que se fez um vacuo enorme após a partida
de seu inseparavel companheiro de estudos litterarios. Para bem avaliar
a grandeza daquella amizade bastará apontar o logar que o nome de
Antonio Pereira occupa em as poesias do cantor do Neiva. A elle
communicou as impressões de suas viagens em cartas infelizmente perdidas
e a elle dedicou as eclogas _Nemoroso_ e _Aleixo_. Ao irmão Nunalvarez
offereceu a sua esplendida _Basto_.
Então, tambem por 1536, parece ter Sá de Miranda passado a habitar a
Tapada, vasta e magnifica vivenda com quinta e bosque que demandava a
pequena distancia da Commenda. Esta transferencia de habitação tem sido
mal comprehendida por alguns escriptores, inclusivé pela ex.ma sr.ª D.
Carolina Michaëlis de Vasconcellos que acha de todos os casos muito
menos provavel que Sá de Miranda possuisse a Quinta da Tapada antes de
obter a mercê da Commenda e que D. João III escolhesse Duas Egrejas
exactamente como a mais proxima do retiro que o poeta havia preferido.
O anonymo biographo da _Vida_ affirma expressamente que Sá de Miranda,
_tendo-lhe el-Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as
duas Igrejas... recolheu-se a hua quinta que tambem tinha ahi perto
chamada a Tapada_. Indiscutivel, pois, que a quinta não fazia parte da
Commenda e ainda mais indiscutivel que o poeta a possuia antes e
independentemente de receber Duas Egrejas. Lá está o desconhecido
contemporaneo a attestal-o por uma forma cathegorica.
É, por isso, racional admittir-se que a quinta fosse propriedade do
poeta, talvez de familia, e tanto assim que continuou na posse dos seus
descendentes, ao passo que a Commenda já por 1607 havia passado a outras
mãos. Admissivel, tambem, que Sá de Miranda solicitasse a Commenda por
se encontrar situada proximo da Tapada que _já possuia_. Provavel,
finalmente, que a moradia em a Commenda tivesse em vista, apenas, dar
tempo a realisarem-se na casa da Tapada as adaptações necessarias para
receber o poeta. É de tudo o mais logico.
Sá de Miranda nem um unico momento afrouxou em sua actividade desde que
se retirou ao Minho. A ociosidade foi para elle sempre uma palavra vã.
O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela é sã,
Bem empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre lhe chamou irmã!
As obras dos poetas contemporaneos andavam em constante leitura. Ellas o
estimulavam a proseguir.
Co que li, co que escrevi,
Inda me não enfadei.
Depois, com a auctoridade de seu nome e de seu caracter, principiava a
ganhar adeptos sinceros. A sua musa é, então, vigorosa como nunca. A
acuidade do poeta desenvolve-se extraordinariamente.
Sá de Miranda acompanhava do Minho, com o mais vivo interesse, os
menores acontecimentos politicos. Preoccupava-o o destino do paiz e não
lhe era indifferente nem as prosperidades nem as desgraças que gosava ou
soffria a existencia dos homens que dirigiam os destinos da patria. Esta
parecia agora renascer brilhante como em os tempos aureos do venturoso
D. Manuel. O movimento litterario renovava-se fazendo esperar novos dias
de radiosa gloria. Na côrte, as boas lettras, a poesia, os estudos
classicos, patrocinados pela familia reinante, prosperavam. A
Universidade, reformada em 1537, passava a Coimbra, para que o bulicio
da capital não fosse estorvo ao estudo, e para a dirigir vinham do
estrangeiro professores dos mais illustres.
Sempre coherente de pensamento com as acções, esperançado em melhores
epocas, Sá de Miranda escreve as suas Cartas a el-rei D. João III e ao
seu velho amigo e parente João Rodrigues de Sá e Menezes. O patriota
emerito mostra n'ellas o mais profundo conhecimento do que se passava na
côrte e ataca com o seu costumado vigor as ambições dos aulicos. Em seu
dizer sentencioso, severo mas commedido, tenta accordar as consciencias,
arrancar a nobreza aos deleites de uma vida capuana e trazel-a ao
estricto cumprimento do dever.
Infelizmente, os appellos do poeta foram completamente perdidos e o
cataclysmo, que havia de afogar as consciencias em ondas de sangue,
vinha annunciado já pelas nuvens negras que appareciam da banda de
Italia. A 20 de setembro de 1539 realisava-se o primeiro auto da fé. As
chammas das sinistras fogueiras, elevando-se para o ceo com esgares
satanicos, eram como maldições que arrastavam Portugal até ao
anniquilamento de 1580.
A ecloga _Basto_ e as _Cartas_ a El-rei, a João Rodrigues de Sá e
Menezes e a Antonio Pereira, este esplendido grupo de poesias pertence,
em o parecer da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos,
parecer com que nos conformamos, ao curto espaço de tempo que mediou
entre a retirada da côrte e o casamento do poeta com D. Briolanja, em
1536.
Scintilla n'essas composições a quintilha, admiravel de vivacidade,
sublime de causticidade sentenciosa. Como muito bem considera a
illustrada escriptora, sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a
ecloga _Basto_ e as _Cartas_ representam o que ha de mais original e de
mais valioso entre todas as composições poeticas de Sá de Miranda. São
essas as que ainda hoje mais captivam as attenções. Lêm-se com agrado,
prendem o espirito pela sua graça e dominam pela forte convicção que
respiram.
O sr. Theophilo Braga estima, egualmente, as _Cartas_ de Sá de Miranda
como o que ha de melhor na poesia dos quinhentistas. E diz com razão que
a quintilha, em o verso de sete syllabas, popular, torna-se facil e tão
engenhosa que se presta a todas as descripções, a todos os dizeres e
locuções particulares da lingua, aos apophtegmas já metrificados pela
tradição. Como _satyras_, as _Cartas_ em nada desmerecem ás de Horacio
ou de Tolentino. De resto, Sá de Miranda era, sobretudo, um moralista e
a poesia prestava-se, principalmente na redondilha, para os dizeres
conceituosos.
Das _Cartas_ destaca-se, pela energia, pela hombridade e rectidão de
caracter com que se affirma o poeta, a dirigida a el-rei. Como
bellamente assignala a ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, não se
sabe que admirar mais n'ella, se a nobreza da linguagem, se a alma do
patriota, se o grande caracter do fidalgo, se a ironia aguda do
moralista. Antes deve admirar-se, essa carta, por todo esse conjuncto de
predicados raramente reunidos.
A _Carta a El-rei_ foi, por assim dizer, a despedida do poeta a D. João
III, o seu adeus á côrte. Sá de Miranda dirige-se ao monarcha como
vassallo leal, cuja confiança lhe permitte fallar com desassombro, não
como cortezão lisongeiro. Tem em vista expor a verdade, não a intriga. E
fal-o empregando uma fórma aphoristica e sentenciosa que mais impõe a
severidade de seu caracter.
Sá de Miranda relata ao rei o estado de degradação a que o paiz chegara,
aponta-lhe o servilismo enganador dos fidalgos que o rodeiam, indica-lhe
os perigos de que precisa defender-se e incita-o a uma acção energica
para limpar e purificar a corrupta sociedade que o cerca. A consciencia
do poeta, a sua grande amizade ao monarcha, o convencimento que lhe dá o
conhecer intimamente os males de que enferma a côrte, a auctoridade do
seu caracter, emfim, o sentimento do dever e um sentimento rigoroso e
inabalavel que, de resto, se nota em todas as suas poesias, leva-o a
nada encobrir ao rei. A carta a D. João III é filha de uma convicção
profunda, clara e persuasiva.
Não ha duvida que a humanidade de si esconde vicios. Mas a falsidade é o
peior mal e que mais irreparaveis damnos póde causar.
Onde ha homens, ha cobiça,
Ca e la tudo ela empeça,
Se a santa igual justiça
Não corta ou não desempeça
Quanto a malicia enliça.
Sá de Miranda experimentara os maiores desenganos n'essa côrte corrupta
e enganadora que repugnava ao seu caracter franco e leal e que o levara
a retirar-se para o Minho. Dando satisfação d'esse passo ou
antecipando-se a solicitações a que não desejava acceder, justifica-se
cabalmente de seu procedimento.
Quem graça ante o rei alcança
E i fala o que não deve,
(Mal grande da mâ privança!)
Peçonha na fonte lança
De que toda a terra bebe!
Quem joga onde engano vai,
Em vão corre e torna atras,
Em vão sobre a face cai.
Mal hajão as manhas màs
De que tanto dano sai!
Homem d'um sô parecer,
Dum sô rosto e d'[~u]a fe,
D'antes quebrar que volver,
Outra cousa pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de ca
Dos que inteiros vêm e vão
Nem se contrafazem la:
_Como este vem aldeão!
Que cortesão tornará._
A famelica côrte, astuciosa e matreira, ria-se da rudeza do _aldeão_.
Demais o sabia Sá de Miranda. Elle, porém, não se ri, mas com a sua
penna acerada fal-os sangrar e enraivecer. Anima-o a ser franco a
bondade com que, espera-o, el-rei se dignara acolhel-o.
Senhor, hei vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Craro o que posso alcançar:
El-rei estava rodeado de uma camarilha infame, mansos cordeiros
apparentemente, mas por dentro lobos robazes. Espinha de vime e falas de
assucar, lisongeiros emeritos, os cortezãos não curam de mais que dos
interesses proprios e, explorando torpemente a bondade do rei, pensam
unicamente em servir o seu vil egoismo.
Andão pera vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas hazes,
Os rostos de tintoreiros.
Falsas guerras! falsas pazes!
De fora mansos cordeiros,
De dentro lobos robazes!
Tudo seu remedio tem;
Que é assi, bem o sabeis,
E o remedio tambem.
Querei-los conhecer bem:
_No fruito os conhecereis._
Obras que palavras não!
Porem, senhor, somos muitos,
E entre tanta obrigação
Trasmalhamos nossos fruitos
Que não saibais cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, a mão esconde,
O dano longe, se estende.
Aquele a quem doi, se entende,
Com sôs sospiros responde.
A vida desaparece;
Entretanto geme e jaz
O que caiu! e acontece
Que d'um mal que se lhe faz,
Môr despois se lhe recrece.
Pena e galardão igual
O mundo em peso sostem.
É [~u]a regra geral
Que a pena se deve ao mal,
O galardão ao bem.
Se alg[~u]a ora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que d'esta lei se torceu,
Faz se engano ás leis da terra,
Nunca se faz ás do ceo.