da escola classico-italiana em Portugal. Visitando a Italia, quando esta
peninsula attingia o maximo de sua elevação intellectual, preso de um
santo enthusiasmo, dedicou-se com alma a reformar a nossa poetica
segundo os modelos que lá fóra vira tão apreciados. Não quiz classisar a
litteratura patria exclusivamente, mas levantar a poesia de sua
decadencia por meio dos modelos italianos que estudara. Com justiça,
pois, o nome de Sá de Miranda abre um novo periodo na historia
litteraria portugueza, que com Ferreira e Camões se ergue ás maiores
alturas.
Para as imperfeições metricas e rhythmicas de Sá de Miranda, perdoaveis
em quem, como elle, tinha a luctar com as difficuldades da amoldação e
com as rudezas de uma lingua ainda não desbravada de todo, já a _Vida_,
verdadeiro espelho do pensamento dos seus contemporaneos, teve a
attenuante de que foi elle o primeiro _que compos versos grandes neste
Reyno, bastante desculpa das miudezas que se tachão em alguns seus desta
medida pera aquelles homens, ao menos que attendendo ao que se diz, não
curão muito do modo_. A _Vida_ considera os defeitos do poeta como
_accidentes de nenhuma importancia_, attendendo a que elle _não somente
foy inculpavel na gravidade das sentenças, na agudeza dos conceitos, na
propriedade dos termos, na moralidade das figuras, na imitação dos
Poetas, na observação das regras, senão inimitavel tambem na pureza com
que fallou em materias amorosas_.
É pouco de estranhar que Sá de Miranda não tivesse em suas obras a
inspiração de Camões, porque devia luctar com grandes difficuldades para
amoldar o portuguez duro e rude dos heróes da Africa e da India ao
espirito philosophico das suas idêas e á harmonia das novas formas
poeticas que pretendia introduzir em Portugal. D'ahi a sua inferioridade
manifesta e incontestavel na parte em que mais se inclina para os
modelos da escola classico-italiana, inferioridade que ainda mais põe em
relevo o brilhantismo das suas redondilhas tão nacionaes.
Innovador convicto, preoccupava-se com a imitação dos modelos
estrangeiros que o deslumbravam e aos quaes desejava egualar, senão
exceder. Estudava constantemente procurando seguir com o maior rigor as
regras da arte. Fel-o tão a contento dos partidarios de sua escola, que
a _Vida_ chega a sustentar que _os que attentamente o passarem não lhes
ficará necessidade de lêr em as Poeticas de Aristoteles e Horacio, que
elle, parece, não largaria da mão_.
O poeta, em sua sêde de perfeição, não se dava nunca por satisfeito com
a sua obra. Continuamente refundia os seus trabalhos, cortava aqui,
accrescentava além e, pode se dizer, morreu sem deixar uma forma
definitiva de sua enorme producção poetica. A grande quantidade de
variantes tem sido a maior difficuldade para as edições de suas obras.
Sá de Miranda desejava hombrear com os extraordinarios talentos que
admirara em Italia e cujos livros eram os seus ocios de todos os dias.
Sentia-se fraco de forças e não se cançava em procurar aperfeiçoar-se. O
proprio poeta o confessa lealmente em o soneto com que fez acompanhar a
remessa do seu terceiro manuscripto de versos ao principe D. João, filho
de D. João III, espirito culto prematuramente apagado.
Tardei, e cuido que me julgão mal,
Que emendo muito e que emendando, dano.
Senhor, que hei grande medo ao desengano,
D'este amor que a nos temos desigual.
Todos a tudo o seu logo achão sal:
Eu risco e risco, vou me de ano em ano.
E este mal contido suspiro pela sua impotencia:
Ando cos meus papeis em diferenças!
_São perceitos de Horacio_, me dirão.
Não posso em al, sigo o em aparenças.
A sinceridade de Sá de Miranda é a melhor justificação das imperfeições
que se lhe possam notar.
Ao voltar a Portugal, Sá de Miranda observou com profundo desgosto a
completa transformação que se operava na côrte. Os symptomas da
decadencia moral da fidalguia tornavam-se evidentes, salientavam já como
manchas negras. Dominada pela febre do ouro que se fizera contagiosa, a
nobreza esquecia o proverbial cavalheirismo e atirava-se desatinamente á
mercancia para obter a todo o preço dinheiro e muito dinheiro.
A sede do ouro e dos prazeres, sede desenfreada e que nada saciava,
substituira a elevação culta dos serões do tempo de D. Manuel. Quão
mudados andavam os tempos! Da poesia já poucos queriam saber. E o mal
augmentava em um resvalar pavoroso que ia trazer a Inquisição e levar
até á infamissima cobardia que entregou Portugal a Castella.
Posteriormente, já em o retiro a que resolvera recolher-se, em carta
dirigida ao seu amigo Antonio Pereira, Sá de Miranda descreve
admiravelmente a situação deploravel em que caira o paiz. As causas são
bem apontadas e a comparação com as eras passadas não pode ser mais bem
feita.
Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo me de Lisboa,
Que o cheiro d'esta canela
O reino nos despovoa,
E que algum embique ou caia!
O longe va, mao agouro
Falar por aquela praia
Na riqueza de Cambaia,
Narsinga das torres de ouro.
Ouves, Viriato, o estrago
Que ca vai dos teus custumes:
Os leitos, mesas, os lumes,
Tudo cheira: eu olios trago,
Vêm outros, trazem perfumes.
E aos bons trajos de pastores
Em que saístes ás pelejas
Vencendo tais vencedores,
São trocados os louvores,
São mudadas as envejas!
É entrada polos portos
No reino crara peçonha
Sem que remedio se ponha.
Ums doentes, outros mortos,
Outro polas ruas sonha.
Fez nos a ousada avareza
Vencer o vento e o mar,
Vencer caje a natureza.
Medo hei de novo a riqueza
Que nos torne a cativar,
Sá de Miranda, que já se sentira aturdido com a desenvoltura, a
dissolução dos costumes que presenciara em Italia, ficou apavorado ao
conhecer o avassalador mercantilismo da côrte portugueza. Com que
energia a invectiva depois:
Escravos mais que os escravos,
Por rezão e por justiça
Deixai-vos dos vossos gabos,
Que vos vendeu a cobiça
A mar bravo e a ventos bravos!
Homem recto, consciencia impolluta, Sá de Miranda não se poude ter que
se não retirasse logo para Coimbra, a sua querida, a sua adorada terra
natal. Mas, quando fugia á côrte, esta, escorraçada pelos horrores da
peste, que fazia de Lisboa um horrivel cemiterio, seguia-o ahi, a
acolher-se temporariamente á hospitaleira cidade.
Sá de Miranda possuia em Coimbra, ou em seus arredores, alguma
propriedade situada junto ao Mondego e com a vista sobre a serra,
certamente deixa de seus paes. É o que se tira de seus proprios versos,
No lugar onde me vistes
De agua e do monte cercado
N'essa propriedade, pensaria o poeta encontrar um refugio contra as
tentações com que ainda o poderia seduzir a côrte. Ahi contaria, com
effeito, mais dias
De ledos que não de tristes.
A ida de D. João III a Coimbra constituiu verdadeiramente uma simples
visita. De todas as supposiçoes que se tem feito ácerca da saída do
monarcha de Lisboa, por causa da peste, a mais verosimil é que essa
epidemia deu logar a pequenas excursões. A estada da côrte, em 1527, em
a Athenas portugueza foi tão rapida, que el-rei passou o Natal em
Lisboa, encontrava-se a 15 de fevereiro de 1528 em Almeirim e achava-se
de volta a Lisboa de fevereiro a junho de 1530.
Sá de Miranda, que estava em suas terras nas margens do Mondego, ao
saber da viagem do seu excellente amigo o monarcha e da joven rainha,
que pela primeira vez ia a Coimbra, correu á cidade a recebel-os, a
promover festas em sua honra e elle proprio pronunciou o discurso de
recepção dos regios personagens. E, com vontade ou sem ella,
restabeleceu, então, as suas relações com a côrte. Consolou-se, talvez,
por ver que se lhe offerecia occasião de iniciar a propaganda a favor
das idêas e formas poeticas que trouxera de Italia, de as defender
calorosamente e de mostrar as bellezas dos seus grandes vultos
litterarios, Sanazarro, Dante, Petrarcha, Ariosto, Bembo e Dante, cujas
obras possuia.
Certamente, a conversação com Sá de Miranda devia ser procurada pelos
fidalgos mais illustrados que faziam parte do sequito do rei. A
consideração que gozava pelo respeito que infundia a sua rectidão de
caracter, a longa viagem feita pelo estrangeiro e de onde ainda ha pouco
regressara, o muito que devia ter visto e aprendido durante sua
excursão, tornavam-o, sem duvida, reclamado em a côrte. O poeta
aproveitou este seu predominio para pugnar pelo triumpho dos grandes
mestres de Italia, estimulando a curiosidade dos espiritos mais
illustrados e intelligentes, patenteando-lhes as perfeições litterarias
dos seus trabalhos, emfim, preparando-os para bem receber as suas
projectadas obras. Ao mesmo tempo, ia desassombradamente atacando com
vigor as producções dos escriptores nacionaes, apontando e condemnando
os defeitos que lhes encontrava.
Não foram baldados os esforços de Sá de Miranda. A côrte teve que se
render ante o seu talento e a sua erudição. Como diz a _Vida_, _co as
colidades de sua pessoa e boas partes que nelle concorrião, sem outra
alguma ajuda das que costumão levantar ainda os indignos, se fez
tamanho lugar, que foy sem controversia, senão o mayor hum dos mais
estimados cortesãos de seu tempo, concorrendo cos milhores que este
Reyno teve por ventura, e isto não só dos companheiros, mas del Rey e
dos Principes, e o que he mais dos vallidos com quem ordinariamente nam
adiantão os amigos de antes quebrar, que torcer (como elle diz) tomando
em desprezo proprio a estimaçam alhea e sentindo como injurias
particulares a detestaçam que os judiciosos e discursivos fazem dos
vicios em geral_. Com effeito, Sá de Miranda atou e sustentou relações
de estreita amizade com alguns dos mais nobres fidalgos, como D. Luiz da
Silveira, D. Manuel de Portugal, Pero Carvalho e outros.
Sá de Miranda não se limitou, porém, a propugnar pela divulgarisação dos
modelos classicos. Foi mais além e começou a atacar com energia os
vicios do tempo, a corrupção que alastrava sem dique. A renovação de seu
trato com a côrte permittiu-lhe estudar a fundo os novos costumes dos
principes e dos aulicos e analysal-os com olhos de ver para melhor lhes
applicar o ferro candente.
Em Coimbra, os cortezãos, e a cohorte de parasitas que os seguira até
ali, foram de uma insaciedade fora de commum. A nobreza da cidade
exhauriu-se até de recursos para proporcionar uma vida regalada aos
exigentes fidalgos, mas nada os contentou. Acostumados ás montarias
aventurosas da graciosa Almeirim e á vida regalada da farta Santarem,
não cessaram de clamar contra a existencia atribulada e parca que
levavam na soturna cidade. Sentiram-se bem quando a deixaram, voltando
para o sul do paiz.
Sá de Miranda, que fôra dos que promoveram a mór parte das festas em
honra dos famelicos cortezãos de seu amigo D. João III, conteve a custo
a indignação. Mas, quando a côrte d'ali retirou, a sua ira rompeu
caustica como um ferro em brasa. Dirigiu, então, a Pero Carvalho, guarda
roupa do rei, essa famosa carta, coriscante diatribe que foi ferir
certeiramente os alvejados.
N'essa carta, o poeta começa por exprobrar a maledicencia da fidalguia e
lançar-lhe em rosto a sua ingratidão para com uma cidade que toda se
esmerara em bem recebel-os. Fal-o, não por um exclusivo sentimento de
amor á terra natal, mas por um acto de justiça, homenagem á verdade.
Que tenção todos tomastes
Á terra que me criou
De que tanto praguejastes?
Por que? Que vos acoutou
Da peste com que i chegastes.
Fostes mal agasalhados?
Não, certo, que té as fazendas,
Vos davão parvos honrados.
Pois, por que? Porque os privados
Tinheis longe vossas rendas?
O que eu por parcialidade
Nem outros respeitos digo:
Da antiga e nobre cidade
Som natural, som amigo,
Som porém mais da verdade.
Após a retirada dos famelicos, a cidade sente-se aliviada de um grande
peso. O proprio poeta viu-se desafrontado.
Como vos partistes de i,
Logo abrigados achei
Em que me desencolhi.
Seguramente dormi,
Seguramente velei.
Para envergonhar os cortezãos ingratos que lhe preferiam a
insignificante Almeirim, põe em relevo a honra de Coimbra possuir o
corpo de D. Affonso Henriques.
Cidade rica do santo
Corpo do seu rei primeiro
Que ainda vimos com espanto,
Ha tam pouco, todo inteiro
Dos anos que podem tanto.
E diz-lhe que aquella cidade é tradicionalmente a mais nobre e leal.
Outro rei, tanto sem mal
Que lhe empeceu a bondade,
O quarto de Portugal,
Qual teve ele outra cidade
Tam constante e tam leal?
A nobreza ociosa e interesseira.
Homens que sempre aos proveitos
E a vosso interesse andais,
Vestidos de falsos peitos,
Quam pouco que nos lembrais
Dos sãos, dos comuns respeitos.
Pôr esta causa se ve
Diferença nos conselhos
E chega inda o mal até
Desacreditar nos velhos
A sã prudencia e a fe.
A côrte é magnificamente pintada.
Essa Circes feiticeira
Da corte tudo trasanda;
Um faz [~u]a onça ligeira,
Outro faz lobo que manda,
Outro cão que a caça cheira.
Cantão ó passar sereas
Que fazem adormecer.
Correndo todas as veas
De sono e tal sabor cheas,
Não se pode homem erguer.
A ociosidade nociva a que se entregava a fidalguia recebe uma
condemnação severa. Sá de Miranda, para revestir da maior auctoridade as
suas palavras, poe-a em confronto com a sua vida toda de trabalho e de
estudo.
O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela é sã,
Bem empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre lhe chamou irmã!
Dou vos Enio por autor:
_Quem não sabe usar do ocio
Cansa e anda d'arredor,
Que vem a têr mais negocio
Que um grande negociador._
Que ó menos sabe apos que anda,
Estoutro a si não se entende,
Quanto anda, tanto desanda,
Não se obedece nem manda,
Ora se apaga, ora acende.
Ve-lo ir, ve-lo tornar,
Ve-lo cansar e gemer
E em busca de si andar,
Cobrar a cor e perder.
Que se não pode topar!
Mas eu, porque passa assi,
Que seja muito, direi:
Dias ha que me escondi,
Co que li, co que escrevi,
Inda me não enfadei.
Satyra directa e violenta, a carta a Pero Carvalho provocou uma surda
irritação de despeito, mal contida pelo temor do valimento do poeta
junto do monarcha. Os fidalgos attingidos não poderam tirar
immediatamente o desforço, tiveram que ouvir e calar, mas, d'ahi em
diante, poude Sá de Miranda contar com alguns inimigos que deviam
aguardar com anciedade o momento da vingança.
O unico passatempo da côrte era, então, as diversões scenicas, os autos
ou comedias representadas perante a nobreza. Gil Vicente, emquanto a
côrte esteve em Coimbra, ia ahi propositadamente, de Santarem, onde
habitualmente residia, segundo se infere de suas producções, divertil-a
com suas farças. Com esse fim compoz a _Comedia sobre a Divisa da Cidade
de Coimbra_, a _Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella_, a _Farça
dos Almocreves_ e o _Dialogo sobre a Resurreição_.
Talento dramatico genial mas inculto, viva encarnação do espirito
popular, satyrico e motejador, Gil Vicente arremettia audaciosamente com
todos e com tudo, não respeitando sequer as coisas divinas. Seus autos e
farças eram um tanto grotescas, por vezes excessivamente livres, algumas
extraordinariamente louvaminheiras dos cortezãos. O dialogo não era dos
mais apurados nem a acção muito cuidada.
Sá de Miranda, que assistira, em a scena italiana, a representações de
comedias classicas em prosa, originaes, com um fino dialogo, limadas de
allusões facêtas, acção escolhida, não poupava censuras nem criticas
aceradas ás producções de Gil Vicente. Sobretudo, condemnava asperamente
a liberdade com que o creador do theatro nacional tirava das sagradas
escripturas os elementos de todos os seus autos hieraticos. Catholico
fervente, não lhe perdoava que tratasse coisas serias em estylo
chocareiro, zombeteando escandalosamente de quanto lhe era respeitavel.
E, para mais pôr em evidencia a elevação da comedia classica em prosa,
para estabelecer o confronto de esta com o theatro nacional, compoz e
apresentou _Os Estrangeiros_, em a opinião da ex.ma sr.ª D. Carolina
Michaëlis de Vasconcellos a primeira comedia classica portugueza em
prosa, sendo-lhe posterior a _Eufrosina_ de Jorge Ferreira de
Vasconcellos. Foi acolhida com interesse.
Houve quem applaudisse enthusiasticamente _Os Estrangeiros_ por seu
estylo _sentencioso, muy limado e novo_, que _a tudo excedia em
brevidade, grandeza e decoro e que guardava as regras da arte com summa
perfeição_. Os partidarios do theatro nacional, envolvidos por Sá de
Miranda nos gracejos do Prologo, sentiram-se attingidos e receberam a
novidade com zombarias. A lucta contra a innovação, acirrada de certo
pelos inimigos de um e outro poeta, parece ter se tornado porfiada,
d'ahi em diante.
Das relações pessoaes entre Sá de Miranda e Gil Vicente, o mais fiel
representante da tradição nacional, não se pode, em verdade, mais fazer
que conjecturas. É provavel que Sá de Miranda não tivesse Gil Vicente em
grande consideração pela liberdade com que usava e abusava dos livros
sagrados, facto que o magoava a elle que, embora não fosse fanatico nem
exaltado, era, todavia, sincero e respeitador. Não se encontra, porém,
em suas composições poeticas, uma unica allusão directa, incisiva, sobre
o emerito auctor da _Ignez Pereira_.
Qual o proceder de Gil Vicente para com o acerrimo propugnador dos
modelos classicos? O sr. Theophilo Braga vê, no final da _Comedia sobre
a Divisa da Cidade de Coimbra_, em o elogio dos Menezes, um acto de
louvor a Sá de Miranda, descendente de aquella familia, por parte de seu
antepassado João Rodrigues de Sá de Menezes. Por seu lado, o grande
romancista Camillo Castello Branco viu em a farça _Clerigo da Beira_ uma
satyra a Sá de Miranda, pessoal de mais para se considerar mera
casualidade.
Em a alludida farça, Gil Vicente refere-se a um filho de clerigo, de
nome Francisco, de más manhas e peor lingua, com costella de lavrador e
pretensões de cortezão. O proprio pae, parece que com pleno conhecimento
de causa, lhe diz:
Filho de clerigo és,
Nunca bom feito farás.
Frei Mendo não anda muito de accordo com o filho, é um continuo
conflicto entre os dois. O clerigo, menoscabando as qualidades d'elle,
invectiva-o:
Medraria este rapaz
Na côrte mais que ninguem,
Porque lá não fazem bem
Senão a quem menos faz
Outras manchas tem assaz,
Cada uma muito bôa:
Nunca diz bem de pessoa,
Nem verdade nunca a traz.
Mexerica que por nada
Revolverá San Francisco
Que para a côrte é um visco,
Que caça toda a manada.
Realmente, esta allusão aos filhos de frei Mendo, sendo o pae de Sá de
Miranda o conego Gonçalo Mendes, parece tencional. A farça, porém, foi
representada em 1520, em Almeirim, e não se sabe como conciliar essa
data com a do regresso do poeta de sua viagem á Italia. Ou será
necessario admittir-se que, em fins d'esse anno, elle estaria de volta a
Portugal e já gosava o favor da côrte? Pode ser.
Em tal caso, comtudo, essa allusão viria mais da popularidade de Sá de
Miranda, de sua presumpção pelo muito que vira e ouvira no estrangeiro e
não seria resultante de suas tentativas de innovador, embora logo após o
seu regresso houvesse começado a atacar os defeitos que encontrava em as
obras portuguezas. Seria mesmo uma satyra impessoal, caracteristica de
uma entidade do tempo. Quantos conegos Mendes haveria então? como hoje
Marias e Manueis.
Indubitavelmente, as innovações de Sá de Miranda deviam encontrar
opposição e as suas obras detractores. Sim, que o poeta era um
severissimo censor, um caracter immaculado. Sá de Miranda não recuou e a
breve trecho lançou um novo desafio á escola do theatro tradicional
portuguez com a bella _Fabula do Mondego_, em forma de _canção_ e que,
ao que resulta de algumas de suas passagens, foi representada em a côrte
na estação calmosa, em um certo e determinado dia festivo, talvez o
anniversario de el-rei, 6 de junho. A seguir, appareceu a ecloga
_Aleixo_ e varios sonetos que mais vieram augmentar a reputação de Sá de
Miranda e, tambem, os seus rivaes.
A ecloga _Aleixo!_ Foi a melhor arma que Sá de Miranda poude collocar em
as mãos de seus inimigos.
De varias formas tem sido explicado o abandono definitivo da côrte por
Sá de Miranda, entre 1533 a 1534, para se retirar á Commenda das Duas
Egrejas. As causas d'esse exilio voluntario, a par de forçado, foram,
decerto, complexas e multiplas, ao que se pode ler em as entrelinhas de
suas poesias e nas do seu anonymo biographo, muito prudente para com uma
allusão directa fazer reviver rancores mal apagados.
A _Vida_ dá como motivo immediato da saida de Sá de Miranda da côrte o
odio de _hua pessoa muito poderosa d'aquella era em desprazer de quem se
interpretava mal polla mesma enveja hum lugar de sua Egloga de Aleyxo_.
Temos por tão auctorisada a _Vida_, que não ousamos duvidar da
veracidade de sua noticia, além de que a interpretação da ecloga Aleixo,
como perfeitamente o provou a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de
Vasconcellos, explica cabalmente o obscuro successo. Porém, nem todos os
escriptores têm interpretado o caso como vem evidenciado em a _Vida_.
Indo de encontro á cathegorica affirmativa do desconhecido biographo, o
sr. Theophilo Braga quer que tenha sido a ecloga _Andrés_ e não
_Aleyxo_, a causadora immediata da intriga que provocou o exilio de Sá
de Miranda. Ora, exactamente essa ecloga foi escripta quando já o poeta
se encontrava em a Tapada, após o seu casamento e annos depois da morte
de todos os que se podiam offender com as allusões n'ella contidas,
allusões que Sá de Miranda dava, de resto, como uma simples recordação
de annos passados. Não podem, pois, as referencias ao caso escandaloso
do casamento do infante D. Fernando, que arrancára D. Guiomar Coutinho
ao marquez de Torres, com quem secretamente se desposara, para casar com
ella, ter concorrido em cousa alguma para que Sá de Miranda se visse
compellido a abandonar a côrte.
Tão pouco satisfaz o espirito ou resolve o problema, a hypothese
avançada por Camillo Castello Branco. O facto de seus primos e amigos, a
par de companheiros de infancia, Simão de Miranda Henriques e Gonçalo de
Miranda da Silva, haverem sido iniquamente esbulhados dos seus haveres,
devia, certamente, feril-o profundamente em seu coração, indispôr ainda
mais seu animo contra a torpe fidalguia, azedar o seu caracter, mas não
impôr a sua saida da côrte.
O erudito escriptor Manuel Pinheiro Chagas attribuiu exclusivamente o
rompimento definitivo de Sá de Miranda com a côrte ao seu amor ao
retiro, inclinação propria do temperamento melancolico e um pouco
misanthropo do poeta, aggravado pela morte de uma mulher que amara
profundamente e que apenas seria conhecida pelo pseudonymo pastoril de
Celia. Parece demasiado accesso de romanticismo quando este ainda não
estava em voga.
Não foi nenhuma d'estas circumstancias isolada, mas sim todas juntas a
causa do exilio de Sá de Miranda. Os successivos escandalos da côrte,
que se multiplicavam prodigiosamente, o constante accrescendo da
attitude aggressiva de seus inimigos, cujos desvarios não poupava, o
convencimento de que, por então, não podia levar por diante o seu ideal
de reforma litteraria e de engrandecimento da poesia portugueza, haviam
chocado muito o animo forte e persistente de Sá de Miranda. O espirito
do poeta, de si propenso para a solidão, foi-se aggravando.
Haviam terminado os bons tempos. Emquanto os chronistas, attentando
unicamente em o brilho das exterioridades, continuavam a entoar hymnos
ao engrandecimento do paiz, Sá de Miranda profundava em todo o seu
horror a enorme decadencia moral, analysava a corrupção que tão
intensamente lavrava e divisava em o sombrio horisonte os pavores de um
futuro de aniquilamento. Ninguém quiz ouvil-o. Desilludiu-se e pouco a
pouco foi radicando-se em sua mente a idêa de abandonar para sempre a
vida turbulenta e miseravel da côrte, tanto que começou a solicitar de
seu amigo D. João III a commenda das Duas Egrejas.
Deu-se, então, o successo da ecloga Aleixo. Veiu elle epilogar o
conflicto travado em a consciencia do poeta.
A antiga amizade de Sá de Miranda por Bernardim Ribeiro mantivera-se,
senão avigorara, atravez das vicissitudes de um e outro poeta. Em a
ecloga _Aleixo_, ao que parece composta e representada por 1530, Sá de
Miranda referiu-se ao desterro de seu amigo, defendendo-o com palavras
dedicadas.
_Juan_
No sé como no llorava.
Sabes porque sospirava?
Porque aqui canto Ribero,
Aqui nuestro amo escuchava,
Rodeavan lo pastores,
Colgados de la su boca
Cantando el los sus amores.
Gente de firmeza poca
Que le dió tantos loores,
I aora ge los apoca!
_Anton_